Jonas - Estudo 4

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Jonas 1.5–6
Chegou-se a ele o mestre do navio e lhe disse: Que se passa contigo? Agarrado no sono? Levanta-te, invoca o teu deus; talvez, assim, esse deus se lembre de nós, para que não pereçamos (Jn 1.6).
A oração dos marinheiros
Fugindo do Senhor, Jonas comprou sua passagem para a viagem a Társis. Quando o navio se afastou do porto, seu plano de escapar de Deus parecia ser um sucesso. Mas Jonas ignorou a persistência soberana do Senhor. Jonas 1.4 nos diz: “Mas o Senhor lançou sobre o mar um forte vento, e fez-se no mar uma grande tempestade, e o navio estava a ponto de se despedaçar”.
É normal um passageiro ficar com medo diante de uma tempestade no mar, mas marinheiros estão acostumados a ventos violentos e ondas grandes. A preocupação dos marinheiros mostra que essa tempestade era terrível e que representava uma ameaça séria ao navio e às suas vidas: “Então, os marinheiros, cheios de medo, clamavam cada um ao seu deus” (Jn 1.5).
Os marinheiros fizeram mais do que apenas orar. Devemos sempre combinar nossas orações com o trabalho que nos foi dado, e nesse sentido os marinheiros devem nos servir como exemplo: “… lançavam ao mar a carga que estava no navio, para o aliviarem do peso dela” (Jn 1.5). Era, provavelmente, muita carga que eles lançaram ao mar. O propósito desses navios era transportar bens de um lugar para outro; portanto, os marinheiros estavam jogando fora não só suas posses, mas também seu lucro.
Isso revela o relacionamento entre nossa vida e nossos bens, uma diferença que tendemos a esquecer com facilidade. A carga representava muito trabalho e esperanças de riquezas futuras. Mas, com sua vida em risco, os marinheiros não hesitaram e jogaram fora suas posses para aumentar um pouco a sua chance de se salvar. Isso vale igualmente para aqueles que possuem muito, quanto para aqueles que têm pouco. O rei Ricardo III da Inglaterra exclamou em meio à sua derrota na batalha: “Meu reino por um cavalo!”. Qualquer um de nós também abriria mão de posse ou dinheiro para salvar a vida.
E, mais do que isso, as posses não definem nem mesmo a qualidade de nossa vida. Jesus disse: “… a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui” (Lc 12.15). Inúmeras pessoas têm refletido sobre essa verdade após a ocorrência de uma tragédia. Um amigo me contou do retorno para sua casa demolida após ser atingida pelo furacão Andrew. Olhando para os móveis esmagados e para as fotografias espalhadas, ele percebeu que eram apenas objetos; o que importava era sua vida. Como é grande a tolice com que acumulamos abundância material, em busca do prazer passageiro de roupas, móveis e brinquedos novos, enquanto dedicamos tão pouco esforço às questões da alma.
Uma coisa interessante de se observar é que a raiz do problema aqui não era o peso da carga, nem mesmo a violência da tempestade. Homens pensam nesses termos, focando sua atenção em circunstâncias e suas soluções mais evidentes. O problema do navio a caminho de Társis era o pecado que se escondia em seu porão. Semelhantemente, os problemas da humanidade resultam da culpa e da miséria provocadas pelo pecado. Assim como os marinheiros na tempestade, o homem natural também procura a ajuda de Deus para afastar o perigo, mas raramente pensa em remover o pecado. “Lançamos ao mar os bens e a carga, mas a tempestade continua a nos castigar, porque o pecado continua a dominar o coração daqueles que se encontram a bordo do navio da vida. Nada pesa tanto quanto o fardo do pecado.”
Agora, no navio a caminho de Társis, Jonas era o único que podia dizer aos marinheiros o que eles precisavam saber. O problema é que, enquanto os pagãos estavam orando aos seus deuses, Jonas estava dormindo: “Jonas, porém, havia descido ao porão e se deitado; e dormia profundamente” (Jn 1.5).
Uma situação surpreendente, em vista da violência da tempestade. É difícil explicar como, em meio a essa tempestade, Jonas conseguia dormir no porão. Alguns comentaristas têm sugerido que o estresse e a ansiedade de sua fuga de Deus haviam deixado o profeta exausto. Lá no fundo das entranhas do navio, ele, de alguma forma, conseguiu continuar dormindo a despeito da tempestade violenta.
Não importa como o expliquemos, o sono de Jonas é notável naquilo que diz sobre seu estado espiritual. Acreditando que havia escapado da presença de Deus, Jonas não estava ciente do perigo que se aproximava. Ele dormia “o sono daquele que se convenceu de que estava seguro, quando, na verdade, se encontrava em grande perigo”.
Quantos iguais a ele existem? Eles acreditam estar a salvo em sua rebelião ou em sua negação de Deus. A vida parece boa, seus negócios parecem seguros. Mas, enquanto isso, a tempestade se aproxima.
O fato de que podemos desfrutar um estado espiritual de paz nada diz sobre a nossa situação verdadeira diante de Deus. O. Palmer Robertson escreve: “Jonas tinha muita paz. Ele estava dormindo feito um bebê. Ao mesmo tempo em que ele estava fugindo de Deus, ele estava em paz”. Mas, no momento escolhido por Deus, a terrível tempestade atacou seu navio. Assim como Jonas em seu navio, muitas pessoas hoje em dia – cristãos e não cristãos – acreditam estar a salvo da jurisdição de Deus simplesmente porque se mantêm afastadas da igreja. Mas Deus age tanto no mundo como na igreja, tanto no mar como em terra firme.
O livro de Jonas é repleto de ironias, e uma delas é o capitão pagão do navio gritando para acordar o profeta. Afinal de contas, Jonas estava ali porque ele havia recusado o chamado de Deus de ir e clamar ao povo pagão de Nínive. Agora, em sua rebelião, é a voz de um incrédulo que clama para acordá-lo: “Chegou-se a ele o mestre do navio e lhe disse: Que se passa contigo? Agarrado no sono? Levanta-te, invoca o teu deus; talvez, assim, esse deus se lembre de nós, para que não pereçamos” (Jn 1.6).
Em primeiro lugar, isso era uma repreensão merecida. Aos olhos do capitão, Jonas representava um caso notável de sacrilégio, dormindo numa hora em que todos deviam estar clamando! Jonas representava um espetáculo chocante de falta de religião, apesar de ser, na verdade, um santo profeta do Senhor. Como Hugh Martin observa: “Mas o que o mundo deve acreditar que você é senão aquilo que você aparenta ser?”
Muitos cristãos de hoje merecem ser repreendidos de forma semelhante pelo mundo. A nossa presença incentiva a paz e o bem-estar? Aqueles que se chamam pelo nome de Cristo estão vivendo de forma consistente com o nosso credo? O mundo tem todo direito de esperar isso de nós. Martin pergunta:
Estamos permitindo muitas vezes que uma oportunidade valiosa passe sem a aproveitarmos? Vocês estão tendo o cuidado, irmãos crentes […] em tempos de provação, adversidade, pobreza, ansiedade ou luto, de mostrar ao mundo como a graça de Deus, como a fé em Jesus, como a comunhão com o Espírito podem bastar para manter sua alma em perfeita paz e perfeita paciência?
Temendo ao Senhor
Jonas 1.7–10
A fuga do pecador
Jonas havia dormido profundamente no porão do navio a caminho de Társis. Sua fuga do Senhor parecia ter começado bem. Mas, quando uma tempestade violenta castigou o navio, o pecado de Jonas subiu à tona. Nem todos se deram conta disso no início: a princípio, os marinheiros simplesmente acordaram Jonas para que ele orasse (Jn 1.6). Quando isso não produziu os resultados desejados, os marinheiros tiveram outra ideia: “… diziam uns aos outros: Vinde, e lancemos sortes, para que saibamos por causa de quem nos sobreveio este mal” (Jn 1.7).
O apelo dos marinheiros à sorte também tipifica o senso de pecado do homem. A tempestade era tão violenta que deduziram corretamente que a causa deveria ser vingança divina. Eles chegaram à conclusão de que em seu navio estava alguém que havia ofendido a deidade furiosa. No entanto, ao lançar a sorte, cada um deles tentou ocultar sua própria cumplicidade. Se Deus estava furioso, eles acreditavam, deveria estar irritado com outra pessoa, já que nenhum deles se lembrava de ter feito algo que pudesse ter causado uma ira tão feroz.
Isso retrata perfeitamente a atitude natural do homem diante de seu próprio pecado. As pessoas estão dispostas a reconhecer que nem sempre agiram de forma correta e que, às vezes, cometeram algum erro. “Mas nada que mereça a ira especial de Deus”, elas concluem. As pessoas estão dispostas a admitir que são falhas e até mesmo que cometem pecados, mas não querem reconhecer que merecem sofrer a condenação e a ira de Deus. É por isso que, quando ocorre uma tragédia, as pessoas culpam Deus em vez de temerem-no. Jesus disse: “… todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8.34), e o nosso mestre, o pecado, não gosta de ser exposto. Mas Deus não se deixa enganar, e a terrível tempestade que castigava o navio de Jonas simbolizava a ira de Deus contra todo pecado.
Se Jonas estivesse ocupado com sua obrigação de profeta, proclamando a lei e o evangelho ao mundo, a situação poderia ter sido diferente. Assim, porém, em vez de cada marinheiro se prostrar diante de Deus em arrependimento, a sorte foi lançada para descobrir o grande pecador que estava a bordo. Hoje, a situação é a mesma. Enquanto a consciência do homem permanece indiferente ao seu pecado, ele prefere outras opções à fé em Jesus Cristo. Apenas quando o homem vê a justiça da ira de Deus contra seu pecado, razão pela qual Deus lhe deu sua lei, o homem buscará o Salvador que Deus providenciou e entregará seu coração a Cristo.
Lançando a sorte
Lançar dados para fins de adivinhação era muito comum no mundo antigo. A descrição literal do texto hebraico do procedimento dos marinheiros indica que, provavelmente, eles usaram algum tipo de dados, o mesmo tipo que os soldados romanos usaram para dividir as vestes de Jesus na cruz (Mc 15.24). O povo de Deus também usava esse tipo de recurso para obter a orientação divina. O Urim e Tumim do sumo sacerdote servia provavelmente para isso (cf. Êx 28.30). Saul foi escolhido como o primeiro rei de Israel pela sorte (1Sm 10.21), e a lei previa várias circunstâncias em que o povo de Deus deveria consultá-lo dessa forma (cf. Lv 16.8; Nm 33.54).
O uso correto da sorte era buscar a vontade de Deus e agir com imparcialidade. Lançar a sorte era uma maneira de dizer: “Que a vontade de Deus decida”. Quando usada com a postura correta, Deus falava por meio da sorte. Mas, mesmo quando os dados ou outros instrumentos do acaso são usados de forma ímpia, a soberania de Deus não é anulada. Provérbios 16.33 declara: “A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda decisão”.
Existem usos corretos da sorte hoje em dia? Antes de responder, precisamos primeiro reconhecer o quanto a nossa situação se distingue da dos fiéis do Antigo Testamento. Na igreja pós-Pentecoste, não existem exemplos de cristãos procurando obter informações de Deus por meio de instrumentos da sorte. O último caso foi a escolha de Matias para substituir Judas como um dos 12 discípulos (At 1.26). A singularidade dessa situação é evidente. Mas após a vinda do Espírito Santo para habitar no povo de Deus nunca mais se recorreu à sorte. Quando os primeiros diáconos foram selecionados, isso não aconteceu por meio da sorte, mas por meio do Espírito Santo, que se expressou pela vontade da congregação (At 6.5). Com o cânone das Escrituras Sagradas agora completo, os cristãos não devem recorrer a meios especiais para obter uma revelação divina. Tiago diz: “Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida” (Tg 1.5). William Banks escreve: “O Espírito Santo, que agora habita em todos os fiéis, os instrui e os guia para a verdade. O trono de Deus é acessível por meio do sangue de Jesus Cristo, e podemos saber que Deus ouve e responde as nossas orações”.
O pecado revelado
Independentemente do que Deus possa ter pensado dos marinheiros e da sorte que lançaram, ele mesmo queria que Jonas fosse exposto. O versículo 7 relata: “… lançaram sortes, e a sorte caiu sobre Jonas”.
Com isso em mente, imagine a expressão no rosto de Jonas quando os marinheiros anunciaram que lançariam a sorte. Imagine-o estremecer com cada passo ressoando na madeira do navio quando o mestre do navio desceu para o porão para trazer-lhe essa notícia. “Jonas”, ele pode ter dito, e Jonas já teria abaixado a sua cabeça: “A sorte caiu sobre você”.
Como você teria reagido se fosse Jonas? Você protestaria contra a sorte? Você vasculharia sua mente para inventar alguma negação desesperada? Você bancaria o “cara” frio e simplesmente aceitaria seu destino? Jonas não fez nada disso, pois reconheceu na sorte o dedo de Deus. Assim, respondeu: “Sou hebreu e temo ao Senhor, o Deus do céu, que fez o mar e a terra” (Jn 1.9). Então, contou-lhes de sua fuga da presença do Senhor (Jn 1.10).
Eu me pergunto se Jonas se lembrou das palavras de Josué a Acã: “Filho meu, dá glória ao Senhor, Deus de Israel, e a ele rende louvores” e da resposta de Acã: “Verdadeiramente, pequei contra o Senhor, Deus de Israel”. É para isso que Deus chama cada um de nós: para que assumamos nosso pecado diante dele e o glorifiquemos em seu juízo justo. Este é o apelo que nos alcança na cruz de Jesus Cristo. Assim como o mestre do navio transmitiu a Jonas a mensagem de que seu pecado foi revelado, a cruz nos diz que Deus viu o nosso pecado. Nem mesmo quando o santo Filho de Deus estava carregando os nossos pecados, Deus deixou de derramar sua ira sobre Jesus. A cruz conta ao mundo que Deus viu o nosso pecado e que o salário do pecado é a morte (Rm 6.23).
Mas aqueles que conhecem Deus sabem também que Deus é um Deus da graça. Jonas deveria ter sabido disso. Seu trabalho anterior como profeta envolvia a proclamação da graça de Deus em Israel, e foi por ressentimento pela oferta da graça de Deus à cidade ímpia de Nínive que ele embarcou num navio para Társis. Jonas demonstra nossa grande necessidade não só de compreender as doutrinas da graça, mas também de sentir a nossa necessidade pessoal pela graça das doutrinas. Deus proclama sua graça na mesma cruz que manifesta sua justiça severa contra o nosso pecado. Na cruz de seu Filho amado, Deus nos oferece um caminho para a salvação, por meio da fé no sangue do Cordeiro de Deus, que carregou os nossos pecados em seu corpo. Apesar de sofrermos os efeitos temporais do pecado como Acã sofreu e Jonas sofreria, Deus oferece salvação para nossas almas eternas. Jonas não parece ter estado disposto a buscar a graça de Deus, mas pelo menos ele confessou seus pecados. João Calvino comenta: “Se então quisermos que Deus aceite o nosso arrependimento, não procuremos nos evadir, como acontece com a maioria; tampouco minimizemos nossos pecados, mas, por meio de uma confissão livre, testifiquemos diante do mundo inteiro o que nós merecemos”.
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