Mateus 5.31-32
Exposição em Mateus 5 • Sermon • Submitted • Presented
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Transcript
Essa é a terceira ilustração que Jesus usa para mostrar como Deus quer que sua lei seja obedecida: não matarás, não adulterarás e não divorciarás.
"Confesso que não tenho muita vontade de falar sobre esses versículos porque o divórcio é um assunto muito controverso e complexo. Também é um assunto que afeta profundamente as emoções humanas. Quase não há infelicidade tão dolorosa quanto à de um casamento infeliz, e quase não há tragédia tão grande quanto à deterioração do relacionamento que Deus intentou para que tivesse amor e realização não um relacionamento de amargura e desespero.”- Lendo o Sermão do Monte com John Stott
Apesar de acreditar que a solução de Deus na maioria dos casos não seja o caminho do divórcio, espero tratar desse assunto com sensibilidade e compaixão.
Meu desejo não é causar mais angústia ou dor a alguém.
Estou convencida de que o ensino de Jesus sobre este assunto e todos os outros é bom – bom para toda pessoa e bom para a sociedade.
A opinião popular e o ensino religioso do primeiro século consideravam o divórcio de modo superficial; Jesus, em contrapartida, levou o divórcio muito a sério. Ele levou o divórcio a sério porque fez o mesmo em relação ao casamento. Ao que parece, a maioria dos rabinos partilhava de uma visão do divórcio que permitia ao marido se divorciar gratuitamente da esposa a seu bel-prazer.
Para compreendermos bem o que Jesus está dizendo sobre a questão do divórcio, é necessária uma descrição exaustiva do divórcio facilitado naquela época pela prática dos fariseus. Não conseguimos sequer imaginar o quanto eram trágicas a confusão e a destruição nessa área.
O documento de divórcio protegia a mulher de ser arbitrariamente mandada embora de casa. O documento de divórcio servia de atestado de que a mulher separada podia contrair novo matrimônio.
De modo muito leviano, porém, o farisaísmo definia, com base em Dt 24.1 , os motivos pelos quais um homem podia despedir sua mulher.
De acordo com essa passagem, um homem podia demitir sua esposa com uma carta de divórcio quando tivesse encontrado nela coisa indecente (vergonhosa).
Apesar de Deus ter estabelecido que o matrimônio é indissolúvel, que “os dois são uma só carne”, e que o ser humano age contra a vontade de Deus quando desfaz o casamento, Moisés tinha permitido, porém não ordenado, o divórcio.
“Por causa da dureza do coração” (Mt 19:8) Moisés tinha permitido a separação, regulamentando-a na lei. O homem não podia dissolver o casamento por um motivo qualquer, mas somente “se encontrasse algo indecente nela”.
Havia muita discussão no tempo de Jesus em torno da palavra “indecente”.
Os adeptos do mestre da lei Shammai entendiam-na como adultério. Contudo, de Dt 22:20-30 conclui-se que a interpretação não pode ser adultério, porque este era castigado com apedrejamento. Logo, em caso de adultério não haveria necessidade de uma carta de divórcio.
Os seguidores do mestre Hillel entendiam “coisa indecente” como tudo que o homem pudesse usar como pretexto para uma separação, até coisas inofensivas, de modo que cada homem podia alegar qualquer motivo para despedir a esposa.
Bastava uma sopa queimada ou outra mulher que agradava mais ao homem. Outros motivos eram: não ter filhos, que a mulher comeu ou bebeu na rua etc.
Por isso, Jesus diz a seus discípulos que, a menos que a justiça deles exceda a dos fariseus e mestres da lei, eles certamente não entrarão no reino dos céus (Mt 5.20)
É preciso ler Ml 2:13-15 para ter uma impressão arrasadora das conseqüências que a facilidade de divórcio inventada pelos fariseus trouxe para o mundo das mulheres.
A facilidade do divórcio tinha solapado, especialmente no judaísmo do tempo de Jesus, o fundamento da fidelidade matrimonial, levando a mulher a uma dependência do marido como se fosse escrava. Pelo motivo mais fútil o matrimônio podia ser dissolvido rapidamente. Ele era apenas um contrato com curto prazo de rescisão.
Tudo isso é uma abominação para Deus. Ele odeia esse divórcio.
É verdade que também havia matrimônios que continuavam unidos apesar de não gerarem filhos (veja Isabel e Zacarias). Mas no geral as separações aconteciam a todo vapor. Os cinco maridos da mulher samaritana são o exemplo mais impactante dessa compreensão leviana do matrimônio.
Para Deus o matrimônio é uma ordem divina e indissolúvel, por isso ele rejeita o divórcio. Somente num único caso Jesus permite a separação, a saber, por causa de adultério!
A palavra usada nesse texto para falar de adultério é porneia.
Na época que o Evangelho de Mateus foi escrito, a palavra em questão continha um significado bastante amplo para descrever a imoralidade sexual e infidelidade.
Segundo o dicionário léxico Strong:
1) relação sexual ilícita
1a) adultério, fornicação, homossexualidade, lesbianismo, relação sexual com animais etc.
1b) relação sexual com parentes próximos; Lv 18
1c) relação sexual com um homem ou mulher divorciada; Mc 10:11–12
2) metáf. adoração de ídolos
2a) da impureza que se origina na idolatria, na qual se incorria ao comer sacrifícios oferecidos aos ídolos
Em qualquer outra circunstância que não essa, o divórcio “torna” a mulher adúltera, e qualquer um que se case com uma mulher divorciada comete adultério.
Jesus tem em vista o fato de que, naquela sociedade, a mulher divorciada poderia ser conduzida a casar-se novamente por fins de subsistência. Somente em caso de adultério esse recasamento não seria propriamente um outro caso de adultério.
Mas por quê? A explicação se encontra na lei do Antigo Testamento. A pena para o adultério na lei judaica era a morte (Lv 20.10).
Obviamente, quando executada, o casamento chegava a um fim abrupto e o cônjuge mantido vivo estava livre para casar-se outra vez.
Na época de Jesus (quando a Palestina estava sob o controle de Roma), a pena de morte para essa condenação não era executada. O adúltero era mantido vivo. Entretanto, o ensino de Jesus parece sugerir a retidão da ação, como se a pena houvesse sido executada.
Neste caso, o parceiro injustiçado estaria livre para casar-se novamente. Não havia contradição com a lei do Antigo Testamento nisso.
No passar dos séculos, os cristãos têm divergido sobre o significado dessas palavras em Mateus 5.31–32.
É sábio, portanto, avaliar o ensino desses versículos ponto a ponto, indicando o que parece estar claro, e quais deduções cristãos extraíram deles.
1. A Escritura claramente ensina, e essa passagem certamente enfatiza isso, que o desígnio de Deus para o casamento é o compromisso permanente. A destruição do casamento constitui carnificina aos olhos de Deus.
2. Essa passagem nos fornece a correção de Jesus para o divórcio “por demanda” e as consequências desastrosas para a vida de famílias inteiras que decorrem dessa atitude.
3. A passagem enfatiza que o divórcio desprovido de bases bíblicas agrava o pecado em vez de tratá-lo, podendo acarretar ainda outros pecados ao invés de evitá-los.
Há grande concordância em se tratando desses três pontos. Muitos cristãos (incluindo o comentarista do qual tirei essas passagens), porém, inseririam mais dois pontos, que também constam na Confissão de Fé de Westminster.
4. Jesus reconhece que a própria Escritura ensina que a imoralidade sexual pode destruir laços matrimoniais. No Antigo Testamento, o pecado sexual era posto sob controle pela pena de morte, libertando o outro cônjuge daquele casamento. Apesar de a pena não mais ser utilizada, seus efeitos ainda são relevantes.
5. Tendo em vista o contexto do Antigo Testamento, em que o casamento deixava de existir, também no Novo Testamento, alguém que se divorcia por conta da infidelidade matrimonial pode agir como se o outro cônjuge houvesse deixado de existir, e pode casar-se outra vez.
Em conclusão, devemos, porém, escrever com grande tristeza as palavras do nosso Senhor:
Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio. Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério [e o que casar com a repudiada comete adultério].
Como, então, seremos capazes de nos manter fiéis aos laços matrimoniais? Jesus não se aprofunda a este respeito em Mateus 5.31–32, mas Sua resposta pode ser encontrada na seção anterior do sermão (v. 5.27–30).
O casamento é um pacto (ver Pv 2.17 e Ml 2.14).
Entramos nele como promessa para a vida inteira, “prometendo desse dia em diante, na alegria ou na tristeza, na riqueza ou na pobreza, na saúde ou na doença, até que Deus, mediante a morte, nos separe”.
Não se manter fiel é viver uma mentira perante Deus e perante os homens.
Ate-o, portanto, ao seu coração. Decida que nada irá violá-lo. Fortaleça-o genuinamente “tomando e mantendo” seu cônjuge, amando-o e apreciando-o pela graça de Deus. E arranque de seu coração tudo o que possa destruir a alegria do relacionamento entre vocês.
É melhor, diz Jesus, não encontrar um momento, um dia, uma semana, um mês, um ano de prazer do que perder tudo — a si mesmo, esposa, família, a graça — e finalmente ser lançado no inferno por desprezar a Palavra do Senhor.
Quem poderá ler esse ensinamento sem estremecer? Que Deus nos ajude a sermos fiéis — ao nosso cônjuge (se já somos casados), ao nosso possível cônjuge (se nos casarmos no futuro) — ou simplesmente ao próprio Deus (se permanecermos solteiros).
Por fim, essa passagem nos ensina:
1. A tremenda santidade de Deus;
2. A excessiva ignorância dos homens quanto às realidades espirituais;
3. A enorme necessidade do sangue expiatório de Jesus Cristo para nos salvar;
4. A enorme importância de se evitar tudo que possa dar ocasião ao pecado.
“Se realmente desejamos ser santos, diremos como o salmista: “Guardarei os meus caminhos, para não pecar com a língua” (Sl 39.1). Precisamos estar prontos para resolver querelas e desacordos, para que tais coisas não nos conduzam a pecados ainda mais graves: “Como o abrir-se da represa assim é o começo da contenda; desiste, pois, antes que haja rixas” (Pv 17.14). Precisamos nos empenhar em crucificar nossa carne e mortificar nossos membros. Devemos estar dispostos a fazer qualquer sacrifício, e até mesmo a trazer sobre o corpo o incômodo físico, antes de dar lugar ao pecado. Devemos guardar nossos lábios, como que por um freio, e exercitar constante vigilância sobre nossas palavras. Que os homens nos chamem de “muito restritos”, se assim desejarem! Que digam que somos “por demais meticulosos”, se isso lhes agrada! Não nos deixemos abalar com isso. Estamos apenas fazendo aquilo que nosso Senhor Jesus Cristo nos manda, e, sendo assim, não temos do que nos envergonhar.” - J. C. Ryle, Meditações no Evangelho de Mateus, ed. Tiago J. Santos Filho, 2a Edição. (São José dos Campos, SP: Editora FIEL, 2018), 53.
Fontes:
Lendo o Sermão do Monte com John Stott
Comentário Esperança
Sinclair Ferguson, O Sermão do Monte
James Strong, Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong
J. C. Ryle, Meditações no Evangelho de Mateus
