A cura de um Cego

Sermon  •  Submitted   •  Presented
0 ratings
· 65 views
Notes
Transcript
Naquela época o impacto de um milagre de cura era muito forte. As doenças estavam por toda parte, com pouca esperança de se conhecer suas causas e possíveis curas.
Eram comuns as misturas bizarras e inúteis para tentar ajudar pessoas que padeciam. Por exemplo, tentava-se curar a cegueira aplicando-se nos olhos sangue de galo misturado com mel.
Os cegos geralmente eram vistos como pessoas amaldiçoadas por Deus. E era tão forte isso, que, certa vez, os discípulos perguntaram a Jesus: “Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” (João 9:2).
E esse pensamento se aplicava para qualquer deformidade, defeito ou doença. A teologia deles basicamente se alinhava com os amigos de Jó, que presumiam que os sofrimentos de Jó eram causados pelos pecados dele.
E as pessoas que sofriam doenças, deformidades e defeitos eram expulsas da sinagoga e, por consequência, ficavam fora das atividades sociais normais e da vida.
E muitos só podiam contar com familiares e amigos, porque os fariseus, saduceus e rabinos queriam distância deles. Era uma categoria de pessoas desesperadas. Por aí você pode compreender o impacto da obra de Jesus ao curar a todos que vinham ele.
O cenário
Este foi um dos dois milagres de Jesus que está registrado apenas em Marcos, o outro está no capítulo 7, onde Jesus curou o surdo-mudo. Há duas semelhanças entre esses dois milagres:
§ Ao surdo-mudo, Jesus o separou na multidão (Mc. 7:33). Quando ele foi curado, Jesus lhes deu ordens para não contar a ninguém (Mc. 7:36);
§ Ao cego Jesus o tirou para fora da aldeia (Mc.8:23). Quanto ele foi curado, Jesus o mandou embora para casa, recomendando-lhe para não entrar na aldeia (Mc. 8:26) e divulgar.
O milagre da cura do cego em Betsaida é o último milagre de Jesus na Galileia registrado por Marcos. Em Marcos 8:13 registra como Jesus encerrou um embate com a liderança religiosa. “E, deixando-os, tornou a embarcar e foi para o outro lado”.
Os líderes religiosos haviam pedido um sinal do céu a Jesus (Mc. 8:11). Eles tinham uma crença que só Deus poderia fazer milagres celestiais e os demônios só poderiam fazer milagres terrenos. Então eles pedem um sinal celestial, talvez um eclipse, começar e parar uma tempestade etc. Marcos 8:12 diz:
Jesus, porém, arrancou do íntimo do seu espírito um gemido e disse: Por que pede esta geração um sinal? Em verdade vos digo que a esta geração não se lhe dará sinal algum.
Jesus os abandonou, e esse foi o último encontro de Jesus com eles na Galileia.. E então Jesus chegou em Betsaida e faz o último milagre na Galileia registrado por Marcos: a cura do cego.
Marcos 8 22 Então, chegaram a Betsaida; e lhe trouxeram um cego, rogando-lhe que o tocasse.
A cura do cego foi na cidade de Betsaida, a mesma em que Jesus fez a primeira multiplicação de pães e peixes, que Marcos registrou no capítulo 6, versículos 33 a 34. Era uma cidade a beira do Mar da Galileia, muito próxima a Cafarnaum. Betsaida era a cidade natal de Pedro, André e Filipe.
Algumas pessoas trouxeram um cego a Jesus e rogaram para Ele o curasse. Elas sabiam do poder de Cristo. Aquele cego era considerado pelos líderes religiosos como uma pessoa amaldiçoada, eles jamais tocariam em alguém assim.
Jesus simplesmente ignorava os preceitos de homens, e isso marcou seu ministério. Ele não se mantinha à distância daqueles que vinham a Ele em busca de misericórdia.
Marcos 8 23 Jesus, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia e, aplicando-lhe saliva aos olhos e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe: Vês alguma coisa?
Jesus fez o que nenhum líder religioso faria: pegou um cego pela mão e o tirou da aldeia para um encontro com privacidade.
Tal como aconteceu em duas outras curas, Jesus, ao curar o cego (Marcos 8), fez novamente coisas aparentemente bizarras aos olhos humanos. Vejamos:
§ Em João 9:6-7, quando Jesus curou um cego, Ele cuspiu na terra e, tendo feito lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego. E disse-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé.
§ Em Marcos 7:33-34, quando curou um surdo e gago, Jesus pôs seus dedos nos ouvidos e lhe tocou a língua com saliva. depois, erguendo os olhos ao céu, suspirou e disse: Efatá!, que quer dizer: Abre-te!
§ E agora, em Marcos 8:23, para curar outro cego, Jesus aplicou-lhe saliva aos olhos e impôs-lhe as mãos.
Por que ele fez curas assim? Não sabemos a resposta, mas foi assim que Ele escolheu fazer.
§ Este é o único milagre em todos os quatro evangelhos onde Jesus faz uma pergunta à pessoa curada. Jesus perguntou-lhe: “Vês alguma coisa? (Marcos 8:23).
§ Na cura do cego em João 9 Jesus fez lama, passou nos olhos do cego e mandou ele se lavar no tanque de Siloé. E assim ele passou a ver.
A cura em dois toques distintos
Mas na cura do cego em Marcos 8 Jesus pede ao homem que descreva o que lhe aconteceu. Então, no final do versículo 23, Ele diz: “Você vê alguma coisa?” E aquele homem, recobrando a visão, responde: “Vejo os homens, porque como árvores os vejo, andando” (Marcos 8:24).
Sua visão estava fora de foco. Ele podia ver os homens, mas eles não eram distinguíveis das árvores, o que significa que não havia um foco claro. Era uma visão imperfeita indistinta.
Marcos 8 25 Então, novamente lhe pôs as mãos nos olhos, e ele, passando a ver claramente, ficou restabelecido; e tudo distinguia de modo perfeito.
Este é o único lugar nos quatro evangelhos onde Jesus fez uma cura em dois toques.
Todas as demais curas de Jesus foram completas, imediatas e perfeitas. Por que essa foi progressiva? Certamente Jesus usa esse método como fator pedagógico.
Vejamos algumas aplicações que podemos fazer diante dessa cura de Jesus.
Mostrar que alguns têm uma visão distorcida. Embora tocado por Jesus, esse homem vê os homens andando como árvores, pois seu discernimento ainda era vago e incerto. Ou seja, ele vê os homens como árvores. Ele não tinha pleno discernimento e por isso fazia uma confusão fundamental: olhava as pessoas como coisas. Hoje, falta discernimento para muitas pessoas.
Mostrar a necessidade de termos pleno discernimento. A obra de Deus em nossa vida é progressiva. A vida do justo é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito. Depois do segundo toque de Jesus, o homem passa a ver tudo perfeitamente. Agora ele tem pleno discernimento.
John Charles Ryle vê nessa cura progressiva uma ilustração da maneira como frequentemente o Espírito Santo trabalha na conversão de nossas almas. Segundo ele, a conversão é uma iluminação, uma mudança das trevas para a luz, da cegueira para a visão do reino de Deus. Só quando o Espírito de Deus age profundamente em nossa vida podemos ver as coisas com pleno discernimento. Agora, vemos as coisas de forma nublada, mas breve vem o tempo que veremos claramente. Então, conheceremos como também somos conhecidos.
A ordem de Jesus ao cego curado
Marcos 8 26 E mandou-o Jesus embora para casa, recomendando-lhe: Não entres na aldeia.
Foi uma ordem semelhante ao que Jesus deu ao surdo-mudo lá no capítulo 7, quando pediu que ele não divulgasse, mas aquele homem não obedeceu e, juntamente com a multidão, espalharam a notícia por toda parte.
Agora Jesus mandou ao homem curado que fosse para casa, que não entrasse na aldeia para divulgar o milagre. Este foi o último milagre que Jesus fez na Galileia. Ele estava se ocultando das multidões.
Aplicações e Conclusão
MacArthur explica que "Este foi um milagre particular realizado por Jesus para Seus discípulos e ressaltou uma série de verdades importantes para eles.
Esse milagre serviu como uma ilustração para os discípulos da cegueira espiritual temporária. Espiritualmente falando, eles já foram como aquele cego. Tendo sido criados no judaísmo tradicional, eles foram ensinados a seguir a orientação dos fariseus e escribas cegos ( Mt 23:16 ). Mesmo com a luz das Escrituras do Antigo Testamento (cf. Sl 119:105 ) e as vantagens inerentes a fazer parte da nação escolhida por Deus (cf. Rm 3:2 ; 9:4–5 ), sua compreensão da verdade espiritual foi irremediavelmente obscurecida por séculos de tradição rabínica e hipocrisia religiosa. Tudo isso mudou quando eles conheceram o Salvador. Seu toque salvador removeu o véu de escuridão que antes envolvia seus corações descrentes (cf. 2Co 3:14–15 ). Em um ato de infinita compaixão, o Senhor Jesus milagrosamente deu a eles olhos de fé, como Ele faz para cada pecador que Ele salva, para que eles pudessem apreender claramente a verdade pela primeira vez. Ele é, como o apóstolo João o descreve, “a verdadeira Luz que, vinda ao mundo, ilumina todo homem” ( João 1:9 ).
CONCLUSÃO
Desconhecemos as razões para o modo peculiar como Jesus realizou o milagre historiado nesses cinco versículos. Vemos um cego miraculosamente curado. Sabemos que uma palavra proferida por nosso Senhor ou um toque de sua mão teriam sido suficientes para efetuar a cura. Mas vemos Jesus tomando aquele cego pela mão, levando-o até fora dos limites da cidade, aplicando saliva sobre seus olhos, impondo-lhe as mãos e, então, somente então, restaurando-lhe a visão. E a passagem deixa o significado de todos esses atos totalmente sem explicação.
Todavia, faríamos bem em lembrar que o Senhor Jesus não estava limitado ao emprego de qualquer método em particular. Na conversão das almas humanas, há uma diversidade de operações, mas é sempre o mesmo Espírito de Deus que converte os homens. De modo semelhante, na cura dos corpos humanos, havia uma variedade de métodos empregados por nosso Senhor. Mas era sempre o mesmo poder divino que efetuava a cura. Em todas as suas obras, Deus mostra-se soberano. Ele não presta contas de qualquer de seus atos.
Nessa passagem, a natureza gradual da cura que nosso Senhor realizou nesse cego requer nossa especial atenção. Jesus não o livrou de sua cegueira de uma só vez; antes, ele fez isso passo a passo. O Senhor Jesus poderia tê-lo feito em um único momento, mas preferiu realizar a cura por etapas. A princípio, o cego disse que tão somente via indistintamente “os homens […] como árvores […] andando”. Posteriormente, sua visão foi totalmente restaurada e, “passando a ver claramente, […] tudo se distinguia de modo perfeito”. Quanto a isso, o milagre permanece singular. Não duvidamos de que essa cura gradual tinha a intenção de ser uma imagem das coisas espirituais. Podemos estar certos de que havia profundo significado em cada palavra e em cada obra no ministério terreno de nosso Senhor, e, tanto aqui como em outros lugares, encontraremos lições proveitosas.
Vejamos, nessa restauração gradual, uma vívida ilustração da maneira pela qual, com frequência, o Espírito de Deus opera na conversão das almas humanas. Todos nos mostramos naturalmente cegos e ignorantes nas questões relativas às nossas almas. A conversão consiste numa iluminação, numa mudança das trevas para a luz, da cegueira à visão do reino de Deus. No entanto, poucas pessoas, logo ao se converterem, veem a realidade espiritual de forma distinta. A natureza e a proporção das doutrinas, das práticas e das ordenanças do evangelho são percebidas de forma ofuscada e compreendidas de forma imperfeita. Os recém-convertidos são como o cego que esse relato enfoca, o qual, a princípio, via os homens como árvores andando. A visão dos recém-convertidos mostra-se ofuscada e desacostumada com o novo mundo no qual foram introduzidos. Somente depois que a atuação do Espírito aprofunda-se é que a experiência deles, em alguma medida, amadurece e eles se tornam capazes de ver as coisas com maior clareza e de dar a cada aspecto da religião cristã seu devido lugar. Essa é a história de milhares dos filhos de Deus. Eles começam vendo os homens como árvores a andar; e terminam vendo tudo com muita clareza. Feliz é aquele que tem aprendido corretamente essa lição, mostrando-se humilde e desconfiado de seus próprios juízos.
Related Media
See more
Related Sermons
See more
Earn an accredited degree from Redemption Seminary with Logos.