Pai, perdoa-os
Sete palavras da Cruz • Sermon • Submitted • Presented
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· 8 viewsObjetivo Geral: Anunciar as riquezas da obra de Cristo na cruz. Objetivo específico: Ensinar nuances acerca do perdão obtido por Cristo na Cruz. Animar o povo de Deus a uma disposição sacrificial de perdoar. Proposição: O exemplo de Jesus nos capacita e mostra como nós devemos perdoar.
Notes
Transcript
Introdução
Introdução
Hoje começamos uma série de sete pregações: “As 7 Palavras da Cruz”. Muitos pregadores já empreenderam nesse tema e eu sou apenas mais um deles.
A série trata das frases ditas por Jesus quando já estava crucificado, frases estas registradas pelos evangelistas e mostram um pouco da profundidade do ato de nosso Senhor e Mestre naquele dia de profundas trevas.
E começamos com o texto de Lucas 23.33-34.
Lc 23.33-34 33E, quando chegaram ao lugar chamado a Caveira, ali o crucificaram, e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. 34E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. E, repartindo as suas vestes, lançaram sortes.
Jesus havia anunciado que entregaria seu corpo e seu sangue por seus discípulos. Também havia feito um gesto de extrema auto humilhação, lavando os pés deles.
O Mestre saiu para orar, pois estava muito triste, mas seus amigos não conseguiam orar com ele por nem mesmo alguns instantes. Estavam cansados demais para orar com Jesus.
Mais tarde, um de seus companheiros o trai, utilizando um gesto que revela intimidade e carinho, o beijo, para consumar a traição. Os amigos de Jesus, inclusive os que fizeram promessas de amor eterno o abandonam e apenas observam de longe o que está ocorrendo com seu Mestre.
Chegam a negar que O conhecem.
Jesus é açoitado, condenado à morte e obrigado a carregar uma pesada viga de madeira para o lugar onde será executado. O nome do lugar é sugestivo: caveira, ou crânio, devido ao formato da pedra.
No caminho para a morte, Ele demonstra preocupação com as mulheres que choram por ele. Não está pensando em si.
Enfim, tem suas mãos e pés perfurados por grossos pregos e pendurado na cruz, para aguardar uma morte de dores horrendas. Agora ele pensará em si.Agora ele reclamará das profundas dores. Agora ele declarará o juízo sobre aqueles que, por inveja, o condenaram. Agora ele vai desmascarar a omissão daquele que lavou as mãos diante de uma condenação injusta.
Mas não. Muito pelo contrário. Ele roga por seus inimigos. Ele pede ao Pai que os abençoe com o perdão de mais essa afronta!
Jesus escancara na cruz como é o perdão. Ele nos perdoa e nos ensina a perdoar. Então, pelo exemplo de Jesus, veremos as faces do perdão na vida do filho de Deus.
Mas primeiro, vamos analisar os dois versículos de hoje.
33E, quando chegaram ao lugar chamado a Caveira, ali o crucificaram, e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda.
A primeira coisa que se nota neste pequeno trecho é a ironia da crucificação. Jesus foi crucificado entre dois criminosos. Os Evangelhos de Mateus e Marcos dizem que eles eram ladrões[1]. Lucas usa uma palavra mais genérica: malfeitores.
Esses homens eram criminosos comuns de seu tempo. Pelo direito romano, ladrões não eram condenados a morte, exceto se fossem escravos[2]. Muito provavelmente era o caso desses dois. Outra possibilidade é que, em um roubo, eles tivessem matado sua vítima. Seja como for, eram criminosos comuns.
Jesus foi tratado como um criminoso comum pelos líderes da época. Colocado entre esses dois, cumprido o que acerca dele havia sido profetizado[3]. Mas a ironia está no fato de que o imortal Jesus foi condenado à morte, sem ser criminoso, e sem ser um homem comum.
Jesus é o imortal Rei dos reis e Senhor dos Senhores, como descrito por Paulo em 1Tm 6.15-16.
34E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. E, repartindo as suas vestes, lançaram sortes.
A despeito da humilhação e das dores, Jesus continua cumprido seu papel de redentor, recebendo no lugar dos pecadores a punição que era devida aos mesmos, e de intercessor, pedindo ao Deus Pai que perdoe aqueles que, em ignorância, apoiavam o trabalho dos Fariseus e Saduceus[4] que o condenaram.
Duas palavras chamam a atenção na oração de Jesus: perdoa-lhes e sabem.
A expressão grega para perdoar [ἄφες] significa literalmente lançar fora, ou seja, arremessar para longe de si algo que não serve mais. O rogo de Jesus não é para que o Pai ignore o que está ocorrendo, mas que tome a providência de se livrar desse problema, que é o pecado de condenar e crucificar o Filho de Deus.
Já a palavra para sabem [οἴδασι], na verdade, significa ver. A ideia por traz dessa expressão é que estas pessoas não enxergam o que está acontecendo com clareza.
Eles veem que os líderes acusaram um homem de blasfêmia contra Javé.
Eles veem que esse homem é maldito, porque está pendurado no madeiro, como diz a Lei.
Então eles chegam a conclusão de que esse homem é mau e merece ser morto.
Eles veem muitas coisas, mas enxergam muito pouco. Eles não sabem de nada, mas não são inocentes, por isso a necessidade da intercessão de Jesus.
O versículo termina com a curiosa divisão das roupas do condenado. Jesus estava nu na cruz. Não havia nenhuma tanguinha. Isso é um acréscimo dos artistas que pintam quadros e fazem esculturas representando o horror da cruz.
A crucificação era um ato de extrema dor e humilhação e os condenados eram pendurados nus. Os soldados tinham o direito de ficar com as roupas do condenado e, neste caso, fizeram também um sorteio, cumprindo, sem saber, o Sl 22.18.
Os soldados nem fizeram caso da oração de Jesus por eles. Apenas queriam saber das roupas que ganhariam.
A tradição diz que, posteriormente, o soldado que furou o lado de Jesus com a lança se converteu. É o famoso Longinus[5], ou São Longuinho. Mas tudo o que sabemos dele é que reconheceu que Jesus é o Filho de Deus (Mt 27.54; Mc 15.39; Lc 23.47).
Baseados no que vimos até aqui, veremos que o exemplo de Jesus nos capacita e mostra como nós devemos perdoar, ou seja, quais são as faces do perdão na vida do filho de Deus.
As faces do perdão na vida do filho de Deus.
1ª Face: Nasce do caráter, não da imagem
1ª Face: Nasce do caráter, não da imagem
Primeira coisa que notamos na oração perdoadora de Jesus é que, a despeito de ele ser julgado como malfeitor e recebido duras e sérias acusações, Ele orou por perdão porque essa era a missão dele como Filho.
A salvação dos eleitos dependia dos atos de Jesus e ele sabia disso. O Pai confiou a Ele essa nobre tarefa. Então era isso que seria feito. Não importa o que fizessem com Ele.
Quando somos ofendidos tendemos a ficar na defensiva e a justificar nossos atos e muitas vezes fazemos isto a qualquer custo.
Ao invés de perdoarmos falsas acusações, muitas vezes dizemos:
· Já que você me acha egoísta, então eu vou ser egoísta;
· Já que você não valoriza o que eu faço, não faço mais nada;
· Já que você me acha infiel, você vai ver o que é ser infiel.
Estas atitudes são obviamente erradas, mas parecem justas aos nossos olhos quando estamos passando por elas.
Devemos lembrar o que Jesus ensinou e viveu.
Lc 6.28 28bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam.
Pedro diz que foi para isso mesmo que Deus nos chamou.
1Pe 3.9 9não pagando mal por mal ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo, pois para isto mesmo fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança.
Isso revela nossa verdadeira natureza: somos filhos de Deus. Perdoar é algo do nosso caráter e a nossa imagem, nesse sentido, pouco importa.
Perdoe porque você é filho de Deus e nada mais.
2ª Face: Resistente às dores, não cai diante delas
2ª Face: Resistente às dores, não cai diante delas
Às vezes encontramos pessoas que estão com grande dificuldade de perdoar uma ofensa.
Pessoas assim às vezes usam outra desculpa: elas dizem que não conseguem perdoar. A pessoa quer dizer que é INCAPAZ de perdoar, geralmente porque a ofensa foi muito grande ou porque a dor ocasionada pela ofensa é MAIOR DO QUE ELA PODE SUPORTAR.
Nós devemos ser sensíveis as dores de nossos amigos e irmãos em Cristo, mas não devemos concordar com algo que NÃO É VERDADE, somente porque eles estão sofrendo.
Irmãos, nunca é verdade que alguém é incapaz de perdoar. O que acontece é que, por causa de uma dor grande, podemos não ter a menor VONTADE de perdoar. Nos colocamos no lugar de Deus e declaramos que tal pessoa ou tal pecado é imperdoável.
Vimos no ponto anterior que perdoamos porque somos filhos de Deus. Essa é uma característica que recebemos de Deus e não podemos perder. É justamente por isso que você, irmão, é plenamente capaz de perdoar, assim como Jesus perdoou.
Não há dor no mundo que pode mudar o fato que você é filho de Deus, então não há dor no mundo que te obrigue a não perdoar.
Se você é cristão, perdoar tem a ver com vontade, não tem a ver com capacidade.
Quanto a isso, quero abrir um parênteses aqui:
Já ouvi alguns cristãos falarem ou postarem em redes sociais que “Perdão e reconciliação não são a mesma coisa”. Bom, a frase é linda, só não é cristã!
Perdão é reconciliação sim. Imagina a seguinte situação: Jesus perdoa você, mas não o reconcilia com Deus. Assim, você vai para o inferno feliz, porque foi perdoado!
Paulo deixa claro que a obra perdoadora de Cristo é a mesma obra reconciliadora de Cristo.
2Co 5.18-20 18Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, 19a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. 20De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus.
Não deixemos que a nossa falta de vontade de perdoar modifique o que a Bíblia ensina sobre o perdão.
3ª Face: Compreende as falhas, não as ignora
3ª Face: Compreende as falhas, não as ignora
O perdão que Cristo pede ao Pai é um perdão que trata o problema, não que foge dele. Quando Deus nos perdoa, ele não está fingindo que nada aconteceu. O Filho está na cruz, sofrendo emocionalmente e fisicamente.
Mas Jesus pede para Deus “pegar essa dor toda e jogar para longe”.
Por definição, só pode haver perdão quando há consciência clara da ofensa. Não perdoamos pecados desconhecidos. Também só podemos perdoar os pecados já cometidos.
O perdão é a maneira que Deus criou para lidar com a realidade cruel de que o ser humano peca.
Se fingimos que não vimos algum pecado, sofreremos mais do que se tratarmos esse problema. Não digo que devemos ir atrás de toda e qualquer ofensa que fizeram contra nós. Mas se você está sofrendo e não trata (i.e., não tenta a reconciliação), você estará somente fingindo que está tudo normal e pode tirar um chance importante da outra pessoa crescer, quer seja o ofensor um cristão ou não.
Conclusão
Conclusão
No filme A lista de Schindler, o protagonista Oscar Schindler conversa com o comandante do campo de concentração nazista. No intuito de convencer o cruel militar a ser mais leve no trato com os judeus, ele diz “Perdoar é poder”.
O militar gosta da frase e começa a perdoar alguns judeus pelo caminho, mas depois muda de ideia, e assassina a moça que não conseguiu tirar as manchas da sua banheira.
Esse é um retrato bastante exagerado, é verdade, mas perdoar realmente é poder.
Contudo, perdoar coisas graves e perdoar em meio a extrema dor é um poder para poucos. É algo que somente os filhos de Deus tem motivos para fazer. Use o poder que Deus te deu e, como Jesus, perdoe.
[1]Mt 27.38,44; Mc 15.27.
[2]Jardim, Pág.3, Http://www.academia.edu/3610275/O_Furto_no_Direito_Romano_sua_consideração_como_delito_privado_civil_e_seus_reflexos_no_furto_brasileiro_VERSÃO_REDUZIDA_-_13_pag._, acessado em 20/06/2018. https://pt.wikipedia.org/wiki/Direito_romano, acessado em 20/06/2018.
[3]Is 53.12, cf Mc 15.28 e Lc 22.37.
[4] Os ais de Jesus contra escribas e fariseus [Mt 23.13-29], o pecado maiordeles [Jo 19.11], o pecado imperdoável [Lc 12.10] e as diversas frases condenatórias de Jesus contra os líderes religiosos da época põem sérias dúvidas em interpretações de que essa oração inclui os líderes do sinédrio e a família sacerdotal de Anás e Caifás.
Assim também pensa Calvino. Comentando esse versículo, ele diz “It is probable, however, that Christ did not pray for all indiscriminately, but only for the wretched multitude, who were carried away by inconsiderate zeal, and not by premeditated wickedness. For since the scribes and priests were persons in regard to whom no ground was left for hope, it would have been in vain for him to pray for them. Nor can it be doubted that this prayer was heard by the heavenly Father, and that this was the cause why many of the people afterwards drank by faith the blood which they had shed.”(John Calvin Complete Commentary, Luke, embarcado no software The Word)
[5] A palavra Longinus significa apenas uma lança, não sendo o nome do soldado. A Tradição foi acrescentando ao longo do tempo várias informações acerca desse soldado sem nome, contudo nada que seja de muita confiança.
