Ter ou não ter: eis a questão.

A moralidade cristã  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Objetivo Geral: Apontar para o valor da Lei, enquanto santificadora do crente. Objetivo específico: Demonstrar que a inveja é um poderoso e perigoso motor dos nossos desejos.

Notes
Transcript

Introdução

(Bíblia)
Êxodo 20.17 “— Não cobice a casa do seu próximo. Não cobice a mulher do seu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao seu próximo.”
Deuteronômio 5.21 “— Não cobice a mulher do seu próximo. Não deseje a casa do seu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao seu próximo.”
Chegamos ao décimo mandamento do Decálogo. E este é um mandamento com alguma controvérsia na história da Igreja. Se você ouviu a primeira pregação desta série, você talvez se lembrará que, ao comentar o segundo mandamento, eu disse que os Católicos o unificam com o primeiro e, por esta causa são obrigados a dividir o último.
Isto não é nenhuma invencionice maluca deles para assegurar a idolatria de imagens, como alguns acusam, mas foi a maneira que a tradição cristã dividiu o decálogo. Devemos lembrar que a Bíblia não apresenta os dez mandamentos identificando com números um a um.
Durante a história, as divisões têm sido feitas baseadas e algumas lógicas. Nós, os protestantes, seguimos a divisão que os judeus faziam[1] e que foi amplamente aceita e divulgada pelos Reformadores, mas os católicos seguem a divisão que Agostinho fez.
Creio que temos boas razões bíblicas, históricas e filosóficas para manter os mandamentos do jeito que os reformadores e os judeus antigos o dividiam.
Primeiro, porque é a divisão mais antiga, já praticada por judeus. E este texto veio até nós através do povo judaico.
Segundo, é falso que a divisão que nós fazemos do primeiro e segundo mandamento é ilógica. Como a Bíblia demonstra, é possível que alguém seja servo de Deus e, ainda assim, se torne idólatra. Salomão é talvez o maior exemplo disso.
Terceiro, e mais importante, se fizermos a divisão do décimo mandamento como querem os católicos, teremos que escolher ou a versão de Êxodo ou de Deuteronômio, que tem uma ligeira, mas importante diferença. A tradição católica escolheu a versão de Deuteronômio, que diz para não cobiçar a mulher do próximo primeiro e os bens materiais depois. Na versão de Deuteronômio até tem alguma lógica isso, mas essa divisão fica arbitrária, se usarmos a versão de Êxodo. Além do mais, essa inversão de posição deixa mais que claro que se trata de um mesmo assunto: Cobiça, não importa o objeto[2] de cobiça, somente importa que a cobiça é pecado.
Diante disto, vamos expor os problemas que nos deixam sujeitos à cobiça.
 
Três problemas acerca da cobiça
 

1º Problema: Subestimar o perigo

Ec 4.4 Então, vi que todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja do homem contra o seu próximo. Também isto é vaidade e correr atrás do vento
 Inveja e cobiça são daqueles pecados que somente “os outros” comentem. Difícil ouvir alguém falar: “eu sou muito invejoso”. Inclusive tem muita música popular que fala de inveja, mas sempre se refere aos outros, nunca é uma confissão.
Mas como vemos no texto de Eclesiastes, de alguma maneira, todo o trabalho que nós realizamos está afetado pelo pecado da inveja. A cobiça é um pecado que afeta profundamente nossas motivações.
Desde criança nós manifestamos este pecado. Afinal quem nunca protestou contra uma proibição dos pais dizendo: “Mas todo mundo faz isso!” (Sempre ouvíamos a famosa resposta: “Você não é todo mundo.”)
As agências de propaganda bem sabem disso e, vez ou outra, exploram esse pecado de forma direta[3]. Os governos usam o consumismo (uma modalidade comercial de inveja) para alavancar a economia. A indústria usa o termo “criar necessidade” como filosofia de vendas – e exploram a inveja para divulgar seus produtos (mais/plus, melhor, superior, especial, platinum, gold e outras palavras que implicam superioridade são usados para descreve-los).
Somos motivados por vaidades, por comparações, pois não queremos estar abaixo. E a gente tende a se acostumar com a comparação. Nos comparamos o tempo todo com os outros ou com ideais diversos. E tendemos a achar que isso é bom. Mas não é bom. Há pelo menos duas razões para nós não subestimarmos o perigo da cobiça.
A primeira, é que a cobiça:
 

I. Limita nossa capacidade de fazer o que é bom

Ec 6.11 É certo que há muitas coisas que só aumentam a vaidade, mas que aproveita isto ao homem?
Eclesiastes define essas vaidades que almejamos como algo sem proveito. A verdade é que nos ocupamos com muitas coisas sem proveito e isso nos tira tempo e energia para nos ocuparmos com o que interessa.
Quem inveja a felicidade do casamento de alguém, não tem tempo nem paciência para lutar pelo próprio casamento. Quem inveja o salário de alguém, não tem tempo para aprender a usar bem o próprio dinheiro.
Em resumo, a cobiça tira a energia que seria usada para fazer o bem.
A segunda razão é que a cobiça:
 

II. Aumenta nossa capacidade de fazer o mal

Pv 27.4 Cruel é o furor, e impetuosa, a ira, mas quem pode resistir à inveja?
Há uns anos atrás a apresentadora Xuxa popularizou a expressão “inveja boa”. Imagino, que ela se referia à admiração que temos por certas pessoas ou a felicidade de ver alguém experimentando algo bom. É uma expressão infeliz, porque a inveja nunca é boa.
Invejar/cobiçar é desejar algo que pertence a outras pessoas. Invejar/cobiçar também é querer algo para ser superior a alguém. Inveja é algo tão ruim que a Bíblia trata como algo mais nocivo que a ira descontrolada!
Inveja mata, inveja rouba, inveja mente, inveja finge, inveja é egoísta, egocêntrica. Inveja é demoníaca.
Nunca subestime a inveja.
 
Continuando, o:
 

2º Problema: Destemer as consequências

Tg 4.1-4 1​De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne? 2​Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis; 3​pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres. 4​Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.
 
Os capítulos 3 e 4 de Tiago expõe que haviam certos problemas nas igrejas na Dispersão que foram motivados por inveja. Disputas por poder, maledicência, brigas, facções. A lista é grande e feia.
Talvez você nunca tenha identificado inveja em você. É possível que este não seja um pecado que você percebe que te traz maiores tentações. Mas eu quero pedir que você considere seriamente uma autoavaliação, pedindo ao Senhor que te revele se há motivações invejosas em você em alguma área de sua vida.
E por que eu peço isso? Porque há péssimas consequências para a vida das pessoas invejosas. Uma delas é que:
 

 I. A cobiça nos afasta das pessoas

Mq 2.2 Se cobiçam campos, os arrebatam; se casas, as tomam; assim, fazem violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à sua herança
A inveja necessariamente te afastará da pessoas. O invejoso não se aproxima de alguém, mas do seu objetivo. O invejoso usa as pessoas para alcançar aquilo que quer. A inveja desumaniza.
Por isso é comum um invejoso se tornar viciado em trabalho. Ele tem menos tempo para a família e amigos por que o que ele precisa alcançar, seja dinheiro, seja status, é mais importante que tudo.
Além disso:
 

II. A cobiça nos afasta de Deus

Tg 4.3-4 3​pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres. 4​Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.
Quando nossas motivações estão recheadas de inveja, até nossas orações são afetadas. Deus simplesmente não nos atende mais. Vivemos uma espiritualidade rasa, baseados não na vontade de Deus, mas na nossa.
É daí para pior, pois escancaramos a porta para outros pecados.
 
Por isso, veremos o último:
 

3º Problema: Fugir do combate

 Quem subestima a inveja, achando que “isso não me afeta” e não teme as grandes consequências dela, certamente não lutará contra ela.
Ocorre que para vencer a inveja é necessário muita disciplina. Uma verdadeira guerra que envolve mente e atitudes práticas. Citarei algumas:
 

 I. Contentar-se

Hb 13.5 Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei.
Não é errado desejar coisas ou melhoras na sua vida. Mas é errado desejar o que é dos outros ou desejar ardentemente aquilo que não é necessário. Sempre avalie porque deseja tanto algo e teste suas respostas.
É imprescindível ser contente. Contentamento é aquele sentimento de gratidão com o que se tem misturado com a certeza de que merece menos.
 

 II. Agir contra o pecado

Cl 3.5 ​Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza[4], que é idolatria;
Lc 12.15 Então, lhes recomendou: Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza[5]; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui.
Separei esses dois textos porque ambos são ordens. Veja que a cobiça, aqui chamada de avareza, não vai morrer sozinha e nem vai ficar parada: nós temos que fazê-la morrer em nós e sempre tomar cuidado com ela.
É necessário agir. Fugir daquilo que te induz ao pecado. Desejos de compras, comparações com os outros, “admirações em excesso”, reclamações. Fique atento ao que desperta a inveja em você e fuja.
 

III. Não nomear

Ef 5.3 Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos;
É obvio que o significado aqui não é literal, pois o próprio apóstolo nomeia esses pecados quando escreve o texto. O que Paulo quer dizer é que devemos ter verdadeira repulsa por esse pecado, ao ponto de não acharmos normal em nossa comunidade.
Isso significa que, quando percebermos esse pecado em nossos irmãos, devemos exortá-los no amor de Jesus. Você já exortou ou conhece alguém que foi exortado por inveja?
 

IV. Amar o próximo

Rm 13.9 Pois isto: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
O segundo grande mandamento tanto mostra que invejar é contrário a amar, como também nos mostra que para vencer a inveja, devemos ter atitudes positivas com relação ao nosso próximo.
Em resumo, não fazer com o próximo o que não gostaria que fizessem comigo.
 

Conclusão

 Desejo concluir com uma pequena lista de formas de cobiça.
A ideia é que você possa identificar em algum destes itens uma possível fraqueza sua, de maneira a poder combater esse mal e se tornar mais parecido com Jesus Cristo.
Alguns objetos de inveja:
Poder e Status
Cargo (Autoridade, Status): Muitas pessoas sentem inveja de quem ocupa cargos altos, pois esses cargos muitas vezes vêm com poder e respeito.
Salário (Poder aquisitivo): O poder aquisitivo que um alto salário proporciona pode ser um ponto de inveja, já que permite acesso a bens e experiências de luxo.
Objetos / Propriedades (dos outros, por causa dos outros): Possuir carros de luxo, mansões ou outros itens caros pode gerar inveja em quem não possui esses bens.
Estilo de Vida e Conforto
Estilo de vida (Passeios, moradia): Um estilo de vida repleto de viagens, moradia em locais exclusivos e experiências únicas pode ser algo que outras pessoas desejam ter.
Educação ou Conquistas Acadêmicas: Diplomas de universidades prestigiadas ou altos níveis de qualificação podem ser motivos de inveja.
Conquistas Pessoais: Realizações como ter viajado para muitos países, ter completado maratonas, ou outros feitos marcantes.
Relações e Conexões
Reputação (Admiração – Caim, Saul, irmãos de José): Ser admirado e respeitado por outros é uma fonte comum de inveja, especialmente se essa reputação foi conquistada de maneira justa.
Relacionamentos ou Conexões Sociais: Ter amigos influentes ou uma rede social ampla e solidária pode ser alvo de inveja.
Cônjuge (cobiça não sexual, a priori): Ter um parceiro amoroso que é visto como ideal ou perfeito aos olhos de outros pode suscitar inveja.
Filhos (ter /não ter; bons filhos): Ter filhos pode ser uma razão de inveja para aqueles que desejam mas não podem ter filhos, ou que enfrentam dificuldades com os próprios filhos.
Características Pessoais
Habilidades ou Talentos: Pessoas frequentemente invejam aqueles que têm habilidades excepcionais em esportes, música, arte, etc.
Aparência Física: Características como beleza, condição física, ou estilo pessoal.
Estado Emocional e Saúde
Alegria / Paz: Sentir uma paz interior constante e verdadeira felicidade pode ser algo que outras pessoas invejem, especialmente se elas estão enfrentando dificuldades emocionais.
Saúde: A saúde física e mental também pode ser algo que outras pessoas invejem.
Ore agora e peça para o Senhor sondar o seu coração e revelar o que Ele deseja tratar em você.
[1] A versão de Filon de Alexandria e Flávio Josefo. Os judeus também possuíam a versão dos Targumin, adotadas hoje pelos judeus modernos.
[2] Objeto, aqui, num sentido gramatical.
[3] Comerciais de televisão chegaram a ser proibidos pela maneira enfática da exploração da inveja. Recordo-me da propaganda da tesourinha do Mickey onde crianças repetiam o mantra “eu tenho, você não tem!” diversas vezes. A proibição, à época, se deu porque o público alvo era o infantil. Mas outras formas de exploração direta da inveja são vistas, como a propaganda do Fiat Stilo (“Stilo: ou você tem, ou você não tem”) ou outras, também do ramo automobilístico onde o motorista do carro x ou y trafega orgulhoso pela rua, chamando a atenção dos transeuntes que ficam boquiabertos. Vaidade de vaidade. Tudo é vaidade.
[4] pleonexivan, desejo ávido por ter mais, cobiça (Strong).
[5] Idem.
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