Por que me abandonaste?
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Objetivo Geral: Anunciar as riquezas da obra de Cristo na cruz.
Objetivo específico: Mostrar a identificação de Cristo com o pecador em seu sofrimento e separação de Deus. Ensinar acerca da necessidade da expiação do pecado em Cristo. Aludir ao poder de separação do pecado.
Proposição: O sofrimento de Jesus é o alívio dos nossos.
Introdução
Introdução
Mt 27.46 46E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
Chegamos a nossa quarta pregação da série Sete Palavras da Cruz, série que visa nos mostrar um pouco mais da profundidade da obra de Jesus Cristo na Cruz do Gólgota.
O texto que lemos hoje é talvez o mais profundo em seu significado e o que demonstra com cores mais vivas o tamanho da obra de Cristo.
A verdade é que, conforme diz a música do Tim Hughes[1]: “eu nunca saberei o quanto custou os meus pegados naquela cruz”. Sabemos que “custou o sangue de Jesus, mas o que isso significa?
Se você tem dificuldade de entender o que significou para Cristo ir para a cruz no seu lugar, é estudando este texto que você vai ter uma ideia mais clara.
Também neste texto podemos ter um vislumbre do amor de Deus por nós, mas vamos analisar o versículo antes de trazer as aplicações. Vamos dividir o versículo em duas partes:
Análise do versículo
Análise do versículo
46aE perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo:
Antes de ser crucificado, Jesus foi abandonado pela maioria de seus discípulos. Somente João, sua mãe e algumas outras mulheres o acompanharam em seus momentos finais.
Ele passou por um julgamento totalmente irregular do ponto de vista da Lei de Moisés. Foi acusado de blasfêmia. Tratado como louco por Herodes e com indiferença por Pôncio Pilatos.
Foi severamente espancado, cuspido na face e humilhado publicamente.
Às 09h00 da manhã[2] Ele é crucificado. Seus “colegas” de cruz o ofenderam, mas um se arrepende e é perdoado. Meio dia as trevas tomam conta de Jerusalém. São trevas literais – o céu escurece, talvez com grossa nuvens.
Agora são 15h00, ou seja, Ele está pendurado na cruz há quase seis horas, e apesar do sofrimento físico intenso, Ele vinha se preocupando somente com os outros que o viam, perdoando e orientando alguns dos que estavam por ali[3].
De repente, algo acontece de maneira a tirar de sua boca um grito de intenso sofrimento. Um sofrimento que superou todos os sofrimentos até aqui. Algo muito maior que a dor do corpo: a dor da alma!
46bEli, Eli, lamá sabactâni; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
Jesus grita em aramaico, mas Mateus traduz, pois é necessário que os leitores gregos entendam. Jesus está citando o Salmo 22, onde Davi se diz abandonado por Deus em meio à sua angústia. O Salmo termina de maneira positiva, com Davi dizendo para si mesmo que Deus não o abandonou, mostrando que, para o salmista, aquele abandono foi mais uma sensação que um fato.
As palavras nos dois idiomas significam exatamente o que o português parece dizer: Jesus foi abandonado pelo Pai. Algumas pessoas, querendo defender uma das doutrinas mais sólidas e misteriosas da Bíblia, a Doutrina da Trindade, tentaram amenizar o grito de nosso Senhor.
Alguns disseram que Jesus não quis dizer que o Pai o abandonou, mas que ele estava tendo um sentimento de abandono, seguindo a interpretação comum do Salmo 22. Contudo a construção da frase no original grego não permite pensar assim[4]. A palavra remete a um fato, não a uma impressão ou a uma sensação.
O que Davi estava vivendo aparentemente, Jesus estava vivendo realmente. Cristo está lamentando algo que jamais ocorrera no tempo e na eternidade: uma separação entre Ele e o Pai. O texto não diz quando o abandono ocorreu, nem quanto tempo durou, nem como foi. Apenas atesta o fato.
Não cabe a nós discutirmos aquilo que a Bíblia não revela. Como diz Dt 29.29:
Dt 29.29 29 As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei.
Nesse caso, a Bíblia revela algo que aconteceu, mas não como aconteceu e tentar explicar algo que ocorreu no relacionamento da Trindade (na Pericorese) que não foi revelado pela própria Trindade é algo que nos expõe à sérias heresias.
A Bíblia contém tudo o que é NECESSÁRIO para nossa fé. Então, se está na Bíblia, é importante. Se não está na Bíblia, não é importante, para ter uma vida plena em Cristo.
Então, o que é importante é saber que Jesus estava sofrendo naquele momento o que qualquer ser humano PRECISA sofrer por causa do pecado. Para entender melhor, precisamos somar pelo menos três revelações da Bíblia, que vou representar aqui com três versículos:
Rm 3.23 23Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;
(O pecado causa separação entre o homem e Deus)
Hb 4.15 15Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado.
(Cristo humano como nós, mas sem pecado)
Rm 3.25 25Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus;
(Cristo recebe a justiça [ira] de Deus pelos pecados dos homens – Jesus é a causa do Pai ser propício, favorável, a nós – IMPUTAÇÃO e PROPRICIAÇÃO)
Jesus recebeu na cruz a imputação (culpa) dos nossos pecados. Essa culpa pelo pecado trouxe esse abandono, desamparo, por parte do Pai. Ao invés da doce comunhão com o Pai, Jesus recebeu a poderosa IRA de Deus.
Você entende o por quê do grito de Jesus? Que intenso sofrimento de carregar os pecados do seu povo! Que angústia terrível de se ver desamparado pelo Pai! Que dor tremenda de receber a IRA divina.
Como alguém já disse, Jesus gritou “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste” para que você e eu jamais tenhamos que gritar isso![5]
Dito isto, veremos algumas maneiras pelas quais o sofrimento de Cristo significa alívio para os nossos sofrimentos.
Maneiras pelas quais o sofrimento de Cristo aliviam os nossos.
1º Maneira: Identificação
1º Maneira: Identificação
Nós somos indivíduos sociais. O humano de fato não foi feito para ficar só e poucas coisas são tão opressoras como o sentimento de solidão. Deus, quando criou o homem disse: “Não é bom que o homem esteja só.” (Gn 2.18)
Já parou para pensar se Deus tivesse criado o homem e a mulher ao mesmo tempo? É possível que não houvesse o versículo de Gn 2.18 na Bíblia e, quem sabe, a gente não teria tanta noção de que a vontade do Senhor é que estejamos em sociedade, aqui representada pela base de toda a sociedade que é a família.
Mas ele nos criou sociais e deseja que estejamos juntos, quer fisicamente, quer emocionalmente. Essa necessidade é tão forte, que temos diversos tipos de grupos: nos agrupamos por afinidades políticas, por núcleos familiares, por afinidades socioeconômicas ou religiosas.
Nos agrupamos até por causa de sofrimentos e lutas comuns, daí grupos como Alcoólicos Anônimos, entre outros. Mas por que nos agrupamos até por causa da dor?
Porque é horrível sofrer sozinho! Quando sofremos, até podemos buscar a solidão, contudo isso só aumenta o sofrimento e nós sabemos disso. O sentimento de desamparo torna mais forte as outras angústias, por isso que sentimos certo alívio quando encontramos alguém que passou ou está passando por situação semelhante à nossa. Isso é identificação!
A Bíblia faz questão de mostrar o sofrimento de Cristo como algo que nos identifica com Ele, como vimos em Hb 4.15. Ele sofreu dores, tentações e angústias como qualquer ser humano.
E se você está sofrendo, a primeira coisa que você precisa saber é que você não está sozinho em seu sofrimento. Jesus não somente passou por coisas terríveis, como as venceu. É nisso que Paulo baseia sua esperança com relação aos sofrimentos do tempo presente, como vemos em Rm 8.33-37:
Rm 8.33-37 33Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. 34Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós. 35Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? 36Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; Somos reputados como ovelhas para o matadouro. 37Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou.
A vitória é por meio de Cristo. Assim como Ele venceu, aquele que está ligado a Jesus e o serve, vence também. Sofremos como Cristo sofreu e vencemos como Ele venceu!
A segunda maneira pela qual o sofrimento de Cristo significa alívio para os nossos sofrimentos é:
2º Maneira: Substituição
2º Maneira: Substituição
Não importa a intensidade e a duração do seu sofrimento: se você está em Jesus Cristo você nunca sofrerá tanto quanto poderia sofrer.
Entregar a vida a Jesus significa reconhecer os próprios pecados, se arrepender e se render a Ele. Como resultado, todo o sofrimento que você merece pelos seus pecados estava sobre Jesus quando Ele foi abandonado pelo Pai na cruz.
Isso é importante afirmar, por que quem sofre, muitas vezes sofre de ingratidão por amnésia. Sabe o que é ingratidão por amnésia? É quando você começa a lamentar a sua vida, achando que Deus poderia ser mais bondoso com você.
Será que é possível ser mais bondoso com um pecador do que jogando toda a culpa dele em Jesus?
Não deixe, meu irmão que seu sofrimento faça você esquecer que está livre da condenação eterna no inferno. Deus preferiu que você sofresse pouco, não eternamente!
Jesus te substituiu para que você sofresse menos.
Rm 8.1 1PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito
É difícil entendermos o porque o cristão sofre. Às vezes parece claro que Deus quer nos ensinar algo, mas é difícil saber quando estamos passando por fortes lutas.
Seja qual for a razão do seu sofrimento, se você é de Cristo, seu sofrimento não é por condenação. Jesus foi condenado em seu lugar.
A terceira e última maneira pela quai o sofrimento de Cristo significa alívio para os nossos sofrimentos que eu destaco é:
3º Maneira: Adequação
3º Maneira: Adequação
Ver o sofrimento de Jesus e comparar com os nossos nos ajuda a ter uma visão adequada do que estamos passando.
Um cônjuge traído pode ter a impressão que a traição que ele sofreu foi a pior de todas, mas olhando a traição que Cristo sofreu (Pedro, outros discípulos) sabemos que é possível perdoar.
Uma pessoa humilhada em público pode achar que só o suicídio resta para ela, mas ao olhar Jesus vencendo as humilhações muito maiores que ele sofreu, certamente percebe que pode enfrentar a vida.
Uma pessoa abandonada pelos pais, jamais poderá sofrer um abandono maior que o Jesus sofreu e venceu.
Sim, Jesus sofreu mais que nós e isso nos ajuda a sofrer melhor. O sofrimento de Cristo nos ajuda a sofrer de pé, sem desistir.
Conclusão
Conclusão
Meus irmãos, quer vocês estejam sofrendo hoje ou não, lembre-se sempre a melhor solução para o problema do sofrimento é viver para Cristo, entendendo o sofrimento dele.
Medite no sofrimento de Cristo para compreender o seu. Ele se identifica com você. Ele impediu que você sofresse mais. E te ajuda a passar pela dor de pé.
Toda a nossa paz nesta vida miserável é encontrada em suportar humildemente o sofrimento, em vez de estarmos livres dele. Aquele que melhor sabe como sofrer gozará de uma paz maior, porque é o vencedor de si mesmo, o senhor do mundo, um amigo de Cristo, e um herdeiro do céu.
Thomas à Kempis (escritor ascético)
[1] Música Here I am to worship (ou Light of the world)
[2]Cf. Mc 15.25
[3]Pediu que o Pai perdoasse o povo que não sabia o que estava fazendo. Perdoou um dos ladrões crucificados com Ele. Orientou João e Maria.
[4]FERREIRA JR (págs. 13-14), seguindo REGA e PINTO, opina “O verbo ἐγκατέλιπες, está na segunda pessoa do indicativo, que representa o modo da afirmação, apresenta ação ou estado como algo real, fato14. E o tempo15 que o verbo está é o segundo aoristo, que tem como definição básica que descreve a ação expressa pelo verbo; ele contempla a ação, o evento ou o estado em si, como um todo. Em função de que o aoristo se refere à ação em si, sem especificar a sua duração, nem a maneira em que acontece, nem os seus resultados, muitas vezes é considerado um tempo indefinido16. Com isso conclui-se que a intenção do autor era relatar uma constatação de um real abandono do Pai em relação ao Filho, só que sem a preocupação de descrever a maneira e também a duração desse abandono. Se levar em consideração todo o contexto do Salmo 22, o qual é a fonte da citação de Jesus, chegará a uma conclusão que foi um abandono momentâneo porque o próprio salmista louva a Deus pelo socorro que chega, e Jesus conhecia mais que qualquer um o que Ele estava citando. E olhando para o contexto da crucificação, observa-se o diálogo de Jesus com um dos ladrões crucificado que é registrado apenas por Lucas (Lc 23.42-43). Jesus sabia que ainda naquele dia estaria no paraíso e prometeu a esse ladrão crucificado que estaria com Ele.
[5] Não encontrei o autor, mas a primeira vez que ouvi a frase foi do presbítero Daniel Sant’Ana, da ICEPG.
