GÁLATAS 2.1-10 - 2ª E 3ª PARTE

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INTRODUÇÃO

Como vimos na semana passada, no capítulo 2, Paulo deu continuidade de forma mais específica na defesa do seu ministério em relação às acusações que lhe eram dirigidas pelos judaizantes, conhecidos como perturbadores que pregavam outro evangelho.
Em Gálatas 2.1-10, como vimos, o texto pode ser dividido em três partes, na semana passada vimos apenas a primeira parte (sobre o encontro de Paulo com os outros apóstolos), onde Paulo, após pregar o evangelho por catorze anos, viajou a Jerusalém para se encontrar com os apóstolos, a fim de conhecê-los e expor o evangelho que anunciava aos gentios, não em busca de aprovação, mas para reforçar a comunhão com os líderes da igreja e argumentar com àqueles que defendiam que a salvação não era obtida apenas pela graça mediante a fé, mas também pelas obras da lei.
Além disso, vimos que embora haja discussão acerca da viagem, sua viagem foi orientada por uma revelação de Deus, e possivelmente ligada à profecia de Ágabo sobre uma fome. Mas é claro que teve um objetivo maior: expor que o evangelho que pregava não era diferente dos demais apóstolos de Jerusalém, apesar de algumas diferenças nas aplicações práticas. Paulo procurou os apóstolos de maior influência, como Pedro, João e Tiago o irmão de Jesus um líder importante na Igreja de Jerusalém, para garantir que sua pregação fosse aceita e não tivesse sido em vão. Como bem sabemos, Paulo defendia que a salvação não dependia das obras da Lei, mas da fé em Cristo, destacando a adaptação do evangelho a diferentes culturas e contextos, sem comprometer sua essência.

EXPOSIÇÃO

Na segunda parte do texto, Paulo nos apresenta o que aconteceu em Jerusalém. No versículos 3 a 5, Paulo fala de uma disputa com alguns falsos irmãos que se intrometeram na reunião entre eles e a liderança de Jerusalém. Não foi um encontro programado como observaremos. Porém, quem eram esses falsos irmãos? Provavelmente, esses falsos irmãos faziam parte daquele grupo de missionários judaizantes que já foram mencionados, os quais pregavam outro evangelho. Diante disso, Paulo se viu obrigado a debater com eles.
Quando chegou a Jerusalém o apóstolo provavelmente se reuniu com os líderes e Barnabé e Tito estavam ao seu lado. Provavelmente houve o questionamento da parte de Pedro, Tiago e João sobre quem era o jovem Tito. E Paulo certamente respondeu que Tito era um gentio que o acompanhava na pregação do evangelho. Certamente foi nesse momento em que os evangelistas judaizantes o questionaram, se ele era circuncidado, especialmente pelo fato de Tito ser gentio e também afirmaram que Tito deveria ser circuncidado e deveria guardar a Lei de Moisés. No entanto, Paulo certamente disse que não ou talvez de modo nenhum. Isso não porque Paulo era contra a Lei de Moisés, mas apenas porque acreditava e defendia que as obras da lei, apresentadas por Moisés no AT, são proféticas, apresentam tipos que já se cumpriram com a vinda de Cristo. Por isso, os gentios não precisam se circuncidar para ser cristãos.
Nesse ponto, começou a discussão, e Paulo teve de resistir com unhas e dentes. Creio que ele estava disposto até mesmo a romper com os líderes da igreja de Jerusalém, caso Tito fosse obrigado a se circuncidar. É o que dá a entender com o que escreveu. Mas o desfecho não foi esse, como ele informa no versículo 3: "Nem mesmo Tito, que estava comigo, foi forçado a se circuncidar, embora fosse grego [outra palavra utilizada para designar um gentio, pois todos os gregos eram gentios]". Por que isso? No versículo 4, ele esclarece: "e isto por causa dos falsos irmãos que haviam se intrometido e secretamente vieram espiar a liberdade que temos em Cristo Jesus, para nos escravizar". Era assim que Paulo enxergava a tentativa de circuncidar Tito. Se o jovem obreiro fosse circuncidado, sendo um gentio, isso seria uma derrota para o evangelho. Não seria um problema pessoal e localizado, mas, sim, um incidente emblemático. Um gentio que tivesse de ser circuncidado para se tornar "um cristão de verdade" colocaria em risco o evangelho, e é por isso que Paulo diz, no versículo 5, que não cedeu "nem por um momento [...] para que a verdade do evangelho permanecesse convosco".
Se Tito fosse circuncidado, os demais cristãos gentios também teriam de passar pela circuncisão. Todos os cristãos teriam de se tornar judeus, e hoje seríamos uma igreja judaica. Essa reunião em Jerusalém talvez tenha sido o momento mais crítico para o evangelho. Decidiu-se ali se prevaleceria o evangelho da graça, da misericórdia e da fé em Cristo Jesus, sem as obras da lei, ou se venceria o "evangelho" dos judaizantes.
Imaginemos que Paulo tivesse cedido dizendo algo como: "Tudo bem! Tito, você se incomoda? Deixa pra lá! Não vamos brigar, não; sejamos amigos. Dói só um pouquinho, mas... é só para agradar esse pessoal... só pra gente fazer amizade e estabelecer um bom "ponto de contato. Não queremos encrenca com ninguém". Se Paulo tivesse agido assim, o evangelho da graça talvez tivesse se perdido para sempre. Teríamos perdido a liberdade que temos em Cristo.
O evangelho verdadeiro é o evangelho da liberdade, aquele que nos libera das obrigações legalistas e cerimoniais da Lei e nos dá a salvação gratuita em Jesus Cristo. Esse evangelho possibilita que qualquer pessoa, por mais pecadora e fraca, seja salva pela fé em Jesus Cristo. Paulo estava lutando não apenas pelo seu amigo Tito, mas pela verdade do evangelho, para que este permanecesse conforme ele havia recebido de Deus e como deve sempre ser. E o resultado desse seu empenho foi maravilhoso.
O apoio dos apóstolos de Jerusalém ao evangelho de Paulo
Na terceira parte do texto, que vai do versículo 6 ao 10, Paulo passa a discorrer sobre o apoio que recebeu dos líderes de Jerusalém após o embate com os judaizantes. Ao mencionar "aqueles que pareciam ser importantes", ele está se referindo a Pedro, Tiago e João, que eram considerados "colunas" da igreja. Paulo, na verdade, não demonstra ter se intimidado com isso, pois afirma que Deus "não considera a aparência humana". Paulo não ficou nem um pouco impressionado com os três, porque acreditava estar no mesmo nível dos apóstolos Pedro e João e ainda de Tiago, irmão de Jesus e líder da igreja em Jerusalém. "Nada me acrescentaram", ele diz no final do versículo 6; ou seja, os três não fizeram nenhum acréscimo ao evangelho que ele pregava.
Na verdade, nessa reunião, Pedro, Tiago e João puderam constatar que Deus estava agindo também através de Paulo, não somente através deles. Desse modo, conseguiram perceber uma coisa importante: Deus havia designado Paulo para pregar o evangelho aos gentios, assim como designara Pedro para pregar o evangelho aos judeus. Ao perceberem isso, reconheceram, por conseguinte, o apostolado de Paulo. E, como expressão desse reconhecimento, o versículo 9 diz que "estenderam a mão direita da comunhão".
Com esse gesto, os três líderes estavam dizendo a Paulo: "Você é um de nós. Você é como nós, e reconhecemos seu ministério. Não temos absolutamente nada a acrescentar ao que você está fazendo. Sabemos que Deus o escolheu e que você está pregando o verdadeiro evangelho aos gentios. Vá em paz! Nós continuaremos a pregar o evangelho aos judeus aqui, enquanto você se dedica a pregar aos gentios!". É claro que essa regra não era absoluta, porque, onde Paulo chegava, ele primero pregava aos judeus; só depois falava aos gentios. Da mesma forma, Pedro e os demais apóstolos não pregavam apenas aos judeus, mas também aos que não professavam a fé judaica.
O apóstolo João, por exemplo, no final da vida, era responsável pelas igrejas da Ásia menor, que eram gentílicas. A incumbência do ministério de Paulo aos gentios e o de Pedro e demais apóstolos aos judeus não era uma regra absoluta, mas, sim, uma questão de prioridade. Em Jerusalém, definiu-se o principal foco dos ministérios. O que os apóstolos estavam dizendo era: "Nós todos pregamos o mesmo evangelho. Todavia, há grupos diferentes que precisam ser alcançados. Você vai para os gentios, Paulo, e nós continuaremos a pregar aos judeus". E a única recomendação que fizeram ao apóstolo dos gentios está no versículo 10: "Recomendaram somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com cuidado".
Ainda assim, mesmo antes dessa recomendação, Paulo já estava se esforçando para fazer isso, pois, se nosso raciocínio estiver correto, um dos motivos de ele ter ido a Jerusalém foi entregar aos pobres da primeira igreja uma oferta arrecadada entre os cristãos de Antioquia.
CONCLUSÃO E APLICAÇÕES
Podemos nos perguntar o que essa seção da Carta aos Gálatas pode ensinar aos cristãos de hoje. Creio que vá-rias lições podem ser aprendidas com ela.
A primeira lição, já mencionada algumas vezes, é que há somente um evangelho. Embora seja pregado a povos diversos, de épocas e culturas diferentes, é o mesmo evangelho. Pedro, Tiago e João estenderam "a mão direita da comunhão" a Paulo em sinal de reconhecimento dessa verdade. É um só evangelho: que Cristo Jesus morreu pelos nossos pecados, ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, está à direita de Deus, virá para julgar os vivos e os mortos, e quem crer nele será salvo de seus pecados, será perdoado e aceito por Deus e terá a vida eterna tudo isso somente pela misericórdia de Deus e sem as obras da lei. É esse o evangelho que a Bíblia ensina.
A segunda lição é que esse evangelho, embora seja o mesmo, pode ter diferentes aplicações. Ele pode ser contextualizado e se adaptar à cultura. Os crentes de Jerusalém eram cristãos verdadeiros exceto os legalistas, que Paulo considerava falsos irmãos. Mas os judeus que de fato se convertiam a Cristo praticavam o cristianismo sem renunciar à sua cultura. Circuncidavam os filhos não como um ato religioso, mas como um identificador da cultura judaica e, pela mesma razão, cumpriam as regras alimentares estabelecidas na Lei. Para Paulo, isso não era problema. Quando pregava o evangelho entre os ju-deus, ele mesmo se comportava como judeu. O evangelho, portanto, pode absorver determinados aspectos culturais. Uma das tarefas mais difíceis da igreja é separar o essencial o que de fato faz parte do evangelho — daquilo que é simplesmente uma expressão cultural. As expressões culturais podem ser postas de lado, e as tradições podem ser substituídas, mas o evangelho é imutável. Às vezes, ficamos insistindo em tradições, costumes e práticas em nossas igrejas que funcionaram na época de nossos pais, mas que hoje não fazem mais sentido. O mundo mudou, a cultura mudou e uma nova geração já está aí. Precisamos estar atentos a isso, se quisermos que a igreja caminhe e seja relevante para nossa geração.
A terceira lição é que devemos buscar a comunhão com todos os cristãos verdadeiros. Paulo foi a Jerusalém e lá procurou a liderança daquela igreja. Em certo sen-tido, as igrejas que ele fundara eram diferentes em sua expressão e na liturgia; contudo, Paulo queria se acertar com aqueles irmãos. Seu desejo era ter comunhão com eles. Queria que a igreja fosse una, sem divisões, e tomou a iniciativa de explicar seu trabalho diante dos líderes da igreja-mãe. Como resultado, teve a alegria de receber dos apóstolos e líderes de Jerusalém um gesto de comunhão e o reconhecimento de seu ministério, e assim todos se puseram a marchar no mesmo Espírito e sob a bandeira do mesmo evangelho. É preciso investir esforços constantes para mantermos a unidade da igreja, porque é dessa maneira que damos ao mundo o testemunho de que servimos ao mesmo Deus.
A quarta lição é que não devemos abrir mão do fundamental no evangelho. Paulo se dispôs a viajar até Jerusalém para conversar com Pedro, Tiago e João, a fim de expor e entender as diferenças entre o ministério de cada um. Mas não estava disposto a aceitar que Tito fosse circuncidado. Não por causa de Tito em si, seu filho na fé, mas por aquilo que o ato representaria: um desvio fundamental da verdade do evangelho. Ceder nesse caso seria negar que a salvação é pela graça e pela fé, sem as obras. No que era essencial, Paulo era intransigente. Ele declarou mais tarde aos gálatas: "Nem por um momento cedemos".
Paulo era um homem de paz, mas também estava disposto a lutar pela verdade. Penso que ele teria rompido com a igreja de Jerusalém se Pedro, Tiago e João tivessem exigido a circuncisão de Tito; mas os três pensavam como Paulo. Jamais exigiriam que um gentio se circuncidasse. Quem estava cobrando isso eram os legalistas, os falsos irmãos que haviam se infiltrado na igreja e perverteram o evangelho. Do mesmo modo, nós, cristãos, somos homens e mulheres de paz, mas que ninguém tente mexer com as bases de nossa fé! Quando está em jogo aquilo que é central no evangelho, suas doutrinas fundamentais, viramos leões não no sentido de "devorar os outros", porque nessa luta estaremos dispostos até ao sacrifício pessoal, e sim no sentido de sermos intransigentes na defesa da "fé entregue aos santos de uma vez por todas" (Jd 3). Não podemos ser vacilantes e indecisos nessas ocasiões. Precisamos entender muito bem o evangelho para não comprometermos a verdade de Deus em nome da convivência pacífica, de uma falsa paz e de uma tranquilidade ilusória. Todos nós gostaríamos de viver em paz com todos, mas há ocasiões em que Deus nos convoca para uma boa discussão, um verdadeiro embate contra os inimigos do evangelho.
A quinta e última lição que identificamos no trecho estudado é que devemos ser sempre muito gratos a Deus. Considerando todos os privilégios de que dispomos hoje como cristãos, penso que, em geral, somos muito ingratos. Temos, por exemplo, a Bíblia à nossa total disposição, e em diversas versões. Um dos livros que compõem a Bíblia é a carta que estamos aqui estudando, e percebe-se que ela foi escrita com o sangue, as lágrimas e o suor do apóstolo Paulo. Ao estudarmos a história do cristianismo primitivo, descobrimos quanto custou para que esse e outros livros fossem escritos. Temos todos eles disponíveis na Bíblia, em nossa casa, mas ela fica a semana inteira na estante, pegando poeira (quando não é esquecida no banco da igreja! — citar spurgeon que disse: "há pó suficiente sobre alguma de suas Bíblias que dá para escrever condenação com os dedos"). Isso é verdade, irmãos! A Bíblia é um tesouro que não valorizamos adequadamente e muitas vezes deixamos de lado.
A Palavra de Deus foi escrita com o sangue dos mártires e as lágrimas de homens inspirados por Deus, para que hoje tivéssemos sua revelação e pudéssemos conhecer sua vontade. Agradeçamos sempre por esse imenso privilégio! E que Deus nos ajude a permanecer firmes no evangelho da graça e a ser gratos por ele, pelos apóstolos que lutaram pela sua preservação, pelos pioneiros que vie-ram pregá-lo em nosso país e pelos pastores que passaram por nossas igrejas ensinando o verdadeiro evangelho da graça, para que eu e você pudéssemos hoje conhecer Deus mediante Jesus Cristo e ter a vida eterna. A Deus seja dada toda a glória! Amém.
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