O PREÇO DE SEGUIR A JESUS

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Texto Bíblico: Lucas 9.57-62
57 Indo eles caminho fora, alguém lhe disse: Seguir-te-ei para onde quer que fores. 58 Mas Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. 59 A outro disse Jesus: Segue-me! Ele, porém, respondeu: Permite-me ir primeiro sepultar meu pai. 60 Mas Jesus insistiu: Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos. Tu, porém, vai e prega o reino de Deus. 61 Outro lhe disse: Seguir-te-ei, Senhor; mas deixa-me primeiro despedir-me dos de casa. 62 Mas Jesus lhe replicou: Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás é apto para o reino de Deus. [1]
- Aquilo que vamos ouvir hoje não é nada novo, acredito eu, para muitos de vocês. Falaremos sobre o preço ou o custo do discipulado.
- Essa é a segunda vez dentro do capítulo 9, que esse assunto se repete. No versículo 23 ao 27, Jesus falou sobre esse custo, dizendo que “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me”.
- Há um custo, há um preço para seguir a Jesus!
- E com isso não estamos insinuando que a salvação é por obras, e que você deve se esforçar para ser salvo. O custo do discipulado é um assunto que, de certo modo, se distingue do assunto da salvação.
- Como veremos aqui, Jesus está dirigindo a sua palavra aos discípulos que se propuseram a segui-lo. E esses, devem tomar consciência que o “seguir” não é aleatório, ou adaptável a sua própria zona de conforto.
- Inicialmente é importante refletirmos sobre isso, sobre o que significa “seguir”. O Verbo “seguir” aparece quase 200 vezes no Novo Testamento, cerca de 30 vezes entre Lucas e Atos dos apóstolos, os dois livros escritos por Lucas.
- Seguir (ἀκολουθέω – akoloutheo) – Pode inicialmente ser traduzido por acompanhar, seguir. – Mas, há na origem da palavra uma ideia mais profunda. Seguir é o mesmo que tomar o exemplo de alguém, imitar à alguém. Na ideia antiga, esse imitar, ou tomar o exemplo significa imitá-lo na vida ou na morte.
- Pois tenha em mente, que Jesus ao convocar seus discípulos a segui-lo, não está pedindo que eles façam um trenzinho, tipo uma fila indiana para que todos possam segui-lo enfileirados.
- Seguir, significa imitar. C.S. Lewis em “Cristianismo Puro e Simples” diz:
O que acontece com Cristo e conosco é algo semelhante a isso. Quanto mais tiramos do caminho aquilo que agora chamamos de "nós mesmos" e deixamos que ele tome conta de nós, tanto mais nos tornamos aquilo que realmente somos. Ele é tão grande que milhões e milhões de "pequenos Cristos", todos diferentes, não serão suficientes para expressá-lo plenamente. Foi ele que os fez a todos. Ele inventou — como um escritor inventa os personagens de um romance - todos os homens diferentes que vocês e eu devemos ser. Nesse sentido, nossos verdadeiros seres estão todos nele, esperando por nós. De nada vale procurar "ser eu mesmo" sem ele. Quanto mais resisto a ele e tento viver sozinho, tanto mais me deixo dominar por minha hereditariedade, minha criação, meus desejos naturais e o meio em que vivo. Na verdade, aquilo que chamo com tanto orgulho de "eu mesmo" é simplesmente o ponto de encontro de miríades de cadeias de acontecimentos que não foram iniciadas por mim e não poderão ser encerradas por mim. Os desejos que chamo de "meus" são meramente os desejos vomitados pelo meu organismo físico, incutidos em mim pelo pensamento de outros homens ou mesmo sugeridos a mim pelos demônios. (...) Em meu estado natural, não sou tanto uma "pessoa" quanto gosto de pensar que sou: a maior parte daquilo que chamo de "eu" pode ser facilmente explicada por outros fatores. E só quando me volto para Cristo, quando me entrego à personalidade dele, que começo a ter uma verdadeira personalidade minha. (...) Mas o euprecisa ser entregue de verdade. Você tem, por assim dizer, de lançá-lo fora "às cegas". Cristo de fato lhe dará uma personalidade nova, mas não é por causa disso que você deve buscá-lo. Enquanto estiver preocupado com sua personalidade, você não estará caminhando na direção dele de modo algum. O primeiro passo consiste em procurar esquecer completamente de si mesmo. Seu novo eu, seu eu verdadeiro (que é de Cristo e também é seu, e é seu justamente porque é dele) não surgirá enquanto você o estiver procurando. Só surgirá quando o objeto de sua procura for ele. (...) Esse princípio rege a vida inteira, do começo ao fim. Entregue-se, pois assim você encontrará a si mesmo. Perca a sua vida para salvá-la. Submeta-se à morte, à morte cotidiana de suas ambições e dos seus maiores desejos e, no fim, à morte do seu corpo inteiro: submeta-se a ela com todas as fibras do seu ser, e você encontrará a vida eterna. Não guarde nada para si. Nada que você não deu chegará a ser verdadeiramente seu. Nada que não tiver morrido chegará a ser ressuscitado dos mortos. Se você buscar a si mesmo, no fim só encontrará o ódio, a solidão, o desespero, a fúria, a ruína e a podridão. Se buscar a Cristo, o encontrará; e, junto com ele, encontrará todas as coisas.
Toda essa citação talvez seja o melhor retrato daquilo que significa seguir a Jesus.
Agostinho dizia que não era: “pela mudança de lugar que podemos nos aproximar daquele que está em todo lugar, mas pelo cultivo de desejos puros e hábitos virtuosos.”
- Resumindo: Seguir Jesus significa imitá-lo, abandonar o eu e tornar-se um “pequeno Cristo” ao mundo.
Vamos ao texto!
v.57 – “Indo eles caminho fora, alguém lhe disse: Seguir-te-ei para onde quer que fores”.[2]
- Será? Essa expressão muito se parece com aquela de Pedro, que promete a Jesus não o deixar, e estar pronto, inclusive, para morrer por ele.
- Esse primeiro discípulo, parece se dirigir a Jesus, sem que seja por Ele provocado, apresentando-se disposto a segui-lo em qualquer condição.
- “Estou aqui, estou pronto para segui-lo para qualquer lugar”
- Mateus diz que esse homem é um escriba. Ou seja, um religioso da época. A declaração deste escrita é notável.
- Além disso, os escribas, propriamente ditos, eram mestres; não obstante, esse mestre reconhece Jesus como seu mestre, e nessa qualidade se dirige a ele.
- Acredito que não precisamos duvidar acerca da sinceridade das palavras deste escriba. No momento específico em que deu expressão à sua promessa, ele realmente tinha a intenção de fazê-lo: queria ser um seguidor permanente de Jesus.[3]
- Na caminhada cristã, conheci muitas pessoas que prometeram o mundo para Cristo, que se dispuseram prontamente para o serviço, na maior parte do tempo, sem pensarem, levados unicamente pelas emoções, muitas vezes querendo impressionar, chamar a atenção para si. Esses são como aquela semente que caiu à beira do caminho, o solo é duro, a semente não penetra, e facilmente vira comida para os pássaros. Não há fundamento.
v.58 –“Mas Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”.[4]
- Não podemos negar que há algo muito atraente nas palavras “Eu te seguirei por onde quer que fores”.
- Essas palavras nos fazem lebrar da gloriosa resolução de Rute: “Aonde quer que fores, irei eu …” (Rt 1.16,17)?
- Contudo, como Jesus o indica claramente, as intenções desse homem não eram de todo honrosas. Ele via multidões, milagres, entusiasmo etc. Parecia tão bonito estar estreitamente associado àquele que era o próprio centro de toda essa atividade.
- Por isso ele queria ser discípulo de Cristo, mas não conseguira compreender as implicações do discipulado, a saber: a negação de si mesmo, o sacrifício, o serviço, o sofrimento![5]
- A resposta Jesus está completamente contextualizada com a geografia da região. Existem raposas por todos os lados, seus covis, buracos ou esconderijos, eram buracos cavados no chão. O ponto que Jesus enfatiza aqui, é que esses animais tem habitações definidas, lares aos quais possam regressar sempre. O mesmo vale para as aves.
- No entanto, para o “Filho do homem”, as coisas são inteiramente diferentes.
- Em suas peregrinações de um lugar a outro ele, para quem não houve lugar na estalagem, não tinha um lugar com que pudesse contar para passar a noite.
No sermão anterior, destacou-se que atravessando a região dos samaritanos, ele não encontrou onde se hospedar. Os samaritanos rejeitaram-no, lhe negaram um estalagem.
Voltemos um pouco, e à medida que sua história avança, a Judeia o rejeita (Jo 5.18); a Galileia o expulsa (Jo 6.66); Gadara roga que saia de seu distrito (Mt 8.34); Samaria lhe nega hospedagem (Lc 9.53); a terra não o quer (Mt 27.23); e, finalmente, até mesmo o céu o abandona (Mt 27.46).
- Portanto, que o escriba calcule o custo antes de edificar a torre. Que leve em conta que o discipulado permanente implica luta e contendas[6]
v.59 – “A outro disse Jesus: Segue-me! Ele, porém, respondeu: Permite-me ir primeiro sepultar meu pai”.[7]
- Enquanto o primeiro aspirante ofereceu-se a seguir a Jesus, a este homem Jesus convoca-o que o siga.
- Ele evidentemente pertencia a esse grande grupo de pessoas que se deixaram impressionar pelas palavras e obras de Cristo. Esse aspirante, no entanto, se achava entre os que ouviam a Cristo.
- Imagina-se que ao falar de Jesus ele dê relatos extraordinários sobre os feitos do Senhor. Desejo por tornar-se um discípulo mais íntimo, recebe de Jesus a convocação. “Vem” – “segue-me”.
- Contudo, como o texto nos apresenta, o homem parece não estar totalmente preparado para dar esse passo imediato.
- Observe, que ele não impõe condições para se unir ao grupo, nem tão pouco se apresenta como importante. Ele simplesmente pede “um tempo” para se preparar para isso.
- Ele dá a seguinte resposta ao chamado de Jesus: “Permite-me ir primeiro sepultar meu pai”. Essa expressão por muito tempo tem gerado algumas especulações interpretativas. Alguns estudiosos, a traduzem de modo literal, entendendo que este rapaz acaba de perder o pai, está de luto, e pede ao messias que lhe dê tempo para isso, até que isso se resolva.
- Uma outra linha, diz que este homem tem o pai vivo, talvez já idoso, e prestes a partir, pensando em tomar posse da herança, planeja seguir a Jesus depois de resolver tais questões, haja visto que isso lhe promoveria estabilidade para o trabalho como discípulo.
- Em qualquer uma das interpretações que possamos assumir, a questão toda, está no fato de que o homem coloca uma “coisa” entre ele e Cristo, entre ele e o chamado de Cristo.
v.60 – “Mas Jesus insistiu: Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos. Tu, porém, vai e prega o reino de Deus”[8].
- O que Jesus quer dizer é bastante claro: “Que aqueles que estão espiritualmente mortos se encarreguem do funeral de alguém que pertence à sua própria confraria”.
- É possível que surja a pergunta: “Por que Jesus não atendeu a esse pedido, especialmente tendo em vista que esse aspirante, concluídas suas funções em relação ao funeral de seu pai, poderia voltar imediatamente para estar com Jesus?”
Surge à mente várias possibilidades:
1. Como costumeiramente conduzidas, as cerimônias fúnebres não serviam muito para o crescimento e a edificação espiritual. Eram atividades ruidosas, caracterizadas por lamentações excessivas e hipócritas. Veja Mateus 9.23,24; Mc 5.38–40; Lucas 8.52,53: o lamento entre gritos se convertia de repente em gargalhada burlesca. Jesus queria poupar o homem dessa agonia. Queria que ele recebesse uma bênção para si e que fosse uma bênção para outros, passando mais tempo com o Salvador, de modo que, assim fortalecido na fé, esse discípulo pudesse “proclamar o reino de Deus”, como Jesus lhe ordena fazer.
2. Como a passagem paralela (Mt 8.18) indica, Jesus já tinha dado a ordem de partir, e estava pronto para embarcar. Se esse homem queria estar na companhia imediata de Cristo, então deveria unir-se a ele agora mesmo. Outros poderiam encarregar-se do funeral.
3. O fato de Jesus ser Senhor soberano e que segui-lo significa fazer tudo o que ele manda, sem nenhuma qualificação, condição, ou reserva, devia ficar profundamente impresso na mente e no coração desse homem (cf. Jo 15.14). Jesus sabia que o aspirante era o tipo de pessoa que precisava de forma muito especial que fosse lembrado disso.
4. Jesus quer ensiná-lo que no reino dos céus, os laços correspondentes à vida familiar terrena são superados pelos que unem aos membros da família celestial ou espiritual (cf. Lc 8.19–21, e veja C.N.T. sobre Efésios 3.14,15).
- A menção desses quatro pontos não significa endossá-los! Não sabemos quais, nem quantas das respostas sugeridas estavam na mente de Cristo quando disse: “Siga-me …”
v.61 – “Outro lhe disse: Seguir-te-ei, Senhor; mas deixa-me primeiro despedir-me dos de casa”[9]
- Aqui temos um homem que se apresenta “pronto” para seguir Jesus, após resolver algumas questões pessoais.
- Aqui, como no segundo caso, os estudiosos se dividem, entre um mero despedir-se e um resolver questões familiares.
- Mais uma vez, independente de qual seja a questão, da mais simples à mais complexa, nada pode se colocar entre nós e Cristo, entre nós e o chamado para seguir a Jesus.
- O discipulado tem um custo, tem um preço!
v.62 – “Mas Jesus lhe replicou: Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás é apto para o reino de Deus”. [10]
- O fato de esse provérbio não ser originalmente de Jesus, mas que pode ser atribuído a Hesíodo (cerca de 800 a.C.), não o torna menos apropriado. O homem que põe a mão no arado e começa a arar para frente, mas logo começa a olhar para trás, não pode traçar um sulco direito.
- É plenamente próprio que ele pare seu arado e então, enquanto permanece quieto, olhe o que fez, a fim de corrigir os erros. Arar, porém, numa direção, enquanto olha para a direção oposta, jamais dará certo.[11]
- O coração desse homem estava dividido. Deveria deixar de seguir o exemplo dos israelitas (1Rs 18.21) e, em vez disso, seguir os passos de Paulo (Fp 3.13,14). Então, pela graça e poder de Deus, ele seria “apto” para o reino de Deus, “muito útil para o Mestre” (2Tm 2.21). Deveria aprender a dizer e a dar sentido a isto:[12]
Ensina-me a amar-te como os anjos te amam,
Que uma santa paixão domine todo meu ser –
O batismo da pomba que desceu do céu;
Meu coração será um altar, e teu amor a chama.
– George Croly[13]
Conclusão e Aplicação
Como você distribuiria as seguintes três falhas entre os três aspirantes, designando a cada umsua falha?
a. Falha em prestar atenção à sua tarefa.
b. Falha em render a Cristo a abnegada devoção do coração.
c. Falha em deixar que Cristo tenha a preeminência em sua vida.
- Devemos concluir nossas considerações sobre essa passagem examinando nosso próprio coração.
- As circunstâncias passaram por muitas mudanças desde a época em que nosso Senhor proferiu essas palavras. Hoje em dia, poucas pessoas estão sendo chamadas para realizar verdadeiros sacrifícios por amor a Cristo, como ocorreu na época em que ele esteve na terra.
- Mas o coração do homem continua o mesmo. As dificuldades envolvidas na salvação ainda são grandes. Até agora, o ambiente do mundo permanece desfavorável ao verdadeiro cristianismo. Se desejamos ir ao céu, ainda é necessário que tomemos uma decisão completa, inflexível e de todo o coração. Esse tipo de determinação deve ser nosso único alvo.
SDG.
[1] Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Lc 9.57–62. [2] Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Lc 9.57. [3]William Hendriksen, Lucas, trans. Valter Graciano Martins, 2a edição., vol. 2, Comentário do Novo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2014), 45. [4] Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Lc 9.58. [5]William Hendriksen, Lucas, trans. Valter Graciano Martins, 2a edição., vol. 2, Comentário do Novo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2014), 46. [6]William Hendriksen, Lucas, trans. Valter Graciano Martins, 2a edição., vol. 2, Comentário do Novo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2014), 46. [7] Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Lc 9.59. [8] Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Lc 9.59–60. [9] Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Lc 9.61. [10] Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Lc 9.62. [11]William Hendriksen, Lucas, trans. Valter Graciano Martins, 2a edição., vol. 2, Comentário do Novo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2014), 49. [12]William Hendriksen, Lucas, trans. Valter Graciano Martins, 2a edição., vol. 2, Comentário do Novo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2014), 50. [13]William Hendriksen, Lucas, trans. Valter Graciano Martins, 2a edição., vol. 2, Comentário do Novo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2014), 50.
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