Romanos 1.18-32

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O autor apresenta a justificação do SENHOR na salvação, estabelecendo a culpabilidade do homem, devido a rebelião idolatra que perpetrou, e resultou em sua depravação moral e, consequentemente, em sua condenação pelo próprio Deus.

Notes
Transcript
A justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé” (Rm 1.17).
Pr. Paulo U. Rodrigues

Introdução

Após o apóstolo Paulo desenvolver o tema central de sua carta, enfatizando a declaração da justiça do SENHOR na salvação do pecador mediante a fé em Cristo Jesus, isso sendo fruto da operação do poder de Deus no evangelho, o autor agora inicia sua argumentação considerando todo o estado de depravação da humanidade, para que assim possa evidenciar a ação divina em livrar pecadores de sua ira e de sua corrupção natural, publicando sua pureza e ação maravilhosa na redenção dos que escolheu para serem seus vasos de honra (cf. 9.22-26).
A argumentação do apóstolo gira em torno da demonstração de uma antítese entre os versículos 17 e 18: enquanto “a justiça de Deus é revelada de fé em fé no evangelho” (v.17), “a ira de Deus é revelada contra toda a impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (v.18). Deus e o homem são colocados em lados opostos no drama cósmico, e a razão para isso é a supressão da verdade da existência divina perpetrada pelo ser humano e o descumprimento de sua obrigação em corresponder a ela a partir do reconhecimento, glorificação e gratidão que deve a Deus (cf. v.21).
A tese de Paulo consiste na proposição de dois pontos: 1) (vv. 18-23) A supressão da verdade como causa da injustiça e impiedade dos seres humanos; e 2) (vv.24-32) a consequência de tal rebelião como sendo a revelação da ira de Deus na entrega da humanidade ao estado de queda e depravação.
O ser humano ao ter se rebelado contra Deus, reprimindo a clareza da revelação divina (o que pode ser uma referência ao pecado de Adão e Eva no Éden, tendo dado ouvidos à proposta da Serpente (cf. Gn 3.4-5)), corrompeu-se, tornando-se injusto (gr. ἀδικία) e, nessa condição, teve seu coração entregue pelo próprio Deus à uma mentalidade incapaz de coadunar-se a sua vontade, incorrendo o homem, por sua vez, em toda sorte de idolatria e imoralidade.
A intenção apostólica é conceder aos cristãos em Roma um quadro geral (que será especificado nos capítulos seguintes) quanto a condição humana que o evangelho reverte pelo poder Deus. A verdade de Deus é irrompida no coração do pecador, trazendo-o à fé em Cristo e à salvação de seu julgamento. Em face dessas considerações, o texto de Romanos 1.18-32 publica a tese da revelação da ira de Deus em face da supressão de sua verdade pelo ser humano e a entrega deste à corrupção de sua natureza.

Elucidação

Segundo introduzido, o argumento do autor é desdobrado em duas proposições que complementam a ideia da contraposição da justiça de Deus revelada no evangelho a revelação de sua ira, a partir da entrega da humanidade à injustiça e impiedade que abraçou, ao ter rejeitado e aprisionado a verdade de Deus, inclinando o coração à mentira. Passaremos a analisar os referidos pontos.
1. (vv.18-23) A supressão da verdade como causa da injustiça e impiedade dos seres humanos.
Como salientado, o apóstolo estabelece o início de sua argumentação explicando a situação do ser humano de queda e corrupção, destacando a origem de tal status. O uso do mesmo termo nos versículo 17 e 18 para revelação (gr. “ἀποκαλύπτεται”) cuidam de conectar as passagens mediante um forte contraste. Para que Paulo torne evidente aos cristãos romanos a magnitude da operação graciosa do SENHOR em os salvar, é necessário que percebam donde e do que foram salvos.
O primeiro ponto de sua prédica consiste em reforçar a razão que publica o merecimento do sentenciamento e julgamento do ser humano por parte do SENHOR, tendo em vista a flagrante aversão daquele em submeter-se à vontade divina. O autor chama a atitude do homem para com Deus de “impiedade e perversão” (ou injustiça (cf. NAA), o último sendo um reforço da declaração de culpa da raça humana, principalmente levando em consideração que foi por meio da justiça que Deus declarou-se como justo na salvação de pecadores; isto é, enquanto Deus é declarado justo na salvação, o mesmo não pode ser dito do homem em sua relação com o SENHOR.
Segundo Paulo, os seres humanos “κατεχόντων”, isto é, detiveram/esconderam a verdade Deus, preferindo a injustiça. O uso de “ἀδικίᾳ” é posto em contraste com o termo “δικαιοσύνη” no verso 17, a fim de ratificar a distinção entre Deus e o ser humano. O homem colocou-se sob a ira do SENHOR após ter se rebelado contra ele, rejeitando sua verdade. A articulação do substantivo “ἀλήθειαν” sugere que Paulo a está tratando não de maneira genérica, mas como uma verdade específica. Comparando o versículo 18 ao 23, em que Paulo afirma que o homem “mudou a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem do homem corruptível” (o primeiro objeto de idolatria listado), é possível que o apóstolo tenha em mente o episódio ocorrido no jardim do Éden (como é aludido também no versículo 24), em que a proposta da serpente (i.e. a mentira) consistiu na alegação de que o homem seria como Deus” (cf. Gn 3.5), seduzindo este a colocar-se na posição de igual ao SENHOR, idolatrando a si mesmo.
A supressão da verdade realizada pelo homem foi nada menos do que a negação da exclusividade da adoração e serviço ao SENHOR; ao ter ferido tal princípio, o homem abraçou a mentira, que por sua vez legou o estado de impiedade e injustiça no qual agora vive. A partir desse ponto, o autor clarifica a indesculpabilidade do homem — o que justifica a ira de Deus manifestar-se desde o céu — tendo em vista a publicidade do conhecimento de Deus, isto é, da verdade.
A partir do versículo 19, o autor desenvolve essa tese, ratificando dois subpontos básicos: a) (vv. 19-20a) o conhecimento de Deus é público em razão de toda a criação apontar para sua existência e excelência; e b) (vv. 20b-23) a rejeição da verdade perpetrada pelo homem não é um descuido de sua parte, mas uma ativa e intencional negação do reconhecimento da glória divina.
A) o conhecimento de Deus é público em razão de toda a criação apontar para sua existência e excelência.
A ira do SENHOR manifesta-se de modo justo contra o homem e sua atitude amotinada, em face de o SENHOR ter estabelecido que seus atributos, poder e divindade, estivessem ao alcance do homem “sendo percebidos por meio das coisas criadas” (v.20b). Antes que qualquer objeção pudesse ser feita ao descontentamento de Deus com o homem, Paulo retira do homem o possível argumento da ignorância.
O ser humano não abraçou a mentira ou a injustiça em lugar da verdade porque lhe faltaram meios que o conduzisse à uma percepção clara da existência de Deus e de sua obrigação de, enquanto criatura, lhe render adoração e serviço. Aprouve ao SENHOR fazer com que sua criação apontasse para sua existência, e isso não de maneira misteriosa ou codificada, mas que “νοούμενα καθορᾶται”, isto é, “[fossem] claramente reconhecidas”. O uso da locução no passivo feita pelo autor, estabelece essa realidade de uma forma ainda mais vívida. A proposição do apóstolo é de que a persona divina pode ser vista obviamente, ou sem esforço inquiridor demasiado.
A evolução do raciocínio conduz o leitor à única conclusão possível, esboçada no segundo subponto.
B) A indesculpabilidade do homem deve-se a rejeição e intencional negação do reconhecimento da glória divina.
Numa que toda a criação fornece um claro conhecimento do ser de Deus, não restam escusas ao homem. Paulo categoricamente salienta que o homem é “ἀναπολογήτους” = indefensável. O termo conecta a tese dos versículos anteriores ao que o autor colocará a partir do versículo 21, estabelecendo o mesmo princípio: o ser humano rejeitou, virou as costas, sufocou ou suprimiu a verdade, tornando-se à mentira (cf. v. 25). Nada obstante, tal rejeição não consiste apenas num abandono; antes, trata-se de uma recusa ao reconhecimento do SENHOR enquanto Deus e também de seu favor gracioso. Segundo as palavras de Paulo: “tendo o conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças” (v.21).
O caminho trilhado pelo homem foi o da anulação de um raciocínio adequado que o guiava a Deus, por uma disposição de coração que buscou coroar acima de si o que lhe pareceu digno de glória. Após ter especificado isso nos versículo 22-23a, Paulo explica que o que deflagrou a postura rebelde do homem foi a tentação idólatra. Como já dito, o ser humano, ao ter rejeitado o conhecimento de Deus, substituiu o objeto de adoração devido, “muda[ndo] a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível” (v.23), além de outras imagens que criou para si como seus “deuses” (i.e. aves, quadrúpedes e répteis).
O primeiro objeto do culto idólatra do homem, entretanto, não é a criação em si, o que ocorre devido a seu distanciamento de Deus, confundindo a criatura com o Criador, mas o próprio homem, o que, como dito acima, submete a atenção do leitor a um momento específico na história em que essa troca ocorreu de modo claro, e a partir de então, passou a ser o padrão corrupto da mentalidade humana: o Éden.
No episódio de Gênesis 3, o drama da rebelião humana é narrado a partir da aquiescência de Adão e Eva à proposta da serpente, que propôs ao homem que, ao comer do fruto “se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (cf. Gn 3.5). O ardil do opositor consistiu em o homem voltar-se para si mesmo como objeto de adoração, assumindo o posto de “ser autônomo”, isto é, não mais submisso à vontade divina e arbitrando sobre sua própria vida. O primeiro ídolo criado pelo ser humano, segundo a lógica paulina, foi o próprio homem, o que o conduziu à nulidade de seus pensamentos e, por seu turno, ao desejo de suprimir a verdade que contradiz e denuncia sua insurreição contra o SENHOR.
O apego à mentira em detrimento da verdade, lançou o ser humano no estado de injustiça e impiedade no qual se encontra, e que atrai a ira do SENHOR que, desde o céu, escancara a culpabilidade daquele, tendo o homem se dobrado diante de sua própria imagem adorando-a como deus, além de tudo aquilo que, por sua própria mentalidade deturpada, traça como alvo de glorificação.
O que nos leva ao próximo ponto do argumento apostólico.
2) (vv.24-32) A consequência de tal rebelião como sendo a revelação da ira de Deus na entrega da humanidade ao estado de queda e depravação.
Os versículos 24 e 25 estabelecem uma transição, em que as verdades anteriormente afirmadas são reforçadas e usadas como pavimento para as conclusões seguintes.
Como dito, o apóstolo Paulo destaca a idolatria como sendo o instrumento público da insurreição do homem contra o SENHOR, ao ter este rejeitado o conhecimento de Deus, trocando-o pela mentira, como é dito no versículo 25:

[…] Eles [os homens] mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador.

Não obstante, o autor retorna à afirmação principal, elaborada no versículo 18a, desenvolvendo o modo como a ira do SENHOR é revelada contra tal acinte.
O julgamento divino contra toda a impiedade e injustiça dos homens, ocorre não de modo a seguir o padrão veterotestamentário, por exemplo, em que a criação ou outros povos, eram usados como instrumentos do SENHOR contra os pecados de seu povo. A observação do apóstolo é abrangente ao ponto de fornecer a visão de que a justiça divina se manifestava contra toda a raça humana, e não contra uma parcela dela, e assim, tal sentenciamento era feito mediante a entrega (gr. παραδίδωμι) do homem à sua própria natureza. O termo ocorre três vezes (cf. vv. 24, 26, 28) na seção, intensificando a mesma imagem: o juízo divino, apesar de não ser nada passivo, ocorria não a partir da privação de algum benefício fruído pelo homem enquanto ser, como se poderia esperar, isto é, que o homem morresse ou fosse alvo de algum tipo de operação destrutiva da parte de Deus. O que na verdade ocorre é a remoção de qualquer senso no homem que o fizesse freiar a escalada da exploração das potencialidades de sua disposição mental inadequada, referenciada por Paulo, principalmente, como imoralidade:

Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si (v.24).

Paulo apresenta um círculo vicioso experimentado pelo homem como fruto de sua rebelião e como manifestação da ira divina: o homem rejeitou a verdade de Deus e o serviço devido para com este, tendo abraçado a mentira que o conduziu a idolatria. Por seu turno, a inclinação idolatra desenvolve uma mentalidade incapaz de corresponder moralmente à vontade de Deus, gerando a degradação da sua moralidade, o que é expresso em forma de “paixões infames” (cf. v. 26 - gr. “πάθη ἀτιμίας), especialmente de natureza sexual.
Essa é a argumentação do apóstolo, a partir do versículo 26-27a:

Por causa disso, os entregou Deus

A imoralidade é a resultante da retirada dos limites divinos que poderiam assegurar ao homem a experimentação reduzida dos efeitos de sua queda e corrupção. A manifestação desta, por sua vez, consiste numa violação ou ímpeto que compele o homem a ir contra a sua natureza. Numa que abandonou a verdade de Deus, que definia sua condição enquanto criatura, o homem perdeu a bússola moral que lhe dava razão de ser, degenerando-se e afundando-se em sentimentos, compulsões e volições que o descaracterizam enquanto tal. Sem distanciar-se, entretanto, da sua tese central, Paulo não está apenas observando o quadro moral da humanidade; ele conclui o versículo 27 enfatizando que, o ser humano, à luz de tal descrição, está “recebendo, em si mesmo, a merecida punição do seu erro”.
Na parte final de sua argumentação, usando pela terceira vez o termo “παρέδωκεν” (trad. “entregou”), o apóstolo, ainda aludindo que o efeito do castigo divino é a experimentação de uma inclinação mental reprovável (cf. v. 28b) em razão de ter o homem “desprezado o conhecimento de Deus” (v.28a), lista todas as manifestações oriundas da natureza corrompida do homem e suas atitudes pecaminosas. Os seres humanos estão
Romanos 1.29–31 ARA
cheios de toda injustiça, malícia, avareza e maldade; possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; sendo difamadores, caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia.
Segundo Calvino, a intenção do apóstolo com tal lista foi de abarcar, efetivamente, toda a raça dos homens, de modo a que “ninguém se ve[ja] livre” (CALVINO, Editora Fiel, 2013, p. 84). Numa que os pecados anteriormente mencionados são de ordem moral, especialmente no tocante à perversão sexual, seria possível alguém arrogar inocência ou pelo menos não prática dos mesmos. Agora, entretanto, Paulo descreve toda a humanidade, elencando pecados nos quais todos os homens sob o sol cometem, principalmente os cristãos, a quem ele agora se dirige em Roma, embora tenham sido libertados da escravidão do pecado.
A ira do SENHOR manifesta-se desde o céu não apenas contra aqueles que atentam contra a própria natureza mediante abominações sexuais, mas, contra todos os homens, pois à uma manifestam a tendência corrupta de voltarem-se contra Deus a partir dos pecados listados. A imoralidade epidêmica é usada por Paulo como um reforço de sua compreensão de que o homem agora vive sob o sentenciamento divino e, como já frisado, isto ocorre não através de algum tipo de inciativa do SENHOR em liquidar o homem, mas mediante o abandono do homem à sua vontade.
E como se tal corrupção natural não fosse evidência suficiente da condenação humana, Paulo conclui seu raciocínio afirmando que a humanidade não apenas evidencia sua condição depravada a partir de atitudes pecaminosas individuais, como também, embora
Romanos 1.32 ARA
… conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem.
A aprovação comunitária dos pecados listados, criam um ambiente fomentador de um engajamento mais intenso em tais obras, o que só estabelece inequivocamente que o juízo divino pesa sobre o ser humano.

Síntese

Paulo direciona a atenção de seus leitores/ouvintes à compreensão da dimensão do poder de Deus revelado em sua justiça pelo evangelho que, mediante a fé, traz o pecador à condição de justificado/redimido em Cristo, livrando-o da sentença merecida. Todavia, antes de maravilhar o coração da igreja com a contemplação detalhada desse poder, o apóstolo publica primeiramente o estado de perdição do qual o homem foi tirado; estado esse que é experimentado pelo homem por sua própria rebelião contra o SENHOR, ao ter negado a verdade evidente de seu senhorio, preferindo curvar-se diante de si mesmo e do que, por sua corrupção mental — que considera sabedoria — deseja.
Assim, enquanto a justiça de Deus revela-se de fé em fé, pela justificação do pecador; uma iniciativa interventora do SENHOR, esse mesmo atributo manifesta-se contra a pecaminosidade do homem, mediante a permissão de que este viva sob o governo de sua mentalidade depravada, recebendo em si a devida condenação.
A partir dessa perspectiva o texto de Romanos 1.18-23 sumariza as seguintes considerações:

Aplicações

1. O estado de pecado e corrupção no qual está o ser humano é resultado de sua rebelião contra o SENHOR, por meio da qual aquele suprimiu e rejeitou a verdade de Deus, qual seja: sua divindade, atributos e poder, bem como a exclusividade da adoração devida somente a ele.
A argumentação que o apóstolo discorrerá nos capítulos seguintes, enfatizará a graça do SENHOR na salvação de pecadores, e como Deus, ao fazer isto, está declarando sua justiça. De contra partida, a publicação da revelação da ira de Deus também é justificada: o ser humano encarcerou a verdade, afastando-se dela, o que tendo em vista a perspicuidade da revelação geral (i.e. criação) no apontamento da existência de Deus, só detona quão maléfica tal supressão é.
Como alguém poderia esconder ou tapar a luz do sol? A impossibilidade de tal feito é análogo ao que o homem buscou fazer ao ter se insurgido contra o Deus, negando reconhecer sua glória e lhe dar graças. Porém, ao invés de fazer isso fora de si (como subtendido a partir da analogia citada), o homem obscureceu o coração, e chamou sua rebelião de sabedoria.
Tais fatos não se aplicam apenas a Adão e Eva no jardim do Éden, mas a toda a raça humana subsequente. Os homens continuam fugindo da luz, escondendo-se nas trevas de seus corações, resistindo dar glória e graças a Deus. Em face disso, não há como considerar a ira do SENHOR contra toda a humanidade como outra coisa senão justa.
As Escrituras, ao falarem da cegueira espiritual do homem, faz referência ao evangelho, isto é, o homem não pode gerar em seu coração uma compreensão clara quanto a verdade do evangelho, a justiça divina e seu juízo de modo a operar em si mesmo o arrependimento e fé em Cristo, para que fosse assim salvo. Porém, no que concerne à natureza pecaminosa e também ao próprio juízo divino contra ela (como será desenvolvido no versículo 32), o homem está plenamente cônscio, e tudo o que faz para se aprofundar em sua impiedade e injustiça, é uma manifestação ativa de sua vontade.
2. A indesculpabilidade do homem advém de sua contínua rejeição da verdade de Deus, e a idolatria foi e é o pecado que instrumentaliza a perpetuidade da rebelião humana.
R. C. Sproul tratando do termo “ἀναπολογήτους” (trad. “indesculpável”/“indefensável”), afirma:

Que resposta os seres humanos corruptos e caídos tentarão dar a Deus no dia do julgamento? “Deus, eu não sabia que o senhor estava lá. O senhor não se revelou claramente para mim; se o tivesse feito, eu teria sido seu servo obediente”. As pessoas serão tentadas a apresentar desculpas, mas todos permanecem sem desculpa. Não há nenhuma desculpa de ignorância diante de Deus, não quando ele próprio nos tem dado a informação. Uma desculpa de ignorância é uma desculpa vazia, e não terá nenhum efeito.

Tendo apresentado a ação pecaminosa do homem em esconder a verdade de Deus, o presente texto também enfatiza a total culpa do homem, especificando como tal rebelião se deu: através do pecado da idolatria. Naturalmente, ao ler o relato de Gênesis, é possível enumerar diversos outros pecados representados pela ação do homem em dar ouvidos à mentira da serpente. Entretanto, o pecado que Paulo marca como tendo sido o gatilho para todo o processo de queda da humanidade, foi o voltar-se à sua própria imagem como objeto de culto, além de outras confecções suas que remetem à confusão mental do homem que agora curva-se diante da criatura.
A construção de imagens, formulação de teorias e ideologias, além de toda e qualquer expressão cultural ou empreendimento humano que desperte no coração uma apreensão tal que se torne o centro da vida de qualquer pessoa, é um ídolo, e este representa não somente seus desejos ou concupiscências, mas sobretudo, sua aversão contra Deus.
Como visto no ponto anterior, o homem volta-se ativamente contra Deus, e um dos meio de fazer isso é colocando outro em seu lugar. Na cidade de Roma, no período em que o apóstolo Paulo escreveu sua carta, os ídolos eram chamados Júpiter, Marte, Vênus, Zeus, Hera, Cronos. Em nossos dias, além de falsas religiões, cujos os objetos de culto também são feitos de madeira ou pedra, são os “deuses dos homens” são conhecidos como dinheiro, sexo, poder. Nada obstante, o que todos esses ídolos (passados e presentes) tem em comum? todos são criações do próprio ser humano.
Mauro Meister, descrevendo o fruto amargo da idolatria, salienta:
Quando olhamos para todas as perdas contabilizadas pelo homem como resultado de sua desobediência, podemos vislumbrar o tamanho da tragédia do pecado. A toda essa cadeia de perdas damos o nome de “fruto amargo e terrível da idolatria”. Esse fruto, repleto de veneno e morte, faz com que o homem se distancie completamente de seu significado original ao adorar a si próprio, e não a Deus, o Criador. Nosso idioma permite sintetizar esse comportamento humano de forma muito expressiva, usando um simples jogo de palavras: basta suprimir a primeira e a última letras da palavra “Deus” e o que resta é apenas o “eu”, o centro de mim mesmo, objeto de autoadoração (MEISTER, Mauro. A origem da idolatria (Portuguese Edition) (p. 25). Kindle Edition).
3. A rejeição humana da verdade de Deus trocando-a pela idolatria, culminou numa disposição mental reprovada que fomenta a degeneração da moralidade do ser humano, transformando-a numa fábrica de ídolos, que por sua vez dão à luz à imoralidade epidêmica.
Paulo traça uma conexão direta entre a rejeição da verdade cometida pela humanidade (não somente em Adão, mas em cada ser humano que ainda não foi regenerado pelo poder do Espírito Santo) e a idolatria de si mesmo; tese que apresentou nos versículos de 18 à 23.
Agora (cf. vv. 24-32), em complemento a essa perspectiva, o apóstolo observa que o fruto da idolatria é a depravação e corrupção moral, como resultante da ação divina de entregar o ser humano às inclinações torpes de seu coração (o que será especificado adiante). Idolatria e imoralidade estão unidas; ambas são provas de que o ser humano verdadeiramente decide afastar-se de tudo aquilo que o remete a Deus e à sua glória, preferindo a si mesmo como objeto de adoração, replicando a mentira sibilada no Éden, através da qual pensa poder estabelecer o próprio padrão de vida; padrão este que o aprisiona a uma degeneração existencial crônica.
Olhando para a contemporaneidade, é perceptível a realidade descrita pelo autor bíblico. Certamente a igreja hoje constata a intensa imoralidade na qual está submersa a sociedade moderna, embora cada geração possa dizer que a sociedade em que vive/viveu é a mais depravada que houve, o que só confirma o quão profunda é a degradação moral do ser humano. O ponto em foco, é a constatação de que a imoralidade não está desacompanhada de outros pecados, tampouco é a causa da rebelião do homem contra o SENHOR; pelo contrário, a devassidão moral do ser humano aponta para a idolatria.
Uma sociedade imoral é uma sociedade idólatra; uma sociedade depravada é uma sociedade que escolheu adorar qualquer coisa, menos aquele a quem é devida toda veneração. A multiplicidade de ídolos demarca a variedade de pecados e práticas iníquas às quais os homens não somente praticam, mas chancelam que outros cometam, subvertendo a cultura numa indústria de costumes e hábitos cada vez mais pagãos/imorais.
Prostituição, lascívia, egocentrismo, futilidade, corrupção, apenas para elencar alguns pecados, são manifestações ímpias cada vez mais tidas como “normais” atualmente, e com isso, como conclui John Murray:

A iniquidade se torna mais intensa quando não encontra qualquer inibição ou desaprovação da parte de nossos semelhantes e quando há uma aprovação, coletiva e sem discordância, a respeito do mal.

Tal panorama, além de asseverar a culpabilidade do homem, demarca a efetividade do julgamento divino, pois o ser humano entrega-se à imoralidade por ter seus feios e contrapesos morais retirados, a fim de que se afunde numa frenesi pecaminosa. O que nos conduz ao próximo ponto.
4. A mais intensa manifestação da ira divina, com exceção do julgamento e condenação do pecador ao inferno, não é qualquer publicação de juízo do SENHOR instrumentalizado por meios externos (e.g. a erradicação de Sodoma e Gomorra; Dilúvio etc.), mas a retirada do senso moral do ser humano, que afunda-se na exploração das potencialidades de sua natureza caída, sendo assim feita a vontade deste.
A Escritura registra os mais terríveis atos judiciais do SENHOR contra a corrupção da humanidade. O dilúvio exterminou “todos os seres que havia sobre a face da terra” (Gn 7.23). Contra Sodoma e Gomorra, o SENHOR, do céu, enviou fogo e enxofre “e subverteu aquelas cidades, e toda a campina, e todos os moradores das cidades, e o que nascia na terra” (Gn 19.25). Estas e outras demonstrações da ira divina são atos portentosos, e dificilmente se poderia imaginar em alguma coisa que os superasse em extensão e intensidade.
Contrariando expectativas, o apóstolo Paulo aponta uma ação divina que realiza tal feito. Desta vez, não há bolas de fogo caindo do céu, ou inundações globais, ou qualquer outro uso da criação como instrumento da espada vingadora de Deus contra a impiedade e injustiça dos homens. De modo mais atormentador, o Texto Sagrado estabelece que a pior das manifestações da ira do SENHOR contra o pecado dos homens, com exceção daquela que será a última e eterna exibição de sua indignação contra o pecado, que será o lançamento do pecador ao lago de fogo e enxofre, é simplesmente a entrega do homem à sua própria vontade.
O céu é o símbolo da ira divina contra a pecaminosidade dos homens, mas ele não apresenta qualquer sinal anormal como os citados supra ou outras coisas quaisquer. O céu continua límpido e azul, as nuvens continuam percorrendo a imensidão, e os astros continuam presos a ele, sem despencarem, iluminando o dia e a noite. Esse é o problema: isso indica que tudo tem corrido normalmente, o que cria nos homens a sensação de impunidade.
O homem, apesar de saber (cf. v.32) que por seus procedimentos é passível de morte, finge não se importar com a estranha calmaria nos céus, e entrega-se às paixões infames de seu coração depravado, pois ao olhar para as nuvens, não vê sinal de tempestade. Tal tempestade, entretanto, está acontecendo em seu coração: o Espírito Santo tem tornando cada vez mais tênues os limites morais do ser humano, não o incentivando ao pecado, mas relaxando sua mente para que aflore cada vez mais os impulsos devassos de sua própria natureza, como já reiterado.
Segundo explica R. C. Sproul:

A pior coisa que pode acontecer aos pecadores é que tenham permissão para continuar pecando sem qualquer restrição divina. No final do Novo Testamento, no livro de Apocalipse, quando é feita a descrição do último julgamento, lemos: “Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo” (

Esse é o quadro do homem: pensando serem sábios em sua rejeição de Deus, tornaram-se loucos (v.22), e foram entregues à sua loucura, afundando-se no julgamento divino.

Conclusão

O homem, rebelando-se contra o Deus que o criou, achou que poderia obter vida e autonomia ao abandonar a verdade divina, dando ouvidos à mentira que cativou seu coração, pela sugestão de que sua imagem deveria ser a única a ser adorada. Tudo o que conseguiu, porém, foi morte, e se fez alvo da justa e santa ira do Deus Todo-poderoso que manifesta-se desde o céu, abandonando-o às concupiscências de seu coração, por meio das quais degenera-se ainda mais.
Tal quadro só evidencia que somente a mesma justiça divina, pelo evangelho, mediante a fé, pode livrar o homem do sentenciamento do SENHOR.
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