Escatologia Bíblica (II/VIII)

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OS MÉTODOS DE INTERPRETAÇÃO
OS MÉTODOS DE INTERPRETAÇÃO
Das muitas perguntas que se deparam ao estudioso de escatologia, nenhuma é mais importante que a questão do método empregado na interpretação das Escrituras proféticas. A adoção de diferentes métodos de interpretação produziu as várias posições escatológicas e dá conta das diversas concepções de cada sistema em desafio ao estudioso da profecia. As diferenças básicas entre a escola pré-milenarista e a amilenarista e entre os defensores do arrebatamento pré-tribulacionalista e os do pós-tribulacionalista são hermenêuticas, provenientes da adoção de métodos de interpretação divergentes e inconciliáveis.
A questão fundamental entre pré-milenaristas e amilenaristas foi claramente definida por Allis, que escreve: “Uma das características mais marcantes do pré-milenarismo em todas as suas formas é a tônica dispensada à interpretação literal das Escrituras. A alegação constante de seus defensores é que somente quando interpretada à letra a Bíblia recebe verdadeira interpretação; e denunciam como ‘espiritualistas’ e ‘alegoristas’ os que não interpretam as Escrituras com o mesmo grau de literalidade que eles utilizam.
Ninguém faz essa acusação de modo mais agudo que os dispensacionalistas. A questão da interpretação literal versus a figurada é, portanto, algo que precisa ser encarado desde o princípio.”31
Quando Allis reconhece que “a interpretação literal sempre foi característica marcante do pré- milenarismo” ele concorda com Feinberg, que escreve: “...pode-se demonstrar que a razão de a igreja primitiva ter sido pré-milenarista foi o fato de ter interpretado a Palavra de maneira literal, ao passo que o abandono dessa visão nos séculos seguintes da história é diretamente atribuído à mudança do método de interpretação, a começar por Orígenes em particular.”32
Portanto, antes de qualquer debate sobre as passagens proféticas e sobre as doutrinas escatológicas, é preciso estabelecer o método básico de interpretação por ser empregado no processo.
Se Rutgers estiver correto ao afirmar sobre o pré-milenarista: “Considero sua interpretação das Escrituras o erro fundamental”33, e se a diferença reconhecida entre o pré-milenarismo e o amilenarismo se acha na proposta básica do método empregado para interpretar as Escrituras, o problema fundamental por estudar no início de qualquer consideração escatológica é o da hermenêutica da profecia. É propósito deste estudo examinar os importantes métodos defendidos atualmente como o meio correto de interpretar as Escrituras, para adquirir clara compreensão das diferenças entre os métodos, estudar a história da doutrina, a fim de poder identificar a origem dos métodos divergentes, e listar as regras a empregar na interpretação, a fim de poder aplicar corretamente o método oficial de interpretação.
É óbvio que concepções tão amplamente divergentes como pré-milenarismo e amilenarismo e pré- tribulacionismo e pós-tribulacionismo não podem ser todas corretas. Já que o intérprete não está manejando um livro de origem humana, mas a Palavra de Deus, deve munir-se de um método preciso de interpretação, caso contrário o erro será o resultado inevitável de seu estudo. O fato de que a Palavra de Deus não pode ser corretamente interpretada a não ser por um método correto e por regras lógicas de interpretação confere a este estudo sua suprema importância.
Embora diversos métodos de interpretação das Escrituras tenham sido propostos no decorrer da história da interpretação, existem hoje apenas dois métodos com influência vital na escatologia: o alegórico e o histórico-gramatical. O método literal é geralmente tido como sinônimo do método histórico-gramatical e será usado ao longo deste debate. Esses dois métodos serão considerados detidamente.
O Método Alegórico
O Método Alegórico
Um antigo método de interpretação que passou por um reavivamento nos últimos tempos é o método alegórico.
Angus e Green definem alegoria da seguinte forma: “Qualquer declaração de supostos fatos que aceita interpretação literal e, no entanto, requer ou simplesmente admite interpretação moral ou figurada, é chamada alegoria. É para a narrativa ou para a história o que as figuras de linguagem são para as palavras simples, adicionando ao sentido literal dos termos empregados um sentido moral ou espiritual.
Às vezes a alegoria é pura, ou seja, sem referência direta à sua aplicação, como na história do filho pródigo (Lc 15.11-31).
8 Trouxeste uma videira do Egito; expulsaste as nações e a plantaste.
Às vezes é mista, como no Salmos 80.8 , em que simplesmente se insinua (v. 17) que os judeus são o povo que a videira tem por objetivo representar.”34
Nesse método, o significado histórico é negado ou desprezado, e a tônica recai inteiramente num sentido secundário, de modo que as palavras ou os acontecimentos primeiros têm pouco ou nenhum significado.
Fritsch resume esse pensamento assim:
“De acordo com esse método, o sentido literal e histórico das Escrituras é completamente desprezado, e cada palavra e acontecimento é transformado em alegoria de algum tipo, já para escapar de dificuldades teológicas, já para sustentar certas crenças religiosas estranhas...”35
Parece que o propósito do método alegórico não é interpretar as Escrituras, mas perverter o verdadeiro sentido delas, embora sob o pretexto de buscar um sentido mais profundo ou mais espiritual.
O método alegórico é repleto de perigos
O método alegórico é repleto de perigos
que o tornam inaceitável ao intérprete da Palavra.
Não interpreta as Escrituras.
Não interpreta as Escrituras.
O primeiro grande perigo do método alegórico é que ele não interpreta as Escrituras.
Terry afirma: “... será imediatamente percebido que seu hábito é desprezar o significado comum das palavras e dar asas a todo tipo de especulação fantasiosa. Ele não extrai o sentido legítimo da linguagem de um autor, mas insere nele todo tipo de extravagância ou fantasia que um intérprete possa desejar. Como sistema, portanto, ele se coloca além de todos os princípios e leis bem definidos.”36
Angus e Green expressam o mesmo perigo quando escrevem: “Existe [...] uma liberdade ilimitada para a fantasia, basta que se aceite o princípio, e a única base da exposição encontra-se na mente do expositor. O esquema não pode produzir nenhuma interpretação propriamente denominada, embora algumas verdades valiosas possam ser ilustradas.”37
A autoridade básica da interpretação deixa de ser a Bíblia e passa a ser a mente do intérprete
A autoridade básica da interpretação deixa de ser a Bíblia e passa a ser a mente do intérprete
A citação anterior deixa prever, também, um segundo grande perigo no método alegórico: a autoridade básica da interpretação deixa de ser a Bíblia e passa a ser a mente do intérprete. A interpretação pode então ser distorcida pelas posições doutrinárias do intérprete, pela autoridade da igreja à qual ele pertence, por seu ambiente social e por sua formação ou por uma enormidade de fatores. Farrar acrescenta: “o estilo mais errôneo de ensino é corromper o sentido das Escrituras e arrastar sua expressão relutante para nossa própria vontade, produzindo mistérios bíblicos a partir de nossa própria imaginação. Quando o princípio da alegoria é aceito, quando começamos a demonstrar que passagens e livros inteiros da Escritura dizem algo que não querem dizer, o leitor é entregue de mãos amarradas aos caprichos do interprete.”38
Não há meios de provar as conclusões do intérprete.
Não há meios de provar as conclusões do intérprete.
Um terceiro grande perigo do método alegórico é que não há meios de provar as conclusões do intérprete. Afirmar que o principal significado da Bíblia é um sentido secundário e que o principal método de interpretação é a “espiritualização” é abrir a porta a imaginação e especulação praticamente desenfreadas. Por essa razão, insistimos em que o controle na interpretação se encontra no método literal.
Que esses perigos existem e que o método alegórico de interpretação é usado para perverter as Escrituras é reconhecido por Allis, ele próprio defensor do método alegórico no campo da escatologia, quando diz: “Se a interpretação figurada ou ‘espiritual’ de determinada passagem é justificada ou não depende somente de ela fornecer ou não o sentido verdadeiro. Se for usada para esvaziar as palavras de seu sentido claro e óbvio, privando-as de sua intenção clara, então alegorização ou espiritualização são termos de pejoração bastante merecida.”39
Assim, os grandes perigos inerentes a esse sistema são a eliminação da autoridade das Escrituras, a falta de bases pelas quais averiguar as interpretações, a redução das Escrituras ao que parece razoável ao intérprete e, por conseguinte, a impossibilidade de uma interpretação verdadeira das Escrituras.
Justificar o uso do método alegórico
Justificar o uso do método alegórico
O Novo Testamento o emprega
O Novo Testamento o emprega
Para justificar o uso do método alegórico, frequentemente se argumenta que o próprio Novo Testamento o emprega, por isso, só pode tratar-se de um método justificável de interpretação.
Em primeiro lugar, faz se referência a Gálatas 4.21-31, em que o próprio Paulo teria usado o método alegórico.
21 Digam-me vocês, os que querem estar sob a lei: será que vocês não ouvem o que a lei diz? 22 Pois está escrito que Abraão teve dois filhos: um da mulher escrava e outro da mulher livre. 23 O filho da escrava nasceu segundo a carne; o filho da mulher livre nasceu mediante a promessa. 24 Estas coisas são alegóricas, porque essas mulheres são duas alianças. Uma se refere ao monte Sinai, que gera para a escravidão; esta é Agar. 25 Ora, Agar é o monte Sinai, na Arábia, e corresponde à Jerusalém atual, que está em escravidão com os seus filhos. 26 Mas a Jerusalém lá de cima é livre e ela é a nossa mãe. 27 Porque está escrito:
“Alegre-se, ó estéril,
você que não dá à luz;
exulte e grite, você que não sente
dores de parto;
porque os filhos
da mulher abandonada
são mais numerosos do que
os filhos da que tem marido.”
28 Mas vocês, irmãos, são filhos da promessa, como Isaque. 29 Como, porém, no passado, aquele que nasceu segundo a carne perseguia o que nasceu segundo o Espírito, assim também acontece agora. 30 Mas o que diz a Escritura? Ela diz: “Mande embora a escrava e seu filho, porque de modo nenhum o filho da escrava será herdeiro com o filho da mulher livre.” 31 Portanto, irmãos, somos filhos não da escrava, mas da livre.
Quanto a esse suposto emprego da alegoria, Farrar observa: “... alegoria que de alguma forma se assemelhe às de Filo, ou à dos pais, ou à dos escolásticos, só consigo encontrar uma no Novo Testamento (Gl 4.21-31). Ela pode ter sido usada por Paulo como simples argumento ad hominem; não é, de maneira alguma, essencial ao argumento; não tem uma partícula de força demonstrativa e, além de tudo, deixa intocada a história real. No entanto, seja qual for nossa opinião sobre a passagem, a ocorrência de uma alegoria na epístola de Paulo não sanciona a aplicação universal do método, assim como umas poucas alusões neotestamentárias a Hagada (conjunto de tradições narrativas e interpretativas judaicas, algumas delas lendárias, associadas às narrativas do Antigo Testamento) não nos obrigam a aceitar todos os Midrashim (interpretações rabínicas em que sentidos secundários e esotéricos eram propostos para passagens do Antigo Testamento) rabínicos, nem umas poucas citações de poetas gregos provam a autoridade divina dos escritos pagãos...”40
Gilbert, seguindo a mesma linha, conclui: “Uma vez que Paulo explicou alegoricamente um acontecimento histórico do Antigo Testamento, parece provável que aceitasse a possibilidade de aplicar em outros lugares o princípio da alegoria; no entanto, o fato de suas cartas não mostrarem nenhuma outra ilustração inconfundível de alegoria mostra que ele não sentiu que fosse cabível desenvolver o sentido alegórico das Escrituras, ou, o que é mais provável, que em geral ele ficava mais satisfeito em oferecer a seus leitores o sentido original simples do texto.”41
Devemos observar cuidadosamente que em Gálatas 4.21-31 Paulo não está usando o método alegórico de interpretação do Antigo Testamento, mas está explicando uma alegoria. São duas coisas completamente diferentes. As Escrituras estão repletas de alegorias, sejam tipos, sejam símbolos, sejam parábolas. Esses são meios aceitos e legítimos de comunicar o pensamento. Não exigem um método alegórico de interpretação, que negaria o antecedente literal e histórico e usaria a alegoria apenas como trampolim para a imaginação do intérprete. Antes, exigem um tipo especial de hermenêutica que será considerado posteriormente. O uso de alegorias, entretanto, não é justificativa para o uso do método alegórico de interpretação. Conclui-se que o uso do Antigo Testamento em Gálatas seria um exemplo de alegoria e não justificaria a aplicação universal do método alegórico a toda a Escritura.
O Novo Testamento faz de tipos.
O Novo Testamento faz de tipos.
O segundo argumento para justificar o método alegórico é o uso que o Novo Testamento faz de tipos. Sabe-se que o Novo Testamento faz uma aplicação tipológica do Antigo. Com base nisso, argumenta-se que o Novo Testamento emprega o método alegórico de interpretação, afirmando-se que a interpretação e o uso de tipos constituem o método alegórico de interpretação. Em resposta à acusação de que interpretar tipos é utilizar o método alegórico, devemos enfatizar que a interpretação de tipos não é a mesma coisa que a interpretação alegórica. A eficácia do tipo depende da interpretação literal do antecedente literal.
Para comunicar verdades no campo espiritual, com o qual não estamos familiarizados, é preciso haver instrução em um campo que conheçamos, de modo que, por meio da transferência de algo literalmente verdadeiro neste campo, possamos aprender o que é verdadeiro no campo anterior. E necessário haver um paralelismo literal entre o tipo e o antítipo para que o tipo tenha algum valor. Quem alegoriza o tipo jamais chegará à verdadeira interpretação. A única maneira de discernir o significado do tipo é pela transferência de ideias literais do campo natural para o espiritual. Chafer escreve corretamente: “No estudo de alegorias de várias espécies ou seja, parábolas, tipos e símbolos, o intérprete precisa ser cuidadoso para não tratar declarações claras das Escrituras segundo o que se exige da linguagem característica das expressões figuradas. Uma verdade já expressa merece ser repelida nesta altura: há toda a diferença do mundo entre interpretar uma alegoria das Escrituras, de um lado, e alegorizar uma passagem literal, de outro.”42
Conclui-se, assim, que o uso de tipos nas Escrituras não sanciona o método alegórico de interpretação.
O Método Literal (histórico- gramatical)
O Método Literal (histórico- gramatical)
Em oposição direta ao método alegórico de interpretação encontra-se o método literal ou histórico- gramatical.
O método literal de interpretação é o que dá a cada palavra o mesmo sentido básico e exato que teria no uso costumeiro, normal, cotidiano, empregada de modo escrito, oral ou conceitual. Chama-se método histórico-gramatical para ressaltar o conceito de que o sentido deve ser apurado mediante considerações históricas e gramaticais.
Podem-se apresentar fortes evidências em apoio ao método literal de interpretação. Em defesa da abordagem literal, podemos sustentar que:
Fortes evidências em apoio ao método literal
a) O sentido literal das frases é a abordagem normal em todas as línguas;
b) Todos os sentidos secundários de documentos, parábolas, tipos, alegorias e símbolos dependem, para sua própria existência, do sentido literal prévio dos termos;
c) A maior parte da Bíblia tem sentido satisfatório se interpretada literalmente.
d) A abordagem literalista não elimina cegamente as figuras de linguagem, os símbolos, as alegorias e os tipos; no entanto, se a natureza das frases assim exigir, ela se presta prontamente ao segundo sentido.
e) Esse método é o único freio sadio e seguro para a imaginação do homem.
f) Esse método é o único que se coaduna com a natureza da inspiração. A inspiração completa das Escrituras ensina que o Espírito Santo guiou homens à verdade e os afastou do erro. Nesse processo, o Espírito de Deus usou a linguagem, e as unidades de linguagem (como sentido, não como som) são palavras e pensamentos. O pensamento é o fio que une as palavras. Portanto, nossa própria exegese precisa começar com um estudo de palavras e de gramática, os dois elementos fundamentais de toda linguagem significativa.
Visto que Deus concedeu sua Palavra como revelação ao homem, teria de esperar que sua revelação fosse dada de forma tão exata e específica que seus pensamentos pudessem ser comunicados e entendidos corretamente quando interpretados segundo as leis da linguagem da gramática. Tomada como evidência, essa pressuposição favorece a interpretação literal, pois um método alegórico de interpretação turvaria o sentido da mensagem entregue por Deus ao homem. O fato de que as Escrituras continuamente remetem para interpretações literais e o que foi anteriormente escrito serve de prova adicional quanto ao método a ser empregado para interpretar a Palavra. Talvez uma das evidências mais fortes a favor do método literal seja o uso que o Novo Testamento faz do Antigo. Quando o Antigo Testamento é usado no Novo, só o é em sentido literal. Basta estudar as profecias que foram cumpridas na primeira vinda de Cristo – em sua vida, em seu ministério e em sua morte – para comprovar esse fato. Nem uma profecia sequer, dentre as que se cumpriram plenamente, foi cumprida de outro modo que não o literal. Embora possa ser citada uma profecia no Novo Testamento como prova de que certo acontecimento cumpre de modo parcial uma profecia (como em Mt 2.17,18), ou para mostrar que um acontecimento está em harmonia com o plano preestabelecido de Deus (como em At 15), isso não torna necessário um cumprimento não literal nem nega um cumprimento completo no futuro, pois tais aplicações da profecia não exaurem o seu cumprimento. Portanto, essas referências à profecia não servem de argumentos a favor de um método não literal.
Com base nessas considerações, podemos concluir que há evidências de apoio à validade do método literal de interpretação.
Há certas vantagens neste método que o tornam preferível em relação ao alegórico:
a) Baseia a interpretação em fatos. Procura estabelecer-se sobre dados objetivos – gramática, lógica, etimologia, história, geografia, arqueologia, teologia;
b) Exerce sobre a interpretação um controle semelhante ao que a experiência exerce sobre o método científico; a justificação é o controle das interpretações. Qualquer coisa que não se conforme aos cânones do método literal-cultural-crítico deve ser rejeitada ou vista com suspeita.
Além disso, esse método oferece a única fiscalização fidedigna para a constante ameaça de aplicar uma interpretação de duplo sentido às Escrituras;
c) Tem obtido o maior sucesso na exposição da Palavra de Deus. A exegese não começou a sério até a igreja já ter mais de um milênio e meio de idade. Com o literalismo de Lutero e de Calvino, a luz da Escritura literalmente se acendeu. Esse é o aclamado método da alta tradição escolástica do protestantismo conservador. É o método de Bruce, Lightfoot, Zahn, A. T. Robertson, Ellicott, Machen, Cremer, Terry, Farrar, Lange, Green, Oehler, Schaff, Sampey, Wilson, Moule, Perowne, Henderson Broadus, Stuart — para citar apenas alguns exegetas típicos.
Além dessas vantagens, podemos acrescentar que nos fornece uma autoridade básica por meio da qual interpretações individuais podem ser postas a prova. O método alegórico, que depende da abordagem racionalista do intérprete ou da conformidade a um sistema teológico predeterminado, deixa-nos sem uma verificação autorizada por base. No método literal, uma passagem da Escritura pode ser comparada a outra, pois, como Palavra de Deus, tem autoridade e é o padrão pelo qual toda verdade deve ser testada.
Com respeito a isso, podemos observar que o método nos livra tanto da razão quanto do misticismo como requisitos da interpretação. Não é necessário depender de treinamento ou de capacidade intelectual, nem do desenvolvimento de percepção mística, e sim da compreensão do que está escrito em sentido comumente aceito. Somente sobre esse fundamento o leitor médio pode compreender e interpretar as Escrituras por si mesmo.
Todos reconhecem que a Bíblia está repleta de linguagem figurada. Com base nisso, muitas vezes afirma-se que o uso de linguagem figurada exige interpretação figurada. Figuras de linguagem, no entanto, são usadas como meios de revelar verdades literais. O que é literalmente verdadeiro em determinado campo, com o qual estamos familiarizados, é transposto literalmente para outro campo, com o qual talvez não estejamos tão familiarizados, para nos ensinar alguma verdade nesse campo menos conhecido.
Observar-se-á, assim, que o literalista não nega a existência de linguagem figurada. Ele nega, todavia, que tais figuras devam ser interpretadas de modo que destruam a verdade literal pretendida pelo emprego das figuras. A verdade literal deve ser informada por meio dos símbolos.
Allis aponta três objeções ao método literal de interpretação:
a) A linguagem da Bíblia muitas vezes contém figuras de linguagem. É o caso sobretudo da poesia. Na poesia dos Salmos, no estilo elevado da profecia e mesmo na simples narrativa histórica, surgem figuras de linguagem que obviamente não tinham o propósito de ser entendidas literalmente, e não podem sê-lo;
b) O grande tema da Bíblia é Deus e seus atos redentores para com a humanidade. Deus é Espírito; os ensinos mais preciosos da Bíblia são espirituais, e essas realidades espirituais e celestiais são muitas vezes apresentadas sob a forma de objetos terrenos e relacionamentos humanos;
c) O fato de que o Antigo Testamento é ao mesmo tempo preliminar e preparatório ao Novo Testamento é tão óbvio que dispensa prova. Ao remeter os crentes de Corinto, a título de advertência, aos acontecimentos do Êxodo, o apóstolo Paulo declarou que aquelas coisas lhes haviam sobrevindo como “exemplos” (tipos). Isto é, prefiguravam coisas por vir. Isso confere a muito do que está no Antigo Testamento significância e importância especiais. Tal interpretação reconhece, à luz do cumprimento no Novo Testamento, um sentido mais profundo e muito mais maravilhoso nas palavras de muitas passagens do Antigo Testamento do que aquele que, tomadas em seus antecedentes veterotestamentários, elas parecem possuir.43
Em resposta ao primeiro desses argumentos, é necessário reconhecer o uso bíblico das figuras de linguagem. Como se ressaltou previamente, as figuras de linguagem podem ser usadas para ensinar verdades literais de maneira mais vibrante que as palavras corriqueiras, mas nem por isso exigem interpretação alegórica. Com respeito ao segundo argumento, embora se reconheça que Deus é um ser espiritual, a única maneira pela qual ele poderia revelar a verdade de um reino no qual ainda não entramos seria traçando um paralelo entre esse reino e o reino em que agora vivemos. Por meio da transferência de algo que é literalmente verdadeiro no reino conhecido para o reino desconhecido, este nos será revelado. O fato de Deus ser espiritual não exige interpretação alegórica. É preciso distinguir entre o que é espiritual e o que é espiritualizado. Por fim, com respeito à terceira objeção, embora se reconheça que o Antigo Testamento é preditivo, e que o Novo desenvolve o Antigo, a plenitude não é revelada no Novo por meio da alegorização do que é tipificado no Antigo; é revelada, isto sim, pelo cumprimento literal e pelo desenvolvimento da verdade literal dos tipos. Estes podem ensinar verdade literal, e o uso de tipos no Antigo Testamento não serve de apoio para o método alegórico de interpretação.
Considerações Gerais Sobre a Interpretação da Linguagem Figurada
Considerações Gerais Sobre a Interpretação da Linguagem Figurada
Um grande problema que o intérprete enfrenta é a interpretação da linguagem figurada. Como as passagens proféticas frequentemente usam a linguagem figurada, essa forma de comunicação deve ser estudada com cuidado.
O uso da linguagem figurada
O uso da linguagem figurada
Sabe-se em geral que a linguagem figurada é usada tanto para embelezar uma língua quanto para transmitir ideias abstratas por meio de transferência.
É uma necessidade do intelecto humano que fatos ligados à mente ou à verdade espiritual se revistam de linguagem emprestada de coisas materiais. À palavras exclusivamente espirituais ou abstratas, não podemos impor nenhuma concepção definida.
E Deus se digna a atender a nossa necessidade. Ele nos leva a um novo conhecimento por meio daquilo que já nos é conhecido. Ele se revela de formas já conhecidas.
Quando a linguagem é literal ou figurada?
Quando a linguagem é literal ou figurada?
O primeiro problema que o intérprete enfrenta é saber se a linguagem é literal ou figurada. Então, para entender completamente a linguagem figurada das Escrituras, é requisito, em primeiro lugar, procurar saber o que realmente é figurado, para não considerar literal o que é figurado, o que faziam muitas vezes os discípulos do nosso Senhor e os judeus, e para não perverter o significado literal com uma interpretação figurada; e, em segundo lugar, quando apurarmos o que realmente é figurado, interpretar isso corretamente e apresentar seu sentido verdadeiro.
Uma regra simples para distinguir o literal do figurado é dada por Lockhart, que diz: “Se o significado literal de alguma palavra ou expressão faz sentido em suas associações, é literal; mas, se o significado literal não faz sentido, é figurado.”44
Mais adiante o mesmo autor acrescenta: “Já que o literal é o significado mais comum de uma palavra e ocorre, portanto, mais freqüentemente que o figurado, qualquer termo será conside-rado literal até que haja boa razão para uma compreensão diferente [...] O significado literal e mais comum da palavra, se coerente, deve ser preferido ao significado figurado ou menos comum.”45
Assim, o intérprete procederá com base na pressuposição de que a palavra é literal a menos que haja boa razão para concluir o contrário.
Geralmente será bastante inconfundível quando a linguagem for figurada. Fairbairn diz: “...deve-se notar que, na grande maioria dos casos em que a linguagem é figurada, esse fato aparece na própria natureza da linguagem ou da relação na qual ela se encontra. Outro tipo de passagens em que a metáfora é também, em grande parte, fácil de detectar é quando predomina a chamada sinédoque.”46
O mesmo autor continua anunciando princípios pelos quais podemos saber se uma passagem é literal ou figurada. Ele diz: “O primeiro deles é que a linguagem é figurada quando se diz algo que, considerado ao pé-da-letra, muda a natureza essencial do assunto mencionado. Um segundo princípio aplicável a tais casos é que, se a linguagem considerada literalmente contiver algo incongruente ou moralmente impróprio, o sentido figurado, e não o literal, deve ser o correto. Uma terceira direção pode ser acrescentada: quando ainda temos razão para duvidar se a linguagem é literal ou figurada, devemos procurar solucionar a dúvida consultando passagens paralelas (se houver) que tratem do mesmo assunto em termos mais explícitos ou mais extensos.”47
Para solucionar esse problema, Cellerier escreve: “Essa investigação não pode ser alcançada com sucesso unicamente pela ciência intelectual. Sensatez e boa fé, percepção crítica e imparcialidade também são necessárias. Algumas indicações gerais são tudo o que pode ser dado em relação a isso. a) A priori. É grande a probabilidade de que a linguagem seja figurada nas passagens poéticas ou nos provérbios e também nos discursos oratórios e populares. Em geral essa probabilidade aumenta quando se supõe justamente que o escritor tenha sido induzido pela situação, assunto ou objetivo a fazer uso de tal linguagem. Há uma probabilidade do mesmo tipo, mas muito mais forte, quando a passagem examinada é animada e parece fazer alusão a objetos de outra natureza, b) A posteriori. Há uma probabilidade ainda maior quando o sentido literal seria absurdo [...] Todas essas probabilidades, no entanto, ainda são insuficientes. E necessário examinar a passagem com muito cuidado, de modo crítico, exegético e fiel. O sentido figurado deve ser apoiado por todos esses processos antes de poder ser tomado como a verdadeira interpretação.”48
Cooper formulou uma regra para sabermos quando interpretar literal ou figuradamente. Ele diz: “Quando o sentido normal das Escrituras faz sentido, não busque outro; assim, considere cada palavra em seu significado primário, normal, comum e literal, a não ser que os fatos do contexto imediato, estudado à luz de passagens relacionadas e verdades estabelecidas e fundamentais, indiquem claramente o contrário.”49 Esse pode muito bem tornar-se o axioma do intérprete.
O segundo problema decorrente do uso da linguagem figurada é o método a ser usado para interpretar o figurado. Devemos observar desde o princípio que o propósito da linguagem figurada é oferecer alguma verdade literal, que pode ser transmitida pelo uso de metáforas mais claramente que de qualquer outra maneira. O sentido literal é de maior importância que as palavras literais. Chafer afirma isso: “O sentido literal das palavras empregadas numa metáfora não deve ser entendido como o significado da metáfora, mas sim como o sentido pretendido pelo uso do metáfora. Em todas essas ocorrências há, então, apenas um significado. Em tais casos o literal não é o sentido. Em relação a isso Cellerier diz: ‘A revelação [...] está carregada de formas populares fortemente influenciadas por hábitos do Oriente, ou seja, de formas metafóricas, poéticas e parabólicas que transmitem significado diferente do sentido literal das palavras. Mas mesmo assim não há dois significados, o literal e o metafórico. Apenas o metafórico é o significado real; o literal não existe como significado; ele somente é o veículo do anterior; não contém em si nenhum resultado, nenhuma verdade. Há, portanto, apenas um significado verdadeiro’”50
Horne arrolou uma extensa lista de regras para apurar corretamente o significado implícito de qualquer metáfora:
a) O significado literal das palavras deve ser conservado, mais nos livros históricos das Escrituras que nos poéticos;
b) O significado literal das palavras deve ser desprezado, caso seja impróprio ou implique uma impossibilidade, ou quando palavras, tomadas pelo sentido estrito, contenham algo contrário aos preceitos doutrinários ou morais transmitidos em outras partes das Escrituras;
c) Devemos inquirir em que sentido a coisa comparada e aquilo a que ela é comparada concordam respectivamente, e também em que sentido elas têm alguma afinidade ou semelhança:
a. O significado de uma passagem figurada será conhecido se a semelhança entre as coisas ou os objetos comparados for tão clara que seja percebida imediatamente;
b. Já que, nas metáforas sagradas, certa proposição geralmente é a principal coisa exibida, o significado de uma metáfora será ilustrado pela análise do contexto de uma passagem na qual ela ocorre;
c. O significado de uma expressão figurada geralmente é conhecido com base em sua explicação pelo próprio escritor sagrado;
d. O significado de uma expressão figurada pode ser apurado pela consulta de passagens paralelas, nas quais a mesma coisa é expressa de forma correta e literal, ou na qual a mesma palavra ocorre, e assim o significado pode ser prontamente extraído;
e. Analisar a história;
f. Analisar a conexão da doutrina, assim como o contexto da passagem figurada;
g. Ao especificar o significado transmitido por uma metáfora, a comparação jamais pode ser estendida em demasia, ou a qualquer coisa que não possa ser aplicada corretamente à pessoa ou à coisa representada;
h. Na interpretação das expressões figuradas em geral, e naquelas que ocorrem particularmente nos trechos morais das Escrituras, o significado de tais expressões deve ser regulado por aquelas que são simples e claras.
d) Por último, ao explicar a linguagem figurada das Escrituras, é preciso ter cuidado para não usar a aplicação de códigos modernos, pois os habitantes do Oriente muitas vezes associam a ideias certos atributos expressos de maneira totalmente diversa da que normalmente ocorre a nossa mente.51
Observamos com base nessas regras que os mesmos princípios fundamentais aplicados a qualquer outra linguagem se aplicam também à interpretação da linguagem figurada. O uso da linguagem figurada não exige interpretação não-literal. A mesma sã exegese exigida em outros lugares se faz mister nessa área.
A INTERPRETAÇÃO DA PROFECIA
A INTERPRETAÇÃO DA PROFECIA
Observações Gerais Referentes à Profecia
Observações Gerais Referentes à Profecia
O problema de especial interesse para o estudioso de escatologia é a interpretação das passagens proféticas das Escrituras. Antes de considerar as regras específicas que governam a interpretação de profecias, seria bom traçar certas observações gerais a respeito da natureza da linguagem profética.
As características da profecia
As características da profecia
Algumas características gerais que são marcas inconfundíveis das passagens proféticas das Escrituras nos são fornecidas por Oehler, que resume: “As características das profecias do Antigo Testamento são:
a) Uma vez que a revelação é dada ao profeta sob a forma de intuição, tem-se a impressão de que o futuro é imediatamente presente, completo, ou de que todos os acontecimentos estão em andamento;
b) O fato de que o assunto da profecia é dado em forma intuitiva também é razão pela qual ela sempre vê a concretização desse assunto em certas ocorrências completas em si mesmas; i.e., uma profecia pode aparecer como uma única ocorrência, mas, na verdade, pode haver dois, três ou quatro cumprimentos;
g) Já que o assunto da profecia se apresenta ao leitor como uma série de fatos individuais, pode parecer às vezes que prognósticos individuais se contradizem quando são, na realidade, apenas partes nas quais as ideias reveladas foram separadas, complementando-se mutuamente, e.g., imagens contrastantes do Messias em estados de sofrimento e de glória;
h) O assunto profético está na forma de intuição, o que significa ainda que, no que diz respeito à sua forma, ela está no nível do próprio observador, i.e., o profeta falou da futura glória nos termos de sua própria sociedade e experiência.”52
Von Orelli adiciona o seguinte a essas observações básicas:
a) A profecia pode ser cumprida logo após pronunciada ou em data muito posterior;
b) A profecia é condicionada eticamente, quer dizer, parte de seu cumprimento está condicionada ao comportamento dos receptores. Ela pode até ser revogada;
c) A profecia pode ser cumprida sucessivamente;
d) Não podemos pedantemente exigir que a profecia seja cumprida exatamente como foi dada. (Orelli quer dizer com isso que devemos separar a semente do prognóstico da casca da aparência contemporânea);
e) Muitas profecias, sobretudo as referentes a Cristo, são literalmente cumpridas.A forma e o caráter da profecia são condicionados pela época e pela localização do escritor;
f) As profecias frequentemente formam partes de um todo e, assim, devem ser comparadas com outras profecias;
g) O profeta vê juntos fatos que são amplamente separados no cumprimento.53
O elemento cronológico da profecia
O elemento cronológico da profecia
Devemos observar que o elemento tempo desempenha papel relativamente pequeno na profecia. Angus e Green resumiram os relacionamentos assim: “No que diz respeito à linguagem da profecia, especialmente no seu significado quanto ao futuro, deve-se observar o seguinte:
i) Os profetas frequentemente falam de coisas que pertencem ao futuro como se fossem presentes a seus olhos (Is 9.6);
j) Eles falam de coisas futuras como se fossem passadas (Is 53);
k) Quando o tempo exato de certos acontecimentos não era revelado, os profetas os apresentavam como contínuos. Viam o futuro mais propriamente no espaço que no tempo; o todo, então, aparece em perspectiva reduzida; e é levada em conta a perspectiva, e não a distância real. Eles parecem, muitas vezes, falar de coisas futuras como um leigo observaria as estrelas, agrupando- as da maneira que aparecem, e não de acordo com suas verdadeiras posições.”54
A lei da dupla referência
A lei da dupla referência
Poucas leis são mais importantes de observar na interpretação das Escrituras proféticas do que a lei da dupla referência. Dois acontecimentos, muito distantes no que diz respeito à época de cumprimento, podem ser unidos no escopo de uma profecia. Isso acontecia porque o profeta tinha uma mensagem para sua própria época e outra para o futuro. Reunindo dois acontecimentos muitos distantes dentro do escopo da profecia, ambos os propósitos podiam cumprir-se. Horne diz: “As mesmas profecias muitas vezes têm sentido duplo e referem-se a diferentes acontecimentos, um próximo, outro remoto; um secular, outro espiritual ou talvez eterno. Uma vez que os profetas tinham em mente vários acontecimentos, suas expressões podem ser parcialmente aplicáveis a um e parcialmente a outro, e nem sempre é fácil fazer as transições. O que não foi cumprido inicialmente deve ser aplicado ao segundo; o que já foi cumprido, muitas vezes pode ser considerado típico do que resta a ser realizado.”55
Era propósito de Deus dar a visão próxima e distante, para que o cumprimento de uma garantisse o cumprimento da outra.
Profecias condicionais
Profecias condicionais
Allis citou que “...pode haver uma condição numa ordem ou promessa sem ser especificamente declarada. Exemplo disso é a carreira de Jonas.”56
Com base na mensagem de Jonas, muitas vezes se sabe que existem condições ocultas ligadas a cada profecia, as quais podem ser a base do não-cumprimento. Em resposta a tal afirmação, Horne declara: “As previsões que denunciam julgamentos por vir não falam, em si mesmas, da futuridade absoluta do acontecimento, mas apenas declaram o que deve ser esperado quanto às pessoas às quais se referem, e declaram também o que certamente se dará a não ser que Deus, na sua misericórdia, intervenha entre a ameaça e o acontecimento.”57
Girdlestone versa longamente sobre a questão das profecias condicionais. Ele diz: “Dentre os pontos relacionados à natureza e ao cumprimento da profecia, poucos exigem mais atenção do que este – que algumas previsões são condicionais, enquanto outras são absolutas. Muitas declarações das Escrituras (e.g., Lv 26) apresentam perspectivas alternativas [...] Todavia, a natureza condicional de uma previsão nem sempre está evidentemente declarada nas Escrituras. Nesse caso, dizemos que Jonas pregou que dentro de quarenta dias Nínive seria destruída; as pessoas arrependeram-se com a pregação, e Nínive não foi destruída; porém, segundo se sabe, as pessoas não foram avisadas de que, caso se arrependessem, escapariam do juízo. Previsões desse tipo são tão numerosas, que nós concluímos a possível existência de algumas condições não-expressas, porém básicas, em todos os casos, para justificar que Deus se desviasse do cumprimento literal do pronunciamento profético. Qual seja essa condição pode ser inferido de capítulos como Jeremias 18 e Ezequiel 33. Depois de Jeremias ter assistido ao oleiro em seu trabalho e aprendido a grande lição da Soberania de Deus, uma mensagem adicional foi apresentada: ‘No momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino para o arrancar, derribar e destruir, se a tal nação se converter da maldade contra a qual eu falei, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. E, no momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino, para o edificar e plantar, se ela fizer o que é mal perante mim e não der ouvidos à minha voz, então, me arrependerei do bem que houvera dito lhe faria’ (Jr 18.7-10). Agindo com base nesse princípio, Jeremias consequentemente fala aos príncipes, sacerdotes e profetas que o queriam ver morto: ‘Falou Jeremias a todos os príncipes e a todo o povo, dizendo: O Senhor me enviou a profetizar contra esta casa e contra esta cidade todas as palavras que ouvistes. Agora, pois, emendai os vossos caminhos e as vossas ações e ouvi a voz do Senhor, vosso Deus; então, se arrependerá o Senhor do mal que falou contra vós outros’ (Jr 26.12,13). Se as pessoas se arrependessem, em certo sentido o Senhor se arrependeria. E com base em quê? Com base nos atributos originais, essenciais e eternos da natureza divina, e com base nas antigas promessas e alianças que Deus havia firmado com os patriarcas em decorrência desses atributos.”58
Embora Girdlestone reconheça que as profecias de julgamento podem ser condicionadas pelo arrependimento e, de acordo com a maneira com que Deus lida universalmente com o pecado e com o pecador, o juízo pode ser evitado se o pecador se voltar a Deus, ele não quer dizer que possam, ser atribuídas condições a outras classes de profecias para as quais nenhuma condição tenha sido declarada. Ele se protege contra essa conclusão infundada acrescentando: “Poderíamos dizer que todas as expressões proféticas são condicionais? De modo algum. Existem algumas coisas sobre as quais ‘o Senhor jurou e não se arrependerá’ (Sl 110.4) [...] Essas promessas irreversíveis não dependem da bondade do homem, mas de Deus. São absolutas no seu cumprimento, mesmo tendo sido condicionais quanto à hora e ao lugar de seu cumprimento [...] Tempos e estações podem ser mudados, dias podem ser abreviados, acontecimentos podem ser acelerados ou atrasados, indivíduos e nações podem inserir-se no escopo da profecia ou ser postos de lado; mas os acontecimentos em si são ordenados e certos, selados com o juramento de Deus, todos garantidos pela sua própria vida.”59
O relacionamento entre os aspectos condicionais e incondicionais da profecia foi observado por Peters, que comenta: “As profecias relacionadas ao estabelecimento do reino de Deus são ao mesmo tempo condicionais e incondicionais. Por esse paradoxo quero dizer simplesmente que elas são condicionadas no seu cumprimento pelo agrupamento antecedente dos eleitos, e por isso suscetíveis de adiamento [...] e são incondicionais no que diz respeito ao seu cumprimento final, que a conduta ou ação de um homem não pode reverter [...] O próprio reino pertence ao Propósito Divino, é o assunto de alianças sagradas, é confirmado por juramentos solenes, será o resultado ou fim projetado no processo de redenção e, logo, não pode falhar e não falhará. Os herdeiros do reino, contudo, são condicionados – um número de pessoas conhecido apenas por Deus – e o próprio reino, apesar de predeterminado [...], é dependente [...], na sua manifestação, de que esse número seja completado...”60
Podemos então concluir que, embora a profecia que depende da atividade humana possa ser condicional, o que depende de Deus não pode ser condicional, a menos que as condições sejam nitidamente declaradas. Profecias baseadas em alianças imutáveis não podem admitir a inserção de nenhuma condição. Desse modo, não há justificativa para supor quaisquer condições para o cumprimento da profecia.
Métodos de Revelação Profética
Métodos de Revelação Profética
Além do pronunciamento profético direto, acontecimentos futuros são revelados por meio de tipos, símbolos, parábolas, sonhos e êxtase profético. Como há problemas que acompanham a interpretação dessas revelações proféticas, é preciso dar atenção a cada um deles antes de considerar o problema da interpretação da profecia como um todo, pois não haverá entendimento da profecia sem que se compreendam os seus canais. O estudioso deve então familiarizar-se com a linguagem profética – suas figuras e seus símbolos, bem como seu método de comunicação. Terry diz: “A interpretação completa das passagens proféticas das Escrituras Sagradas depende principalmente do domínio dos princípios e das leis da linguagem figurada, e dos tipos e símbolos. Também requer algum conhecimento da natureza dos êxtases e dos sonhos visionários.”61
Revelação profética por meio de tipos
Revelação profética por meio de tipos
Terry oferece uma boa definição sumariada de tipo quando diz: “Na ciência teológica significa estritamente a relação representativa preordenada que certas pessoas, acontecimentos e instituições do Antigo Testamento têm com pessoas, acontecimentos e instituições correspondentes do Novo.” 62
Fritsch não somente define o tipo cuidadosamente, mas também oferece grande ajuda na distinção entre tipo e alegoria. Ele escreve: “A definição que proponho para a palavra ‘tipo’ em seu sentido teológico é a seguinte: Tipo é uma instituição, acontecimento ou pessoa histórica, ordenada por Deus, que prefigura inequivocamente algumas verdades ligadas ao cristianismo [...] Em primeiro lugar, ao definir o tipo como instituição, acontecimento ou pessoa histórica, estamos frisando que o tipo deve ser significativo e real em si mesmo [...] Nesse aspecto o tipo se diferencia da alegoria [...] Pois uma alegoria é uma narração fictícia ou, para falar menos abruptamente, numa alegoria a verdade histórica da narrativa tratada pode ou não ser aceita, ao passo que, na tipologia, o cumprimento de um antítipo só pode ser entendido à luz da realidade do tipo original. Em segundo lugar, deve haver uma conexão divinamente inspirada entre o tipo e o antítipo. Como o bispo Westcott diz: ‘O tipo pressupõe um propósito na história, forjado de época em época. A alegoria depende, em última análise, da imaginação...’. Em terceiro lugar, o tipo não é apenas real e válido por si só; é eficaz em seu contexto imediato. Ele só pode prefigurar efetivamente o antítipo porque contém inerente em si mesmo pelo menos algo da eficácia que será completamente realizada no antítipo [...] Em quarto lugar, a característica mais importante do tipo, como se viu acima, é o fato de que ele prediz algumas verdades ligadas ao Cristianismo ou ao próprio Cristo [...] Tipologia difere de profecia, no sentido estrito do termo, somente quanto aos meios de predição. A profecia prediz principalmente por meio da palavra, ao passo que a tipologia prediz por meio de instituições, atos ou pessoas. [...] É muito importante fazer a distinção [...] entre tipo e alegoria, pois na igreja primitiva o método alegórico de interpretação embaçou o verdadeiro significado do Antigo Testamento a tal ponto que era impossível existir uma tipologia legítima. De acordo com esse método o sentido literal e histórico das Escrituras é completamente desprezado, e toda palavra e acontecimento é transformado em um tipo de alegoria, seja para escapar às dificuldades teológicas, seja para sustentar certas visões religiosas estranhas...”63
Sem dúvida a incapacidade ou a falta de disposição de observar essa última distinção tem levado alguns a sentir que o uso de tipos nas Escrituras justifica o método de interpretação alegórica. Pela própria natureza, o tipo é essencialmente profético em caráter.
Na interpretação de profecias reveladas por meio de tipos, é importante observar que as mesmas máximas hermenêuticas previamente estabelecidas são aplicadas também aqui. Angus e Green fornecem um resumo satisfatório, quando dizem:
“Na interpretação de todos esses tipos e da história nas suas alusões secundárias ou espirituais, usamos as mesmas regras empregadas na interpretação de parábolas e de alegorias propriamente ditas: comparar a história ou o tipo com a verdade em geral, que tanto o tipo e antítipo incorporam; esperar concordâncias em várias particularidades, mas não em todas; e deixar a interpretação de cada parte harmonizar com a estrutura do todo e com a revelação clara da doutrina divina dada em outras partes do volume sagrado.
Cuidados. [...] Ao aplicar essas regras, é importante lembrar que os escritores inspirados nunca destruíram o sentido histórico das Escrituras para estabelecer o espiritual; tampouco encontraram um sentido oculto nas palavras, mas apenas nos fatos de cada passagem; um sentido que é fácil, natural e bíblico; e que eles se confinaram a exposições que ilustravam alguma verdade de importância prática ou espiritual.”64
Revelação profética por meio de símbolos
Revelação profética por meio de símbolos
O segundo método de revelação profética se dá por intermédio de símbolos. Ramm, seguindo um padrão geralmente aceito, diz que pode haver seis tipos de símbolos de caráter profético: “pessoas, instituições, ofícios, acontecimentos, ações e coisas.”65
Bahr propõe as seguintes regras para guiar a interpretação de tais símbolos:
l) O significado de um símbolo deve ser apurado em primeiro lugar pelo conhecimento exato de sua natureza;
m) Os símbolos do culto mosaico podem ter, em geral, apenas significados que concordem com ideias e verdades do mosaísmo e com seus princípios claramente expressos e reconhecidos;
n) O significado de cada símbolo deve ser buscado, primeiramente, no seu nome;
o) Cada símbolo tem, geralmente, apenas um significado;
p) Por mais diferente que seja a conexão que possa ter, cada símbolo tem sempre o mesmo significado fundamental;
q) Em cada símbolo, seja objeto, seja ação, a principal ideia a ser simbolizada deve ser cuidadosamente distinguida do que serve necessariamente apenas para sua devida exibição, e tem, com isso, um propósito secundário.”66
Existe uma observação que parece ter sido negligenciada por muitos estudiosos da interpretação de profecias – o fato de que as Escrituras interpretam seus próprios símbolos. Feinberg diz: “...algumas profecias nos são comunicadas por meio de linguagem simbólica. Mas, sempre que for o caso, os símbolos são explicados no contexto imediato, no livro em que ocorrem ou em outro lugar da Palavra, sem deixar espaço para a imaginação do homem inventar explicações.”67
Sendo isso verdade, diligência em investigar a Palavra é o preço da exegese precisa de passagens simbólicas das Escrituras.
Revelação profética por meio de parábolas
Revelação profética por meio de parábolas
Um terceiro método de revelar acontecimentos futuros é o uso do método parabólico de instrução. A parábola, segundo Angus e Green, “denota uma narrativa construída com a finalidade de comunicar verdades importantes...”68 O Senhor Jesus fez uso frequente desse método como canal de revelação profética. Desse modo, a interpretação de parábolas é de extrema importância.
Ramm expôs sucintamente as regras para a interpretação de parábolas:
r) Descubra a natureza e os detalhes exatos de costumes, práticas e elementos que formam a parte material ou natural da parábola [...];
s) Descubra a verdade central que a parábola está tentando ensinar;
t) Descubra quanto da parábola é interpretada pelo próprio Senhor Jesus [...];
u) Descubra se existe alguma pista no contexto a respeito do sentido da parábola [...];
v) Não force o sentido da parábola [...];
w) Tenha cuidado com o uso doutrinário da parábola [...];
x) Um claro entendimento da época para o qual muitas das parábolas foram enunciadas é necessário para sua total interpretação.69
Quando lidamos com parábolas, é de extrema importância separar o que é essencial do que é apenas auxiliar no tema. Se isso não for feito, uma tônica indevida poderá ser dispensada à parábola, levando a conclusões erradas.
Revelação profética por meio de sonhos e êxtases
Revelação profética por meio de sonhos e êxtases
Nos períodos iniciais, a revelação profética era muitas vezes dada por meio de sonhos e transes extáticos. Terry, a respeito dessa fase de revelação profética, escreve: “Sonhos, visões noturnas e estados de êxtase espiritual são mencionados como formas e condições sob as quais homens receberam tais revelações. Em Números 12.6, está escrito: ‘Então, disse: Ouvi, agora, as minhas palavras; se entre vós há profeta, eu, o SENHOR, em visão a ele, me faço conhecer, ou falo com ele em sonhos.’ [...] O sonho tem importante destaque dentre as formas primitivas de recepção de revelações divinas, mas torna-se menos frequente num período posterior. Os exemplos mais extraordinários registrados nas Escritura são os de Abimeleque (Gn 20.3-7), Jacó em Betel (28.12), Labão no monte Gileade (31.24), José a respeito das espigas e dos astros (37.5-10), os midianitas (Jz 7.13-15), Salomão (1 Rs 3.5 e 9.2), Nabucodonosor (Dn 2 e 4), Daniel (Dn 7.1), José (Mt 1.20; 2.13,19), os magos vindos do leste (Mt 2.12). As ‘visões noturnas’ parecem ter sido essencialmente da mesma natureza que os sonhos (cf. Dn 2.19, 7.1; At 16.9, 18.9 e 27.23). [...] Mas sonhos, observamos, eram na verdade formas mais primitivas e inferiores de revelação divina. Uma forma maior era a do êxtase profético, na qual o espírito do visionário ficava possuído pelo Espírito de Deus e, conquanto mantivesse sua consciência e a capacidade humana de se emocionar, era enlevado em visões do Onipotente e ficava a par de palavras e coisas que nenhum mortal seria capaz de distinguir naturalmente. [...] O êxtase profético [...] era evidentemente uma visão espiritual, uma iluminação sobrenatural, na qual o olho natural ou estava fechado [...] ou tinha suspensas as suas funções naturais, e os sentidos internos absorviam ativamente a cena apresentada, ou a palavra revelada.”70
A interpretação de profecias dadas por meio de sonhos ou de êxtase profético não apresentará problemas
especiais de interpretação. Embora o método de revelação fosse singular, o que era comunicado não diferia da profecia citada em linguagem clara. Em tal revelação, o método, não as palavras, se diferenciava, e assim elas podem ser interpretadas sem mais problemas.
Regras para a Interpretação da Profecia
Regras para a Interpretação da Profecia
A última seção tratou dos problemas relacionados à interpretação de profecias, decorrentes da natureza da linguagem em causa. A atenção agora será dirigida para a discussão de princípios gerais da interpretação de profecias, nas quais o que é profetizado é claramente entendido.
A interpretação de profecias exige atenção às mesmas considerações a respeito de palavras, contexto, gramática e situações históricas, que são os princípios aceitos a respeito de qualquer campo de interpre- tação. Terry diz o seguinte: “...será visto que, enquanto apreciamos devidamente as peculiaridades das profecias, devemos, todavia, empregar em sua interpretação essencialmente os mesmos grandes princípios usados na interpretação de outras escrituras antigas. Primeiramente, devemos verificar a posição histórica do profeta; em seguida, o escopo e plano de seu livro; depois o uso e significado de suas palavras e símbolos; e, finalmente, devemos proceder a ampla e crítica comparação das passagens paralelas das Escrituras.”71
Não faltam listas de regras para a interpretação da profecia. Talvez as sugeridas por Ramm sejam as mais úteis:
a) Verificar os antecedentes históricos dos profetas e da profecia;
b) Descobrir o sentido e o significado especial dos nomes próprios, acontecimentos, referências geográficas, referências aos costumes ou à cultura material e referências à flora e à fauna;
c) Descobrir se o trecho é preditivo ou didático;
d) Se for preditivo, verificar se foi cumprido, não cumprido ou condicional;
e) Descobrir se o mesmo tema ou conceito também é tratado em outro lugar;
f) Como lembrete, mantenha vivo em sua mente o fluxo da passagem, i.e., preste atenção ao contexto;
g) Observe qual elemento da profecia é puramente local e temporal;
h) Tome a interpretação literal da profecia como guia limitador da interpretação profética.72
Interprete literalmente
Interprete literalmente
A consideração primordial em relação à interpretação profética talvez seja que, como todas as outras áreas de interpretação bíblica, ela deve ser interpretada literalmente. Independentemente da forma pela qual a revelação profética é dada, por meio dessa forma algumas verdades literais são reveladas. É problema do intérprete descobrir o que é verdadeiro.
O motivo pelo qual um método não-literal de interpretação é adotado é, quase sem exceção, o desejo de evitar as interpretações óbvias do trecho. O desejo de harmonizar os ensinamentos das Escrituras com alguns sistemas de doutrinas predeterminados, em vez de pôr a doutrina em harmonia com as Escrituras, tem mantido o método vivo.
Sem dúvida, a maior confirmação do método literal de interpretação vem da observação do método que Deus empregou para cumprir as profecias já cumpridas.
De nossa posição privilegiada no tempo, a profecia é dividida no que foi cumprido e no que permanece sem cumprimento. Do ponto de vista de Deus, a profecia é uma unidade indivisível pelo tempo. Como unidade, consequentemente indivisível, o método usado nas profecias que estão sendo cumpridas agora também será o método usado para as profecias que aguardam cumprimento futuro. No campo de profecias cumpridas não é possível apontar nenhuma profecia que tenha sido cumprida de outra maneira que não a literal. O Novo Testamento não conhece nenhum outro método de cumprimento do Antigo. Deus tem, dessa maneira, estabelecido seu divino princípio.
A conclusão deve ser que o método literal de cumprimento do Novo Testamento estabelece o método literal como o método de Deus no que diz respeito a profecias ainda não cumpridas.
Interprete conforme a harmonia da profecia
Interprete conforme a harmonia da profecia
A segunda regra encontra-se em 2Pedro 1.20-21, em que o autor afirma que nenhuma profecia provém de “particular elucidação”. A profecia deve ser interpretada em harmonia com todo o plano profético. Isso exige estudo cuidadoso não apenas dos temas genéricos da profecia, mas também de todas as passagens relacionadas a qualquer tema, a fim de que se alcance uma visão harmônica, já que uma predição muitas vezes iluminará outra.
Observe a perspectiva da profecia
Observe a perspectiva da profecia
Acontecimentos que possuem algum relacionamento mútuo e fazem parte de um plano ou um acontecimento que tipifica outro de modo que haja dupla referência podem ser reunidos numa profecia, apesar de muito distantes em seu cumprimento. A não-observação desse princípio resultará em confusão.
Observe os relacionamentos de tempo
Observe os relacionamentos de tempo
Como já dissemos, acontecimentos muito distantes na época de seu cumprimento podem ser tratados dentro de uma única profecia. É o caso sobretudo das profecias a respeito de Cristo, em que acontecimentos do primeiro e do segundo advento são mencionados conjuntamente como se ocorressem ao mesmo tempo. Da mesma maneira, a segunda e a terceira dispersão dos judeus são previstas na profecia como se acontecessem sem interrupções.
É importante observar que o profeta pode contemplar acontecimentos muito separados como contínuos, ou coisas futuras como passado ou presente.
Interprete cristologicamente
Interprete cristologicamente
O tema central de todas as profecias é o Senhor Jesus Cristo. Sua pessoa e suas obras são o grande tema da história profética. Pedro escreveu: “Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada, investigando, atentamente, qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo e sobre as glórias que os seguiriam” (1Pe 1.10-11). João escreve: “... o testemunho de Jesus é o espírito da profecia” (Ap 19.10). Ambos ressaltam essa verdade.
Interprete historicamente
Interprete historicamente
Quase não precisamos destacar que, antes de interpretar, devemos conhecer o contexto histórico do profeta e da profecia. Esse contexto histórico compreenderá o significado completo dos costumes ou da cultura material e referências à flora e à fauna.
Interprete gramaticalmente
Interprete gramaticalmente
Já foi dito o suficiente, de modo que aqui só é preciso lembrar ao intérprete de profecias que as regras estritas que governam a interpretação gramatical devem ser aplicadas a esse campo de estudos com o mesmo cuidado.
Interprete de acordo com a lei da dupla referência
Interprete de acordo com a lei da dupla referência
É suficiente lembrar que muitas vezes uma profecia pode abranger uma visão próxima e outra distante. Dessas, a visão próxima já pode ter sido cumprida, enquanto a visão distante espera cumprimento; ou ambas podem estar na esfera de profecias cumpridas. Mais uma vez, pode ter ocorrido dupla referência a dois acontecimentos de características similares, ambos no futuro distante. O fato de que apenas parte de uma profecia foi cumprida não apoia um método figurado ou não-literal de cumprimento desta parte não- realizada; tal cumprimento parcial promete, isto sim, um futuro cumprimento completo e literal.
Interprete coerentemente
Interprete coerentemente
É impossível misturar os métodos de interpretação no campo da profecia. Um método deve ser adotado e usado do começo ao fim. Podemos declarar seguramente que o problema de interpretação de profecias é um problema de perseverança. À medida que não perseveramos na aplicação de princípios hermenêuticos, erramos em nossas conclusões e interpretações. A observação dessas regras de interpretação profética levará o estudioso de profecias a uma interpretação correta das Escrituras.
