Mateus 21.1-11
Série expositiva no Evangelho de Mateus • Sermon • Submitted
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· 15 viewsO autor expando e evoca a imagem de Cristo como rei davídico, comprovando o messiado de Jesus, e consolando a igreja a fim de assim vê-lo.
Notes
Transcript
“[...] Porque é chegado o Reino dos céus” (Mateus 3.2).
Pr. Paulo U. Rodrigues
Introdução
Prosseguindo no afunilamento temático feito por meio dos constantes avisos com relação a aproximação da paixão (cf. 16.21-23; 17.22-23; 20.17-19), e, consequentemente, do momento da inauguração do Reino de Deus (i.e. a crucificação, morte e ressurreição), Mateus apresenta o momento da entrada de Cristo em Jerusalém.
À luz desse evento, o autor, tal como na primeira seção (i.e. caps 1 à 4), demonstra que Jesus Cristo de fato é o messias prometido, e assim, tanto a paixão quanto a ênfase comprobatória da identidade messiânica (de acordo com as narrativas antecedentes, tal como é o caso do texto em questão) estarão jungidas à percepção que o redator deseja também tornar comum ao seu público-alvo.
Agora, após a demonstração do duplo papel de Cristo como o Rei Sofredor (uma síntese das duas visões veterotestamentárias quanto a identidade messiânica) composta pela narrativa em que o próprio Senhor afirma que "veio para servir" (cf. 20,28), somada à cura dos cegos que o reconheceram como o Filho de Davi, Mateus expande e complementa essa perspectiva por meio da interpretação dos eventos agora narrados, com base na construção narrativa da cena em que Cristo adentra a cidade de Davi, aclamado pelas multidões como o herdeiro do Trono de Deus.
Em face disso, a síntese temática do texto de Mateus 21.1-11 é a contemplação Cristo como o rei davídico como fonte da esperança salvadora do povo de Deus.
Elucidação
A entrada de Cristo em Jerusalém, como dito, demarca os momentos finais das narrativas evangélicas (e.g. Mateus, Marcos, Lucas e João). Com isso em mente, Mateus afunila esses últimos momentos, concentrando esforços em fazer com que seus leitores vejam a simultaneidade entre a paixão de Cristo e o estabelecimento do Reino, e essa ênfase serve como fonte de consolo e exortações que o autor tem dirigido ao seu público.
O texto em destaque possui duas cenas que se complementam, transcorrendo uma após a outra: nos versículos 1 à 7 é comentado a preparação do Senhor para sua entrada na cidade de Davi, e conectado à esse momento, uma profecia é referenciada pelo escritor, como evidência de que o que está ocorrendo é de fato um evento redentivo. Em seguida, a entrada propriamente dita é narrada, e Cristo também (cf. vs. 29-31) é chamado de o Filho de Davi.
Em ambas as cenas, dois pontos fundamentam a compreensão do evangelista: uma profecia, e a aclamação da multidão, sintetizada pelo redator numa expressão retirada do Salmo 118.25-26, completando a imagem messiânica de Jesus.
A chegada do Senhor sobre um jumentinho é vista a partir da profecia de Zacarias 9.9. Assim como nas outras vezes que citou textos do AT, identificando seu cumprimento em Cristo Jesus em determinados momentos de sua trajetória, o mesmo ocorre agora com o texto de Zacarias, cujo o cumprimento é identificado ao ter Cristo solicitado como montaria, um jumento nunca antes montado (cf. Lc 19.30).
O contexto da profecia veterotestamentária é o do anúncio da vingança do SENHOR contra os povos, livrando seu povo da opressão infringida por estes sob Israel:
Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta.
A descrição do oráculo profético é iniciada pelo anúncio de sentença: "A sentença pronunciada pelo SENHOR é contra a terra de Hadraque e repousa sobre Damasco" (Zc 9.1). Muitas outra nações além dessas são referenciadas e vistas como inimigas, todas elas recebendo a devida paga por terem se voltado contra Israel e Judá.
Agora, ao ver Cristo assentado sobre o jumentinho, Mateus logo interpreta as profecias como tendo sido cumpridas pelo Senhor: aquele que promoverá a salvação de todo o seu povo, livrando-o da opressão do pecado, e trazendo-lhes a libertação. Diante disso, a cena é cortada, e o narrador volta-se ao momento da entrada do Messias propriamente dita.
O reconhecimento dessa dimensão salvífica ou redentiva da entrada de Cristo em Jerusalém, é reforçado agora através da aclamação dele como Rei:
E as multidões, tanto as que o precediam como as que o seguiam, clamavam: Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!
Nesse momento, Mateus concentra-se em narrar a percepção das multidões quanto a quem é aquele que agora está adentrando a cidade de Davi. Ao estenderem suas vestes pelo caminho (cf. v.7), os expectadores estariam replicando a atitude dos discípulos que colocaram seus mantos sobre o jumento para que Cristo montasse, e também demonstravam submissão àquele que estaria "sobre seus mantos", ou no caso, sobre o povo, como seu rei. Uma atitude semelhante pode ser vista na aclamação de Jeú como rei, conforme registrado em 2Rs 9.13. Ligado a isso, o narrador onisciente, em consonância à perspectiva fornecida pela profecia que vê em Cristo a salvação prometida pelo SENHOR, clama: "Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!" (Mt 21.9).
O louvor dirigido pelo povo ao Senhor, é sintetizado por Mateus na expressão hebraica "הֹושִׁ֘יעָ֥ה נָּ֑א" (transl. "rôshia nah" , trad. "Oh, salva-nos!") extraída do salmo 118.25, ecoando até o verso seguinte (i.e. 26), sendo também parte do louvor do povo: "Bendito o que vem em nome do SENHOR. A vós outros da Casa do SENHOR, nós vos abençoamos" (Sl 118.26).
Todo o salmo é um cântico que louva a graça do Senhor e sua misericórdia em salvar seu povo, atendendo ao seu clamor. O registro evangélico de Mateus com relação a esse texto, demonstra a compreensão do povo ao reconhecer em Cristo a sua salvação. Noutras palavras, a visão messiânica de Cristo é comum tanto a Mateus, que descreve a cena, quanto ao povo, que saudando a Jesus dessa forma, vê nele o cumprimento redentivo dos planos do Senhor, tal como descritos no AT.
Como não bastasse essas evidências, o escritor realça a percepção elaborada até este ponto, quando descreve o diálogo entre os que vislumbram a entrada do Rei em sua cidade:
E, entrando ele em Jerusalém, toda a cidade se alvoroçou, e perguntavam: Quem é este? E as multidões clamavam: Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia!
A peculiaridade da identificação feita pela multidão em relação a Cristo nesse caso, também alude à sua posição como Messias, pois ao registrar a resposta dada no diálogo em que se pergunta “quem é este?” (v.11), o artigo caracteriza o Senhor não como “um profeta”, mas como “o profeta” (cf. gr. “ὁ προφήτης Ἰησοῦς” trad. lit. - “o profeta Jesus”) o que soma à perspectiva de que ele é aquele que foi profetizado anteriormente.
Transição
Mediante uma observação mais próxima do texto, nota-se uma construção pictórica de Cristo: a realeza davídica indica fidelidade divina em cumprir a aliança que beneficia o povo de Deus com a redenção.
A aclamação do povo é também propositalmente referenciada, a fim de que o teor pastoral do autor evidencie-se: é dessa forma que a igreja de Deus deve enxergar o messias. Embora a sombra da cruz se agigante no horizonte, ela revela não a derrota ou fracasso dos planos redentores do Deus Triuno, e sim, sua vitória completa e publicação de seu Reino, através do Messias: Jesus Cristo.
Assim, o texto de Mateus 21.1-11, direciona à igreja de Deus a seguinte consideração:
Aplicação
A contemplação de Cristo como Rei, é a fonte da esperança redentiva do povo de Deus, na concretização da salvação prometida pelo SENHOR.
William Hendriksen usa as seguintes palavras para descrever a figura real exibida por Mateus:
Esse Rei não é o cumprimento de sonhos humanos, mas de uma profecia messiânica: Ele é tanto grande quanto humilde; exaltado e simples. Ele é aquele que, nesse mesmo ato, está marchando […] para sua morte, e portanto para a vitória, vitória esta não só para si mesmo, mas também para seu verdadeiro povo, os que creem nele (HENDRIKSEN, 2010, p.318).
O esforço do evangelista em demonstrar ao seu público a mesma imagem que a multidão contemplou, alcança-nos como mesmo objetivo: as multidões viram Cristo, e perceberam que ali estava sua salvação, tal como profetizado no AT. A igreja, que leu o relato do evangelho, foi consolada pelo Espírito, a fim de que suas esperanças na salvação fossem renovadas, mesmo experimentando profunda perseguição. Os efeitos da mensagem evangélica de Cristo como o rei salvador, agora são direcionados àqueles que o aguardam entrar no mundo o qual restaurará, e de onde publicará sua glória.
Nesse mundo, embora estejamos já livres da condenação do pecado, sofremos com a opressão de sua presença. A maldade dos homens, o gemido da criação que hostiliza a natureza pecaminosa que temos, e por isso, entra em colapso causando catástrofes, todas essas coisas podem nos colocar numa situação como a de Israel no passado, que viu-se amedrontado e ameaçado por outras nações que lhe eram inimigas.
Porém, tal como a profecia de Zacarias, seu cumprimento registrado por Mateus no texto em foco, nos concede a esperança de que, no momento final, o Filho de Davi, entrará em sua cidade. Porém, uma grande diferença separa os dois momentos: em Mateus 21.1-11, Cristo entrava em Jerusalém para ser crucificado e morto. Tendo ressuscitado, agora, quando ele voltar a esse mundo, montado num cavalo branco, ele se assentará em seu trono, donde publicará sua glória e salvará sua igreja.
Conclusão
Mateus 21.1-11 é o quadro para o qual toda a igreja de Deus olha, a fim de que a expectativa de que um dia contemplemos o que hoje lemos cresça em nossos corações. O dia em que seremos nós a dizer: “hosana ao Filho de Davi. Bendito o que vem em nome do SENHOR!”.
