A CRIATIVIDADE DE DEUS NA CRIAÇÃO
O Primeiro Livro de Moisés • Sermon • Submitted • Presented
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Gênesis
1.1-5
O assunto desta
série de sermões é o fluxo da história bíblica.
Focaremos na primeira grande
seção de Gênesis (Gênesis está dividido em duas grandes seções, a primeira seção fala sobre o início de tudo e a segunda seção trata sobre o início do povo hebreu, a história de Abraão e seus descendentes).
O processo criativo de Deus
O relato da criação é uma apresentação altamente sofisticada, designada a enfatizar a sublimidade (poder, majestade e sabedoria) do Deus Criador e estabelecer os fundamentos para a visão universal da comunidade pactual.
A Criação é dividida em seis dias ou
“painéis”, cada um segundo um
processo básico da criação. As palavras-chave – “disse” “separado”, “chamado”, “viu”, “bom” –, como ações e pensamentos de Deus, enfatizam sua presença onipotente e onisciente na criação.[1]
- O processo da criação segue tipicamente um processo de anúncio, ordem, separação,
informação, nomeação, avaliação e arcabouço cronológico.[2]
- Cada dia começa com um anúncio: “E Deus disse”. Muito dos detalhes do relato é estruturado em narração, mas é o discurso direto de Deus, por mais breve que seja, que dirige e forma o relato, o mais impressionante, é que Deus não precisa falar muito, sua ordem sobre a criação vem completa.
Daí Hamilton concluir de forma sublime: “Deus é o solista; o narrador é o acompanhador”. O herói da criação é Deus. Cada
evento ocorre segundo a expressa vontade de Deus e por meio da agência de sua palavra. Discurso significa que Deus está intimamente fascinado com sua
criação.[3]
- Anúncio é seguido de ordem: “Que haja” (ou seu equivalente). A palavra de Deus em conjunção com seu Espírito é irresistível e criativa; consequentemente, ela vence o caos e o vazio (cf. 2Co
4.6).
- Terceiro, as palavras poderosas de Deus trazem separação, dividindo dia e noite, águas e terra, peixes e aves. As fronteiras são importantes tanto na ordem criada quanto na ordem social. Quando tudo se mantém em seu devido lugar e não ultrapassa seus limites, há ordem, não caos.
A informação subsequente do narrador, “E assim Deus fez” (ou seu equivalente), afirma que tudo existe pela expressa vontade, propósitos e palavra de Deus.
- Deus também exibe sua soberania nos primeiros três dias, dando nomes aos elementos (“E chamou…”). Dar nome, uma indicação de domínio, revela
Deus como supremo governante.
- Mesmo os elementos negativos do estado pré-criado, trevas e águas caóticas, estão sob seu domínio e são trazidos
dentro de suas restrições protetoras.
- Então, de cada peça de manufatura, Deus apresenta sua avaliação (“Deus viu que era bom”). Tudo, inclusive trevas densas e o mar, satisfaz o propósito de Deus. Visto ser Deus completamente benevolente, bem como todo-poderoso, a humanidade nada tem a temer da criação. Acompanhando a avaliação das. criaturas viventes está a “bênção” de Deus (isto é, potência para a vida).
Começando com peixe e ave, Deus abençoa cada criatura com procriatividade.
- Finalmente, todos os atos da criação seguem um arcabouço cronológico. Deus não cria no tempo, mas com o tempo. A semana se torna a unidade básica do tempo: seis dias de trabalho e um de descanso. O uso cuidadoso de números em todo o
relato comprova a formação lógica e conveniente da criação.6[4]
Para situar-nos, no sermão passado, falamos sobre Gênesis 1.1, tratando sobre o que há antes da própria criação, portanto, a partir de hoje, vamos tratar o texto a partir de Gênesis 1.2.
Vamos ao texto!
Antes de entrar propriamente no texto, deixe-me fazer uma observação sobre o processo criativo de Deus:
- Utilizando a estrutura do processo criativo, o narrador, no caso Moisés, constrói a história com crescente detalhe e movimento.
Numa crescente, o narrador dedica mais tempo e espaço a cada dia até o ápice máximo da criação, quando cessa o movimento e Deus descansa.
O relato da criação é dividido em duas tríades, as quais se contrastam com o estado informe (tōhû) e o incompleto (bōhû) da terra quando a história tem início.[5]
- O movimento e o desenvolvimento de cada
tríade revelam uma progressão dentro da criação.
1 - A primeira tríade separa o caos informe nas três esferas estáticas.
2 - Na segunda tríade, as esferas casa e proteção da vida são completadas com as formas de movimento do sol, lua e
criaturas viventes.
Os habitantes da segunda tríade governam as esferas correspondentes: o sol e a lua governam as trevas, enquanto a
humanidade (cabeça sobre tudo) governa a terra.
Cada tríade progride do céu para a terra (globo terrestre) e termina com a terra produzindo.
Na primeira tríade, a terra produz vegetação; na segunda, a terra produz animais. O número de atos criativos também aumenta
dentro de cada tríade: de um único ato criativo (dias 1 e 4) para um ato criativo com dois aspectos (dias 2 e 5) para dois atos criativos separados
(dias 3 e 6).
- A ação no relato da criação também se intensifica. Dentro da primeira tríade, há movimento simples de luz para trevas, de firmamento e mares para vegetação que cresce.
- Dentro da segunda tríade, há uma erupção de energia cinética. Sol e lua cruzam o céu; aves e peixes enxameiam o ar e mar;
animais terrestres vagueiam pelo solo.
- O padrão de movimento na segunda tríade ocorre progressivamente. As luzes seguem um padrão premeditado e estruturado.
Os animais vagueiam em níveis limitados de liberdade, restringidos por seus
padrões instintivos de migração e habitação. Os seres humanos têm liberdade mais ampla, limitada só pela própria terra.
Todo o relato é unificado por uma estrutura básica de um tempo semanal. A estrutura afirma a consonância e simetria, a harmonia e equilíbrio no mundo de Deus.[6]
Agora acredito que conseguimos entrar no texto.
v.2 “A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por
sobre as águas”. [7]
- Eu não sei se você já notou, mas, não há palavra de Deus criando o planeta terra ou trevas ou caos aquático.
- Moisés começa a história do planeta já presente, embora indistinto e informe. No poder criativo de Deus, ele transformará as trevas num universo ordenado.
- Terra. Este termo é usado de três formas no prólogo: para significar o cosmos, quando parte de uma frase composta
com “céu” (ver 1.1); para significar terra seca (ver 1.10); e, como usado aqui, para significar o que chamaríamos o planeta.
- Sem forma e vazia [tōhû wāḇōhû]. Esta frase é um antônimo de “céus e a terra”, significando algo não-criado ou desordenado (Jr 4.23–27). Segundo David Tsumura, este sintagma “se refere à terra como um lugar vazio, isto é, ‘um lugar improdutivo e inabitado’ ”. Tsumura argumenta de forma convincente que a preocupação da narrativa é com a vida: aves, animais e vegetação.
- O estado negativo da terra reflete uma situação na qual a terra não está produzindo vida. Cronologicamente, isso
descreveria o estado da terra anterior ao versículo 1, como seria uma contradição representar a criação como cosmos formado e terra não-formada.
Calvino disse: “Não serei muito prolixo na exposição dos epítetos תהו (tohu) e בהו (bohu).
Os hebreus os empregavam para designar algo que é vazio e confuso, vão, ou sem qualquer valor. Indubitavelmente, Moisés os empregou em contraste com todos aqueles objetos criados que pertencem à forma, ao ornamento e à perfeição do
mundo.
Se, agora, removêssemos da terra tudo o que Deus acrescentou após o
tempo aqui referido, então teríamos esse caos rude e tosco, ou melhor, sem forma. Portanto, considero o que ele imediatamente acrescenta: que “havia trevas sobre a face do abismo”, como parte daquele vácuo confuso, porque a luz
começou a dar ao mundo alguma aparência externa. Pela mesma razão, ele o chama abismos e águas, posto que naquela
massa de matéria nada era sólido ou estável; nada era distinto”.[8]
- Trevas cobriam a superfície do abismo.
A Terra é um abismo escuro, inóspito para a vida. “Trevas” e “abismo”, como opostos a “luz” e “terra”, trazem a conotação de mal irracional (Êx 15.8; Pv
2.13). Também vêm fazer parte da criação divina, fazendo a vontade de Deus (ver
Gn 45.5–7).
Espírito de Deus [rûaḥ ’elōhîm]. Visto que a palavra traduzida por
“Espírito” (rûaḥ) pode também significar “vento”, há quem argumente que isto deve ser traduzido por “vento de Deus” ou “vento poderoso”. Uma boa defesa pode apresentar ou
“Espírito” ou “vento”. Por exemplo, podemos observar que na recriação depois do
dilúvio, Deus envia novamente um rûaḥ – ali evidentemente um vento – sobre as águas.
- Aqui, contudo, rûaḥ é modificado por ’elōhîm, que no resto deste capítulo sempre significa “Deus”, não “poderoso”. Assim, Espírito se ajusta melhor com o contexto.
Pairando como águia sobre o abismo primordial, o poderoso Espírito prepara a terra para habitação humana.
- John Sailhamer relaciona o papel do Espírito em edificar o templo cósmico de Deus (cf. Sl 104.1–3) com o ato do
Espírito em encher Bezalel para construir seu tabernáculo na terra (Êx 31.1–5).[9]
v.3-5 – “Disse Deus: Haja luz; e houve luz. 4 E viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas. 5 Chamou Deus à luz Dia e às trevas, Noite. Houve tarde e manhã, o primeiro dia”.[10]
- Destaca-se neste momento a criação por meio da Palavra de Deus, que estabelece a luz no meio das trevas, terra no meio do
mar, ar no meio da água e, como resultado, o mundo inabitável se torna o marcante cenário da criação.
- Gerhard von Rad observa: “A ideia de criação pela palavra preserva antes de tudo a mais radical distinção essencial entre
Criador e criatura. A criação não pode ser nem mesmo remotamente considerada
uma emanação de Deus … mas, é antes um produto de sua vontade pessoal”. Súbita,
porém implicitamente, o relato da criação em Gênesis serve como polêmica contra
os mitos do antigo Oriente Próximo.
Enquanto as forças da natureza
às vezes são deidades nos mitos da criação no antigo Oriente Próximo, aqui tudo se deriva de Deus e está sujeito à palavra de Deus (ver também “luz” e “dois
grandes luminares”, abaixo). Ainda que a criação não seja parte do ser de Deus, toda a criação é inteiramente dependente de Deus para sua subsistência e sustento (cf. Ne 9.6; At 17.25,28).[11]
- Haja. Ver acima, ordem na Análise Literária. A palavra de
Deus tem o poder de trazer à existência o que não existia (Hb 11.3). A vontade de Deus é irresistível, realçada pelo imperativo divino.
luz. Luz simboliza vida e bênçãos de várias espécies (cf. Sl 19.1–6; 27.1; 49.20; 97.11). Visto que o sol só mais tarde é introduzido como a causa imediata da luz, a cronologia do texto enfatiza que
Deus é a fonte última da luz. A
descronologização provavelmente funcione como uma polêmica contra as religiões
pagãs, que cultuam a criação ou criaturas, não o Criador de quem a criação depende.
4. viu. Esta é uma metáfora para a percepção espiritual de Deus.
bom [ṭôḇ]. Embora as cascas
de ovo do estado pré-criado, trevas e oceanos do abismo, estejam ainda presentes, podem agora ser chamadas “bom” (isto é, benéficas e desejáveis),
porque são limitadas pela luz e terra, respectivamente, e servem a tarefas úteis (Sl 104.19–26). A criação é imbuída com a bondade de Deus e joie de vivre (Pv 8.30,31).
separados [bāḏal]. Este termo denota a separação do que não
se pertence, bem como a separação dos componentes de uma tarefa particular. Luz
e trevas – como águas acima e abaixo do firmamento – não se pertencem e têm tarefas distintas.
5. Chamou. No pensamento bíblico, nome é equiparado à
existência. Ao dar nome a sistemas positivos no sustento da vida (luz,
atmosfera e terra), bem como a suas partes correspondentes (trevas e água
caótica), Deus demonstra sua soberania sobre, inclusive, os elementos negativos
do estado pré-criado (ver adiante, Reflexões Teológicas).
dia [yôm].
Têm-se proposto diversas interpretações para os “dias” do relato da criação,
inclusive períodos literais de vinte e quatro horas, eras e épocas extensas e
estruturas de um arcabouço literário designadas a ilustrar a natureza ordenada
da criação divina e a capacitar o povo pactual a imitar o Criador. As primeiras
duas interpretações contêm dificuldades científicas e textuais. A terceira
interpretação é consistente com a ênfase do texto sobre questões teológicas, em
vez de científicas. A apresentação da criação por meio de “dias” revela a
soberania de Deus ordenando a criação e a preocupação divina em acomodar-se à
humanidade em termos finitos e compreensíveis. A decisão de Deus em criar o
cosmos por meio de dias sucessivos, e não do “haja” instantâneo, serve como um
paradigma para seu desenvolvimento da humanidade por meio de eras sucessivas da
história.
tarde, e
houve manhã – o primeiro dia. É
possível traduzir-se isto assim: “Veio a tarde, e então a manhã …”. A idéia,
como expressa pelo hebraico, é que o primeiro dia termina quando as trevas da
tarde se dissipam pela luz da manhã.[12]
[1] Bruce K. Waltke e Cathi J.
Fredericks, Gênesis,
org. Cláudio Antônio Batista Marra, trad. Valter Graciano Martins, 1a
edição, Comentários do Antigo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura
Cristã, 2010), 64.
[2] Bruce K. Waltke e Cathi J.
Fredericks, Gênesis,
org. Cláudio Antônio Batista Marra, trad. Valter Graciano Martins, 1a
edição, Comentários do Antigo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura
Cristã, 2010), 64.
[3] Bruce K. Waltke e Cathi J.
Fredericks, Gênesis,
org. Cláudio Antônio Batista Marra, trad. Valter Graciano Martins, 1a
edição, Comentários do Antigo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura
Cristã, 2010), 64.
[4] Bruce K. Waltke e Cathi J.
Fredericks, Gênesis,
org. Cláudio Antônio Batista Marra, trad. Valter Graciano Martins, 1a
edição, Comentários do Antigo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura
Cristã, 2010), 64–65.
[5] Bruce K. Waltke e Cathi J.
Fredericks, Gênesis,
org. Cláudio Antônio Batista Marra, trad. Valter Graciano Martins, 1a
edição, Comentários do Antigo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura
Cristã, 2010), 65.
[6] Bruce K. Waltke e Cathi J.
Fredericks, Gênesis,
org. Cláudio Antônio Batista Marra, trad. Valter Graciano Martins, 1a
edição, Comentários do Antigo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura
Cristã, 2010), 66–67.
[7] Almeida Revista e
Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Gn 1.2.
[8] João Calvino, Gênesis,
org. Waldemir Magalhães, trad. Valter Graciano Martins, 1.a Edição,
vol. 1, Série Comentários Bíblicos (Recife, PE: Editora CLIRE, 2018–2019), 39.
[9] Bruce K. Waltke e Cathi J.
Fredericks, Gênesis,
org. Cláudio Antônio Batista Marra, trad. Valter Graciano Martins, 1a
edição, Comentários do Antigo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura
Cristã, 2010), 68–69.
[10]Almeida Revista e
Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Gn
1.3–5.
[11]
Bruce K. Waltke e Cathi J. Fredericks, Gênesis,
org. Cláudio Antônio Batista Marra, trad. Valter Graciano Martins, 1a
edição, Comentários do Antigo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura
Cristã, 2010), 70.
[12]
Bruce K. Waltke e Cathi J. Fredericks, Gênesis,
org. Cláudio Antônio Batista Marra, trad. Valter Graciano Martins, 1a
edição, Comentários do Antigo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura
Cristã, 2010), 70–71.
