Jonas 5
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Transcript
Temendo ao Senhor
Esse episódio importante na vida de Jonas fornece uma série de
observações úteis.
Os marinheiros perguntaram a Jonas: “Declara-nos, agora, por causa de
quem nos sobreveio este mal. Que ocupação é a tua?” (Jn 1.8). Tendo acordado de
seu sono, Jonas deu a resposta correta: “Sou hebreu e temo ao Senhor” (Jn 1.9).
A Nova Versão Internacional traduz “[sou] adorador do Senhor”. Esse vínculo é
adequado, pois adorar a Deus significa temê-lo. William Banks explica: “O temor
ao Senhor não é do tipo de medo servil e bajulador, antes inclui a ideia de
adoração. Significa maravilha, confiança e respeito reverencial”. É isso que
Deus quer que os cristãos façam no mundo; temor em adoração a Deus é a ocupação
apropriada para os servos do Senhor.
Os cristãos devem fazer o trabalho de Deus ao modo de Deus, para os
propósitos de Deus. Quando buscamos os modos do mundo ou os propósitos do
mundo, nos tornamos irrelevantes e perdemos nossa utilidade para o mundo, assim
como aconteceu com Jonas em relação ao navio e à tripulação.
Foi o que aconteceu com Jonas: os marinheiros nem sabiam quem ele era.
Não conheciam sua ocupação nem quem era seu Deus. A igreja, como Jonas, é
chamada para temer ao Senhor, e o resultado de uma igreja que teme a Deus é um
mundo que sabe o que ela representa e a que Deus ela serve. É a igreja
adormecida que tem medo do mundo e que procura ser relevante nas coisas do
mundo. Mas, quando a igreja desperta verdadeiramente, o primeiro sinal é que
ela teme ao Senhor.
O que podemos dizer da declaração
de Jonas sobre temer a Deus?
Observe a relação entre o temor de Jonas e o temor dos marinheiros.
Jonas declarou temer ao Deus uno e verdadeiro, “… o Deus do céu, que fez o mar
e a terra” (Jn 1.9). Qual foi o resultado? “Então, os homens ficaram possuídos
de grande temor” (Jn 1.10). A tempestade havia os deixado com medo (Jn 1.5),
mas ao ouvirem do Deus que não só havia enviado a tempestade, mas que era
também criador do mar e da terra, eles ficaram possuídos de “grande temor”.
Literalmente, o texto diz: “Temeram um grande temor”. Ficaram chocados pelo
fato de Jonas ter pecado contra esse Deus, demonstrando um respeito diante do
Deus que eles não conheciam que superava o temor de Jonas diante do Deus que
ele conhecia.
É provável que os marinheiros tivessem ouvido falar dos hebreus e de seu
Deus temível. Era o Deus que havia vencido o poder do Faraó para libertar seu
povo e dividido as águas do Mar Vermelho para que os hebreus pudessem passar,
mas afogando os egitos em sua perseguição. Este era o Deus severo que levou seu
povo para o deserto durante 40 anos para ensinar-lhe o temor de Deus, mas que
depois levou seu povo para Canaã com muito poder. Por isso, eles, temendo um
grande temor, perceberam que “este era um Deus grande, este Deus dos hebreus, e
era este Deus, não um deus fraco, que os estava perseguindo por causa de
Jonas”.
Pagãos como esses marinheiros tendiam a pensar em termos de deuses
territoriais. Eram estes os deuses da Babilônia, os deuses da Filístia, os
deuses do Egito, o deus de Israel, etc. Eles souberam que Jonas estava fugindo
de seu Deus “porque lho havia declarado” (Jn 1.10; o tempo verbal desse verbo
indica que Jonas lhes havia dito isso antes). Mas provavelmente achavam que o
assunto estava resolvido, já que o Deus de Jonas era o deus de Israel, e eles
estavam agora a caminho de Társis. Mas agora, em meio à tempestade
aterrorizante, o profeta revela: “Sou hebreu e temo ao Senhor, o Deus do céu,
que fez o mar e a terra” (Jn 1.9).
Reflexão
Quando Deus responde às nossas orações, quando ele nos castiga com
provações e quando ele nos abençoa com seu poder, Deus se revela ao mundo por
meio de seus atos em seu povo. É especialmente a igreja acordada que serve a
esse fim, falando e pregando a verdade de Deus ao mundo. A igreja acordada que
teme a Deus prega a Palavra de Deus com ousadia ao mundo e descobre novamente
que a Palavra de Deus é uma espada poderosa de gume afiado, diante da qual até
mesmo os homens mais corajosos tremem perante Deus. Em meio aos ventos uivantes
da ira divina, a resposta de Jonas aos marinheiros os levou a temer ao Senhor,
com uma compreensão nova de quem e o que Deus realmente é.
É dessa posição estratégica que reconhecemos a bênção que é quando Deus
envia uma tempestade para levar seu povo ao arrependimento. Foi a mão da graça
divina que arrancou a máscara do rosto de Jonas e revelou seu pecado. O
propósito de Deus era restaurar o temor divino nesse profeta. É por isso que
Deus não acalmou a tempestade assim que Jonas confessou. A tempestade continuou
enquanto Jonas e os marinheiros tremiam; as consequências temporais do pecado
precisam ser sentidas.
Aplicação
Sugiro então que aprendamos bem a nossa lição. Abençoemos a mão do
castigo, reconhecendo a graça que a guia. Abracemos o chamado de Deus para o
arrependimento pelo nosso pecado e torpor, e desejemos temer ao Senhor. Você
está disposto a fazer isso? Você está pronto e ansioso para que o estado da sua
alma seja examinado? Você tem certeza de que seu navio não contém nenhum Jonas
– e que não existe nenhum Acã em seu acampamento? Se existir, você dará glória
a Deus quando ele for revelado? Cristão, você pode ter certeza de que Deus
achou seu pecado e o trará à luz. Você pode ter certeza de que o Senhor da
tempestade deseja que você o tema como ele merece.
Mas também pode ter certeza de que não existe bem maior que Deus possa
operar em sua vida e maneira melhor para ele dar sentido ao seu tempo neste
mundo. Pois quando a disciplina de Deus o traz de volta para a sua cruz – para
o lugar onde o pecado é confessado e purificado –, você pode ficar diante do
céu e da terra e exultar com um coração sem máscaras: “Eu sou cristão, e eu
temo ao Senhor, o Deus do céu, que fez o mar e a terra e enviou seu Filho com
amor infinito para redimir-me por meio do seu sangue, para que eu declare a sua
glória para sempre”. Então Deus o usará para levar a sua mensagem de temor e
graça ao mundo.
Jonas, o bode expiatório
Jonas 1.11–16
Respondeu-lhes: Tomai-me e
lançai-me ao mar, e o mar se aquietará, porque eu sei que, por minha causa, vos
sobreveio esta grande tempestade (Jn 1.12).
A
misericórdia dos marinheiros
A experiência de Jonas demonstra a futilidade de fugir de Deus. Mas, na
medida em que a história se desdobra e Jonas cai sob o julgamento, a ironia de
sua rebelião é revelada por meio das ações dos marinheiros pagãos a bordo do
navio de Jonas.
Aterrorizados pela grande tempestade que Deus havia enviado por causa de
Jonas, os marinheiros oraram primeiro aos seus próprios deuses falsos. Então
lançaram a sorte para identificar o pecador responsável pela ira divina. Quando
a sorte caiu sobre Jonas, eles começaram a interrogá-lo. Jonas confessou: “Sou
hebreu e temo ao Senhor, o Deus do céu, que fez o mar e a terra” (Jn 1.9).
Os marinheiros ficaram “possuídos de grande temor” quando perceberam que
Jonas estava se rebelando contra um Deus tão grande. Então apelaram a Jonas,
que ainda era um profeta de Deus, apesar de seus atos: “Que te faremos, para
que o mar se nos acalme?” (Jn 1.11). Jonas respondeu: “Tomai-me e lançai-me ao
mar, e o mar se aquietará, porque eu sei que, por minha causa, vos sobreveio
esta grande tempestade” (Jn 1.12).
O que aconteceu em seguida é notável por causa da nobreza da conduta dos
marinheiros. Hugh Martin escreve: “Ele era um completo estranho para eles. Ele
não podia alegar laços de amizade, de família ou nação; era o sujeito de um
Deus estranho, mas forte, que havia levado até eles a ira de Deus – de fato,
tinham muito pouco pelo que agradecer-lhe”. A única coisa que Jonas havia feito
por eles fora causar-lhes dificuldades. Poderíamos, então, desculpá-los se
simplesmente o tivessem jogado no mar, em especial por serem pagãos e pelo fato
de o próprio Jonas ter sugerido essa solução.
Em vez disso, os marinheiros se sentiram tocados pela santidade da vida
de Jonas, ou talvez pelo medo das consequências divinas se derramassem sangue
sem necessidade. Assim, em vez de lançarem Jonas no mar, “… os homens remavam,
esforçando-se por alcançar a terra, mas não podiam, porquanto o mar se ia
tornando cada vez mais tempestuoso contra eles” (Jn 1.13). O texto hebraico dá
a entender que os marinheiros deram tudo de si, remaram o máximo que puderam
para devolver Jonas à segurança da terra firme.
Eles entenderam que sua segurança pessoal dependia da remoção de Jonas,
mas fizeram de tudo para poupar sua vida. Não importa se seu respeito se devia
ao status especial de Jonas como profeta ou apenas à sua condição de ser
humano, mas o temor ao Senhor se manifestou em sua conduta. Esses homens nos
mostram que assim como qualquer desrespeito a Deus se manifesta em crueldade
contra o ser humano, o temor ao Senhor produz invariavelmente justiça e
misericórdia.
Que repreensão a Jonas isso deve ter sido! Afinal de contas, a razão
pela qual ele se encontrava naquele navio era a dureza de seu coração contra os
gentios. O. Palmer Robertson comenta:
Ele, o fiel, fecha seu coração contra a grande metrópole de Nínive.
Apesar de seu povo ter experimentado a graça de Deus durante gerações, ele
fecha seu coração contra outras pessoas. Mas, num contraste dramático, esses
marinheiros rudes fazem de tudo para poupar a vida de Jonas, mesmo após ele ter
causado a perda de toda a sua carga e agora poder causar a perda de suas vidas.
Aparentemente, Deus não cooperou com esses marinheiros misericordiosos.
Por mais que se esforçassem e remassem, eles não conseguiram vencer as ondas
cada vez mais altas. Deus queria que a correção de Jonas continuasse, por isso
nada que os marinheiros fizessem poderia salvar a vida dele. “Então, clamaram
ao Senhor e disseram: Ah! Senhor! Rogamos-te que não pereçamos por causa da
vida deste homem, e não faças cair sobre nós este sangue, quanto a nós,
inocente; porque tu, Senhor, fizeste como te aprouve. E levantaram a Jonas e o
lançaram ao mar; e cessou o mar da sua fúria” (Jn 1.14–15).
Sem alternativa senão aceitar o conselho de Jonas, eles oraram primeiro
a Yahweh pedindo que não os responsabilizasse, já que era evidentemente a sua
vontade soberana que controlava a situação deles.
Como explicamos a nobreza desses homens, que não conheciam o Senhor?
Encontramos a resposta na graça comum de Deus. A graça comum significa que Deus
opera no mundo mesmo fora do domínio da salvação. Deus instila virtude em reis
pagãos e inspira reverência pela vida até entre os gentios. Deus fornece essa
graça comum pelo bem do evangelho, para que o mundo possa continuar e para que
sua igreja seja preservada em meio a esse mundo perverso, e também para
preservar o mundo pelo bem daqueles que ainda serão salvos.
Os marinheiros demonstram igualmente uma consciência daquilo que
chamamos de lei natural. Não creio que tivessem lido os Dez Mandamentos, com a
ordem de Deus “Não matarás” (Êx 20.13). Mesmo assim, sabiam que é errado tirar
a vida de um ser humano sem necessidade. João Calvino comenta: “A natureza
implantou em todos uma aversão à crueldade […]. Apesar de nunca terem conhecido
a doutrina da lei, eles haviam sido instruídos pela natureza, de forma que
sabiam que o sangue de um homem é caro e precioso aos olhos de Deus”.
Tanto a graça comum quanto a lei natural continuam a se evidenciar nos
dias de hoje. Às vezes, a virtude dos pagãos envergonha o povo de Deus, que
possui a graça salvífica de Deus e conhece a lei escrita de Deus. Pensamos, por
exemplo, no heroísmo dos bombeiros que sacrificaram suas vidas tentando salvar
outros no World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Muitos deles não eram,
provavelmente, seguidores verdadeiros de Cristo, mas sua coragem excede a de
muitos cristãos. Sempre que o povo de Deus testemunha esse tipo de virtude em
incrédulos, devemos nos sentir desafiados a responder à graça salvífica de Deus
transformando-nos nos homens que o Senhor deseja que sejamos.
Além do mais, lemos que os marinheiros “… ofereceram sacrifícios ao Senhor
e fizeram votos” (Jn 1.16). Eles apelaram ao nome da aliança de Deus, Yahweh,
e, mesmo não conhecendo os procedimentos corretos para os sacrifícios levíticos
em Jerusalém, eles parecem ter entendido que precisavam fazer algum tipo de
oferta para a expiação de seu pecado. Os votos devem, provavelmente, ser
entendidos como uma confissão de fidelidade pactual. Calvino escreve: “Quando,
então, os marinheiros fizeram um voto a Deus, eles renunciaram a seus próprios
ídolos […]. Agora, então, fizeram seus votos ao único Deus verdadeiro; pois
sabiam que suas vidas estavam em sua mão”.
Os marinheiros haviam vivenciado um encontro divino inesquecível que
ocorre apenas uma vez na vida. Dessa forma, Deus havia enviado sua tempestade
não só para despertar seu profeta desviado, mas também para fornecer aos pagãos
uma manifestação de seu poder salvífico.
Que lições devemos aprender dessa conversão?
Uma lição é que não devemos
deixar-nos intimidar pela descrença do mundo, a ponto de baixarmos a nossa
mensagem ao seu nível. O mesmo Deus “… que fez o mar e a terra” (Jn 1.9) e que
converteu os marinheiros pagãos é capaz de converter qualquer pessoa.
Deveríamos aprender também que Deus salva quem quer, independentemente de nós
sermos fiéis e obedientes ou não. A disposição de Jonas em dar testemunho aos
gentios não determinou a vontade de Deus de salvá-los; tudo o que sua
disposição determinou foi se ele seria abençoado por isso. Aqui, porém, Jonas
mergulhou nas ondas sem testemunhar o sacrifício dos marinheiros e sem ouvir
seus votos.
Jonas, o bode expiatório
Quando voltamos nossa atenção para Jonas, também nos deparamos com uma
pergunta referente à qual não existe consenso. Quando Jonas pediu que o
lançassem no mar, isso era uma expressão de seu arrependimento sincero ou sua
decisão endurecida de preferir a morte a ceder à vontade de Deus? Aqueles que
defendem o arrependimento de Jonas dizem que a confissão de seu pecado o tornou
disposto a sofrer a morte para poupar os marinheiros pagãos. Mas existe uma
razão pela qual eu não acredito que Jonas já teria desistido de sua rebelião
contra Deus: em momento algum, o texto indica que ele decidiu voltar e executar
a comissão que Deus lhe havia dado. Jonas se arrepende apenas no capítulo 2 e,
quando ele realmente se arrepende, vai para Nínive e prega conforme a ordem de
Deus. William Banks comenta: “Se a tempestade serviu para endurecer a vontade
de Jonas, isso significa que Jonas estava disposto a morrer para não ter que
pregar. Fanatismo pode se arraigar tanto na personalidade humana que nem mesmo
a ameaça de danos físicos ou castigo consegue expulsá-lo, tampouco argumentos e
apelos à razão”. Com esse espírito amargurado, Jonas encarou as águas de seu
destino. Ele preferia morrer a pregar a salvação à tão odiada cidade de Nínive.
Enquanto os marinheiros estavam dispostos a se submeter à vontade revelada de
Deus, Jonas, que conhecia muito bem a vontade de Deus, preferia ser entregue às
ondas.
