Chayê Sará

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חֶֽסֶד וְשָׁל֣וֹם
25/cheshvan/5783 - 19/nov/2022. Parashat nº 5, Chayê Sará, Bereshit 23:1-25:18.
Esta parashat trata da morte e sepultamento de Sara (23:1-20), depois da preocupação de Abraão em encontrar uma esposa para Isaque e de como seu servo pediu a bênção de Hashem para cumprir a missão (24:1-14). Depois descreve o encontro de Rebeca e como se deu a saída dela para o encontro com Isaque (24:15-50). Logo em seguida temos a descrição do encontro e casamento (24:52-67). Abraão casa de novo e morre, sendo sepultado com Sara por Isaque e Ismael (25:1-11). Finalmente temos a descendência de Ismael (25:11-18).
Gênesis 23.1–4 LHB
וַיִּהְיוּ֙ חַיֵּ֣י שָׂרָ֔ה מֵאָ֥ה שָׁנָ֛ה וְעֶשְׂרִ֥ים שָׁנָ֖ה וְשֶׁ֣בַע שָׁנִ֑ים שְׁנֵ֖י חַיֵּ֥י שָׂרָֽה׃ וַתָּ֣מָת שָׂרָ֗ה בְּקִרְיַ֥ת אַרְבַּ֛ע הִ֥וא חֶבְר֖וֹן בְּאֶ֣רֶץ כְּנָ֑עַן וַיָּבֹא֙ אַבְרָהָ֔ם לִסְפֹּ֥ד לְשָׂרָ֖ה וְלִבְכֹּתָֽהּ׃ וַיָּ֙קָם֙ אַבְרָהָ֔ם מֵעַ֖ל פְּנֵ֣י מֵת֑וֹ וַיְדַבֵּ֥ר אֶל־בְּנֵי־חֵ֖ת לֵאמֹֽר׃ גֵּר־וְתוֹשָׁ֥ב אָנֹכִ֖י עִמָּכֶ֑ם תְּנ֨וּ לִ֤י אֲחֻזַּת־קֶ֙בֶר֙ עִמָּכֶ֔ם וְאֶקְבְּרָ֥ה מֵתִ֖י מִלְּפָנָֽי׃
Gênesis 23.1–4 RA
Tendo Sara vivido cento e vinte e sete anos, morreu em Quiriate-Arba, que é Hebrom, na terra de Canaã; veio Abraão lamentar Sara e chorar por ela. Levantou-se, depois, Abraão da presença de sua morta e falou aos filhos de Hete: Sou estrangeiro e morador entre vós; dai-me a posse de sepultura convosco, para que eu sepulte a minha morta.
Fiz mecânica geral no SENAI em minha adolescência. Quando estávamos no torno mecânico, por exemplo, torneando um eixo que deveria ter 12,58 mm, geralmente tínhamos uma margem de erro, como (p. ex.) +/- 0,18 mm. Se usinasse a peça em uma medida menor que a margem de erro dizíamos “a peça morreu!”
Não tinha mais jeito, era impossível fazê-la voltar a medida original e recomeçar o processo. Por isso dizíamos que “morreu”.
Todo o cap. 23 descreve como Abraão lidou com a morte de Sara e só encontramos um verso que descreve sua emoção. Os demais tratam das providências para o sepultamento. Por que ele insistiu em comprar um terreno e que ela fosse sepultada ali?

Parashat

A vida de Sara
Sara morreu aos 127 anos, e foi sepultada no campo de Mahpelá, terra dos hititas. A única mulher da TaNaKh sobre quem sabemos a idade da morte e o local do sepultamento. Os editores do Comentario Exegético y Explicativo de la Bíblia dizem que foi para fazer honra a mãe do povo hebreu! (JAMIESON et al., 2003, p. 36). E merecia, afinal peregrinou por 62 anos com Abraão. Participou com seu marido de uma vida pela fé:
No Egito deve ter ficado tensa com toda a situação;
Viveu conflitos com Agar ao ponto de separar a família;
Ela preparou comida para o Eterno e Seus anjos! Nesse mesmo episódio riu de sua promessa;
Teve Isaque e imagino o que ela sentiu ao se despedir dele e de seu filho quando os dois partiram para Moriá e sua reação quando ouviu a história na volta de ambos.
Ela morreu em Quiriate-Arba, literalmente “cidade dos quatro”. a importância desse lugar e a compra do terreno fica mais claro quando Rashi* (1040-1105) escreve uma tradição que afirma que o nome veio em referência aos quatro casais ali sepultados: Adão e Eva, Abraão e Sara, Isaque e Raquel e Jacó e Lia. Claro que quanto a Adão e Eva é apenas uma tradição, mas sobre os outros três, a morte de Sara fez com que esse fosse o descanso das três gerações que aguardavam a promessa.
Os costumes funerários¹
O relato da vida de um personagem bíblico termina com a descrição de sua morte e sepultamento, demostrando a importância que o enterro considerado digno tinha. Morrer e não ser sepultado era uma maldição por quebra da aliança (Dt 28:26). Os estudos arqueológicos não mostram diferença entre os costumes israelitas e cananeus, por isso o episódio de Abraão apresenta a discussão sobre o sepultamento de Sara com muita naturalidade.
“A única coisa expressa mais claramente pelas práticas funerárias israelitas é o desejo humano comum de manter algum contato com a comunidade mesmo após a morte, pelo menos por meio do enterro em sua terra natal e, se possível, com seus ancestrais.” (2008).
O enterro em cavernas que serviam de mausoléus para gerações, onde prateleiras eram feitas para receber restos mortais, era tão comum que deu origem a expressão “reunido aos seus antepassados” Gn 25:8 (NVI), para se referirir a ser sepultado junto.
Esse sentimento é característico de outros povos. No livro Enterrem Meu Coração na Curva do Rio² está escrito que depois de perderem a batalha contra o exército americano, os índios sioux estavam sendo conduzidos a outras terras. “Pelo caminho, vários grupos escaparam da coluna e se desviaram para o norte, decididos a fugir para o Canadá e se unir a Touro Sentado. Com eles, foram o pai e a mãe de Cavalo Doido, levando o coração e os ossos de seu filho. Num lugar só conhecido por eles, enterraram Cavalo Doido, em alguma parte de Chankpe Opi Wakpala, o riacho chamado Wounded Knee.” (BROWN, 2003).
A compra do campo
Pelos costumes da cananeus, os donos da terra tinham deveres feudais. A compra de uma pedaço da terra ou mesmo recebê-la de presente, como era a proposta hitita, eximia essa obrigação. Este episódio apresenta uma negociação segundo os costumes locais.
Victor Hamilton (1995, p. 25) estranha o valor, alegando que séculos depois Jeremias comprou um campo por 17 siclos de prata (Jr 32:9). Um siclo no Antigo testamento equivalia a 11,4 g. Pelo valor de hoje,³ um grama de prata é R$ 3,62, ou seja, Abraão pagou R$ 16.500,00 enquanto que Jeremias, R$ 700,00!
Abraão teve que comprar uma parte da terra que o Eterno disse que seria sua e teve de se curvar ao povo que HaShem disse que seria dominado por sua descendência. A quem foi dito que herdaria a terra, essa era o único terreno que possuía: um cemitério.
A compra daquele campo marcaria não só a sepultura de Sara, mas também ele já havia marcado o lugar da sua própria. Reconhecendo a relação de Abraão com o Eterno, lhe foi oferecido o terreno, mas certamente preocupado com os desdobramentos futuros, decidiu fazer negócios seguindo os termos legais da época.

Haftara

Jeremias 32.6–15 RA
Disse, pois, Jeremias: Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Eis que Hananel, filho de teu tio Salum, virá a ti, dizendo: Compra o meu campo que está em Anatote, pois a ti, a quem pertence o direito de resgate, compete comprá-lo. Veio, pois, a mim, segundo a palavra do Senhor, Hananel, filho de meu tio, ao pátio da guarda e me disse: Compra agora o meu campo que está em Anatote, na terra de Benjamim; porque teu é o direito de posse e de resgate; compra-o. Então, entendi que isto era a palavra do Senhor. Comprei, pois, de Hananel, filho de meu tio, o campo que está em Anatote; e lhe pesei o dinheiro, dezessete siclos de prata. Assinei a escritura, fechei-a com selo, chamei testemunhas e pesei-lhe o dinheiro numa balança. Tomei a escritura da compra, tanto a selada, segundo mandam a lei e os estatutos, como a cópia aberta; dei-a a Baruque, filho de Nerias, filho de Maaseias, na presença de Hananel, filho de meu tio, e perante as testemunhas, que assinaram a escritura da compra, e na presença de todos os judeus que se assentavam no pátio da guarda. Perante eles dei ordem a Baruque, dizendo: Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Toma esta escritura, esta escritura da compra, tanto a selada como a aberta, e mete-as num vaso de barro, para que se possam conservar por muitos dias; porque assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Ainda se comprarão casas, campos e vinhas nesta terra.
Aqui nós entendemos porque o campo de Jeremias foi mais barato: Judá tinha sido invadida por Nabucodonosor (Jr 32:1). Mais uma vez a compra de um campo é símbolo de fé e esperança. Essa era a lição que HaShem deixou com essa parábola, mesmo sendo difícil para o rofeta entender, como os versos seguintes indicam. A compra do campo vai além de ter um patrimônio, é um marco espiritual

B’rit hadasha

Na B’rit hadasha nós aprendemos que Abraão tinha a esperança na ressurreição, como está escrito em Hebreus 11.17–19 “Pela fé Abraão, quando Deus o pôs à prova, ofereceu Isaque como sacrifício. Aquele que havia recebido as promessas estava a ponto de sacrificar o seu único filho, embora Deus lhe tivesse dito: “Por meio de Isaque a sua descendência será considerada”. Abraão levou em conta que Deus pode ressuscitar os mortos e, figuradamente, recebeu Isaque de volta dentre os mortos.” Se em Hebreus podemos encontrar o quê, na carta aos coríntios o apóstolo Saulo indica o como:
1Coríntios 15.50–55 RA
Isto afirmo, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção. Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade. E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?
É assim que vai acontecer com Abraão e Sara, com Isaque e Raquel, com Jacó e Lia e com todos aqueles que não compraram campos, mas que olham para uma sepultura e conseguem ter além da saudade também a esperança do reencontro.

Conclusão

1 וַיִּהְיוּ֙ חַיֵּ֣י שָׂרָ֔ה מֵאָ֥ה שָׁנָ֛ה וְעֶשְׂרִ֥ים שָׁנָ֖ה וְשֶׁ֣בַע שָׁנִ֑ים שְׁנֵ֖י חַיֵּ֥י שָׂרָֽה׃

2 וַתָּ֣מָת שָׂרָ֗ה בְּקִרְיַ֥ת אַרְבַּ֛ע הִ֥וא חֶבְר֖וֹן בְּאֶ֣רֶץ כְּנָ֑עַן

Gn 23:1-2 “Tendo Sara vivido cento e vinte e sete anos, morreu em Quiriate-Arba, que é Hebrom, na terra de Canaã...”
Essa parashat me ensinou que Abraão sepultou Sara ali e fez daquele lugar o descanso de sua família pois sabia que a promessa divina de posse da terra se cumpriria. Isso é FÉ. Decidiu fazer um negócio legal, para não perder a terra para os heteus. Isso é HONESTIDADE. Ele cria na ressureição (Hb 11:17-19) e esperava ser trazido de volta na terra prometida. Isso é ESPERANÇA.
Quando Yeshua voltar, então toda a família de Abraão estará reunida em uma nova terra.
Quero compartilhar com você algo que disse um pregador fazendo uma exposição desse texto: para quem crê no Eterno, até um enterro é oportunidade de compartilhar a afé.
שַׁבָּת שָׁלוֹם
Shabat Shalom
* Rashi, Commentary on the Chumashi (1075-1105), Gn 3:2:1
¹ Ver Jewish Virtual Library.
² Dee Brown, L&PM, 2003.
³ ptax.com.br. Acesso em 19/nov/2022.
Referências: Death & bereavement in judaism: anciente burial practices. Jewish Virtual Library. 2008. Disponível em: <https://www.jewishvirtuallibrary.org>. Acesso em: 16/11/2022; Deffinbaugh, Robert L. Dealing with Death (Genesis 23:1-20). Bible. 2004. Disponível em <https://bible.org/seriespage/24-dealing-death-genesis-231-20#P2490_645114>. Acesso em 18/nov/2022; Hamilton, Victor P., “Genesis”, in Evangelical Commentary on the Bible. Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1995; Jamieson, et al. Comentario Exegético y Explicativo de la Biblia. Vol 1. El Paso, TX: Casa Bautista de Publicaciones, 2003; Ross, Allen P., “Genesis”, in The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures, org. J. F. Walvoord e R. B. Zuck. Wheaton, IL: Victor Books, 1985.
Soli Deo gloria
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