Compromisso com Deus
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6 Porque eu, o Senhor, não mudo; por isso, vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos. 7 Desde os dias de vossos pais, vos desviastes dos meus estatutos e não os guardastes; tornai-vos para mim, e eu me tornarei para vós outros, diz o Senhor dos Exércitos; mas vós dizeis: Em que havemos de tornar? 8 Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. 9 Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, vós, a nação toda. 10 Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida. 11 Por vossa causa, repreenderei o devorador, para que não vos consuma o fruto da terra; a vossa vide no campo não será estéril, diz o Senhor dos Exércitos. 12 Todas as nações vos chamarão felizes, porque vós sereis uma terra deleitosa, diz o Senhor dos Exércitos.
Meus irmãos, essa passagem é bem conhecida e é principalmente usada para tratar da questão dos dízimos e ofertas. E justamente por isso, é muitas vezes evitada. Muitas vezes evitamos tratar desse assunto dos dízimos por causa dos abusos que sabemos que existem por aí. Acabamos que ficamos um tanto acanhados para falar sobre a contribuição que é devida a Deus. Mas não podemos nos esquivar desse assunto. Ele é necessário. E a razão pela qual esse assunto é necessário é que ele envolve uma questão espiritual mais profunda.
Contudo, esse texto que lemos não é apenas sobre dízimos e ofertas. Na verdade, esse texto trata a respeito de algo mais abrangente. Ele fala do compromisso que devemos a Deus. Vamos olhar um pouco para o contexto de Malaquias. Aqui estamos no período pós-exílico. Isto é, depois que os judeus retornaram da Babilônia a Judá e reconstruíram Jerusalém. Estamos no período de Esdras e Neemias. E nesse tempo, uma vez que os muros foram reconstruídos e o templo começou a ser refeito, as dificuldades econômicas e a perseguição política veio e o povo desanimou.
Com o tempo, o povo caiu nos mesmos padrões de pecado e negligência de seus pais, que os levou para o exílio. E o que agravava tudo isso era o fato de que o pov já não mais via no templo aquela mesma presença do Senhor que nos tempos antigos. E a dificuldade financeira do povo se agravava cada vez mais. As colheitas eram escassas. Os recursos eram limitados. E o povo, em resposta a isso, se dedicava cada vez menos no trabalho do Senhor. Foi nesse contexto que profetas como Ageu, Malaquias e Zacarias se levantaram para exortar o povo a se dedicar mais uma vez ao trabalho do Senhor, lembrando-os do juízo e das promessas de Deus.
Malaquias faz no seu livro diversas acusações contra o povo de Deus. Ele repreende os sacerdotes pela falta de zelo com o culto (1.6-2.9). Ele repreende o povo por causa do divórcio e do casamento misto (2.10-16). Ele anuncia que se as coisas continuarem assim, o juízo de Deus certamente virá (2.17-3.5). E agora, ele fala de mais uma razão pela qual esse juízo vem, e por onde aquele povo deveria começar o seu arrependimento: o problema era a falta de compromisso com Deus. O povo não priorizava as coisas de Deus, não lhe dava o que lhe era devido. E isso era evidenciado no roubo dos dízimos.
Hoje eu quero falar com você sobre compromisso com Deus. O que significa ter comprometimento, com as coisas de Deus? Há três coisas a observar aqui.
Comprometimento é uma questão de fidelidade (v. 6-7)
Comprometimento é uma questão de fidelidade (v. 6-7)
Em primeiro lugar, comprometimento é uma questão de fidelidade. Se Deus salvou você em Cristo, se Deus fez uma aliança com você, o mínimo que você deve a ele é fidelidade. E essa fidelidade se manifesta em compromisso com as coisas de Deus.
Vejamos o texto. Aqui temos uma profecia, na qual o profeta Malaquias é um porta-voz de Deus. Na verdade, é o Senhor que está falando com o seu povo. E ele começa com um "porque". Deus está explicando o porquê, a razão, daquilo que ele disse logo antes. Nos versículos anteriores, Deus promete que irá julgar seu povo e trazer o seu mensageiro para purificar o seu povo. Por que esse povo precisa ser julgado? De que ele precisa ser purificado? O Senhor dirá o porquê.
Deus diz: "Eu, o SENHOR, não mudo". Essa é uma tremenda afirmação daquilo que chamamos de "imutabilidade de Deus". Isto é, Deus não muda. Ele é o mesmo ontem, hoje e sempre. Ele não é movido por paixões e impulsos. Ele sempre mantém suas promessas e seu decreto. E essa imutabilidade de Deus é especialmente notória no fato de que ele permaneceu fiel à aliança, às promessas que fez ao seu povo.
O Senhor prometeu cuidar daquele povo de Judá. Ele prometeu que iria protegê-los, e iria por meio daquele povo trazer a sua redenção. E ele eventualmente cumpre isso em Jesus Cristo. E o Senhor manteve essa aliança, foi fiel às suas promessas, mesmo quando o povo era infiel. Por isso ele diz: "por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos". A única razão daquele povo não ter sido destruído é que Deus não volta atrás em seus propósitos. Deus permaneceria fiel, ele cumpre a sua palavra, mesmo quando o seu povo persiste em seu pecado.
Mas o que esse povo fez, que o torna merecedor de total destruição? O Senhor continua dizendo que eles permanecem nos mesmos pecados de seus pais. Olhe para a história do povo de Israel. É uma história que revela o amor de Deus e a ingratidão e infidelidade de seu povo. O Senhor tinha acabado de livrá-los do Egito, mas foi só Moisés se ausentar por breve tempo que construíram o bezerro de ouro.
E esse padrão se repete. Deus os sustentou. Deus os livrou dos inimigos. Deus lhes deu vitória. Mas o povo quis um rei segundo o seu coração, o rei Saul. E a maioria dos reis apostatou, um após o outro. E o povo se meteu com idolatria, com adoração a Baal e adivinhação. E os reis também idolatravam e confiavam nos reis das nações vizinhas. Progressivamente, abandonaram a Deus. Até que um dia o cálice da ira de Deus transbordou, e o Senhor destruiu Israel por meio da Assíria, e permitiu que Judá fosse levada cativa pela Babilônia. Deus disciplinou o seu povo para, quem sabe assim, eles se arrependerem e serem purificados.
E o povo retorna à Jerusalém 70 anos depois, e pensamos que talvez agora as coisas sejam diferentes. O povo começa a reconstrução, mas em pouco tempo as dificuldades impostas pelo reinado persa leva o povo mais uma vez ao padrão de pecado. Eles abandonam o serviço a Deus e priorizam a construção de suas próprias casas, como denuncia o profeta Ageu (Ag 1.1-9). Eles casam-se com pessoas que adoram outros deuses e se metem mais uma vez com idolatria. Eles fazem igualzinho a seus pais, como se não tivessem aprendido nenhuma lição.
É como se Deus dissesse assim ao povo: "Eu não mudo, e vocês também não. Eu, o Senhor, permaneço fiel, e vocês permanecem infiéis e desobedientes". Deus deu leis a seu povo que foram simplesmente ignoradas. Havia leis que diziam que nenhum israelita poderia escravizar seu irmão conterrâneo. Contudo, os profetas denunciam que eles ainda assim o faziam. Também havia o ano do jubileu: a cada 50 anos todas as dívidas deveriam ser perdoadas e as terras devolvidas a seus donos originais. Contudo, não há registro de que os judeus tenham cumprido tal lei uma única vez, mesmo após o exílio. Eles repetiam o mesmo padrão pecaminoso de seus pais.
Ainda assim, o Senhor permanece fiel. Ele reafirma a sua promessa. Ele promete abençoar o seu povo se ele se arrepender e se voltar em direção a ele. Há algo interessante aqui quando olhamos na língua original. O verbo aqui traduzido como "tornai-vos" é o mesmo que o Senhor usa quando diz: "não mudo". O Senhor está dizendo: eu não mudo, continuo fiel. Vocês não mudaram, continuam infiéis. Mudem! Voltem de seus maus caminhos! Arrependam-se de seu pecado e voltem-se a mim!
E o que implica esse "voltar"? É arrepender-se de seus pecados. É reconhecer seus maus caminhos. E esse arrependimento era o pré-requisito para que o povo passasse por uma completa restauração (Jr 4.1-2).
1 Se voltares, ó Israel, diz o Senhor, volta para mim; se removeres as tuas abominações de diante de mim, não mais andarás vagueando; 2 se jurares pela vida do Senhor, em verdade, em juízo e em justiça, então, nele serão benditas as nações e nele se glorificarão.
O problema é que Israel, mesmo que tenha voltado a Jerusalém, não voltou-se ao Senhor, e por isso a sua restauração não era completa. É por isso que a glória do Senhor não havia voltado ao templo. É por isso que as bênçãos sem medida que o Senhor havia prometido a seu povo ainda não estava se cumprindo na vida deles. Porque eles não cumpriram o seu dever, que é de voltar-se para Deus e tê-lo como prioridade em sua vida. Eles serviam ao Senhor pela metade.
Pense naquela pessoa que dedica o domingo ao Senhor, mas apenas a metade. O restante do domingo pertence ao futebol.
Ou aquele que diz obedecer ao Senhor, mas só quando lhe é conveniente. Ou que alega que está disposto a servir ao Senhor, mas só quando isso lhe traz algum reconhecimento e nenhuma dificuldade.
Ou que irá adorar ao Senhor, mas apenas quando não estiver trabalhando, estudando ou dormindo.
Vou ler a Bíblia, mas só se não for muito chato ou difícil. Vou orar, mas só se o sono não me vencer.
Vou amar minha esposa, meu marido, mas só se isso não me exigir nenhum sacrifício.
Vou contribuir com os dízimos e ofertas, mas só se o dinheiro sobrar.
Meus irmãos, isso é compromisso pela metade
Imagina o que acontece se lá no seu trabalho você oferecer apenas esse nível de compromisso. Certamente você será mandado embora.
Se na escola você se dedicar apenas nesse nível, com certeza será reprovado.
Mas por que com Deus nós consideramos tolerável ser assim?
Então agora aparece a voz dos israelitas dizendo: "Em que havemos de tornar?". Malaquias usa um recurso retórico, no qual ele antevê qual será a pergunta ou a desculpa daquele que é acusado. E aqui os israelitas não conseguem enxergar seu verdadeiro estado espiritual, a sua frouxidão e falta de compromisso.
E isso é interessante porque normalmente aquele que serve pela metade não percebe a sua própria frouxidão.
Você o confronta e ele responde: "Mas eu vou nos cultos, mas eu creio em Deus, mas eu ajudo nas coisas da igreja".
Certamente um israelita diria coisas assim: "Eu levo muito a sério as coisas de Deus. Eu sou um fiel israelita. Me mostra, onde é que eu estou errando?"
Meus irmãos, o que vemos aqui é que compromisso é questão de fidelidade. O Senhor Deus fez uma aliança com seu povo. É uma aliança de graça. Ele oferece vida eterna a todo aquele que crê em Jesus. Ele promete cuidar e sustentar o seu povo, promete equipá-lo para que viva em santidade para ele, e promete dar-lhe a ressurreição para a vida. Basta crer em Jesus e você se apropriará de tais promessas.
Essa é a aliança que Deus faz com você, se você crê no Senhor Jesus. E ele é fiel a essa aliança. Ele cumpre suas promessas. Ele as cumpriu no passado. Ele enviou Jesus, cumprindo as promessas de restauração dos profetas do Antigo Testamento. E ele cumprirá as promessas futuras. Deus é imutável e é fiel, ele cumpre as suas promessas.
Mas e nós? Diante de tal amor, graça, misericórdia, fidelidade, como podemos servi-lo pela metade? Como posso dizer ao meu Deus: ó Senhor, tu nos destes o teu bem mais precioso, teu filho Jesus Cristo. Em resposta a isso, te darei a metade do meu domingo, isso quando não tiver jogo. Como posso responder com tamanha ingratidão e infidelidade?
Então pense nisso, caso você não esteja com vontade de dedicar seu tempo, seu dinheiro, sua vida a Deus. Eu poderia dizer a você que você deveria fazer isso por simples obediência, e seria verdade. Mas você já sabe disso. Você já sabe que Deus quer todo o seu tempo, seus recursos, sua vida para a glória dele. Mas ainda assim você é descompromissado. Então a questão é outra.
Você entendeu o que o Senhor deu a você? Você realmente entendeu o quanto Deus o ama? Reflita sobre isso. Você entendeu que a imutabilidade de Deus significa que ele não voltará atrás nas promessas que ele fez a você por causa do seu Filho Jesus? Se você entendeu isso, então sabe que o mínimo que lhe devemos é fidelidade. Ele é fiel em suas promessas, devemos ser fiéis em nosso compromisso com ele.
Comprometimento é uma questão de integridade (v. 8-9)
Comprometimento é uma questão de integridade (v. 8-9)
A segunda coisa sobre o comprometimento é que ele é uma questão de integridade. O seu compromisso com Deus é nada mais do que dar a ele o que lhe é devido.
O Senhor acusou o seu povo de ser infiel à aliança, e nesse diálogo retórico, o povo questiona onde foi que eles erraram. Então agora Deus lhes dará uma evidência dessa infidelidade, da falta de compromisso do povo.
Aqui temos uma pergunta retórica: roubará o homem a Deus? Trata-se de uma ideia absurda. Como assim um homem roubar a Deus? Nem mesmo os pagãos ousariam tal coisa. Mas então o Senhor acusa os israelitas de o roubarem, de tomarem o que lhe é devido.
Então os israelitas perguntam, mais uma vez: "Em que te roubamos?". E o Senhor responde: "nos dízimos e nas ofertas". A área que mais evidenciava que aquele povo não priorizava a Deus, que o seu compromisso com Deus não era verdadeiro, era o fato de reterem os recursos que deveriam ser destinados ao sustento do templo, dos sacerdotes, dos levitas e ao auxílio dos órfãos e viúvas.
Meus irmãos, muitas vezes a última coisa que se converte num indivíduo é o seu bolso. Se você quer descobrir qual a prioridade de alguém, descubra para onde vai o seu dinheiro.
Quem gosta de experiências gastará com viagens e restaurantes caros.
Quem valoriza a aparência gastará com cosméticos e roupas caras.
Tem gente que gasta o que não tem com o carro do ano, com o iPhone do ano, ou até mesmo com o jogo do tigrinho.
O bolso é um bom termômetro do que há no coração.
Aqui, os israelitas revelavam a sua falta de compromisso pelo fato de reterem seus dízimos e ofertas. É importante falarmos sobre o que são os dízimos e ofertas. Os dízimos são um princípio, uma lei de Deus prescrita tanto em Deuteronômio 14 como em Levítico 27, mas que na Bíblia antes mesmo da promulgação da Lei, em textos como Gn 14.20, onde Abraão entrega seus dízimos a Melquisedeque
A palavra dízimo significa "a décima parte". Na lei de Deus, de tudo o que os israelitas colheriam e de todo o produto de seu rebanho, eles separavam a décima parte. O dízimo era entregue em momento de culto e era usado no sustento dos levitas . Lembre-se que os levitas eram uma tribo de Israel que se dedicava a servir no templo e, por isso, não deveria ter outras ocupações. Dentre os levitas, havia os sacerdotes, que eram sustentados pelos dízimos. Os dízimos também serviam para dar auxílio aos órfãos e as viúvas. Naquela sociedade, eles eram os necessitados, porque não tinham família para cuidar deles.
O dízimo foi ordenado por Deus. Antes de tudo, antes até mesmo de sua funcionalidade, os dízimos eram um termômetro do compromisso e da obediência daquele povo a Deus. Não é a toa que sempre nos períodos de Israel onde havia uma reforma religiosa, um avivamento, o dízimo fazia parte dessa restauração. No reinado de Ezequias, que foi um rei que obedeceu a Deus e em que houve reforma na religião de Israel, os dízimos eram trazidos generosamente (2Cr 3.5-10). Ou seja, sempre que a religião em Israel era restaurada e o povo se dedicava mais a Deus, o que evidenciava esse compromisso? Os dízimos. Quando a conversão de alguém afeta também o seu bolso, aí podemos sabemos que a conversão é verdadeira.
Mas o povo estava retendo os dízimos. E isso era roubar a Deus. Porque foi Deus quem determinou que um décimo dos recursos que ele mesmo nos concedeu deveriam ser devolvidos a ele, para o sustento de sua igreja. Logo, pertence a Deus. É dívida. É uma questão de obediência. E se desobedecemos a Deus, e não lhe damos o que lhe é de direito, então nos falta integridade.
A igreja é o povo de Deus, o reino de Deus visível na terra. E a igreja tem custos. Tem de pagar as contas, água, energia, internet, limpeza, manutenção do prédio. Tem o sustento pastoral que é importante e necessário. Tem os custos de cada evento, de cada coisa que fazemos aqui. E se você aproveita isso tudo, sabe que essa obra precisa de recursos para continuar e não contribui, sabendo que Deus tem sido fiel e dado-lhe bênçãos e ordenou que um décimo fosse destinado a essa obra, então você está roubando a Deus.
Mas às vezes alguns crentes ainda assim levantam objeções à questão do dízimo. Por exemplo: "o dízimo não é coisa da lei? E a lei não foi abolida?". Não, o dízimo não foi abolido. Lucas 11.42 é bem claro.
42 Mas ai de vós, fariseus! Porque dais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as hortaliças e desprezais a justiça e o amor de Deus; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas.
Jesus condena os fariseus por causa da sua hipocrisia, mas não pelos dízimos. "Sem omitir aquelas" significa que o dízimo ainda é um preceito que deve ser obedecido. E quando estudamos as alianças de Deus, entendemos que as leis morais de Deus não foram revogadas. Elas se mantém para o cristão como um padrão a ser buscado.
Outra objeção que alguns dão é esta: "Pastor, 10% não é muito? Não pode ser 5%? Não posso substituir o dízimo por uma oferta menor, conforme o meu coração?" Veja, para os israelitas havia uma diferença entre dízimo e oferta. O dízimo era a décima parte de toda a colheita, e era obrigatório. A oferta ia além dos 10%, e era voluntária. O dízimo não era voluntário, era obediência à Deus.
E no Novo Testamento, vemos Paulo enfatizar a importância do sustento destinado aos pastores (1Co 9.13-14) e ele afirma que os presbíteros que presidem são dignos de "dobrados honorários" (1Tm 5.17). Eles devem ser honrados com um sustento adequado, suficiente para o sustento de sua casa. Ainda que no Novo Testamento não vejamos de modo explícito a proporção obrigatória de 10% para as contribuições, não podemos sugerir uma proporção menor que a que o próprio Deus ordenou aos israelitas. Aliás, se você somar todos os dízimos e ofertas que os israelitas entregavam todo ano, a cada três anos e a cada sete anos, conforme vemos em Dt 14, isso dará entre 15% a 18% ao ano. 10% é o mínimo que você deve oferecer ao Senhor.
Essa é uma questão de integridade. Porque todo membro de igreja um dia fez um voto aqui, na frente, diante de Deus e dos irmãos, jurando que irá sustentar a igreja. É uma das perguntas constitucionais que fazemos aqui a todos aqueles que se juntam a esta igreja. Se alguém responde que sim, mas depois retém os dízimos, essa pessoa está falhando em cumprir a sua promessa.
E, meus irmãos, não pense que isso não traz severas consequências. A consequência de tal retenção é a maldição advinda sobre toda a nação (v. 9). Quando nós olhamos o contexto em que o povo de Judá estava nos livros de Zacarias e Ageu, que são da mesma época, a terra não produzia muito fruto e a pobreza se espalhava em Judá. E isso acontecia porque Deus estava castigando o seu povo, por conta de sua infidelidade e falta de compromisso. Pois Deus prometeu que iria abençoar o seu povo naquela terra (Gn 12.1-3), mas a bênção era condicionada à obediência (Ex 19.3-6).
1 Ora, disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; 2 de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! 3 Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra.
3 Subiu Moisés a Deus, e do monte o Senhor o chamou e lhe disse: Assim falarás à casa de Jacó e anunciarás aos filhos de Israel: 4 Tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águia e vos cheguei a mim. 5 Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; 6 vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel.
No que consistia tal maldição? Podemos considerar a falta de chuva, a diminuição da colheita, que causava uma crise econômica em Judá. Mas também há outras consequências. Por exemplo, em Neemias 13.10-12, vemos que uma das consequências da falta dos dízimos era que os levitas ficavam sem sustento, e assim deixavam o seu serviço no templo e retornavam aos seus campos.
10 Também soube que os quinhões dos levitas não se lhes davam, de maneira que os levitas e os cantores, que faziam o serviço, tinham fugido cada um para o seu campo. 11 Então, contendi com os magistrados e disse: Por que se desamparou a Casa de Deus? Ajuntei os levitas e os cantores e os restituí a seus postos. 12 Então, todo o Judá trouxe os dízimos dos cereais, do vinho e do azeite aos depósitos.
Imagine se os pastores da igreja, diante da necessidade de sustentar a sua casa, se vê obrigado a buscar outros meios de subsistência e dedica menos tempo a seus deveres pastorais? Certamente isso trará consequências ruins à igreja. Ou pense nos sacerdotes que, ficando sem sustento, eram tentados à corrupção e a fazer alianças políticas. Ou pense no fato de que, sem os dízimos, faltava dinheiro para amparar os órfãos e as viúvas, que gerava um grave problema social naquela nação. Da mesma maneira, a falta de contribuição nas igrejas as impede de exercer misericórdia e investir em missões e evangelização. Ou seja, a falta de compromisso traz consequências gravíssimas!
Meus irmãos, comprometimento é uma questão de integridade. E isso se evidencia na questão dos dízimos e ofertas. É Deus quem nos sustenta, e ele ordena que dediquemos uma parcela daquilo que nos deu para o sustento de sua obra. Na verdade, tudo é dele, mas ele nos exige uma parte para o sustento dos obreiros e o avanço do evangelho no mundo. Reter o dízimo é falhar nesse compromisso, é ficar com o que pertence a Deus. Lembre-se de Ananias e Safira (At 5), que fingindo que deram tudo, deram apenas uma parte. Eles não eram obrigados a dar tudo o que obtiveram com a venda da casa, mas eles preferiam fingir o que não eram. Cristãos que retém o dízimo não são tão diferentes de Ananias e Safira. Eles podem até exibir aparência de piedade, mas falham naquilo que é secreto, no lugar onde ninguém vê.
O dízimo é uma evidência da falta de compromisso, mas não é a única. Poderíamos elencar outras. A falta de compromisso com Deus se evidencia, por exemplo, na pouca frequência nos cultos, nos atrasos constantes, na recusa em servir, na falta de zelo com as coisas de Deus. A pergunta é esta: você está dando a Deus o que pertence a ele?
Comprometimento é uma questão de confiança (v. 10-12)
Comprometimento é uma questão de confiança (v. 10-12)
Em terceiro lugar, comprometimento é questão de confiança. É uma demonstração de que cremos e confiamos no cuidado de Deus, que ele cumprirá suas promessas e derramará bênçãos sobre a vida de seus filhos. Mas vamos entender de que tipo de bênçãos o texto está falando.
O Senhor dá uma ordem: "trazei todos os dízimos à casa do tesouro". Naquele tempo, o dízimo não era em dinheiro, mas sim em colheita, cereal, animais etc. E eles eram levados a um depósito, a uma casa do tesouro, de onde depois era redistribuído para os diversos fins. E o propósito pelo qual ele deve ser trazido é para que haja mantimento, sustento, na casa de Deus. Para que os sacerdotes e levitas tenha seu pão e para que nada falte no templo.
E o Senhor dá uma segunda ordem: "provai-me". E aqui a questão a ser levantada é: devemos provar a Deus? Devemos testar se Deus é realmente fiel ou não? A Bíblia diz que não devemos tentar o Senhor, nosso Deus (Dt 6.16; Mt 4.7).
16 Não tentarás o Senhor, teu Deus, como o tentaste em Massá.
E quando olhamos a história, por exemplo, de Gideão, vemos que provar a Deus é um sinal de incredulidade. Se precisamos de provas para crer naquilo que Deus diz, isto é porque já nos falta fé. Mas também há textos na Escritura como Sl 34.8, no qual somos convidados a experimentar a "provar e ver que o Senhor é bom", o que envolve obedecê-lo enquanto confiamos na sua bondade.
8 Oh! Provai e vede que o Senhor é bom;
bem-aventurado o homem que nele se refugia.
Aqui Deus está desafiando o seu povo a obedecer e experimentar as bênçãos de Deus. Aquele povo estava passando por dificuldades, mas o Senhor promete que irá abençoá-los caso sejam obedientes. E essas bênçãos é aquilo que Deus prometeu a seu povo, lá em Deuteronômio 28.10-12.
10 E todos os povos da terra verão que és chamado pelo nome do Senhor e terão medo de ti. 11 O Senhor te dará abundância de bens no fruto do teu ventre, no fruto dos teus animais e no fruto do teu solo, na terra que o Senhor, sob juramento a teus pais, prometeu dar-te. 12 O Senhor te abrirá o seu bom tesouro, o céu, para dar chuva à tua terra no seu tempo e para abençoar toda obra das tuas mãos; emprestarás a muitas gentes, porém tu não tomarás emprestado.
São os benefícios do pacto, da aliança, que foram, em parte, interrompidos por causa do pecado do povo.
E essa bênção é descrita de modo material. Meus irmãos, Deus prometeu abençoar Israel materialmente. E isso não significa que ele promete o mesmo hoje, para nós, a igreja. Na verdade, Deus tratava com eles assim de modo didático. As bênçãos materiais, a posse de terras e riquezas, eram sombras de uma realidade mais plena, das bênçãos espirituais que nós temos em Cristo. É uma maneira do povo aprender que dentro da aliança com Deus, eles são abençoados graciosamente. Deus prometeu a Abraão a posse de toda a terra que ele pisar. Deus prometeu a Israel uma terra que emana leite e mel. São sombras das promessas de vida eterna e novos céus e nova terra que recebemos em Cristo mediante a fé.
Então Deus tratava com Israel assim, materialmente. Ele promete reter o devorador. O que é o devorador aqui? Muita gente crê que é Satanás, mas não é, meus irmãos. Aqui o devorador são os gafanhotos que corroíam as plantações. Quem já lidou com lavoura sabe o impacto que um inseto devorador pode ter sobre toda a plantação. E o Senhor promete acabar com a esterilidade da terra e dar vida à plantação.
Meus irmãos, Deus prometeu riquezas a quem contribuir com dízimos e ofertas? Você deve contribuir porque Deus te dará o triplo, porque Deus irá te abençoar materialmente? Meus irmãos, aplicar isto a nós de um modo direto é um grave erro de hermenêutica. Deus prometeu aos israelitas bênçãos materiais em resposta à obediência. Mas Deus prometeu a todo o que crê em Jesus as bênçãos espirituais nas regiões celestiais.
E isso é algo muito maior e mais valioso que qualquer carro ou imóvel. Você não deve contribuir com seus dízimos e ofertas olhando para a bênção material que Deus irá te dar, mas para as bênçãos espirituais que Deus já te deu. Olhe para a salvação que lhe foi dada. Olhe para Cristo que foi entregue por nós. Olhe para as promessas futuras de ressurreição e vida eterna com Deus. O Senhor é fiel, ele cumpre e cumprirá as suas promessas.
Mas Deus nos abençoa materialmente? É certo que Deus cuida de nós e nos garante que sempre nos dará o necessário, o que comer e o que vestir. É o que Jesus ensina em Mateus 6. Devemos confiar no sustento diário de Deus, porque ele é quem alimenta as aves do céu e mantém os lírios do campo. É ele que nos dá o pão de cada dia.
Muitas vezes, crentes deixam de contribuir por dificuldades financeiras. Muitas vezes, creem que se contribuírem, não sobrará para pagar as contas. Bem, esse é um problema, primeiro por uma questão de prioridade. A Bíblia nos diz que os dízimos são as primícias (Provérbios 3.9), isto é, é a primeira coisa que nós separaremos de nossa renda.
9 Honra ao Senhor com os teus bens
e com as primícias de toda a tua renda;
Segundo, que é falta de confiança no sustento de Deus. A pessoa está dizendo que Deus fez as suas leis de modo que, se a obedecermos, não obteremos o sustento que ele mesmo prometeu nos dar? Na verdade, é o contrário. Eu tenho experimentado e observado o cuidado de Deus sobre aqueles que contribuem com seus dízimos fielmente. Você deve confiar que Deus lhe suprirá, e muitas vezes isso será por meio da própria igreja, por meio da misericórdia.
A falta de comprometimento, então, é um resultado da incredulidade. Duvidamos das promessas de Deus. Por isso não lhe dedicamos nossos recursos e nosso tempo. Porque lá no fundo, ainda temos dúvidas se Deus nos sustentará se formos obedientes.
Mas Deus nos convida também a olhar adiante. Não apenas para o seu cuidado em nossa vida, mas ao que ele fará, a seus propósitos.
O Senhor promete, no v. 12, bênçãos mais universais e futuras. Fala de um dia em que todas as nações chamarão felizes os israelitas, por serem uma terra deleitosa. Bem, esse é o propósito escatológico de Israel: ser luz para os gentios e serva do Senhor. Por meio dela, todas as nações serão abençoadas. E tal propósito se cumpre em Jesus.
Jesus Cristo nasceu de Judá. Jesus, ao cumprir a lei e em seu ministério entre os judeus, trouxe a salvação a toda a terra. Todos nós, pessoas de todas as nações que creem em Jesus, recebemos salvação por meio do que Deus fez lá em Sião. Então Israel é chamada a doar generosamente, a entregar seus dízimos e ofertas, tendo em vista as bênçãos da aliança e o propósito escatológico de Deus ainda a ser realizado.
Meus irmãos, ao contribuir com seus recursos, por meio dos dízimos e ofertas, com o seu tempo, ao se dedicar no serviço a Deus, você está se associando aos seus propósitos. Você está investindo no Reino. Veja quantas pessoas podem ser alcançadas, quantas vidas podem ser salvas. E nós faremos parte disso, a por meio da nossa fidelidade e obediência.
Você tem compromisso com Deus? Você se envolve, contribui, com seus recursos, oferecendo seus dons e talentos, trabalhando e se envolvendo na seara do Senhor? Lembre-se: é uma questão de fidelidade. É uma aliança que Deus tem com você. É uma questão de integridade. Você deve manter os seus votos perante o Senhor, dar-lhe a honra devida. É uma questão de fé. Deus irá sustentar e cumprir as suas promessas. Que Deus nos abençoe e ajude a sermos servos fiéis.
