Redenção para uma era impessoal

A fé na era digital  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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No tempo antigo, na década de 50 d.C., no Império Romano, todas as pessoas eram pessoas, mas nem todas eram reconhecidas como tal.
Algumas, como mulheres e crianças, eram reconhecidas socialmente como propriedades de alguém, geralmente um patriarca.
A pergunta que se fazia quando se conhecia alguém não era “o que você faz?”, mas “a quem você pertence?”.
A palavra pessoa, em latim persona, referia-se às máscaras usadas no teatro antigo para a representação. Daí a origem da palavra “personagem” usada ainda hoje para indicar os atores dos dramas.
No quesito jurídico, persona designava alguém importante perante a lei, ou seja, alguém a quem os tribunais poderiam julgar. Talvez cerca de 20% da população do Império Romano fosse composta por escravos, não como os que nós temos de referencial hoje, não por sua raça, mas por serem espólios de guerra.
Essas pessoas eram tratadas pela justiça como propriedades ou coisas.
Mulheres e crianças eram consideradas pessoas somente em relação ao cabeça da casa, a quem pertenciam por nascimento ou casamento.
Veja, as pessoas são pessoas, seja no tempo antigo como no nosso, mas nem todas são reconhecidas como pessoas em todos os lugares e o reconhecimento faz toda diferença.
Nos tempos antigos, assim como ainda o é hoje, os benefícios financeiros e a prosperidade eram distribuídos de forma desigual e a pessoalidade era difícil de ser encontrada.
Em um ambiente cada vez mais complexo e urbano, é difícil manter as conexões, a pessoalidade.
O Império Romano, assim como hoje, era um lugar solitário.
Homens e suas famílias eram definidos por suas posições e suas refeições eram feitas por uma pequena cúpula de pessoas, que era servida por escravos e entretidas por artistas e bobos-da-corte.
No entanto, começou a surgir um movimento em meio a essas pessoas, que prezava pelo desenvolvimento humano comunitário.
Então, as mesas, que antes eram compostas apenas por pessoas da mesma classe e com os mesmos poderes, passou a ser ocupada por judeus e gregos, homens e mulheres, escravos e livres, todos desfrutando da mesma refeição.
Nos salões que estavam habituados a evidenciar a posição social do anfitrião, um pedaço de pão agora era compartilhado de mão em mão, evidenciando a memória de alguém que agora já não estava mais presente.
Ao invés de enaltecerem os reis e rainhas desse tempo, entoavam hinos e cantigas que falavam de um outro rei, de um outro reino diferente.
Encontros em que cada membro presente era importante como cada parte do nosso corpo é para nós.
Não são encontros de massas, porque as massas são impessoais, mas são encontros em que cada um é importante para o outro.
Será que hoje podemos começar a fazer uma mudança assim? Será que podemos começar com uma quantidade de pessoas suficientes para encherem uma única mesa em uma única casa?
Quando um bebê nasce, a primeira coisa que ele procura quando abre os olhos é um rosto que o olhe de volta. Nós já nascemos com essa necessidade, que é impossível reverter.
Quando, no crescimento, nos afastamos nos rostos e encontramos as telas, estamos criando pessoas que não são pessoas para nós.
A pessoalidade se afasta dos nossos corações e nos tornamos cada dia mais solitários, egoístas, grosseiros e vazios de significado afetivo.
Entramos em nossos mundos solitários, nossos carros que nos isolam do outro perto de nós, nos tornando cada vez mais enclausurados em nossa individualidade.
Ouvimos a música que queremos - e mudamos quando muda o ritmo -, controlamos a temperatura do ambiente para mais frio ou mais quente com nossos ares condicionados [a nós], escolhemos o caminho que se repete todos os dias, trazendo conforto e segurança.
No entanto, reconhecemos os carros, suas marcas e cores, modelos e placas, mas não somos capazes de reconhecer os rostos ao nosso redor.
Já parou para pensar que a única pessoa que olha para você no seu trajeto é aquela sustentando uma placa em que pede ajuda? Essa pessoa é a única que procura você, seu olhar e sua atenção.
A sua vida é repleta de gente, mas poucas são aquelas que você considera como pessoas.
E pense de maneira contrária: você é pessoa para quantas outras? Porque, na realidade, quem confere a nós o status de pessoa plenamente ao invés de gente, são os olhos que nos contemplam.
Quando alguém olha para você, não pelo que você pode oferecer, mas por quem você significa, então de maneira plena você não é mais “todo mundo”, agora você é uma pessoa.
São os relacionamentos interpessoais que nos conferem significado, personalidade e a consciência da nossa individualidade.

Somos quem somos porque nos avaliamos em relação ao outro

Por isso, o maior mandamento de Deus é:
Marcos 12.29–31 (ARA)
Respondeu Jesus: O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.
Esse é o Shema (Ouve) do Senhor!
A Shemá representa um resumo do que é ser plenamente humano: todo ser humano é um complexo de coração-alma-mente-força feito para amar.

Somos coração:

motivados por desejos, dirigidos por motivações. Somos também compostos por emoções.

Somos alma:

Temos um ego. Nunca conheceremos plenamente quem somos.

Somos mente:

Refletimos sobre o mundo, interpretamos nossas experiências e lembramos delas analisando-as. Buscamos a verdade.

Somos força:

Temos a capacidade de aplicar muita energia no trabalho e no lazer a ponto de beirarmos a perfeição em atividades como o triatlo ou o violino ou mesmo uma costura fina.

Somos feitos para amar:

O amor ressalta o que há de melhor em nós.
Somos as criaturas mais sociáveis, dependentes e capazes de amar.

Quando Jesus Cristo afirma para que sejamos como as crianças, é disso que ele está falando.

Luke 18:16–17 ARA
Jesus, porém, chamando-as para junto de si, ordenou: Deixai vir a mim os pequeninos e não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira alguma entrará nele.
Elas se entregam plenamente a outras pessoas, sem se preocuparem consigo ou com o que precisam para se tornarem alguém no mundo.
Desde que amadas, as crianças são livres.
Mas, quando crescemos, descobrimos que nem sempre é possível confiar que o mundo nos reconhecerá como pessoas.
Depois de ofensas grandes e pequenas, começamos a nos perguntar se aquele amor adquirido por direito de nascença poderá ser mesmo encontrado em todas as fases da vida.
Quando nos damos conta dessa quebra de familiaridade, buscamos o conforto a todo custo ao invés de desafios e criatividade.
Nossa força atrofia. Caímos em ciclos viciosos de excessos em detrimento do descanso, ao invés de cansaço e recompensa pelo trabalho executado com descanso, entramos em inatividade e letargia.
Desde que a dor de ser uma pessoa é sentida por nós, fazemos a escolha de fugir da decepção, caindo no falso conforto de uma vida isolada da comunidade.
E é isso o que a tecnologia te proporciona: fuga! Muito prazer com o mínimo de esforço possível.
O problema é que isso faz com que o Shema da sua existência seja deixado de lado. Aquilo que antes exigia de você um complexo de coração-alma-mente-força feito para amar, agora já não exige mais muita coisa para acontecer. O que tira de nós uma vida em plenitude.
Quando meus relacionamentos são agora engajados por comentários, notificações, curtidas e experiências extracorpóreas, eu finjo uma performance com a qual eu não fui projetada por Deus para performar.
Experimentamos um alto nível de poder, adrenalina e expectativa, mas nenhuma dessas potências efetivamente são conquistadas pelo complexo de coração-alma-mente-força feito para amar.
A verdadeira redenção para essa era impessoal, é que voltemos a nos relacionar integralmente pelo complexo de coração-alma-mente-força feito para amar.

Nós temos usado as distrações virtuais para manter as pessoas afastadas e também os pensamentos da eternidade

Tudo o que aparece no seu celular, especialmente o que eu acho que ninguém está vendo, é o que realmente habita meu coração, refletindo os meus olhos em pixels coloridos.
Temos as redes sociais como oráculos divinos, pois eles nós podemos controlar.
Checamos nossos celular a cada 4,3 minutos.
Blaise Pascal. Ao observar as almas distraídas de seu próprio tempo (não muito diferentes destas de nosso tempo), ele percebeu que, se “tirarmos sua distração, você as verá secar de cansaço”, porque são conduzidas à sua própria infelicidade, “já que estão reduzidas a pensar em si mesmas, sem nenhuma escapatória”.
A percepção de Pascal é um fato perene: o apetite humano por distração é grande em todas as faixas etárias, porque as distrações nos proporcionam uma fuga fácil do silêncio e da solidão, por meio dos quais nos familiarizamos com nossa finitude, nossa mortalidade inevitável e a distância de Deus em relação a todos os nossos desejos, esperanças e prazeres.
“Descobri que toda a infelicidade dos homens surge de um único fato: de que eles não podem permanecer em silêncio em seus próprios aposentos”.
Encarar o teto de nossos quartos silenciosos, somente acompanhados dos pensamentos sobre nós mesmos, sobre a realidade e Deus, é algo insuportável. “É daí que provém o fato de o homem amar tanto o barulho e a agitação; daí provém o fato de a prisão ser um castigo tão horrível; daí provém o fato de o prazer na solidão ser incompreensível.”
Na verdade, “queremos tornar nossas vidas ainda mais complexas. Não precisamos disso, mas queremos. Queremos estar atormentados, incomodados e ocupados. Inconscientemente, queremos a mesma coisa da qual reclamamos. Se tivéssemos lazer, olharíamos para nós mesmos, ouviríamos nossos corações, veríamos o grande buraco neles e ficaríamos aterrorizados, pois o buraco é tão grande que nada além de Deus pode preenchê-lo”.
A fim de anestesiar a dor desse vazio, voltamo-nos para os “novos e poderosos antidepressivos de variedade não farmacêutica”: nossos celulares.

Precisamos reconhecer que estamos longe do ideal para nossa própria saúde

E por falar em saúde, estamos no mês da saúde mental e por que temos falado tanto desse assunto na última década?
O desmantelamento da família, da educação, da ideia bíblica de humanidade e vida, tudo isso têm nos arrastado para o fundo do poço, porque abolimos o complexo de coração-alma-mente-força feito para amar.
Fontes:
CROUCH, Andy. A vida que buscamos: recuperando relacionamentos em um mundo tecnológico. São Paulo: Heziom, 2023.
TONY, Reinke. 12 maneiras como seu celular está transformando você. Rio de Janeiro: Concílio, 2020.
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