RELIGIÃO E DINHEIRO 1

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INTRODUÇÃO
Quanto custa ser cristão hoje? - falando em dinheiro mesmo.
As igrejas, cada vez mais, têm enfatizado o dinheiro como o centro do evangelho. Não de forma piedosa ou como generosidade e justiça (lembrar-se de Atos 2.42-47), mas como forma de enriquecimento (ilícito).
Igreja evangélica no Brasil se tornou uma fonte de renda gigantesca, pois a isenção fiscal e não fiscalização da Receita Federal, deixam um campo livre para o cultivo de verdinhas - inclusive para lavagem de dinheiro e outros ilícitos.
Exemplo: quando disse que iria fazer seminário pro Dr. Ricardo; quando disse que iria fazer seminário pro Bruno (primo).
Antigamente, os cristãos eram vistos como piedosos, sérios e que transtornavam o mundo (Atos 17.6-7). Portanto, os mensageiros de Jesus são “revolucionários mundiais”. – A turba instigada nem sequer imagina em que sentido profundo ela tem razão! ἀναστατώσαντες – o particípio ativo aoristo de ἀναστατόω (eu perturbo, transtorno) retrata a ironia do ocorrido. Os judeus acusam Paulo e Silas de perturbar a cidade (o mundo), ao passo que eles próprios reuniram uma turba para provocar um tumulto.
Aqueles que transtornam o mundo e apresentam o evangelho verdadeiro.
As pessoas viam a Igreja Primitiva como agentes de mudança, que denunciavam o pecado e as imundícias e mudavam o mundo pelo poder do evangelho.
O que as pessoas acham dos cristãos hoje em dia?
Pra quem não sabe, eu vivi no meio gospel por um bom tempo (pelo menos de 2012 até 2018 - quando já estava na IPB) participei de bastidores do meio gospel musical e tenho propriedade em falar que rola muita grana, disputa de poder e nada disso se compara à Igreja Primitiva.
É pecado desejar ter dinheiro?
O pecado é o dinheiro se tornar o Deus e o centro de nossa vida (1 Timóteo, 6.10; Lucas, 16.13).
Dinheiro é necessário para sobrevivermos, ainda mais em um mundo capitalista, mas o dinheiro não deve ser o principal, mas o acessório.
Não devemos nos movimentar pelo dinheiro. Ex.: sua promoção no trabalho não deve estar atrelada ao dinheiro, mas ao serviço.
É uma linha muito tênue de buscarmos riquezas de forma consciente para glorificar a Deus e a riqueza se tornar um ídolo e o centro de nossa vida.
Por isso, respondo que não é pecado desejar uma melhor condição financeira, mas é pecado que esse desejo seja o objetivo final de sua vida.
Nós não devemos ter as riquezas como o objetivo principal de nossas vidas.
Os crentes do nosso tempo deixaram o dinheiro ser o objetivo principal e por isso venderam o evangelho. Olhem o tanto de gente vendendo curso gospel online, fazendo coach, vendendo oração, vendendo pregação, etc.
Isso não agrada a Deus.
Nosso objetivo de vida deve ser como a primeira pergunta do CMW: O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e alegrar-se nele para sempre.
2. CONTEXTUALIZAÇÃO
O livro de Malaquias tem uma discussão intensa sobre a autoria, mas a tradição tem atribuído ao profeta Malaquias como mensageiro e escritor do livro.
Malaquias vive numa época próxima a Esdras e Neemias - 433 a.C - pois os três falam sobre coisas similares (casamento com estrangeiras, negligência do dízimo, críticas ao erro sacerdotal, críticas aos pecados sociais do povo, etc).
Malaquias relembra o povo da Aliança que Deus fez com eles, ressaltando as obrigações e implicações dessa aliança.
Israel estava sendo infiel ao Senhor.
O orgulho havia tomado conta de seu coração e estavam retendo aquilo que o próprio Deus havia entregue a eles.
O fato de Israel estar infiel e colocando o coração no dinheiro, Deus retém bençãos.
E ainda exorta o povo a voltarem à aliança, se arrependerer e colocarem Deus no centro de suas vidas.
Na perícope lida, Malaquias destaca algumas verdades sobre Deus: que é imutável na sua natureza, é imutável na Sua Aliança para conosco e essa imutabilidade é a nossa segurança/garantia.
Ainda que o povo estivesse sendo infiel, o Deus paciente e restaurador estava de braços abertos à volta de Israel. Malaquias profetizava após o retorno do povo do cativeiro babilônico, por isso o teor de um Deus que restauraria a aliança do povo para com Ele - visto que a Aliança dEle para com Israel nunca foi quebrada.
Deus chama o povo à uma mudança de vida e à uma restauração. Vejam que é o próprio Deus quem chama o povo ao arrependimento. O convite gracioso de Deus para que o povo se arrependa e voltem a guardar os estatutos do Senhor.
E o mais legal é que, ainda que o povo tenha se rebelado e sido infiel, Deus continua sendo fiel e ainda chama o povo para colocá-lo à prova.
A confiança do povo - e nossa - deve sempre estar na provisão de Deus.
3. DESENVOLVIMENTO
I. MINISTROS DE MAMÓN
Alguém leia Mateus 6.24 “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.”
Quem é Mamón? Mamon é o ídolo do dinheiro a que Jesus se refere, trabalha para substituir o rei da Criação. “Mamon” é uma transliteração da palavra aramaica para riqueza. Mamon é o “deus das riquezas” que assola os corações do homem - seja ele crente ou não. Baal caiu, os postes-ídolos caíram, mas Mamon continua pelos séculos no coração dos homens. E isso se dá porque o pecado da soberba está no coração humano e o homem se deixa enganar pelas riquezas, construindo altares escondidos de Mamon em seu coração.
Os crentes são campeões em adorar e cultivar Mamon. As riquezas desse mundo são o “deus” do homem - principalmente neste século que vivemos.
O que mais se fala hoje? Sexo (liberdade sexual) e dinheiro.
A cultura atual é envolta disso. Se a música, o filme ou a série não prega o sexo escancaradamente, prega o amor e a ganância ao dinheiro.
Mas isso não é um mal só de hoje. Malaquias está alertando o povo de Israel mais de 400 anos a.C.; uma das bases da Reforma Protestante era a luta contra as indulgências (perdão da pessoa morta através de pagamento de dinheiro à Igreja).
O ser humano, ao decorrer da história, tem mantido viva a chama da veneração a Mamon/riquezas.
Mas, em contraposição a Mamon, temos Jesus. Jesus é completamente o oposto à riqueza terrena. Nasceu numa manjedoura, numa estalagem, viveu uma vida simples, não tinha onde reclinar a sua cabeça, seu ministério era sustentado por mulheres (que eram consideradas desprezíveis na época) e foi traído por dinheiro.
Os ensinos de Jesus vão totalmente contra a Mamon e as riquezas terrenas. Por isso, não podemos considerar cristão aqueles que vivem para o dinheiro (incluindo nós mesmos).
John Stott diz: “algumas pessoas discordam destas palavras de Jesus. Recusam-se a ser confrontadas com uma escolha tão rígida e direta, e não vêem a necessidade dela[…] Ou eles servem a Deus aos domingos e a Mamom nos dias úteis, ou a Deus com os lábios e a Mamom com o coração, ou a Deus na aparência e a Mamon na realidade, ou a Deus com metade de suas vidas e a Mamom com a outra. Pois é esta solução popular de comprometimento que Jesus declara ser impossível: Ninguém pode servir a dois senhores...Não podeis servir a Deus e às riquezas (observe o “pode” e o “não podeis”). Os pretensos conciliadores interpretam mal este ensinamento, pois se esquecem da figura de escravo e dono de escravo que se encontra por trás destas palavras. […] Portanto, qualquer pessoa que divide sua devoção entre Deus e Mamom já a concedeu a Mamom, uma vez que Deus só pode ser servido com devoção total e exclusiva.”
Jesus ensinava uma vida simples pelo evangelho, só que isso é loucura para o mundo. Alegrar-se na pobreza é loucura. Mas era isso que Jesus pregava.
Vender os seus bens e posses para viver comunitariamente ajudando os irmãos era loucura, mas era isso que fez a Igreja Primitiva crescer e expandir.
Entendamos que a cultura da riqueza (a busca do primeiro milhão) vai totalmente em desacordo com as Escrituras.
Não se deixem enganar com a ganância. Ou servimos a Deus ou servimos a Mamon/riquezas.
II. MALAQUIAS 3
A cobrança do dízimo hoje, está totalmente atrelada a esse texto.
Mas vamos analisar: o povo havia retornado do exílio babilônico e precisavam reconstruir a nação, o templo e a própria vida individual das famílias. Deus foi misericordioso e tirou o povo do exílio, fazendo-os retornar à Terra que Ele mesmo havia concedido. Só que o povo é mal e se esquece rapidamente do que Deus fez. Começaram a oferecer ofertas e sacrifícios do que tinham de pior (animais defeituosos, retinham o que era para ser entregue ao Senhor, etc). Nesse momento, o Senhor deixa de abençoar o povo e a própria colheita e reprodução animal começam a minguar. O povo estava cego e não percebem que Deus é quem está fazendo isso pela infidelidade. Então, o profeta entra em cena, chama o povo ao arrependimento e corrige a questão das ofertas e sacrifícios.
Explicado tudo isso, nos resta uma dúvida: se o texto estava falando com o povo de Israel numa situação específica, ele serve como norma para nós?
Este é o texto clássico usado para ensinar aos membros da igreja a prática do dízimo, isto é, a entrega à igreja de 10% do salário bruto mensal.
Uma primeira constatação é que não há, no Novo Testamento, nenhum parâmetro mínimo estipulado para a contribuição. No NT, há inúmeras coletas de ofertas voluntárias, há inúmeros sustentos e um verdadeiro desapego às riquezas, decorrentes de um coração generoso e piedoso.
Então, apesar de não estar sob a Lei, mas sob a Graça, entendemos que Deus possui todas as coisas e nos fornece o sustento. Para tanto, nós devolvemos a Ele, com alegria e gratidão parte do que nos é oferecido, visando o sustento da Igreja, dos pastores, dos missionários, dos evangelistas, o auxílio aos pobres, etc.
Os crentes do Novo Testamento nunca são ordenados a dizimar, como o povo de Israel foi ordenado. A linha de direção para a nossa doação para Deus e Sua obra é encontrada em 2 Coríntios 9:6-7: “E digo isto: Que o que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância ceifará. Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria”.
Quando o Novo Testamento se refere a dar, fala em dar da sua abundância e do espírito de gratidão do seu coração. Sempre que as duas alianças ou pactos são comparados, particularmente no livro de Hebreus, somos ensinados que o Novo Testamento é uma aliança muito mais rica. Os benefícios que recebemos como cristãos, excedem em muitos os benefícios que o povo da velha aliança gozava. Mas também segue-se que as responsabilidades do povo do Novo Testamento também excedem as responsabilidades do povo do Antigo Testamento. Nós estamos numa situação melhor. Eu diria que o dizimo não é um alto padrão fundamental para o super-cristão, mas é o alicerce. É o ponto de partida para uma pessoa que está em Cristo e que compreende alguma coisa dos benefícios que recebe de Deus. Recebemos gratuitamente de Deus e, de coração alegre e pleno, devolvemos para a obra daquele que nos concedeu.
III. O LUCRO DA PIEDADE
1Timóteo 6.5 “altercações sem fim, por homens cuja mente é pervertida e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro.”
Paulo instrui a Timóteo sobre os “mercadores da fé” - que obtém lucro com a fé em Cristo.
O amor pelo dinheiro é a maior causa de tirar pessoas da fé. Depositam a esperança em dinheiro. Como ocorreu com o povo de Judá, nos tempos de Jeremias - tudo estava bem, depositaram sua esperança na posição, porém foram para o exílio babilônico.
Vemos que desde os tempos de Cristo e Paulo muitos crentes estão servindo a Deus e a Mamon. Mas essa servidão não existe, como dissemos antes. Quem serve a Mamon, não serve a Deus.
A piedade é uma fonte de lucro, mas nunca lucro de riquezas. O lucro da piedade está em coisas sobrenaturais que o próprio Deus nos concede. Até mesmo o contentamento é algo que recebemos quando somos piedosos - benção do contentamento.
A palavra contentamento (em grego, autarkeia) fora usada para denotar uma virtude primordial da época de Sócrates, e especialmente pelo pensamento estóico e cínico, como tendo o sentido de uma auto-suficiência íntima. “A exigência é que o homem deve ficar com os bens a ele aquinhoados pelo destino ou por Deus... que, assim, torna-se um homem independente suficiente para si próprio e não necessitado de ninguém mais”. Barclay escreve: “Essa é uma das maiores divisas dos filósofos estóicos. Por ela eles queriam dizer uma completa auto-suficiência. Significava um estado de espírito que era completamente independente de todas as coisas exteriores, e que trazia dentro de si mesma o segredo da felicidade”.
Estar contente em “toda e qualquer situação”, independente das circunstâncias externas, é a virtude do contentamento. Mas ela não é o contentamento cristão, a menos que sua fonte seja a mesma da de Paulo. Ele diz que pode estar contente em qualquer situação porque “tudo posso naquele que me fortalece”. Ao passo que o contentamento designa no estoicismo uma auto-suficiência, o contentamento bíblico é aquele produzido pela capacitação divina. Ou seja, um crente é capaz de ficar contente em várias circunstâncias porque Deus fortalece sua alma. Assim, o contentamento de modo algum é um sinal de fraqueza ou resignação, mas de vigor e maturidade espirituais. De modo oposto, um amante do dinheiro é também alguém fraco, imaturo e ignorante.
Um crente é mais motivado pelas virtudes da piedade e da excelência do que pela perspectiva do ganho monetário. Ele deseja agradar a Deus em tudo o que faz, para prover para sua família, e ajudar a financiar o evangelho. A ética cristã do trabalho considera fatores tais como a onipresença e a onisciência divinas, recompensas presentes e futuras e as obrigações morais para obedecer aos mandamentos divinos. Quem crê nessas verdades bíblicas trabalha para honrar a Deus, não para obter o favor dos homens e, desse modo, tornase um trabalhador consciente e leal que persegue a excelência sem supervisão e ameaças constantes. Ao invés de desalentar a motivação ao labor, o ensinamento bíblico cria o trabalhador ideal.
O contentamento cristão não é baseado na suficiência do eu, mas na suficiência do poder divino disponibilizado para nós por meio de Cristo.
O caminho do contentamento não favorece riqueza ou pobreza, mas favorece e estreita o relacionamento do crente com Deus. O crente começa a confiar cada vez mais no Deus está servindo - e esse serviço é exclusivo.
Não há nada de errado em trabalharmos e buscarmos sustento e conforto; não há nada de errado existirem crentes ricos; Porém o coração, tanto dos pobres quanto dos ricos, deve estar no Senhor. O maior tesouro do crente é o Senhor e nunca Mamon/riquezas.
4. CONCLUSÃO E APLICAÇÃO
O reino de Deus é formado por tesouros que a traça não corrói e que nenhum homem pode conseguir por si mesmo.
Não é possível servirmos a Deus e a Mamon/riquezas.
A Igreja verdadeira segue a Cristo e se contrapõe à “mercantilização da fé”.
Apesar de Malaquias 3 não ser um texto legislador para a entega dos dízimos, somos chamados a sermos generosos com a obra de Deus e com os irmãos.
A piedade cristã está diretamente ligada ao contentamento, que significa estar contente com o que Deus concede e fazer do Senhor sua segurança.
Onde está o seu coração? Se estamos desejando mais a Mamon/riqueza do que a Deus, somos chamados a mudar de rota.
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