O Rei e Sua Família (Marcos 3.20-35)
O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos • Sermon • Submitted • Presented
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O Rei e Sua Família (Marcos 3.20-35)
Introdução
Introdução
Na nossa última pregação em Marcos, vimos Jesus escolhendo os doze e os comissionando para pregar e expulsar demônios. Agora, Marcos nos leva a refletir sobre a origem da autoridade de Jesus. Para isso, ele apresenta três episódios estruturados como um "sanduíche": começa com (a) a relação de Jesus com seus familiares, passa para (b) o confronto com os líderes religiosos e retorna a (a) seus familiares. Embora as reações desses grupos sejam paralelas, elas não são idênticas. Os familiares tentam prendê-lo, achando que Ele "está fora de si"; os escribas o acusam de estar possuído por demônios; e a família busca impedi-lo de continuar. Diferentes pessoas reagem de formas distintas à pessoa de Jesus. A grande questão é: qual deve ser a reação daqueles que foram verdadeiramente atraídos por Ele?
Exposição
Exposição
1. A leitura dos familiares de Jesus
1. A leitura dos familiares de Jesus
20
Marcos apresenta um contexto familiar: Jesus está numa casa, possivelmente a de Pedro em Cafarnaum (1.29), enquanto uma multidão incontável o cerca. Ele está "espremido" novamente, atraindo pessoas magneticamente ao ponto de não conseguirem sequer comer. Aqui, a multidão é retratada como um obstáculo, algo que dificulta a vida de Jesus e seus discípulos.
21
Os familiares de Jesus — provavelmente sua mãe e irmãos, como veremos no terceiro bloco — não compreendem quem Ele é nem o que Ele faz. No mundo antigo, amarrar alguém era comum em casos de pessoas consideradas endemoniadas ou "fora de si", uma percepção que os escribas também tinham de Jesus. Contudo, parece que "os seus" viam os confrontos de Jesus com as autoridades religiosas como um erro e saíram para "trazê-lo à força", tentando "amarrá-lo". É intrigante: naquela altura, as curas e expulsões de demônios eram evidentes, cumprindo profecias ditas sobre Ele antes de seu nascimento. Mesmo assim, eles permaneciam incrédulos.
2. A leitura dos líderes religiosos
2. A leitura dos líderes religiosos
22
Os líderes religiosos não fazem mais perguntas sugestivas, como em Mc 2.7 ("Por que esse homem fala assim?"). Agora, os escribas afirmam categoricamente que Jesus está possuído por Belzebu, identificado aqui como "o chefe dos demônios" — possivelmente uma referência a "Baal, o príncipe", uma linguagem relacionada a dinastia. Para os de fora, o poder de Jesus era inegável, mas os incrédulos atribuíam sua fonte a Belzebu, e não a Deus.
23 a 27
Jesus responde com uma parábola: "Satanás não expulsa Satanás". Ele expõe a incoerência do raciocínio dos escribas, destacando que nem mesmo Satanás dividiria seu próprio reino. Se há divisão aparente, é porque o Reino de Deus está em real oposição ao domínio de Satanás. Jesus se compara a um homem que amarra um valente para saquear sua casa. O que seria amarrado por sua família é quem amarra. Nessa parábola, Jesus se apresenta como o "ladrão" que invade e saqueia o domínio de Satanás — uma verdade óbvia para quem tem olhos para ver.
28 a 30
Jesus ensina uma lição a partir da parábola: há um pecado imperdoável — julgar as obras incontestáveis de Cristo como motivadas pelo mal, em vez de pelo bem, e empoderadas por demônios, em vez de por Deus. Isso vai além de palavras torpes contra o Espírito Santo; é uma resistência obstinada à obra do Espírito, negando sua ação e atribuindo glória a outro (no caso, Belzebu). O ápice da falta de discernimento (Is 5.20). Em Marcos, é irônico que os líderes religiosos, que deveriam celebrar a chegada do Messias, sejam seus maiores opositores. O alerta de Jesus tem peso especial para os religiosos.
3. A Família de Jesus é a Família da Fé
3. A Família de Jesus é a Família da Fé
31-35
A família de Jesus finalmente chega, mas não consegue entrar na casa por causa da multidão. A cena é irônica: normalmente, a família estaria dentro de casa e a multidão do lado de fora, mas aqui o oposto acontece. Jesus usa esse momento para ensinar uma verdade profunda. Quando lhe dizem que sua mãe e irmãos estão lá fora, Ele pergunta: "Quem é minha mãe e meus irmãos?" e olhando para os que estão ao seu redor, declara que sua verdadeira família é composta por aqueles que fazem a vontade de Deus. Esse é o cerne da questão: a proximidade com Jesus não se define por laços de sangue ou por um chamado especial — como o de Judas, que foi escolhido, mas não permaneceu fiel. Em vez disso, ela é determinada pela fé e pelo seguimento (Mc 1.15; 1.18, 20). Surge, assim, um novo fundamento para a família de Deus, baseado no arrependimento, na fé no Evangelho e em seguir a Jesus.
Aplicações
Aplicações
1. Jesus quebra expectativas
1. Jesus quebra expectativas
Essa é uma marca do Evangelho de Marcos. Ele perdoa pecados ao mesmo tempo em que se senta com pecadores e publicanos. E agora, em relação à sua própria família, a questão toma proporções absurdas. Ele não poderia ser quem se revela ser — pelo menos não aos olhos humanos e corações endurecidos. Se o Pai não iluminar nosso entendimento e o Espírito não operar em nós, jamais veremos Cristo como Ele realmente é, ainda que milagres estejam diante de nós. Jesus não veio para atender às nossas expectativas ou ser domesticado. Ele é aquele que amarra o príncipe dos que tentam amarrá-lo. Ele é quem Ele é, e cabe a nós nos arrependermos e crermos.
2. Os maiores problemas podem vir de dentro
2. Os maiores problemas podem vir de dentro
Há uma ambiguidade marcante no texto. A oposição a Jesus vem dos escribas e fariseus, mas também atinge seu círculo mais íntimo. A expressão de Marcos, “os seus” (ACF), revela que os mais próximos podem se tornar adversários em vez de advogados, obstáculos em vez de apoiadores fiéis. Por que isso? Porque alguns, embora próximos, ainda permanecem incrédulos acerca de Jesus. Não estão entre os que se assentam à mesa aos pés de Jesus. Isso nos desafia a examinar nossas próprias posturas diante de Cristo.
3. Deus e Satanás não são faces da mesma moeda
3. Deus e Satanás não são faces da mesma moeda
As Escrituras não apresentam um maniqueísmo. Jesus veio para esmagar a cabeça da serpente (Gênesis 3.15). Ele não é apenas o opositor de Satanás; é o Senhor que coloca todos os seus inimigos debaixo de seus pés. Seu Reino não se estabelece por concessão ou coexistência com Satanás, mas pela invasão e saque da casa de Belzebu. Ele veio para vencer a morte e aquele que tem o poder da morte (Hebreus 2.14).
4. Muitos cometem blasfêmia sem perceber
4. Muitos cometem blasfêmia sem perceber
A impenitência é uma forma sutil de blasfêmia. O coração resiste ao que os olhos veem e os sentidos experimentam. Alguns confessam simpatia por Jesus com a boca, mas o fato de não o seguirem revela que, no íntimo, nunca creram de verdade. Ainda o veem como alguém “fora de si” ou duvidam de quem Ele afirma ser. Se cressem, o seguiriam. Quem se preocupa em ter pecado contra o Espírito Santo já demonstra, por essa inquietação, que não cometeu esse pecado. Em toda a Escritura, o único tipo de pessoa que não pode ser salva é a que persiste na incredulidade. E não há registro de alguém que tenha pedido perdão a Deus e não o tenha recebido.
5. Você é da família de Jesus?
5. Você é da família de Jesus?
O Evangelho de Marcos, escrito cerca de quarenta anos após a morte de Jesus, mostra que Tiago e Maria, seu irmão e sua mãe, assumiram respectivamente papéis de liderança e honra na igreja. Marcos destaca o elo fundamental que os unia a Jesus: a fé e o compromisso. Ninguém pode ter certeza de pertencer a Cristo apenas por aparências — batismo, nascimento numa família cristã, frequência à igreja, simpatia por Jesus, ofertas ou caridade. Qualquer um que creia em Cristo e faça a vontade do Pai pode ser parte de sua família; mas quem não o faz, independentemente de qualquer vínculo, não pertence a ela. Em Cristo, os cristãos se tornam irmãos e irmãs, cuidando uns dos outros com amor sacrificial (Rm 12.10), suportando-se mutuamente (Ef 4.2; Gl 6.10) e compartilhando a vida como membros de uma mesma casa (1Tm 3.15; 5.1-2).
