O Rei é o noivo (Mc 2.18-22)
O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos • Sermon • Submitted • Presented
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O Rei é o noivo. Ou: o Rei, o noivo e os tempos (Mc 2.18-22)
Introdução
Introdução
Marcos continua apresentando o Evangelho de Jesus, aprofundando nossa compreensão sobre quem Ele é e a natureza do seu Reino. Nas duas mensagens anteriores, vimos Jesus perdoando pecados e, posteriormente, sentado à mesa com pecadores, mostrando que o Reino de Deus não é construído sobre méritos humanos, mas sobre a graça divina que acolhe os necessitados de justiça.
Agora, Marcos, nessa mensagem central, nos conduz a um cenário diferente, mas igualmente revelador: Jesus se apresenta como um noivo — alguém que traz alegria e celebração.
Diante dessa figura, o jejum tradicional, marcado pelo luto e introspecção, não fazia sentido para seus discípulos. Mais do que isso, Jesus deixa claro, reforçando imagens anteriores (deserto, água), que a chegada de seu Reino é algo completamente novo, rompendo com antigas estruturas religiosas. As analogias de costura e armazenamento de vinho mostram que esse novo movimento de Deus não pode ser contido em velhos moldes. Trata-se de algo vivo, expansivo e transformador.
O contraste que Jesus estabelece nos desafia a pensar: estamos tentando ajustar o Evangelho à nossa tradição ou nos rendendo à novidade radical que Ele traz? Entendemos o tempo do Evangelho e da graça de Deus na história e em nossas vidas?
Exposição
Exposição
1. A pergunta acerca do jejum (Versículo 18)
1. A pergunta acerca do jejum (Versículo 18)
Por que eles jejuavam? O comentário de William Hendriksen sobre a passagem diz:
“A lei de Deus sugere somente um jejum durante o ano inteiro, a saber, no dia da expiação (Lv 16.29–34; 23.26–32; Nm 29.7–11; cf. At 27.9). No decorrer do tempo, todavia, jejuns (nem sempre jejuns totais; veja o texto em cada situação) começaram a se multiplicar, de tal modo que lemos sobre sua realização em outras ocasiões: do nascer ao pôr do sol (Jz 20.26; 1Sm 14.24; 2Sm 1.12; 3.35); por sete dias (1Sm 31.13); três semanas (Dn 10.3); quarenta dias (Êx 34.2,28; Dt 9.9,18; 1Rs 19.8); no quinto e no sétimo mês (Zc 7.3–5); e até no quarto, quinto, sétimo e décimo mês (Zc 8.19). O clímax era a observância do jejum que acontecia “duas vezes por semana” [às segundas e quintas - adição minha], orgulho dos fariseus (Lc 18.12).”
Assim, não era de se estranhar que os fariseus estivessem ali jejuando. Sobre os discípulos de João Batista, é provável que estivessem jejuando em razão do cárcere de João Batista ou até mesmo por sua execução. Como Marcos só listará a morte de João em Mc 6:17-29, é possível que o próprio João tenha encorajado o jejum como uma expressão voluntária de luto pelo pecado — a mesma razão pela qual os fariseus faziam muitos de seus jejuns (cf. Mt 6:16).
Diante disso, “alguns” dos discípulos de João Batista, conforme Mt 9:14, observam o comportamento dos discípulos de Jesus e fazem a pergunta. É provável que discípulos dos fariseus tenham acompanhado a questão. Da mesma maneira que era visível o exercício do jejum pelos fariseus (Mt 6:16), era visível que os discípulos de Jesus naquele momento não guardavam o jejum.
Vale destacar que o jejum não estava excluído da vida cristã com a presença de Jesus; ao contrário, fazia parte do repertório espiritual que Ele ensinava e praticava quando necessário. Em diversas ocasiões, vemos que Jesus se submeteu à disciplina do jejum, como no período de 40 dias no deserto após o Seu batismo, demonstrando a importância dessa prática para a preparação e fortalecimento espiritual. No Sermão do Monte, Jesus fala sobre o tema, aplicando-o aos seus discípulos (Mt 6:16-18). Em Marcos, Jesus também menciona que certos desafios espirituais requerem jejum e oração (Mc 9:29).
Além disso, passagens do Novo Testamento reforçam essa prática: em Atos 13:2 e At 14:23, por exemplo, os primeiros cristãos jejuavam enquanto se dedicavam à oração, à adoração e à tomada de decisões ministeriais, evidenciando que o jejum continuou sendo uma disciplina vital para a comunhão com o Espírito e o discernimento da vontade de Deus.
Em defesa desses questionadores, convém reconhecer que eles não desconsideraram Jesus, mas se aproximaram dele com sinceridade. Embora sua pergunta pudesse conter traços de crítica, tratava-se, na essência, de um pedido honesto de esclarecimento, e não de uma acusação velada.
Se esses homens tivessem se aprofundado melhor no estudo das Escrituras, teriam percebido que, primeiramente, o único jejum associado à lei de Deus era o praticado no Dia da Expiação. Em segundo lugar, conforme os ensinamentos de Isaías 58:6–7 e Zacarias 7:1–10, o jejum que Deus exige não é meramente uma prática literal, mas uma manifestação de amor que se reflete tanto na nossa relação com Ele quanto no nosso relacionamento com o próximo.
2. Jesus explica o período sem e com jejum (Versículos 19-20)
2. Jesus explica o período sem e com jejum (Versículos 19-20)
Jesus remete à loucura da pergunta deles, caso entendessem a quem Ele se refere: Ele é o noivo. Uma figura familiar que, no Antigo Testamento, representava a relação de Deus com o Seu povo (Is 50.1ss.; 54.1ss.; 62.5; Jr 2.32; 31.32; Os 2.1ss.) e que se tornaria comum no Novo Testamento (Mt 25.1ss.; Jo 3.29; 2Co 11.2; Ef 5.32; Ap 19.7; 21.9). O mesmo Cristo que se identifica com Deus, agora reforça Sua união com o Pai e questiona como se poderia exigir luto daqueles que têm experimentado os inúmeros milagres e o doce ensino do noivo? Eles são os amigos do noivo, que ficavam perto dele e se empenhavam para garantir que tudo na festa acontecesse bem.
Naquela época, os casamentos eram festas muito animadas e duravam sete dias. Era um momento de extrema alegria para os noivos e para os convidados. É essencial entender isso, pois Jesus quer que compreendamos que Sua presença entre os discípulos — o momento do Reino de Deus — é um tempo a ser celebrado com alegria. Como seres humanos, dividimos os tempos, e no evangelho é necessário compreendermos que há um novo tempo no Reino.
No entanto, para aqueles tão preocupados com o jejum, Jesus afirma que haverá um tempo adequado para o luto do jejum: quando o Senhor, o noivo, for tirado do meio dos convidados. Isso é uma antecipação de Sua morte na cruz (Is 53.8). Ele tem plena consciência da Sua paixão. Na Sua morte, os discípulos chorarão, mas naquele dia, o luto será adequado, embora não dure para sempre (Jo 16.16-22). Uma reflexão direta que surge é se aqueles que estão tão preocupados com o jejum no tempo em que ele não é necessário estarão em jejum quando o noivo lhes for tirado.
3. Jesus Apresenta a Nova Aliança (Versículos 21-22)
3. Jesus Apresenta a Nova Aliança (Versículos 21-22)
Nesta passagem, Jesus responde à questão sobre o jejum com duas ilustrações tiradas da vida cotidiana. Ele deixa claro que, além de um tempo novo, há prejuízo em tentar juntar o velho com o novo, pois ao misturá-los, ambos se perdem. Por meio dessas imagens, Jesus ensina que Sua vinda inaugura uma nova ordem, incompatível com os moldes religiosos antigos e as práticas legalistas. A salvação trazida por Ele não se encaixa nas tradições humanas de jejum, mas é marcada pela alegria, cura e libertação.
Primeira Ilustração: O Remendo Novo em Roupa Velha (v. 21)
Se um pedaço de pano novo for costurado em uma roupa velha, ao ser molhado, o tecido novo encolherá, rompendo a peça desgastada. O que deveria resolver o problema acaba piorando a situação. Aqui, Jesus mostra que a mensagem do Reino de Deus não pode ser apenas "remendada" às velhas práticas religiosas. Se isso acontecer, haverá prejuízo e tristeza. O evangelho traz uma transformação completa, não uma simples adaptação às tradições antigas. A tentativa de harmonizar a novidade de Cristo com o formalismo religioso resulta em ruína espiritual.
Segunda Ilustração: O Vinho Novo em Odres Velhos (v. 22)
O vinho novo, ainda em fermentação, precisa de odres novos, que são flexíveis e resistentes para acomodar a expansão do líquido. Odres velhos, rígidos e secos, se romperiam com a pressão, fazendo com que se perdesse tanto o vinho quanto o odre e gerasse tristeza. Assim como o vinho novo precisa de odres novos, a obra de salvação e restauração que Cristo traz exige novos corações. Não se pode viver a nova vida em Cristo com uma mentalidade rígida e legalista. Deus nos chama para viver com gratidão, liberdade e um serviço espontâneo a Ele.
Aplicações
Aplicações
Jejum com Propósito e Forma: O jejum não se resume a uma simples abstinência de alimentos, mas deve ser acompanhado de um profundo compromisso com Deus e com o próximo. Quando jejuamos, não o fazemos como um ritual triste, mas com a mente e o coração voltados para o Senhor. O jejum é uma disciplina espiritual que tem o propósito de aproximar-nos de Deus, buscando Sua orientação, cura e intervenção, e de nos voltar às necessidades do próximo. O jejum tem um lugar certo nas disciplinas espirituais cristãs.
Aquilo que apontava para Cristo, quando Ele veio, deve ser deixado de lado: As antigas práticas, como as lavagens cerimoniais, as normas alimentares e a circuncisão (Hebreus 7:18-19), eram sombras daquilo que se cumpriria em Cristo. Todas as promessas de Deus se cumprem em Jesus Cristo (2 Coríntios 1:20). A velha aliança foi estabelecida com uma estrutura que não pode mais sustentar a nova realidade trazida por Cristo, pois Ele veio inaugurar um novo tempo, um novo pacto (Hebreus 8:13). Como nos ensina Hebreus 13:10,13 a velha estrutura religiosa não tem mais lugar no novo tempo de Cristo. Toda a Escritura é útil para o ensino e a edificação, como nos afirma 2Timóteo 3:16, mas devemos ter cuidado para não tentar aplicar as antigas práticas e leis à Nova Aliança. A obra de Cristo é completa e não pode ser misturada com os rituais antigos, pois a estrutura religiosa não suporta o novo tempo que Ele trouxe.
A atitude adequada de coração e mente daqueles que seguem Jesus não é de tristeza, mas de alegria: Considere as seguintes passagens que enfatizam a alegria proclamada no evangelho: em Lucas 2:10, ouvimos “boas-novas de grande alegria”; em Lucas 24:52, os discípulos “retornaram a Jerusalém com grande alegria”; em João 15:11, Jesus declara que “a sua alegria seja completa”; e em João 17:13, Ele ora “para que eles tenham a minha alegria completa em si mesmos”. Essa lição foi plenamente absorvida pelos apóstolos, como demonstram Romanos 5:11; 15:13; Gálatas 5:22; toda a epístola aos Filipenses; 1Pedro 1:8; 4:13; 1João 1:4; e 2João 12. Não significa que não teremos dificuldades e tristezas. Às vezes Deus nos chama para o choro, mas, em Cristo, sempre teremos razão para nos alegrar. Jesus nos lembra em João 16:33, “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”. A alegria em Cristo transcende as dificuldades temporárias, pois a vitória de Jesus sobre o pecado e a morte nos garante um fundamento sólido de esperança e alegria, independentemente das circunstâncias.
Precisamos aprender a nos agarrar à nova realidade que temos em Cristo, reconhecendo a perspectiva histórica de Sua vinda. Os discípulos deveriam estar atentos à maravilhosa presença de Jesus, que trouxe cura aos doentes, libertação aos endemoninhados, alívio para os ansiosos, cura para os leprosos, sustento para os famintos, restauração para os coxos e, acima de tudo, salvação para os perdidos no pecado. Toda essa obra não se encaixa no luto e na tristeza em relação a Jesus. O jejum que Ele nos propõe é com alegria, pois o evangelho não se refere apenas ao futuro ou a um benefício pessoal, mas é também uma realidade presente. Em Cristo, vivemos a transição de uma era para outra, de tempos antigos para tempos novos. Jesus trouxe algo radicalmente novo, algo que não se encaixa nos sistemas legalistas e pesados dos escribas e fariseus. Ele oferece alegria onde antes havia rituais frios, cura onde havia condenação, e liberdade onde havia opressão. Enquanto o mundo oferece cancelamento, o reino de Deus oferece aceitação. Se tentarmos viver o evangelho com uma mentalidade rígida e baseada em méritos, perderemos tanto o propósito quanto as bênçãos da nova vida em Cristo. E se tentarmos viver o evangelho com uma mentalidade mundana, acabaremos vivendo "outro reino". A verdadeira transformação acontece quando nos alinhamos com a nova realidade trazida por Jesus, uma realidade de graça, alegria e liberdade.Que possamos ser como "odres novos", cheios do vinho da alegria e da transformação que Cristo nos oferece.
SDG
Referências
William Hendriksen, Marcos, trad. Lucas Ribeiro, 2a edição, Comentário do Novo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2014), 115.
STEIN, Robert H. Marcos: comentário exegético. Tradução de Neyd Siqueira. São Paulo: Vida Nova, 2021. 1056 p.
EDWARDS, James R. O Comentário de Marcos. Tradução de Helena Aranha. São Paulo: Shedd Publicações, 2018. 632 p.
