Quando ser bom não é o bastante
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Introdução
Introdução
Ilustração: O JOVEM SEMINARISTA
Depois que começou a estudar num seminário teológico, aquela era a primeira vez que o convidavam para pregar e ele tinha certeza que seria uma “benção”, pois havia se preparado suficientemente.
Encostou a Bíblia no peito e caminhou até o altar feito um general.
No entanto, sua pregação foi um fiasco. Parecia até que Deus o havia deixado sozinho, desamparado lá na frente de todo mundo.
Saiu de cabeça baixa e só foi até a porta da frente cumprimentar os irmãos porque o pastor da igreja insistiu com ele.
Ele não conseguia entender o que havia saído errado, até que um senhor idoso abraçou-o e cochichou em seu ouvido:
– Se você tivesse entrado do jeito que saiu, teria saído do jeito que entrou.
Qual deve ser nossa atitude quando nos aproximamos de Deus? Com que tipo de segurança nos aproximamos dEle? Uma segurança em nossas obras ou status espiritual ou segurança total em sua misericórdia em nos aceitar?
No livro de Lucas encontramos uma parábola contada por Jesus que ilustra exatamente os dois possíveis meios através dos quais um cristão pode se aproximar de Deus em oração: uma atitude incorreta e outra correta.
Esta parábola é parte de uma sequencia de duas parábolas contas por Jesus no início deste capítulo.
A primeira nos encoraja a orar e não desfalecer; a segunda nos recorda como e com que disposição devemos orar. J. C. Ryle, Meditações no Evangelho de Lucas (org. Tiago J. Santos Filho; 2a Edição.; São José dos Campos, SP: Editora FIEL, 2018), 420.
Lucas também enfatiza a razão que leva Jesus a contar esta história:
Nova Almeida Atualizada (Lucas 18.9)
para alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros
Nas palavras do comentarista Fritz Rienecker:
Os ouvintes aos quais a parábola é dirigida são caracterizados de três formas: 1) como pessoas que estavam cheias de autoconfiança, 2) que estavam muito convictas de sua própria justiça, e 3) que olhavam todos os demais com desprezo, de cima para baixo11 Fritz Rienecker, Comentário Esperança, Evangelho de Lucas (Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2005), 369.
O ambiente desta parábola era bem conhecido, o templo de Jerusalém. O templo era usado não só para os trabalhos religiosos públicos, para o oferecimento de sacrifícios e para a instrução, mas também para as devoções individuais.
Os judeus de Jerusalém costumavam fazer sua oração nas horas costumeiras (às 9 h da manhã e às 3 h da tarde). Contudo, fora dos horários regulares de oração (Lc 1:10; At 3:1) também sempre havia pessoas orando no templo (Lc 2:37; At 22:17). O que Lucas quer enfatizar é que um fariseu e um coletor de impostos subiram ao templo para esse fim à mesma hora.
Seja como for, nesta história temos dois homens, duas orações, dois resultados.
Nova Almeida Atualizada (Capítulo 18)
Dois homens foram ao templo para orar: um era fariseu e o outro era publicano
O fariseu era tido como homem de cumprimento exemplar rigoroso e inatacável da lei. Já o outro, o publicano, era considerado pela opinião geral como uma pessoa que vivia em flagrantes pecados e vícios, e era equiparado aos gentios.
Segundo Hernandes Dias Lopes:
Os dois foram ao mesmo templo, em uma mesma hora e com o mesmo propósito: orar. O resultado, porém, foi diferente. Deus ouviu a oração do publicano, mas não respondeu à oração do fariseu. Por quê?11 Hernandes Dias Lopes, Lucas: Jesus, o Homem Perfeito (org. Juan Carlos Martinez; 1a edição.; Comentários Expositivos Hagnos; São Paulo: Hagnos, 2017), 511.
Proposição: No sermão de hoje quero falar sobre as duas disposições do coração na oração que estão presentes nesta parábola, representadas pelas atitudes dos dois homens citados. Como veremos, só é possível obtermos triunfo na oração quando nos achegamos a Deus com um espírito humilde e quebrantado.
Argumentação
Argumentação
UM CORAÇÃO SOBERBO: A EXPERÊNCIA DE UM ADORADOR QUE CONFIA EM SUA PRÓPRIA JUSTIÇA E QUE NÃO SENTE NECESSIDADE DA GRAÇA
UM CORAÇÃO SOBERBO: A EXPERÊNCIA DE UM ADORADOR QUE CONFIA EM SUA PRÓPRIA JUSTIÇA E QUE NÃO SENTE NECESSIDADE DA GRAÇA
A oração do Fariseu não foi aceita porque a sua experiência no templo evidencia algums problemas de seu coração
Sua oração foi usada como uma autopromoção (v.11)
O texto declara que a primeira atitude do Fariseu foi colocar-se em pé, num ponto onde todos poderiam observa-lo e ouvi-lo declarar as suas virtudes. Seu objetivo naquele momento não era ofecer algum culto a Deus ou mesmo lhe fazer algum pedido, mas declarar a todos a sua propria religiosidade, sua santidade.
O fariseu não orou; ele fez um discurso eloquente para se autopromover. Ele não orou; ele tocou trombetas. Ele não orou; ele aplaudiu a si mesmo.
Sua oração era centrada em si mesmo (v.11)
A frase “orava por si mesmo” é na verdade “orava para si mesmo” (pros heauton) e poderia ser entendida como “sobre si mesmo”, destacando o problema básico por trás de sua oração. A própria oração usa a primeira pessoa cinco vezes.
William Barclay diz que o fariseu não foi orar; foi apenas informar a Deus acerca do grande homem que ele era.
O fariseu estava apenas fazendo um discurso retórico onde ele exibia suas virtudes diante de todos e para Deus.
Sua oração evidenciava sua arrogância
É provável que este homem esteja num ponto mais próximo possível, dentro do permitido, do lugar santo. Sua aproximação do templo o leva a afastar-se dos demais, imaginando que ele era bom demais para simplesmente estar misturado com os demais adoradores. Em sua condição, ele tinha liberdade em estar mais próximo do lugar da presença do Senhor.
Ele faz questão de mencionar cada grupo de pecador do qual ele se orgulha por não fazer parte e ainda cita por ultimo o publicano que também estava no templo. No entendimento do fariseu aquele homem nem mesmo merecia estar ali. Qualquer que não correspondesse ao seu padrão ou expectativa de santidade deveria ser excluído do convívio do templo, porque ali não era lugar para eles.
Nas palavras do comentariasta Walter Liedfield: a oração do fariseu expressava toda a essência do farisaísmo - separação dos outros. A religião do fariseu o aproxima do templo, mas o afasta da comunidade. Há muitos, como este homem, que por sua religião estão muito próximos da lei, mas distantes de pessoas, e com isso se julgam melhores. Se nossa religião nos distancia de pecadores, não estamos seguindo a religião de Cristo, pois, Cristo misturava-se com os pecadores.
Todo aquele que em si mesmo confia que é justo, desprezará os demais. Como o fariseu, julga a si próprio por outros homens, julga aos outros por si. Sua justiça é avaliada pela deles, e quanto piores, tanto mais justo parece ele. Sua justiça própria leva-o a acusar. “Os demais homens”, condena ele como transgressores da lei de Deus. Deste modo manifesta o próprio espírito de Satanás, o acusador dos irmãos. Impossível lhe é neste espírito entrar em comunhão com Deus. Volta para sua casa destituído da bênção divina. (Parábolas de Jesus, pág. 75)
Esta é a via de mão dupla do egocentrismo: concentrar-se inteiramente em si mesmo e desdenhar dos outros ao seu redor. Externamente estas pessoas parecem viver vidas justas, mas interiormente elas confiam em si mesmas e não em Deus. Isso leva naturalmente ao desprezo pelos outros, uma vez que a superioridade do eu produz arrogância.11 Grant R. Osborne, Evangelho de Lucas (trad. Renato Cunha; Comentário Expositivo do Novo Testamento; Bellingham, WA; São Paulo: Lexham Press; Editora Carisma, 2023), 440–441.
Sua oração não demonstrava necessidade de arrependimento, mas sim confiança em sua própria justiça
A base da sua oração não era a graça de Deus. Ele confiava não em Deus, mas em si mesmo. E orava não para se quebrantar, mas para exaltar-se.
Em seu entendimento, o fariseu não precisava de perdão, nem de arrependimento, porque simplesmente ele não tinha pecados. Ele era tão justo, tão perfeito, tão correto, tão santo, que qualquer mensagem de santificação, justificação, arrependimento jamais serviria pra ele. O fariseu entende que uma mensagem que foca a mudança de conduta serve sempre para os outros, nunca para ele.
O fariseu entrou no templo cheio de nada e saiu vazio de tudo.
UM CORAÇÃO VAZIO E QUEBRANTADO: A EXPERIÊNCIA DE UM ADORADOR QUE CONFESSA SUA INJUSTIÇA E QUE NECESSITA TOTALMENTE DA GRAÇA
UM CORAÇÃO VAZIO E QUEBRANTADO: A EXPERIÊNCIA DE UM ADORADOR QUE CONFESSA SUA INJUSTIÇA E QUE NECESSITA TOTALMENTE DA GRAÇA
Se a experiência do fariseu foi negativa, a do publicano, por sua vez, nos exemplifica a verdadeira atitude do coração que Deus espera de todos aqueles que veem à sua presença.
Sua atitude foi humilde
Ele se põe “a distância”. Certamente ele está no templo, pois ali é onde Deus habita, num sentido especial. Ele precisa desesperadamente de Deus, do Deus de amor perdoador! Mas, tendo chegado ao templo, ele se põe a distância, bem longe do santuário.
Ele se sente envergonhado. Lucas enfatiza que ele nem mesmo ousa levantar os olhos para o céu. Ele não se sente digno de estar naquele lugar. Ele se sente o pior dos homens daquele templo.
Sua confissão foi sincera
Ele colocou o “eu” em seu devido lugar. O publicano confessou claramente que era um pecador. Não apresentou desculpas para o pecado, nem mesmo o escondeu. Este é o próprio “ABC” do cristianismo que salva. Não começamos a nos tornar bons enquanto não podemos sentir e confessar que somos maus.
Ele reconhece que é pecador. Assume seus pecados. Sua oração não floreada vom belas palavras, ele nem mesmo perde tempo com outros elementos que são comuns em uma oração. Ele vai direto ao ponto que deseja, ele precisa ser salvo e nada mais importa.
A verdadeira cura para a justiça própria é o conhecimento de si mesmo
Seu coração estava quebrantado
O publicano bate no peito num gesto de profunda tristeza e comiseração, destacando sua pecaminisidade e injustiça. Ele esmurra a si mesmo reconhecendo que nada de bom havia nele. Ele não está olhando para os outros, não está preocupado com o pecado dos outros, ele está aterrorizado por seu próprio pecado.
Estando profundamente cônscio da presença de Deus, ele se apega a Deus em oração (cf. Is 64.7) e dessas mesmas profundezas de seu ser ele clama: “Ó Deus, sê misericordioso para comigo, o pecador”. Ele está ansiosa e ardentemente suplicando que Deus seja favorável à sua ccausa. Ele está faminto e sedento por esta grande bênção, a saber: que a ira de Deus seja removida e seu favor, obtido.
Quanto mais nos achegarmos a Jesus e mais claramente discernirmos a pureza de Seu caráter, tanto mais claramente discerniremos a extraordinária malignidade do pecado, e tanto menos teremos a tendência de nos exaltar. Aqueles a quem o Céu considera santos, são os últimos a alardear sua própria bondade. (PJ, 80)
Sua confiança estava na graça de Deus
A frase “sê propício a mim”, indica uma forte relação com o sacrifício que acontecia diariamente no templo. Se tomarmos por certo que a hora em que o fariseu e o publicano vão ao templo era a hora do sacrifício, enquanto o publicano orava, um sacrifício propiciatório era oferecido naquele momento, o que deixa a história ainda mais dramática.
Diante do sacríficio oferecido, o fariseu responde com sua justiça, seus méritos, ao passo que o publicano responde com confissão, quebrantamento e súplica por salvação. Um se sente santo, o outro se sente pecador. Um exibe vrtudes, o outro confessa seu pecado. Um não sente necessidade de arrependimento, o outro suplica por misericórdia.
O publicano pede a Deus que afaste dele sua ira. Que não o julgues pelo seu pecado, mas lhe conceda graça e misricórdia.
Nova Almeida Atualizada (Lucas 18.14)
Porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado
E “aos que justificou, a esses também glorificou”. Romanos 8:30. Grande como seja a vergonha e degeneração pelo pecado ainda maior será a honra e exaltação pelo amor redentor. Aos seres humanos que lutam por conformidade com a imagem divina, será concedido um suprimento do tesouro celeste, uma excelência de poder que os colocarão acima dos próprios anjos que jamais caíram. (PJ, 81)
Mas as petições de um coração humilde e de um espírito contrito não desprezará. O abrir do coração a nosso Pai celestial, o reconhecimento de nossa inteira dependência, a expressão de nossas necessidades, a homenagem de grato amor, isso é verdadeira oração. Signs of the Times, 1º de julho de 1886.
Conclusão
Conclusão
Algumas idéias práticas acerca da parábola do fariseu e do publicano: Não será o coração de cada ser humano por natureza um fariseu? Vê severamente os pecados de outras pessoas, porém olvida os próprios. O fariseu deixou o templo da mesma maneira como havia entrado nele. Nada havia sido mudado dentro dele. É assim que muitos permanecem, apesar de todas as orações, apesar de toda a leitura da palavra de Deus, sempre as velhas pessoas não-quebrantadas, das quais Deus não se agrada. “Ele salva os homens de olhos baixos” (Jó 22:29 – TEB). Quem se curva ao pó será amorosamente atraído por Deus ao coração do Pai (Sl 51:19). “Das ruínas Deus constrói templos.” “Deus somente consegue trabalhar com pessoas falidas” (von Rothkirch).11 Fritz Rienecker, Comentário Esperança, Evangelho de Lucas (Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2005), 372.
