Adotados para sempre

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Introdução

Ilustração: Imagine uma criança que cresce em um orfanato, que vive preso em um abrigo na esperança que um dia seja adotada. Ela vive em uma condição de orfã, simplesmente vivendo sob a tutela do Estado naquela instituição, na esperança de um dia conquistar essa liberdade a partir de uma adoção. Não mais viver em um orfanato, mas ter uma casa, uma família. No dia da adoção, ela não apenas ganha uma família, mas também vislumbra a promessa de uma vida cheia de amor, segurança e pertencimento. E mais, após ser adotada, essa criança descobre que ganhou pais e um irmão mais velho. E essa família que a adotou tem muitas posses, e essa criança descobre que ao mudar da condição de orfã para filho, ela se tornou herdeira assim como o filho biológico, mais velho, daquela família. Esta imagem reflete nossa experiência espiritual ao sermos adotados por Deus, onde passamos de "órfãos” a "filhos" com acesso pleno a nossa herança em Cristo.
Explicação de Gálatas 4:1-7:
Após essa ilustração inicial, entramos diretamente no texto de Gálatas 4:1-7, onde o apóstolo Paulo usa a metáfora de uma "criança" que é, por natureza, herdeira mas ainda não desfruta de sua herança. No contexto antigo, uma criança, apesar de ser a legítima herdeira de tudo que seu pai possui, operava sob tutores e administradores até a idade definida pelo pai. Esta criança, embora destinada a governar, vive sob restrições, semelhante a um servo.
Paulo compara esta realidade com a nossa antes de Cristo. Estávamos "escravizados" sob os princípios básicos do mundo. Estes princípios podem ser entendidos como toda tentativa de alcançar aceitação diante de Deus e dos homens, que na verdade nos mantêm presos em um ciclo de nunca satisfazer completamente a lei ou alcançar a pureza por esforços próprios.
Então, na "plenitude do tempo", Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei. Este momento foi meticulosamente escolhido por Deus, no qual o mundo estava preparado cultural e linguisticamente para a propagação do Evangelho. Jesus nasce sob a lei para cumprir a lei, tanto em seus mandamentos quanto em suas penalidades, em nosso lugar.
O objetivo deste ato divino é duplo: primeiro, redimir aqueles que estavam sob a lei, ou seja, nos comprar de volta da escravidão da lei e do pecado, e segundo, para que pudéssemos receber a adoção como filhos. A adoção aqui é descrita como uma transação de mudança de estado, de escravos da lei para filhos amados, com pleno direito à herança do pai.
Por fim, Paulo destaca a evidência interna dessa transformação: Deus enviou o Espírito de Seu Filho aos nossos corações, que clama "Aba, Pai". Este Espírito não é um espírito de escravidão, mas um espírito de adoção, onde chamamos Deus de "Pai" com a mesma intimidade e confiança que Jesus. A conclusão é surpreendente e gloriosa: se somos filhos, então somos herdeiros — herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo.
Esta passagem, então, não apenas redefine nossa identidade mas também nosso destino. Não estamos mais confinados pelas regras e regulamentos exteriores como meio de aceitação; em vez disso, somos livres para viver sob a graça como filhos amados e herdeiros de um reino eterno.
Olhando para esse texto me recordo do testemunho de adoção de um dos meus pregadores preferidos, o pastor David Platt. David e sua esposa adotaram crianças do Cazaquistão e da ‘ China e eles compartilham algumas situações que eles vivem.
Platt relata que o processo de adoção é desafiador em muitos níveis diferentes. Uma das coisas mais desafiadoras que ele e sua esposa encontraram foi ouvir como as pessoas falam sobre adoção. As pessoas conseguem perceber que a sua filha e um de seus filhos foram adotados, e quando compartilhamos suas histórias, as pessoas dizem, “Ah, que bonito; vocês também têm filhos biológicos?” Essa é a frase número um que não se deve dizer a um pai adotivo. Platt fala que sua vontade é responder, “Chegue mais perto. Tenho um segredo: eles são nossos!”
Outras perguntas revelam uma visão semelhante da adoção. Algumas pessoas se perguntam se eles se importam com a herança de seus filhos, mas a realidade é esta: a herança deles está ali naquela família. Isso não significa que o Cazaquistão ou a China (os países de onde foram adotados) sejam totalmente desconsiderados, ou que uma criança que viveu em outro país não deva ter qualquer apreciação por aquele país. Mas o seu filho e a sua filha são Platts, não parcialmente Platts, mas totalmente Platts, com toda a herança que um Platt tem. Eles são parte daquela família da mesma forma que os outros dois filhos que são biológicos.
Outro comentário que Platt relata é, “Eu simplesmente não sei se posso amar uma criança adotada como uma criança biológica.” Lá vamos nós, usando essa distinção novamente. Então Platt diz: “Eu garanto que o afeto que minha esposa e eu temos pelas crianças que adotamos não é diferente do afeto pelos filhos que tivemos naturalmente. Eles são todos nossos filhos"”.
Essas frases, mitos e concepções errôneas sobre adoção não são apenas incômodos para os pais que passaram pelo processo de adoção. Eles são sintomas de algo mais profundo. Eles mostram o quanto pouco entendemos o que significa fazer parte da família de Deus. Até mesmo nossa obsessão com os rótulos "biológico" e "adotado" e a distinção entre os dois mostram nossa tendência de qualificar crianças em categorias baseadas em carne e sangue. Enquanto pensarmos assim assim, lutaremos com um evangelho que conta a história de uma adoção espiritual que muda a vida de cada um de nós para toda a eternidade. Somos adotados na família de Deus, e as implicações disso são enormes para entender e viver o cristianismo.
Por isso, gopstaria de recapitular algumas coisas para entendermos a profundidade da nossa adoção em Cristo.

A Justificação

A principal doutrina que vimos em Gálatas 1–3 é a doutrina da justificação. Em Gálatas 2 definimos justificação como o ato gracioso de Deus pelo qual Ele declara um pecador justo exclusivamente através da fé em Jesus Cristo. Esta é a doutrina, segundo Calvino, é “a dobradiça em torno da qual tudo gira” (ibid., 66).
Pela graça através da fé em Cristo somos justos perante Deus, o juiz. Nossa justiça não precisa ser conquistada porque Cristo a conquistou por nós. Ele é nossa justiça. Nossa justiça está no céu, e nossa posição perante Deus não é baseada na justiça que podemos “construir” todos os dias, mas exclusivamente na justiça daquele que está à direita de Deus. Devemos enfatizar a importância da doutrina da justificação, pois todo seguidor de Cristo precisa de uma compreensão sólida deste ensino bíblico. Mas justificação não é o fim do evangelho. Na verdade, pode nem ser a maior verdade do evangelho. Existe algo a mais…

A Adoção

Aqui quero citar o excelente livro de J. I. Packer, Conhecendo Deus:
[A adoção] é o privilégio mais alto que o evangelho oferece: mais alto até mesmo que a justificação. Pois justificação é o dom de Deus no qual, desde Lutero, os evangélicos têm dado o maior ênfase, e estamos acostumados a dizer, quase sem pensar, que a justificação gratuita é a maior bênção de Deus para nós pecadores. No entanto, um pensamento cuidadoso mostrará a verdade da afirmação que acabamos de fazer.
Que a justificação — pela qual entendemos o perdão de Deus do passado junto com sua aceitação para o futuro — é a bênção primária e fundamental do evangelho não está em questão. A justificação é a bênção primária, porque atende à nossa necessidade espiritual primária. Todos nós, por natureza, estamos sob o julgamento de Deus; sua lei nos condena, a culpa nos corrói, nos tornando inquietos, miseráveis e, nos nossos momentos lúcidos, com medo; não temos paz em nós mesmos porque não temos paz com nosso Criador. Então precisamos do perdão de nossos pecados e da garantia de um relacionamento restaurado com Deus, mais do que precisamos de qualquer coisa no mundo; e isso o evangelho nos oferece antes de nos oferecer qualquer outra coisa.
… Mas isso não é dizer que a justificação é a maior bênção do evangelho. A adoção é maior, por causa do relacionamento mais rico com Deus que ela envolve. (Packer, Conhecendo Deus, 206–7)
Packer continua a explicar por que a adoção é uma bênção maior que a justificação. A doutrina da justificação nos torna justos perante Deus, o juiz, mas na doutrina da adoção somos amados por Deus, o Pai. Na justificação, a imagem é; estamos diante de um juiz que faz um pronunciamento. Mas na adoção, o juiz não apenas declara você “Não culpado”, mas Ele também se levanta do banco, desce até onde você está, tira suas correntes e diz, “Venha para casa Comigo como Meu filho.” Packer diz, “Estar certo com Deus, o Juiz, é uma coisa grande, mas ser amado e cuidado por Deus, o Pai, é maior” (ibid.). Essa é a verdade que precisamos contemplar nesta próxima seção de Gálatas: a ideia de que você e eu somos amados por Deus, o Pai. Em resposta à pergunta, “O que é um cristão?” Packer diz, “A resposta mais rica que conheço é que um cristão é alguém que tem Deus como Pai” (ibid., 200).
A igreja deve ser um povo cujo culto e orações e visão de vida são todos motivados e controlados pelo fato de sermos filhos de Deus.
Portanto, você não adota por acidente; você adota propositalmente.
Assim ocorre na nossa adoção por Deus, Jesus veio com um propósito: Deus enviou Seu Filho "para redimir os que estavam sob a lei, para que pudéssemos receber a adoção como filhos" (4:5). Ele se determinou a nos redimir.
Assim como um pai toma a iniciativa de buscar e adotar uma criança, foi prazer e vontade de Deus antes da criação do mundo colocar Suas afeições em nós. Mas há uma grande diferença entre uma história contemporânea de adoção terrena e a história bíblica da adoção espiritual. A adoção terrena é frequentemente glamorizada, até mesmo super-glamorizada, enquanto pensamos em crianças doces, preciosas e inocentes pelo mundo afora apenas esperando para serem adotadas por uma família. Mas quando você olha para Efésios 2, as pessoas que são adotadas são objetos da ira que seguem o governante deste mundo, Satanás, satisfazendo os desejos de sua natureza pecaminosa (Efésios 2:1–3). Outro pastor que admiro muito, Russell Moore, ele próprio um pai adotivo, faz a seguinte analogia com respeito à imagem contemporânea de adoção:
Imagine por um momento que você está adotando uma criança. Enquanto você se encontra com o assistente social na última etapa do processo, é informado de que este menino de 12 anos está em terapia desde os três anos. Ele persiste em queimar coisas e tenta repetidamente esfolar animais vivos. Ele "age sexualmente", diz o assistente social, embora ela não esclareça o que isso significa. Ela continua com um pouco da história familiar. O pai deste menino, o avô, o bisavô e o trisavô todos tinham históricos de violência, variando de abuso conjugal a assassinato em série. Cada um deles acabou com a própria vida. Pense por um minuto. Você gostaria deste menino? Se você o adotasse, não ficaria nervoso enquanto ele brinca com seus outros filhos? Você o observaria nervosamente enquanto ele olha para a faca na mesa da cozinha? Você sairia da sala enquanto ele assiste a um filme na TV com sua filha, com as luzes apagadas?
Então Moore identifica este potencialmente problemático menino de 12 anos: "Ele é você. E ele sou eu. É isso que o Evangelho nos diz". Louve a Deus que, embora não houvesse nada em nós para atrair-nos a Ele, Deus se determinou a nos redimir. E para que isso não soe como uma exageração de nossa maldade e pecaminosidade, olhe para a cruz. Olhe para a imagem da ira de Deus contra o pecado. Não foi uma ofensa menor pela qual Jesus morreu.
Deus Enviou Seu Espírito para que nosso status seja mudado, não mais orfãos, mas agora filhos. Mas não somente o nosso status muda, experimentamos também os Privilégios da Filiação.
Uma vez que você adota uma criança, ela assume uma nova posição na família, há muito mais! Um filho adotivo, seu status é baseado no que um juiz declarou, mas sua vida é baseada no relacionamento diário enquanto vivem a vida ordinária de uma familia que realmente os ama. Se antes aquela criança precisava cumprir regras da instituição que o abrigava, agora, o que determina sua condição é o amor intencional dos seus novos pais. Diante desse amor, um filho que ama seus pais vive para honrá-los. Mesmo que por vezes errem, são perdoados e corrigidos pelos seus pais de forma amorosa.
Assim também com Deus! Seu status com Ele foi resolvido no dia em que você foi declarado justo através da fé em Cristo. Mas há mais aqui do que simplesmente uma mudança de status ou simplesmente de moradia (do orfanato para uma casa). Você tem uma nova vida, um relacionamento vivo com Deus no qual Ele comunica com você e o sustenta diariamente com amor, afeto e força. Vir para Cristo muda quem somos.
Você é um filho? Não estou perguntando se você vai à igreja, lê sua Bíblia ou educa seus filhos de uma certa maneira. Mas você tem intimidade com Deus como Pai? É isso que significa ser um filho.
Aplicações Práticas:

Um Pai Eterno

Primeiro, temos um Pai eterno. Algumas pessoas nunca tiveram realmente um pai em suas vidas, enquanto outras tiveram ótimos pais que apontaram para um Pai celestial. Mas até mesmo o melhor pai terreno é uma imagem inadequada de Deus como nosso Pai e de nossa adoção espiritual. Por exemplo, alguns dizem que crianças que foram adotadas têm mais dificuldade com sua identidade em uma família. Todo pai e mãe que de fato ama seus filhos, quer ser ser um bom pai/mãe para meus filhos, para que eles saibam todos os dias que estão totalmente em minha família e que estou aqui para ficar como pai deles. Eu quero que eles se sintam seguros em meu amor. Em uma escala muito maior, é isso que Deus faz na adoção. Ele nos assegura de Seu amor. Mesmo quando caímos, Ele é nosso Pai. Esta é uma boa notícia para aqueles que caíram presa do pecado. Como qualquer bom pai, Deus pode nos disciplinar, mas Ele fará isso porque tem um profundo amor e afeto por nós.

Uma Família Eterna

Segundo, nossa adoção por Deus significa que temos uma família eterna. Já vimos em Gálatas 3:28 que em Cristo temos união uns com os outros. Como membros da família de Deus, nos relacionamos uns com os outros como irmãos e irmãs. Surpreendentemente, Romanos 8:17 diz que somos "coerdeiros com Cristo", e em outros lugares nos dizem que somos irmãos de Jesus (Hebreus 2:11). Ele é nosso irmão mais velho, embora não de uma maneira que comprometa Sua divindade, como algumas seitas acreditam. Não somos iguais a Jesus. Mas as Escrituras ensinam que tudo o que pertence a Jesus pertence a nós como coerdeiros. Agora isso é uma boa notícia e uma má notícia. É uma má notícia porque Jesus sofreu, e o mundo O odiou. Portanto, estar na família com Jesus pode nos custar a vida. Mas também é uma boa notícia porque, se compartilhamos de Seus sofrimentos, também compartilharemos de Sua glória (Romanos 8:17). Juntos, desfrutaremos de tudo o que Cristo tem para toda a eternidade. Esta é uma boa família, na qual você quer ser adotado.

Um Lar Eterno

Terceiro, além de ter um Pai eterno e uma família eterna, temos um lar eterno. Quando você é trazido para um novo lar e a adoção é concluída, não é temporária.
Ninguém está indo até casa do David Platt do Cazaquistão ou da China para levar seus filhos embora — ninguém. Você e eu podemos ter a mesma firme confiança baseada na autoridade da Palavra de Deus de que sempre pertenceremos a Ele. Deus enviou Seu Filho ao mundo para que pudéssemos receber a posição de filhos. E quando confiamos em Cristo para a salvação, Deus nos leva para Sua casa como herdeiros, e ninguém nos levará embora — ninguém.

Conclusão:

Assim como uma criança adotada recebe uma nova família e um novo lar, nossa adoção por Deus nos dá um novo começo, uma nova família e uma nova esperança. Não somos mais definidos pelo nosso passado, mas pelo amor do nosso Pai, que nos escolheu antes da fundação do mundo. Que cada um de nós abrace plenamente a realidade de nossa adoção e viva como verdadeiros filhos do Deus vivo, desfrutando dos privilégios e cumprindo as responsabilidades que isso implica. Que possamos sair daqui hoje renovados em nosso propósito e paixão para viver como herdeiros do Reino de Deus.
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