Êxodo 18.13-27
Série expositiva no Livro do Êxodo • Sermon • Submitted • Presented
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· 150 viewsO autor divino/humano expõe o princípio da leveza do governo divino sobre seu povo, encorajando este a tomar sobre si o suave jugo do SENHOR.
Notes
Transcript
"São estes os nomes..." (Êx 1.1).
Pr. Paulo U. Rodrigues
Introdução
Tal como frisado na seção anterior, conforme aproxima-se o momento do encontro entre Deus e seu povo, no qual a Lei Divina será concedida como termo da relação pactual entre ambos, a expectativa para isso é aumentada a partir do ensino dos princípios que guiarão o entendimento do povo quanto ao caráter do SENHOR e de sua Lei.
Levando em consideração que o contexto no qual tais princípios foram comunicados foi posterior aos acontecimentos dos relatos até então narrados, o movimento retroativo do autor somente intensifica aqueles ensinos, preparando o povo para o momento em que viverão à luz dos mesmo ao entrarem na terra que fora jurada à Abraão, Isaque e Jacó. É nas campinas de Moabe, na fronteira com a terra de Canaã, que o povo está relembrando os antigos atos de Deus a partir da perspectiva apresentada por Moisés neste relato do livro do Êxodo.
Na seção anterior (vv. 1-12), Moisés preocupou-se em descrever o encontro com seu sogro sob o viés da gratidão a Deus por "tudo o que o SENHOR havia feito a Faraó e aos egípcios por amor de Israel" (cf. v.8), sendo essa gratidão o princípio que guiara o coração do povo à um recebimento amoroso e uma submissão devota a YHWH quando do momento em que receberam a Lei. A tônica centralizada evidenciou que somente um coração grato e contente poderia com amor e devoção receber e guardar os estatutos divinos.
Agora, a partir da ocasião em que Jetro concede um conselho a Moisés quanto a como representar o povo diante de Deus julgando suas causas, o autor transmite a noção
de que o julgamento leve que Moisés exercerá reflete o próprio governo do SENHOR sobre seu povo. O SENHOR em sua sabedoria guiou Moisés (através de Jetro) à percepção de que seu governo sobre seu povo é leve, e essa deve ser a ótica do próprio povo quanto as leis, mandamentos e estatutos entregues pelo SENHOR para que andassem neles.
Isto posto, o texto de Êxodo 18.13-27, sintetiza o princípio da leveza do governo divino sobre seu povo.
Elucidação
O início da presente narrativa remonta ao que fora registrado na seção anterior, no que concerne ao hiato traçado por Moisés a fim de que um momento prévio à ordem divina para que seu povo se prepare para estar diante dele para a entrega da Lei seja realizado. O reaparecimento de Jetro na narrativa é o ponto representativo dessa breve pausa feita pelo autor, e no versículo 13 e 14 do presente capítulo, o autor registra outra participação e contribuição do personagem na trama:
Êxodo 18.13–14
No dia seguinte, assentou-se Moisés para julgar o povo; e o povo estava em pé diante de Moisés desde a manhã até ao pôr do sol. Vendo, pois, o sogro de Moisés tudo o que ele fazia ao povo, disse: Que é isto que fazes ao povo? Por que te assentas só, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até ao pôr do sol?
Logo após o episódio onde Jetro, juntamente com Moisés e os anciãos de Israel, sacrificaram ao SENHOR e partilharam de uma refeição, o autor relata que, às vistas do sogro de Moisés, o que ele fazia lhe pareceu prejudicial.
Moisés, postando-se diante do povo desde a manhã até a tarde, lhes atendia as causas e demandas, direcionando-os à compreensão da vontade de Deus, que os guiaria na resolução dos impasses (cf. vv.15-16). Nesse ínterim, o autor estrutura a narrativa de maneira a direcionar a percepção do leitor ao fato de que a preocupação de Jetro não era apenas com o bem-estar de Moisés, como estivesse sugerindo que apenas o profeta seria exposto à exaustão devido a obrigação de julgar as demandas e causas do povo; o próprio povo de Israel se cansaria, como é narrado na sequência: “Não é bom o que fazes. Sem dúvida, desfalecerás, tanto tu como este povo que está contigo; pois isto é pesado demais para ti; tu só não o podes fazer” (vv.17-18).
Um leve jogo de palavras é tecido por Moisés a fim de que o princípio básico da passagem ecloda. Os termos “כָבֵ֤ד” e “הָקֵל֙” (v.22) podem ser traduzidos por “pesado” e “leve”, indicando a situação atual do método através do qual a orientação de Moisés era transmitida ao povo, e aquela que seria mais “fácil” para que o povo a recebesse.
A centralização de todo o encargo no profeta, segundo a percepção de Jetro, dificultava que a Lei do SENHOR fosse apreendida de maneira menos enfadonha ou cansativa. Tal preocupação novamente é agregada à narrativa maior, tocando a própria outorga da Lei. O povo de Israel deveria compreender o princípio da obediência grata ao SENHOR (tema da seção anterior) a partir do prisma que os faria tomar a Lei de Deus e obedecê-la, não como algo pesaroso, mas de acordo com o que ela realmente é; um fardo leve.
O autor então descreve o conselho sugerido por Jetro visando a resolução da problemática, como consta nos versículos 19 à 23. Em síntese, Jetro direciona Moisés à percepção de que sozinho, seu trabalho traria pesar ao povo, ainda que ele estivesse ensinando-lhes “os estatutos e as leis… [e] o caminho em que devem andar” (v.19). Moisés deveria repartir essa responsabilidade, “procura[ndo] dentre o povo homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza” (v.21), e colocando-os sobre o povo, a fim de que “toda causa grave trarão a ti, mas toda causa pequena eles mesmo julgarão” (v.22), o que resultaria com que esse encargo se tornasse, como já comentado, mais “fácil” para ele, “e assim também (hb. “גַּם” indicando que o efeito dessa ação seria mútuo entre Moisés e o povo) todo este povo tornará em paz ao seu lugar” (v.23).
A conclusão sucintamente narra a execução do conselho. Tendo Jetro advertido o profeta a fazer o que sugeriu se “assim Deus to mandar” (v.23a), “Moisés atendeu às palavras de seu sogro e fez tudo quanto este lhe dissera” (v.24), e os homens escolhidos por ele “julgaram o povo em todo o tempo” (v.26), e por fim, “se despediu Moisés de seu sogro, e este se foi para a sua terra” (v.27).
Transição
A transmissão do conselho de Jetro à Moisés, resume a tese da forma como o governo de Deus sobre seu povo deve ser visto por este, como já salientado. Se a Lei Divina deve ser recebida com gratidão e contentamento, que redundarão numa submissão amorosa à Deus (de acordo com o que fora tratado antes), ela não deve ser vista negativamente, como a imposição de um fardo pesado e desconfortável sobre aqueles que Deus escolhera para o suportar, mas como a expressão do amor do SENHOR por seu povo (como tem sido descrito até este ponto da narrativa); e essa expressão é leve.
A carga que o povo de Deus carrega, de servir a Deus de todo o coração, obedecendo-lhe os mandamentos, é suave, se compreendida e vista com a ótica concedida aos filhos de Deus pelo Espírito Santo. O governo do SENHOR indica sua santa vontade de guiar seus eleitos ao usufruto do relacionamento estabelecimento pacutalmente com eles mediante a execução do plano redentivo em Cristo Jesus.
Entendido isto, o texto de Êxodo 18.13-27, enfatiza as seguintes verdades a serem apreendidas pela igreja do SENHOR:
Aplicações
1. O governo de Deus sobre seu povo é leve, e portanto, deve ser tomado sobre os ombros de seus filhos com prazer e satisfação.
Jetro avisou Moisés de que agindo sozinho, ele estaria expondo a si e ao povo ao cansaço, pois o modo como a comunicação dos estatutos divinos estava sendo feita, resultaria nisso, o que poderia refletir no modo como o povo guardaria os princípios que lhes estavam sendo transmitidos a fim de que resolvessem suas demandas, mas que posteriormente seriam usados na administração da vida de um modo geral.
O governo do SENHOR sobre seu povo é leve, algo repetido ao longo desta análise, mas que capta o cerne da tese direcionada pelo autor/divino humano a todo o povo de Deus. O modo como olhamos para a Lei do SENHOR e sua governança sobre nós, interfere diretamente no modo como a vivenciamos. Se é com enfado, ou se consideramos que a Lei do SENHOR seja até um atrapalho para nossas vidas, tendo em vista a meticulosidade de suas ordenanças, certamente ou não as cumpriremos, ou faremos a partir de concepções erradas, como por exemplo, a mera obrigação.
Enquanto o coração do filho de Deus é preparado pela gratidão e contentamento para amar a Lei do SENHOR, seus olhos contemplam a realidade de que esta é leve. Assim, as duas narrativas de Êxodo 18, mostram o quadro geral de que como o crente recebe a os mandamentos divinos: com submissão amorosa e leveza alegre.
O próprio convite de Cristo retrata essa condição de seu governo sobre sua igreja. Em Mateus 11.28-30, o autor registra as palavras do Senhor Jesus ao estender seu chamado aos cansados e sobrecarregados:
Mateus 11.28–30
Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.
Como Rei e Senhor, Cristo não retira de seu povo a obrigação de obedecê-lo, ordenando à sua igreja que ponha sobre si seu jugo. Mas, demonstra a graça e a misericórdia de um soberano magnânimo, ao afirmar que seu jugo não traz pesar, e sim ânimo e paz, tal como Jetro havia dito a Moisés que aconteceria com o povo: ao ver o governo divino como suave e leve, “todo este povo tornará em paz (hb. “בְשָׁלֹֽום”) ao seu lugar” (Êx 18.23).
2. Um importante aspecto desse governo é a ordenação de oficiais que, instrumentalizados pelo poder do Espírito, em Cristo, exercem autoridade sobre o povo de Deus. O reconhecimento dessa dinâmica governamental, é salutar para a devida apropriação da Lei do SENHOR.
Um dos desdobramentos do conselho de Jetro, inclui a escolha e devida designação de “homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza”. Guardados os devidos contextos, esses mesmos princípios são encontrados na lista de requisitos traçada por Paulo em 1Timóteo 3, quando o apóstolo demonstra ao jovem pastor (e consequentemente à igreja para qual a carta seria lida), quem estaria apto a exercer, como oficial, a liderança da comunidade.
Os oficiais da igreja, devidamente instalados nas funções, mediante o reconhecimento e anuência da igreja à vocação do Espírito, representam o governo do próprio Cristo; governo que, como dito, não é pesaroso ou leve. Assim sendo, dois sub-pontos devem ser entendidos à luz do texto de Êxodo 18.13-27:
a) Aqueles que exercem essas funções devem precaver-se quanto a um exercício de liderança que destoe do princípio da leveza e suavidade da governança de Cristo sobre seu povo, incluindo a auto-consideração de que não centralizam em si mesmos esse poder, mas que o derivam do Senhor e o refletem.
b) Como mencionado supra, a igreja deve compreender que parte de sua obediência a Cristo é refletida na honra e consideração que devem ter por aqueles que representam a autoridade do Senhor em seu meio. Uma parcela de nossa apreensão da Lei do SENHOR, e portanto, parte de nosso exercício de obediência a ele, vem da atenção que precisamos dar ao que é dito por aqueles que, enquanto declaram e expõem o mandado do SENHOR através do exercício fiel de suas funções, nos encaminham à recepção dos preceitos divinos, tal como Moisés e os que foram escolhidos como chefes sobre o povo de Israel faziam (cf. Êx 18.26).
Achou por bem o Senhor Jesus, fazer-se representado por homens, enquanto sua igreja aguarda os tempos da consumação. Sua Lei, ordenanças e mandamentos registrados em sua palavra, são aplicados à vida de seu povo, mediante o ensino, pastoreio, cuidado, zelo e amor que estes, pelo poder do Espírito, direcionam à igreja. Noutras palavras, o governo do SENHOR foi visto no passado e é visto hoje, também naqueles que ele mesmo designou para isso, usando-os como ferramenta na comunicação leve de seu senhorio suave.
Conclusão
O fardo leve e suave do serviço ao SENHOR, mediante a obediência à sua Lei, é uma realidade a ser efusivamente experimentada pela igreja. Receber e viver de acordo com a Lei, demonstra que o verdadeiro peso foi retirado de nossos ombros por Cristo: o peso do pecado.
