Por minha causa?
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A versão da Bíblia usada é a Nova Versão Internacional e o sinal “(+)” ao longo do texto é uma marca que uso para indicar a mudança de slide.
Introdução
Introdução
Em 2016 estudei a Bíblia com uma senhora que teve um sonho onde um desconhecido aparecia e dizia que ela precisava ir ao hospital. O que a intrigava é que estava fisicamente bem e achava que esta era uma situação que ia além do aviso e uma problema físico e tinha implicações espirituais.
“Mas de que forma?” Ela sempre se perguntava.
Alguns dias depois, passando os canais da TV, parou em um chamado Novo Tempo e um pastor estava pregando. Já estava perto de terminar o sermão, mas ela percebeu que era sobre o Apocalipse e quando concluiu, o pregador disse:
“Chegue mais perto:” - nem preciso dizer o nome do pregador! - “a igreja é um hospital onde você precisa estar!”
Foi assistindo à TV Novo Tempo e procurando na internet que ela chegou até nós. Mas o fato de ter tido o sonho e a clara ação de Deus nisso tudo não a fazia aceitar os ensinos sem nenhum questinamento um deles foi sobre o sábado. Eu percebi que precisava avançar para além de um estudo e propus uma análise detalhada do estudo.
Quando chegou no tema do sábado, não fiz em uma lição, mas cinco: 1) uma sobre como Deus deu o sábado à humanidade e depois colocou o Seu povo como guardadores dessa verdade; 2) um segundo estudo sobre o período de silêncio profético, chamado de interbíblico. A maior parte desse período os judeus estiveram no exílio em Babilônia e grandes mudanças aconteceram na sociedade e religiosidade do povo; 3) o terceiro, sobre a prática da guarda do sábado em o NT; 4) um outro sobre textos controversos do NT e 5) finalmente, a guarda do sábado na história da igreja.
São apenas slides, mas você pode acessar esses arquivos seguindo o QR code (+).
Hoje vamos estudar um desses textos do NT que tratam sobre a prática da guarda do sábado no período pós exílio e o conflito que a atitude de Cristo gerou.
Marcos 2.23–28 (NVI)
(+) Certo sábado Jesus estava passando pelas lavouras de cereal. Enquanto caminhavam, seus discípulos começaram a colher espigas. Os fariseus lhe perguntaram: “Olha, por que eles estão fazendo o que não é permitido no sábado?”
Ele respondeu: “Vocês nunca leram o que fez Davi quando ele e seus companheiros estavam necessitados e com fome? Nos dias do sumo sacerdote Abiatar, Davi entrou na casa de Deus e comeu os pães da Presença, que apenas aos sacerdotes era permitido comer, e os deu também aos seus companheiros”.
E então lhes disse: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. Assim, pois, o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado”.
Para nos localizar no tempo e no espaço sobre a vida de Jesus, os comentaristas dizem que isso aconteceu no ano 27 d.C. [1] e o evento anterior foi o discurso de Cristo em Jo 5:19-47, sobre a igualdade entre Ele e o Pai que aconteceu em Jerusalém. Então Jesus viajou para Galiléia (+), onde lemos Marcos 2 e em um outro dia o próximo evento na vida de Cisto, que foi a cura na sinagoga (Mt 12:9-14; Mc 3:1-6 e Lc 6:6-11) [2] (+).
O que é errado fazer aos sábados? (+) Temos que recuar um pouco na história!
O mandamento do sábado e as duas leis
O mandamento do sábado e as duas leis
Gênesis 2.2–3 (NVI)
No sétimo dia Deus já havia concluído a obra que realizara, e nesse dia descansou. Abençoou Deus o sétimo dia e o santificou, porque nele descansou de toda a obra que realizara na criação.
1. Deus deixou um dia de descanso para a humanidade e não só para um povo ou época. A constante tendência humana em se distanciar do plano de vida dado pelo Senhor tem levado muitos a ignorar este mandamento. Mas como achar irrelevante algo que Deus estabeleceu com um marcador tão universal, que é o tempo?
Em seu livro O Schabat, Abraham Heschel (pág. 35) diz que “o sétimo dia é como um palácio no tempo com um reino para todos. Não é uma data mas, uma atmosfera.” Ele continua:
(+) “Ganhar o controle no mundo do espaço é certamente uma de nossas tarefas. O perigo começa quando, para ganhar poder no reino do espaço, pagamos com a perda de todas as aspirações no reino do tempo. Há um reino do tempo em que a meta não é ter, mas ser; não possuir, mas dar, não controlar, mas partilhar; não submeter, mas estar de acordo. A vida vai mal quando o controle do espaço, a aquisição de coisas do espaço, torna-se nossa única preocupação” (HESCHEL, 2004:11-12).
2. Os judeus entenderam isso e valorizaram este “palácio no tempo”. No entanto, houve um período de apostasia que levou ao cativeiro. Estou tratando disso porque durante este período, o caminho para a consciência coletiva da necessidade de fidelidade, especificamente durante o cativeiro Babilônico (605-538) conduziu o povo agora a outro extremo: o legalismo!
(+) “Legalismo, então, é o uso da lei como uma base de soteriologia e como o guia da vida espiritual, no lugar da justificação pela fé e a lei do Espirito como o guia da espiritualidade” (Champlin, 2013:753).
Creio que a chave do conceito está na expressão “base de teologia”. Mesmo a igreja adventista, como a principal igreja cristã que acredita na vigência da Lei de Deus, teve seus momentos difíceis sobre o assunto. Em 1895, no campal da Austrália, W. Prescott afirma o seguinte:
(+) “O Senhor não fica satisfeito em ver homens confiando em sua própria capacidade ou boas obras, ou numa religião legalista. A confiança deve estar em Deus, no Deus vivo.” (Prescott, 2017:163).
b. Outros pioneiros ainda dizem:
“Muitos têm, com intenção honesta, pervertido tais palavras [de Tiago] a ponto de adotarem um legalismo morto.” (Jones, 2020:77).
“Quando os primeiros adventistas do sétimo dia viram os reclamos da imutável lei de Deus, tendências legalistas ameaçaram produzir fruto inútil, na experiência de muitos, e durante algum tempo chegaram mesmo a fazê-lo. Mas o consciencioso conhecimento da lei de Deus leva ao abandono do pecado e a uma vida santa e santificada.” White, 2008:11).
3. Voltando ao texto de Marcos, a pergunta foi por que estavam fazendo o que não era certo no sábado.
Êxodo 20.8–11 (NVI)
(+) “Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo. Trabalharás seis dias e neles farás todos os teus trabalhos, mas o sétimo dia é o sábado dedicado ao Senhor, o teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum… Pois em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles existe, mas no sétimo dia descansou. Portanto, o Senhor abençoou o sétimo dia e o santificou.”
a. No judaísmo existe um aspecto da revelação divina chamada de tradição oral. Veja como o Rabino Maimônides (16.e) explica isso:
“Os preceitos que Moisés recebeu no Sinai foram dados juntamente com a sua jurisprudência, como está escrito: ‘E Eu te darei as Tábuas de pedra, a Torá e o Mandamento (lei escrita)’ (Êxodo 24:12). ‘Torá’ se refere à Torá Escrita; ‘Mandamento’ à jurisprudência. D..S nos pediu para cumprir a lei segundo o ‘Mandamento’, que significa a Torá oral, que é a sua jurisprudência, a chamada ‘lei oral’. (Maimônides, 1992:23 apud Aguena, 2012:3)
b. Houve uma cadeia de transmissão, como diz Del Valle (1981:13 apud Feldman, 2019:189)
“...se faz remontar ao mesmo Moisés e por uma cadeia ininterrupta de transmissões, e teria sido comunicada, sem deformações substanciais, de geração em geração, até que em uma época tardia, foi passada a forma escrita...”
“Os judeus acreditam que a passagem da Lei oral segui-se de Moisés a Josué, de Josué aos últimos neviim (profetas), destes aos ditos soferim (escribas), em seqüência, aos zugot (pares, posto que estão inclusos Esdras e Neemias) e aos tanaim (considerados os mestres ou intérpretes) – sendo estes os últimos que receberam somente pela oralidade as explicações da Torá.” (Aguena, 2013:5).
c. No séc. II de nossa era, por causa da perseguição romana e pelo medo de que o conhecimento se perdesse, o rabino Judá Anassi (. ) liderou a transcrição da Torá oral, que ficou conhecida como Mishná. Séculos depois, foi acrescentada uma “conciliação de ideias” ou debate do assunto, chamado Guemará [3]. A junção dos dois ficou conhecido como Talmud Torá ou “Estudo da Lei”.
d. Mas, e a proibição de comer espigas no sábado? Vem de um trecho do Talmud que determina 39 trabalhos que não deveriam ser feitos no sábado.
TEXTO DO ✡️
Os 39 trabalhos matrizes proibidos no Shabat e exemplos atuais: [4]
Verde, 2 primeiras linhas: Tarefas básicas relacionadas com a preparação do pão da proposição (semear, arar, colher, amarrar, debulhar, joeirar, selecionar, moer, peneirar, amassar, assar).
Azul, Próximas 2 linhas: Trabalho relacionado à confecção das coberturas do Tabernáculo e das vestimentas usadas pelos Kohanim (tosquiar ovelhas), branqueamento, cardação (transformação de material emaranhado ou comprimido em fibras separadas), tingimento, fiação, estiramento (material), fazer duas laçadas (malhas), enfiar a linha nas agulhas, tecer, separar, amarrar (um nó), desamarrar (um nó), costurar, rasgar.
Laranja, Última linhas: Atividades relacionadas com a escrita e a preparação de pergaminhos a partir de peles de animais (armadilha ou caça), abate, esfola (esfola), tratamento de peles (cura de peles), raspagem de peles, marcação (para prepará-las para corte), cortar (formar), escrever, apagar.
Várias, 2 colunas à direita: Construção (construir, demolir), acender uma chama (acender, apagar), transportar (do domínio privado para o público e vice-versa) e dar os retoques finais a uma obra já iniciada antes do Sábado.
Qual o limite da necessidade?
Qual o limite da necessidade?
b
Por minha causa?
Por minha causa?
Conclusão
Conclusão
Este texto me faz pensar em _____ lições: 1)
Lembra-se da mulher com quem estudei a Bíblia? Ela foi guardar o primeiro sábado congregando. Como tinha um trabalho social e cuidade de muitos cães, ela disse que neste dia aconteceu algo que nunca antes tinha acontecido: 20 cachorros começaram a brigar. Ela perdeu o horário e decidiu não ir mais, no entanto também decidiu que não faria nenhum negócio naquele dia. A irmã, que morava com ela, tinha tomado a mesma decisão. Algumas pessoas chegaram para fazer pagamentos, mas ele explicou que não faria mais isso no sábado!
Aconteceu que o filtro de sua casa quebrou. Ela identificou qual o defeito e retirou a peça para trocar. Triste, foi à loja para comprar uma nova. Estava muito chateada com tudo que estava acontecendo e lamentando que não conseguiu congregar, aquele foi o sábado que apareceram mais clientes e ainda por cima ela não conseguiu cumprir se propósito de não fazer nenhum negócio, porque estava ali comprando. O atendente voltou com a peça e procurou o preço no sistema e depois de franzir a testa disse que a peça não constava mais no estoque. “Mas ela está aí com você” - disse a mulher. “Sim, mas eu não sei o preço” - respondeu o vendedor.
Após um tempo, ele entregou a peça a ela e disse: “se ela não está no sistema eu não tenho o que vender e a senhora não tem o que comprar. Pode levar e não precisa pagar por ela!”
Seguindo a proposta do texto, esta história me ensina que a 1) a decisão dela foi em resultado de uma clara compreensão da vontade de Deus, não pelo argumento que eu usei; 2) decidir pelo que é certo não me blinda do assédio do erro (tentação); 3) quando decido pelo que é certo, Deus me dá as condições e fé para ser fiel.
____________________
[1] A Bíblia em Ordem Cronológica: Nova Versão Internacional. Edward Reese ( São Paulo: Vida Nova, 2003); David R. Barrett. A Life Worth Knowing: a chronological harmony of the four gospels. (Fresh Ink Media, 2014. Edição do Kindle) pág. 72-73 (posição 973-976). O Comentário Bíblico Adventista (2013) prefere o ano 29 d.C. (pág. 186-187).
[2] Robert L. Thomas e Stanley N. Gundry. Harmonia dos Evangelhos (São Paulo, Vida: 2004), pág. 39-41.
[3] Jairo Fridlin. O que é o Talmud? (YouTube, 2020), 0’00” - 5’10”.
[4] Four Ways to Derive the Thirty-Nine Avot Melakhot (2017, The Torah); 39 Melachot of Shabbat: What Is the Function of This List? (2020, The Torah); The Melachot of Shabbat Are 40 minus 1: Cracking the Rabbinic Code (2014, The Torah); The Textual Source for the 39 Melachot of Shabbat (2013, The Torah); 39 Melakhot. Wikipedia (ver também a versão do artigo em hebraico).
Referências: AGUENA, Anita Sayuri. O Talmud e sua importância no pensamento judaico. Pandora Brasil, n. 43, p. 1-14, 2012.; BIN-Nun, Y. The Textual Source for the 39 Melachot of Shabbat. TheTorah.com. 2013. Disponível em: <https://bit.ly/sermao306-4>. Acesso em: 11/fev/2024; CHAMPLIN R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 11ª ed. Vol. 3. São Paulo: Hagnos, 2013; Comentário Bíblico Adventista: do Sétimo Dia Mateus a João. Francis D. Nichol, Vanderlei Dorneles da Silva. Vol. 5. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2013; FELDMAN, Sérgio Alberto. Talmude na ótica cristã medieval: séculos XII e XIII. Dimensões, n. 42, p. 181-208, 2019; FRIDLIN, Jairo. O que é o Talmud? YouTube, 23/mai/2020. 13’52” Disponível em: <https://bit.ly/sermao306-2> Acesso em 10/fev/2024; HAUPTAM, J. 39 Melachot of Shabbat: What Is the Function of This List? TheTorah.com. 2020. Disponível em: <https://thetorah.com/article/39-melachot-of-shabbat-what-is-the-function-of-this-list>. Acesso em: 11/fev/2024; HESCHEL, Abraham J. O Shabat. São Paulo: Perspectiva, 2004; HIDARY, R. Four Ways to Derive the Thirty-Nine Avot Melakhot. TheTorah.com. 2017. Disponível em: <https://bit.ly/sermao306-1>. Acesso em: 09/fev/2024; Hoffman, E. The Melachot of Shabbat Are 40 minus 1: Cracking the Rabbinic Code. TheTorah.com. 2014. Disponível em: <https://bit.ly/sermao306-5>. Acesso em 11/fev/2024; Wikipedia contributors, '39 Melakhot', Wikipedia: the free encyclopedia, 7 February 2024, 17:20 UTC. Disponível em: <https://bit.ly/sermao306-3>. Acesso em 11/fev/2024.
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