A pregação de Paulo em Mileto

Reflexões sobre a Vida  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Introdução

Há alguns dias recebi uma proposta para deixar Petrolina. Eram três opções muito objetivas… Recusei por tempo indeterminado. Ainda há algumas coisas a serem construídas aqui.
Mas logo em seguida fiquei pensando sobre isso. Sobre como seria o último dia em Petrolina - nosso último momento juntos.
Será que a gente choraria?
Você ficaria triste ou aliviado? HAHAHAHA
Você já viveu uma despedida dramática?
Você não queria partir, ou não queria que o outro fosse, mas aconteceu. Às vezes, é até difícil de esquecer não é mesmo. A gente tenta ficar com os melhores momentos vividos. A gente tenta se confortar com memórias, mimos trocados, revisitando lugares que íamos juntos. Mas é diferente sem o outro, não é mesmo.
A verdade é que despedidas são sempre desafiadoras.
Em si mesmo geram muitos sentimentos, como eu disse, desolação ou alívio. A gente nunca sabe de fato a falta de alguém até que ele se vá. E neste último domingo de setembro eu gostaria de expor um texto que fala de um momento de despedida. Um destes momentos de partir o coração.

Desenvolvimento

Lerei com vocês o texto na íntegra, dos versículos 17-38, mas irei me ater apenas aos versículos 22-24 para as explicações. Fique tranquilo, que voltarei para alguns trechos que farão sentido para minha exposição aqui.
Só quero que você tenha acesso ao todo antes de dissecar a nossa porção de hoje.
Considerações iniciais:
O autor bíblico dá o pano de fundo quando escreve: Atos dos Apóstolos 20.16 “Paulo já tinha resolvido não aportar em Éfeso, pois não queria demorar-se na província da Ásia. Ele tinha pressa, pois queria, caso lhe fosse possível, passar o dia de Pentecostes em Jerusalém” e aproveita para fazer uma vista para algumas comunidades cristãs.
Ele tem a companhia de oito homens.
Nova Almeida Atualizada (Atos dos Apóstolos 20.4–5)
Acompanharam-no Sópatro, de Bereia, filho de Pirro; Aristarco e Secundo, de Tessalônica; Gaio, de Derbe; Timóteo; e também Tíquico e Trófimo, da província da Ásia. Estes nos precederam, ficando à nossa espera em Trôade.
(Ou seja, o próprio autor estava nesta empreitada).
Quando, finalmente chegam em Mileto, Paulo chama os presbíteros de Eféso (At 20:17), que ficava a “cerca de (≈32km) ao sul de Éfeso”.
Leve em consideração:
O que você precisa ter em mente é que o capítulo 20, especificamente dos versículos 18-35 trata-se de um discurso de despedida de Paulo.
Este discurso é o único dirigido aos cristãos nos Atos dos Apóstolos. Ocupa um lugar muito especial. Pois não representa o modelo de discurso de evangelização como todos os anteriores, mas o modelo de discurso de despedida.
John Stott confirma e escreve “entre os discursos registrados em Atos, este é o único dirigido a um público cristão.”
Este discurso de despedida é um gênero literário bem conhecido pelos exemplos que há no Antigo Testamento. Por exemplo, o livro do Deuteronômio apresenta-se como discurso de despedida de Moisés. Há outros exemplos como os dos patriarcas (Gn 47:29–49:33), de Josué (23.1–24.30), de Samuel (1Sm 12.1–25).
No Novo Testamento Lucas faz um discurso de despedida de Jesus, paralelo ao de Paulo (Lc 22.14–38); João também apresenta um longo discurso de despedida (Jo 13–17).
A segunda epístola a Timóteo e de modo geral as Pastorais pertencem ao mesmo gênero literário.
No Novo Testamento os discursos de despedida aparecem todos mais ou menos na mesma época.
Hernandes Dias Lopes reforça a importância do episódio pontuando em seu comentário sobre este capítulo:
“No encontro em Mileto, Paulo se despede dos presbíteros de Éfeso com beijos, abraços e lágrimas.”
Talvez você perceba a tensão e comoção presentes no texto quando as palavras de Paulo quando diz v.25 “não mais verão o meu rosto” v.25, e quando lemos o final do discurso:
Atos dos Apóstolos 20.36–38 “Tendo dito isso, ajoelhando-se, Paulo orou com todos eles. Então houve grande pranto entre todos, e, abraçando Paulo, o beijavam, entristecidos especialmente pela palavra que ele tinha dito: que não mais veriam o seu rosto. E eles o acompanharam até o navio.”
O clima é de tensão.
Grant Osborne comenta sobre isso:
“Paulo começa recitando os dois anos extras que passou com eles, defendendo sua conduta e fazendo-os lembrar de seus serviços e tristeza quando chegou da primeira vez.
Ele havia servido ao Senhor ‘com toda a humildade, com lágrimas e com as provações’ que lhe sobrevieram pelas ciladas dos judeus. v.19
Quer, ainda, que eles saibam que jamais deixou, nesse período, de anunciar o evangelho e de ensiná-lo publicamente ou de casa em casa, testemunhando tanto a judeus como a gentios o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo.
A ideia de Paulo é deixar as últimas orientações para aqueles irmãos sobre como deveriam continuar cuidando do rebanho de Deus. Como ele mesmo disse em 20:28 “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho no qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue”.
Warren Wiersbe divide a mensagem de despedida de Paulo em três partes:
1. Ao recapitular o passado (20.18–21), Paulo enfatizou sua fidelidade ao Senhor e à igreja ao ministrar durante três anos em Éfeso.
2. Ao falar sobre o presente (20.22–27), Paulo revelou seus sentimentos tanto em vista do passado quanto do futuro.
3. Por fim, ao mencionar o futuro (20.28–35), Paulo advertiu-os sobre os perigos que seriam enfrentados pela igreja.
A maioria dos discursos de despedidas seguem esta lógica estrutural.
“O que foi feito” + “como estou ao partir” + “o que deve ser continuado diante dos perigos iminentes”.
Entrando no texto propriamente dito:
No nosso texto de hoje, vemos na primeira parte algumas curiosidades relevantes:
Atos dos Apóstolos 20.22–23 “E, agora, impelido pelo Espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que ali vai me acontecer, exceto que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que prisões e sofrimentos estão à minha espera.”

impelido pelo Espírito, vou para Jerusalém”

Quando fazemos comparação com a versão Almeida Revista e Atualizada da Bíblia, constatamos uma aparente contradição no mesmo texto:
“E, agora, constrangido em meu espírito, vou para Jerusalém”
Logo, preciso me fazer o seguinte questionamento inicial:

Paulo está a caminho de Jerusalém “impelido pelo Espírito [de Deus]” ou “constrangido em [seu] espírito?”

E para chegar a conclusões mais precisas foi necessário uma análise mais acurada tanto do texto original, quanto do contexto geral da passagem.
1. Texto original:
Novo Testamento Grego Nestle-Aland, 28ª Edição (Atos dos Apóstolos 20.22)
Καὶ νῦν ἰδοὺ δεδεμένος ἐγὼ τῷ πνεύματι
Em um primeiro léxico:
δέω (deō), vb. prender.
Neste texto o sentido é “ser obrigados ⇔ ser vinculado” — concebido como sendo ou tornando-se vinculado com uma contenção física.
Em outro léxico:
déō [amarrar, atar], (lýō [desatar, libertar])
1. déō é comumente usado no NT para “atar” ou “atar junto” (p. ex., Mt 13.30) “embrulhar” (Jo 11.44), “acorrentar” (Mc 5.3–4) e, daí, “aprisionar” (Mc 6.17, etc.). Ele expressa um aprisionamento sobrenatural em Lc 13.16; At 20.22; cf. o acorrentamento de Satanás em Ap 20.2. Ele também é usado figurativamente para os laços do matrimônio (Rm 7.2; 1Co 7.26, 39). A palavra de Deus não está presa (2Tm 2.9).
Resumo: O original me deixou com mais dúvida por que parece óbvio que Paulo estava indo por conta própria, apenas seu desejo de “passar o dia de pentecostes em Jerusalém”. v.16
Por que o tradutor fez este desserviço a nós meros mortais da língua portuguesa?
2. Contexto geral da passagem:
Aqui, de início, as coisas pioram.
Atos dos Apóstolos 21.4 (NAA)
Encontrando os discípulos, permanecemos lá durante sete dias. Movidos pelo Espírito, eles recomendavam a Paulo que não fosse a Jerusalém.
Grant R. Osborne comenta este trecho:
Isso é muito difícil porque antes (20.23) o Espírito não avisou para ficar longe de Jerusalém, pelo contrário, avisou que quando ele fosse, “cadeias e tribulações” o aguardavam. Então, mais tarde, em Cesareia (21.13), ele interpretou a advertência do Espírito no capítulo 20 de que deveria ir e enfrentar de bom grado as dificuldades que isso acarretaria. Com isso, a melhor forma de entender a profecia aqui no versículo 4 é que o Espírito os advertira que Paulo enfrentaria obstáculos em Jerusalém e que eles interpretaram isso com o expresso significado de que Paulo não deveria ir para lá.
Em outras palavras, a mensagem do Espírito não era que Paulo deveria ficar longe de Jerusalém, mas que a prisão o aguardava; “O entendimento deles da verdadeira mensagem foi que ele deveria ficar longe (de Jerusalém).
Marshall sugere que o significado dessa palavra deveria ser interpretado assim: “Se é isto que vai lhe acontecer, não faça a viagem para lá”. Foi isso que eles pensaram.
Para piorar o cenário, “veio da Judeia um profeta chamado Ágabo” que trouxe às novas:
Atos dos Apóstolos 21.11–14 “que, aproximando-se de nós, pegou o cinto de Paulo e, amarrando com ele os próprios pés e mãos, declarou: — Assim diz o Espírito Santo: É isto que os judeus em Jerusalém farão ao dono deste cinto para entregá-lo nas mãos dos gentios. Quando ouvimos estas palavras, tanto nós como os daquele lugar rogamos a Paulo que não fosse a Jerusalém. Mas ele respondeu: — O que estão fazendo, ao chorar assim e partir o meu coração? Pois estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus. Como Paulo não se deixou persuadir, conformados, dissemos: — Seja feita a vontade do Senhor!”
A contragosto dos irmãos e a despeito de qualquer profecia, Paulo vai à Jerusalém e como previsto, é preso.

Jerônimo data a morte de Paulo em 68 D.C.

Pais Apostólicos I Clement 5.5–7

5 E, da mesma maneira, Paulo recebeu a recompensa por sua perseverança.

6 Ele foi preso sete vezes, foi chicoteado, apedrejado. Ele pregou no leste e no oeste, transmitindo o maravilhoso relato de sua fé.

7 Tendo ensinado a integridade para o mundo todo, e por este motivo, tendo viajado até as fronteiras mais distantes do oriente, ele finalmente passou por tormentos, de acordo com as ordens dadas pelos governantes. Então, ele partiu deste mundo e foi para seu local sagrado, tendo se transformado em um dos exemplos mais conhecidos de resignação de todos os tempos.

E antes de você julgar o Paulo de pecador, nós temos um álibi:
Atos dos Apóstolos 23.11 “Na noite seguinte, o Senhor, pondo-se ao lado de Paulo, disse: — Coragem!
Pois assim como você deu testemunho a meu respeito em Jerusalém, é necessário que você testemunhe também em Roma.”
No fim, é verdade que Paulo seria preso em Jerusalém. Mas Paulo estava sendo direcionado por Jesus. O problema tantos dos irmãos contemporâneos de Paulo quanto nós, temos dificuldade de aceitar quando Deus nos direciona para algo desagradável, algo que nos custe alguma coisa, principalmente a nossa vida.
A nossa teologia não aceita o sofrimento.
Nos apegamos às palavras de Jesus de forma equivocada:
João 16.33 “Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo”.
E esquecemos que ele mesmo nos disse:
Mt 5.10–12. — Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados são vocês quando, por minha causa, os insultarem e os perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vocês. 12Alegrem-se e exultem, porque é grande a sua recompensa nos céus; pois assim perseguiram os profetas que viveram antes de vocês.
João 15.18 — Se o mundo odeia vocês, saibam que, antes de odiar vocês, odiou a mim.
João 15.19 — Se vocês fossem do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas vocês não são do mundo — pelo contrário, eu dele os escolhi — e, por isso, o mundo odeia vocês.
João 15.20 — Lembrem-se da palavra que eu disse a vocês: “O servo não é maior do que seu senhor.” Se perseguiram a mim, também perseguirão vocês; se guardaram a minha palavra, também guardarão a de vocês.
Como disse Charles Spurgeon:
Se houver perseguição, você deve estar disposto a abrir mão de tudo o que possui, de sua liberdade, de sua própria vida, por Cristo, ou não poderá ser seu discípulo.
Na verdade aqueles irmãos esqueceram-se do chamado de Paulo e da profecia atrelada a ele. O Senhor advertiu Ananias quando estava com medo de encontrar Paulo em Damasco:
Atos dos Apóstolos 9.15–16 (NAA)
Mas o Senhor disse a Ananias:
— Vá, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome diante dos gentios e reis, bem como diante dos filhos de Israel. Pois eu mesmo vou mostrar a ele quanto deve sofrer pelo meu nome.
Diante de todos estes fatos conseguiremos ler nosso texto com mais clareza:

Atos dos Apóstolos 20.22–24 “E, agora, impelido pelo Espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que ali vai me acontecer, exceto que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que prisões e sofrimentos estão à minha espera.

Agora, todas as palavras de Paulo se encaixo e fazem sentido. Ele não temia o martírio, ele o aguardava como ele mesmo disse:
Filipenses 1.21 “Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro.”
E mais ou menos seguindo esta mesma lógica ele expressa:

Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, desde que eu complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.”

“desde que eu complete a minha carreira

É uma expressão esportiva terminar a corrida.

“o ministério que recebi do Senhor Jesus”

O que é a coisa mais importante para você Paulo? Ele responderia: “testemunhar o Evangelho da graça de Deus”.
E o que te faria parar de testemunhar? Ele responderia: APENAS A MORTE!
Alguns meses antes de morrer Paulo escreve:
2Timóteo 4.7–8 “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Desde agora me está guardada a coroa da justiça, que o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda.”
Deus não nos promete ausência de sofrimento nesta vida...

Para Refletir e Praticar:

Você já abriu mão de princípios o valores para satisfazer a expectativa das pessoas ou evitar sofrimentos?

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Deus está te direcionando a algo importa, mas que demanda algum nível de dor ou desconforto hoje?

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Testemunhar o evangelho da graça de Deus é uma opçãopara você? Você está disposto a viver por isso? A morrer por isso?

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