E quanto aos perdidos?
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1 Pergunto, pois: terá Deus, porventura, rejeitado o seu povo? De modo nenhum! Porque eu também sou israelita da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim. 2 Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura refere a respeito de Elias, como insta perante Deus contra Israel, dizendo:
3 Senhor, mataram os teus profetas, arrasaram os teus altares, e só eu fiquei, e procuram tirar-me a vida.
4 Que lhe disse, porém, a resposta divina?
Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos diante de Baal.
5 Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça. 6 E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça. 7 Que diremos, pois? O que Israel busca, isso não conseguiu; mas a eleição o alcançou; e os mais foram endurecidos, 8 como está escrito:
Deus lhes deu espírito de entorpecimento, olhos para não ver e ouvidos para não ouvir, até ao dia de hoje.
9 E diz Davi:
Torne-se-lhes a mesa em laço e armadilha, em tropeço e punição;
10 escureçam-se-lhes os olhos, para que não vejam, e fiquem para sempre encurvadas as suas costas.
Nós vivemos numa sociedade que é chamada de pós-cristã. Isto é, uma sociedade que vive uma era pós-cristianismo. O mundo ocidental foi tremendamente influenciado pelo cristianismo. Desde a conversão de Constantino, o Cristianismo foi a religião padrão do ocidente, estabelecendo padrões éticos e morais, sendo a base da filosofia e do conhecimento científico, influenciado a criação de leis e organizações de estados. Se hoje o mundo fala de dignidade humana, cuidado das crianças em situação de risco, proteção da mulher e valorização da vida, tudo isso deve ao Cristianismo.
Contudo, os padrões cristãos tem sido abandonados e isso traz consequências. Vemos as músicas, os filmes e séries, a mídia, propagando ideias que contrariam tudo o que vemos nas Escrituras. Vemos pessoas crescendo totalmente alheios à revelação do evangelho. Esse processo está mais acelerado na Europa, mas já se encontra em andamento no Brasil.
Olhe para a Europa. Muitas antigas igrejas agora são boates. Muita gente cresce sem saber sequer quem foi Jesus Cristo. E talvez olhemos para tudo isso e pensemos: será que há esperança para esse povo? Agora olhe para o Brasil. Nas escolas, crianças cantam letras de funk. Nas ruas, o crime rola solto. Em nossas famílias, jovens nem querem saber de casamento e querem se livrar de qualquer amarra rumo a uma suposta liberdade, longe dos mandamentos de Deus. E certamente você conhece pessoas por quem você ora e que gostaria de ver salvas, mas que agora parecem casos perdidos. Será que Deus abandonou a nossa sociedade?
É essa a pergunta que Paulo busca responder. Os israelitas, em sua maioria, ficaram de fora do reino. Rejeitaram a Cristo. Preferiram sua justiça própria. Paulo já respondeu antes algumas perguntas: "A promessa de Deus falhou?" (Rm 9.6). Há injustiça em Deus? (Rm 9.14). E Paulo mostrou que não. Deus cumpriu suas promessas e agiu de modo justo. A questão agora é esta: "Deus abandonou seu povo?". Diante da apostasia generalizada de Israel, será que Deus os abandonou de vez? E a resposta mais uma vez é não. Deus não os abandonou totalmente, mas ainda tem eleitos entre eles. Ainda há esperança para Israel. E isso deve nos dar esperança na maneira como lidamos com a situação daqueles que ainda se encontram perdidos.
Há duas coisas que você deve saber com relação aos perdidos.
Há muitos eleitos a serem salvos (v. 1-6)
Há muitos eleitos a serem salvos (v. 1-6)
A primeira coisa que você deve saber quanto aqueles que estão perdidos, isto é, aqueles que rejeitaram a Cristo, é que ainda há muitos eleitos entre eles. Deus tem gente para alcançar entre eles. Nem todos permanecerão perdidos, mas haverá um remanescente, um povo escolhido, que Deus reservará para si.
Veja, Paulo está falando de Israel. E ele começa afirmando que Deus não rejeitou de todo o seu povo (v. 1a). Agora a questão não é a justiça de Deus ou a fidelidade às promessas feitas. A questão que Paulo está tratando aqui é esta: será que Deus pode abandonar um povo a quem amou e com quem fez uma aliança? A negação é enfática. De modo nenhum Deus faria tal coisa que contrariaria o seu caráter e as suas promessas e poria em cheque a nossa segurança. Pois se ele pudesse fazer isso, que segurança teríamos, uma vez que agora nós somos o seu povo? Deus certamente não abandona o seu povo.
Deus não abandonou todo o Israel. A rejeição de Israel não é total. E isso é evidenciado na salvação do próprio apóstolo Paulo, que é israelita (v. 1b). A primeira evidência que Paulo nos dá é pessoal. Ele mesmo é israelita, da descendência de Abraão, da tribo de Benjamin. Podemos acrescentar que ele era um judeu irrepreensível, membro do sinédrio, zeloso com a lei, perseguidor dos cristãos. Ele era um verdadeiro israelita. E foi salvo pela fé em Jesus. Logo, não podemos dizer que todo o Israel foi rejeitado.
Por que Deus não pode rejeitar Israel? Porque Israel é o povo que Deus conheceu de antemão (v. 2a). Ao ver essa expressão, somos tentados a ver como se referindo à eleição dos crentes. Mas aqui, conhecer de antemão significa simplesmente conhecer primeiro. Deus conheceu Israel primeiro. Deus os amou primeiro. Israel é o povo que foi amado por Deus antes de sequer existir como povo. Deus os formou, os escolheu dentre as nações. Eles receberam a revelação. Eles tinham os profetas, as leis, as ordenanças. Deus não faria tudo isso para simplesmente descartá-los todos, de modo total e irrevogável.
Na verdade, essa situação que Israel vivia não era nova. Israel vivia tempos de apostasia. Eles rejeitaram o Cristo. Muitos ficaram de fora. Contudo, essa não é a primeira vez. Isso já aconteceu antes. Paulo demonstra isso ao remeter aos tempos de Elias. Deus preservara alguns da apostasia nos dias do profeta Elias (v. 2b-4). Elias foi um profeta nos dias do reinado apóstata de Acabe. Era uma era em que muitos abandonaram a Deus e seguiram os profetas de Baal, cedendo à influência maligna de Jezabel.
Diante da perseguição de Jezabel e pensando que era o último que ainda servia a Deus. Elias desanimou. Ele entrou na caverna certo de que iria morrer. Ele ia perdendo as esperanças. Contudo,
depois de dar a Elias um tempo de descanso (e às vezes é tudo o que a gente precisa), Deus garantiu a Elias que não estava tudo acabado. Ainda havia 7 mil homens que não dobraram-se a Baal. E veja, isso é resultado da soberania divina. Pois no texto de 1Rs 19.18, citado por Paulo aqui, Deus diz: "Reservei para mim...". Foi Deus quem preservou para si aqueles que não se dobrariam a Baal.
E agora, Paulo nos mostra que Deus ainda estava agindo da mesma maneira. Deus agora também preserva um remanescente eleitos pela graça (v. 5). Agora também, à primeira vista, parecia que todo o povo de Israel pereceu. Mas Deus preservou alguns. Essa tem sido a maneira de Deus tratar Israel desde os tempos antigos. Essa ideia de um remanescente é algo que vemos desde a revelação do Antigo Testamento, desde o relato de Noé. O mundo pereceu, mas Deus preservou Noé e sua família.
Também vemos isso nos profetas, vemos a ideia de que Deus preservaria uma santa semente, um toco, uma descendência, do julgamento que viria sobre toda a Israel (Am 5..15; Is 7.3; 6.13; 10.20-23; Jr 23.1-8; Ez 11.14-21). Amós 5.15 fala do “restante de José” que será preservado após a destruição de Israel pela Assíria. Em Isaías 7.3, o filho de Isaías recebe de Deus o nome de “Um-Resto-Volverá”, a respeito da promessa de um remanescente após a destruição. Também em Isaías 6.13 fala de um “toco”, uma “santa semente” que será preservada em Israel. A ideia de remanescente é esta: Deus trará o seu juízo, mas preservará um restante, uns poucos em Israel. Agora, o julgamento chegou. Muitos foram rejeitados. Mas Deus havia escolhido alguns para si.
E foram eleitos totalmente pela graça. Não por obras nem por mérito (v. 6). Esse remanescente de Israel não é salvo por pertencer a uma etnia ou por seguir certas leis ou preceitos, mas somente pela graça. Eles são salvos da mesma maneira que os gentios: crendo em Jesus Cristo. É isso que os salva do a salvação em meio ao juízo. A maioria perece, como nos dias de Noé, mas alguns são salvos, não por serem melhores ou por terem escolhido corretamente, mas porque foram eleitos antes da fundação do mundo. Nisto consiste, a princípio, a esperança de Israel. Há salvação disponível não apenas aos gentios, mas também aos judeus que se renderem a Cristo.
Meus irmãos, o que Paulo disse a respeito de Israel, podemos considerar também com relação a nossa cultura. Quando olhamos para o mundo, podemos pensar que a coisa está feia. Podemos ficara desanimados, desencorajados, nos sentir isolados quando vemos aos poucos a destruição de nossos valores na sociedade. Talvez você lá onde você vive, onde você trabalha, já até desistiu de muita gente. Mas saiba que Deus ainda tem muitos eleitos para alcançar. Ainda há aqueles que têm seu nome escrito no livro da vida, mas que ainda não creram e não se renderam a Cristo.
Às vezes nos apoiar nesse discurso de “esse mundo está perdido” para justificar a nossa negligência em testemunhar o evangelho. Porque se o mundo está perdido, nem adianta pregar, não é mesmo? Mas se Deus tem eleitos em meio aos perdidos, deve também haver pregação, pois Paulo já disse logo antes: “Como crerão se não ouvirem? E como crerão se não há quem pregue?”. Então não deve haver desculpas. E devemos ser animados por isto: até mesmo entre aqueles que parecem caso perdido há pessoas que Deus quer salvar.
Não existem pessoas que estão fora do alcance de Deus. Até mesmo aquelas mais difíceis, como os israelitas. Não podemos julgar que todos os israelitas estão perdidos. Quem seria mais difícil de ser alcançado pelo evangelho que o próprio apóstolo Paulo, que era perseguidor da igreja? Lembre-se disso ao lidar com familiares ou colegas difíceis. Ore por oportunidades. Tenha conversas intencionais que levem ao evangelho. Fale de Jesus. Tenha uma vida íntegra. E Deus certamente irá lhe usar para alcançar aqueles que ele já reservou para si.
Há muitos que permanecerão endurecidos em seus pecados (v. 7-10)
Há muitos que permanecerão endurecidos em seus pecados (v. 7-10)
Mas nem todos serão salvos. Muitos permanecerão endurecidos, surdos, cegos, sem entendimento. Esse é a segunda coisa que você deve saber com relação aos perdidos: há muitos que permanecem endurecidos em seus pecados.
Veja, Paulo reitera que os que foram salvos, o foram não por justiça própria, mas pela eleição (v. 7a). Israel buscou a salvação por meio da justiça própria, das boas obras, do cumprimento da lei, e não a alcançou. Mas a eleição, isto é, essa escolha incondicional de Deus baseada tão somente na sua graça, o alcançou. Israel não pôde salvar a si mesmo.
O pregador da antiguidade, João Crisóstomo, certa vez disse assim, que Israel desceu ao Egito, Deus o libertou, mas eles rapidamente caíram em idolatria. Então foram entregues aos babilônios, depois alguns foram trazidos de volta, mas em pouco tempo voltaram ao antigo modo de vida. Mas agora, olhe só, os israelitas estão mais comportados. Todo sacrifício pagão foi removido do templo. Os fariseus praticam a lei. Eles não praticam as mesmas ousadias de antigamente. Ainda assim, serão punidos. Por quê? Porque nenhuma obediência humana é suficiente para a salvação, apenas a eleição graciosa de Deus, que atribui aos eleitos a justiça de Cristo.
Alguns foram eleitos. Outros, por sua vez, o "restante", foram endurecidos por Deus (v. 7b). Nem todo o Israel foi eleito. Alguns foram eleitos e, tendo ouvido o evangelho, creram. Mas outros preferiram permanecer em seu orgulho justiça própria. Foram endurecidos. Paulo já tratou do endurecimento Em Rm 9.18. Ele endureceu Faraó, e assim endurece a quem quer. Mas o que é tal endurecimento? É, segundo a maneira como Paulo explica em Romanos 1, quando Deus abandona o homem à sua própria obstinação pecaminosa. Os israelitas rejeitaram a Cristo e escolheram os ídolos. Deus salvou alguns desse seu caminho de perdição, mas os demais, Deus os deixou seguirem o seu caminho. E veja, essa é a pior coisa que pode acontecer a alguém: quando Deus o deixa seguir o seu caminho.
Qual o resultado dessa preterição da parte de Deus? Eles se tornam cegos espirituais (v. 8). Veja, Paulo vai exemplificar esse endurecimento. Ele vai trazer mais citações do Antigo Testamento, mostrando que essa sempre foi a história de Israel. E aqui no v. 8 temos a junção de dois textos.
Paulo cita Deuteronômio 29.2-4:
2 Chamou Moisés a todo o Israel e disse-lhe: Tendes visto tudo quanto o Senhor fez na terra do Egito, perante vós, a Faraó, e a todos os seus servos, e a toda a sua terra; 3 as grandes provas que os vossos olhos viram, os sinais e grandes maravilhas; 4 porém o Senhor não vos deu coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje.
Israel presenciou as maravilhas de Deus, mas não compreendeu, não viu nem ouviu. Deus os livrou do Egito, os preservou no deserto, mas uma geração inteira permaneceu incrédula. Agora eles viram o Cristo e não creram nele! Esse é o resultado dessa obstinação pecaminosa. Eles se tornam cegos espirituais. Eles não compreendem o evangelho, a salvação de Deus. E Deus os abandona a essa condição de cegueira.
Paulo também cita Isaías 29.10:
10 Porque o Senhor derramou sobre vós o espírito de profundo sono, e fechou os vossos olhos, que são os profetas, e vendou a vossa cabeça, que são os videntes.
Aqui, Paulo traduz “profundo sono” como “espírito de entorpecimento”. É o que John Stott chama de estado de insensibilidade espiritual. Tal insensibilidade é resultado também do juízo de Deus. “Deus derramou sobre eles o espírito de sono”. Eles não são capazes de responder aos profetas, primeiro por causa do seu pecado, mas também porque foram vendados por Deus. Assim como alguém que dorme não consegue responder. Ou alguém embriagado dificilmente tomará boas decisões, mas se tornará insensível às coisas que são importantes. Aqueles que têm os seus sentidos nublados pelo pecado não poderão compreender a realidade do juízo de Deus e a urgência de responder ao evangelho.
E agora Paulo cita um salmo de Davi, o Salmo 69. Aqui nesse salmo, Davi descreve a perseguição sofrida por um justo. Davi é o justo, e os inimigos de Israel são os perseguidores. Um judeu provavelmente leria esse salmo como sendo ele o justo e os pagãos os perseguidores. Mas esse salmo é lido por nós como sendo messiânico. Cristo é o justo. E foi maltratado e morto por seus inimigos. Nesse salmo, o justo ora para que Deus o vindique e faça justiça sobre seus inimigos. Ele ora para que seus inimigos caiam em sua própria armadilha e permaneçam cegos e encurvados. Agora, Israel é o inimigo. Eles perseguiram e mataram o Messias. Como resultado, caíram em sua própria armadilha e muitos deles se tornaram cegos para a salvação de Deus.
Essa era a situação geral de Israel. Uma maioria endurecida, mas alguns eleitos sendo salvos pela fé no Messias. Mas há esperança no fato de que Deus ainda almejava salvar muitos israelitas, usando para isso os gentios, como ainda veremos.
Meus irmãos, você deve conhecer casos assim. Pessoas que você já pregou, já falou, já trouxe à igreja, mas elas permanecem endurecidas e simplesmente não conseguem entender o evangelho. Elas estão endurecidas. Elas preferem o seu pecado. E Deus as deixará assim, porque elas não foram eleitas. Essa é uma verdade difícil de engolir. Mas talvez ela possa te trazer algum conforto. Como assim?
Há vezes em que você já fez tudo o que podia. Já pregou, insistiu, mas eles permanecem surdos. Bem, se esse é caso, o que resta a fazer? Nada. Deus lidará com tais pessoas, seja para salvá-las ou para exercer a sua justiça. Você pode continuar pregando. Você pode orar. Mas faça isso descansado em Deus, porque uns irão crer, e outros estão endurecidos pelo seu próprio pecado.
Essa verdade difícil de engolir também nos coloca em nosso lugar. Nós devemos evangelizar. Devemos pregar o evangelho. Mas o resultado não depende de nós. Há pessoas tão cegas que mesmo que tenhamos as melhores estratégias e mesmo que Deus escrevesse no céu com as nuvens em letras garrafais implorando que elas cressem em Cristo, elas não dobrariam os seus joelhos. Somente Deus pode dobrá-las. A salvação pertence a Deus.
O que nos resta, então, se descobrimos que não há mais nada a ser feito? Orar. Pois isso podemos fazer. Você pode orar por seu familiar, por seu cônjuge, por seu filho. Pode ser que ele não lhe ouça mais, mas ele não pode impedir você de falar com Deus a respeito. E quem sabe o que Deus fará?
De maneira misteriosa, Deus ainda pretende salvar muitos israelitas pela instrumentalidade dos gentios. Hoje mesmo, há cristãos envolvidos na tarefa de evangelizar os judeus. E embora haja muitos judeus endurecidos, há outros que creem e se tornam nossos irmãos. E Deus ainda há de salvar muito mais.
Havia uma mulher chamada Mônica orou sua vida inteira pelo seu filho e morreu sem vê-lo ser batizado. Mas ele um dia recebeu o evangelho, de maneira providencial. E tornou-se um cristão e, mais tarde, um grande teólogo e bispo. Ele era chamado Agostinho de Hipona.
Quem sabe o que Deus fará? Por isso, pregue a Cristo e continue orando. Que Deus nos abençoe.
