O Rei ensina por parábolas: a parábola do Semeador (Mc 4.1-20)

O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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O Rei ensina por parábolas: a parábola do Semeador (Mc 4.1-20)

Introdução

Próximo ao fim do segundo ano do ministério de Jesus, Ele enfrenta fariseus hostis. Tudo começa com uma contenda sobre o sábado e, tempos depois, culmina na blasfêmia desses religiosos (Mc 3.20-35). Após esse episódio, em que os líderes deliberadamente fecham os olhos para a verdade, Jesus muda Sua abordagem. Em público, passa a falar por parábolas. É a primeira de uma série: a parábola do semeador, seguida pela da candeia, da semente e do grão de mostarda. Esse é também o primeiro grande discurso de Jesus registrado em Marcos, dirigido às multidões (Mc 4.1).
Por que parábolas? Quem rejeitou a verdade de propósito perdeu o privilégio de ouvi-la sem esforço para ampliar o entendimento (Mc 4.11-12). O que era dito por parábolas ficava oculto, exceto para aqueles com ouvidos e corações prontos para ouvir (Mc 4.11). Aos discípulos, Jesus explicava tudo, mostrando a relevância de cada história (Mc 4.33-34). As parábolas não endurecem os corações por serem difíceis, mas por serem claras (Mt 13.35). Não são só para iniciados ou sábios, mas para os humildes, os discípulos que buscam aprender mais de seu Senhor.

Exposição

I - A Parábola do Semeador: os diferentes tipos de solo

Essa parábola, chamada por alguns de "Diferentes Tipos de Solo", foi dita no mesmo dia em que Jesus confrontou os fariseus na casa de um discípulo, segundo Mateus (Mt 13.1). Depois disso, Ele sai para falar às multidões de várias cidades. Na praia, a partir de um barco no mar da Galileia, como Mestre, Jesus semeia Sua palavra diante de um grande público (Mc 4.1).
John MacArthur explica: “No século I, os campos de Israel eram terrenos longos e estreitos, separados por trilhas, sem muros ou cercas. O semeador lançava a semente em um arco amplo, pegando punhados de um saco pendurado ao seu lado e espalhando-as sobre uma faixa de terra”. Era inevitável que algumas sementes caíssem fora do perímetro ou em partes inadequadas. Só as que caíam em bom solo cresciam, davam frutos e eram colhidas. Jesus, então, destaca quatro tipos de solo:

1. À beira do caminho

São as trilhas transitadas que separavam os campos, compactadas por quem passava, endurecidas pelo clima árido. A semente mais sortuda, que germinasse com um pouco de água, não conseguia criar raízes. O que acontecia? Pisoteadas ou devoradas pelos pássaros – rápido, como pombos em praças.

2. Solo pedregoso/rochoso (pedregais)

Não é um solo com pedras visíveis – nenhum agricultor manteria assim. Provavelmente, havia uma camada de rocha invisível sob o solo arado. O arado da época chegava a 20-25 cm de profundidade, sem revelar o que estava abaixo. As sementes brotavam bem, bonitas no começo, indistintas das plantas saudáveis. Mas logo queimavam – as raízes não alcançavam água suficiente, e o sol secava tudo. Morriam tão logo nasciam.

3. Entre os espinhos

Aqui a semente cresce em meio à vegetação selvagem, já presente antes da boa semente. "Espinhos" (ακανθα) remete a plantas espinhosas, como as da coroa de Cristo (Jo 19.2). Talvez não fossem visíveis ou feias, mas eram resquícios do que parecia morto e não foi removido. Sufocavam a planta desejada. Ervas daninhas crescem rápido, sem cultivo, basta não arrancá-las. Quando trabalhei na administração de um campus, quis deixar a entrada mais bonita e pedi que cortassem as ervas daninhas. Elas voltavam rápido – era preciso removê-las de vez.

4. Terra boa

Deu fruto e boa colheita (a trinta, a sessenta e a a cem por um). MacArthur diz: “A expressão reflete o retorno sobre o investimento do fazendeiro. Para cada denário gasto em sementes, ele ganha cem ao vender o trigo” (como em Gn 26.12-13).

II - Compreendendo a parábola

Agora que vimos os solos, vejamos o que Jesus queria ensinar com eles. A parábola não fala da habilidade do semeador nem do que foi feito com a semente. A diferença está no solo onde ela caiu – é sobre os tipos de solo. O significado é simples, mas exige que os discípulos vão além de ouvir, reflitam e apliquem (Mc 4.9 – o imperfeito indica ação contínua). Esses, mesmo simples pescadores, poderiam entender os mistérios do reino (Mc 4.11), tudo o que o Antigo Testamento apontava sendo revelado. Ninguém era excluído; quem quisesse entender podia perguntar.
A semente é a Palavra de Deus (Mc 4.14), a palavra do reino (Mt 13.19; Is 55.11). O semeador é qualquer um que lança essa boa semente, o Evangelho. O solo é o coração humano (Mt 13.19), em diferentes níveis de receptividade:

1. Corações como o caminho pisoteado:

Obstinados, não querem crer (Jr 19.15; At 7.51). Sem humildade, insensíveis, a semente fica fora. Satanás, como diz John Piper, “come fé no café da manhã”. Não são só ateus – os fariseus cabem aqui. Enganados pelo diabo, que não vem com caveiras, mas como anjo de luz (2Co 11.14-15), com falsos Cristos e salvações fajutas (Jo 3.19).

2. O ouvinte superficial (solo pedregoso):

Recebe com alegria, parece receptivo. Mas o entusiasmo esconde a falta de raiz, de compromisso no coração. Sem amor, desistem ao sofrer por Cristo. A causa não é externa, mas interna: não tem raiz em si mesmos (Mc 4.17; Mt 13.21). Sua crença superficial não era fé. No teste (Lc 8.13), reprovam. Perdem a alegria inicial, não a fé, pois ela não existia. Cristianismo é mais sobre permanecer que iniciar (Jo 8.31). Muitos aplaudiram Jesus na entrada triunfal, mas logo gritavam “crucifica-o”. Alegria não é prova de conversão.

3. O ouvinte mundano (entre espinhos):

Recebe a Palavra, mas não larga a velha vida. Não é o caso de quem está a ouvir falsos ensinos que desviam. É, pelo contrário, o caso de quem pensa que pode carregar o Evangelho no peito e os prazeres do mundo nas mãos. Parece que abandonou esses amores, mas os fragmentos ficam e sufocam a planta. Tornam-a infrutífera (Mc 4.19; Mt 13.22). O solo é arado, receptivo, mas impuro. Conforto e riqueza – não só luxo, mas até um salário mínimo que banca desejos mesquinhos ou vícios, que torna alguém “dono do mundo” - viram deuses. Não dá para ser dividido no reino (Tg 1.8; Mt 6.24). Sem frutos, são arrancados e queimados.

4. O coração bem trabalhado (terra boa):

Ouve, entende e frutifica. Recebe com coração generoso e bom (Lc 8.15), perseverando. Esses frutos enriquecem o semeador – não em dinheiro, mas em êxito. Apesar dos solos ruins, a semente se espalha e frutifica bem. Quem clama por coração puro e espírito firme (Sl 51.10) está pronto (Tg 1.21). O encontro com a palavra gera outras sementes.

Aplicações

1. Você pergunta sobre o que não entendeu?

Nem tudo fica claro no sermão, mas o bom solo remói, revisita, busca se aprofundar – no domingo, na quarta, no culto nos lares. Irmão, dúvida é coisa de crente! Quer entender melhor, conhecer mais. Os discípulos perguntam, Jesus ensina. Talvez você tenha incredulidade, não dúvida. Rejeita a Palavra e não quer aprender o que não compreendeu.

2. O alvo da Palavra é o coração

Não é só o ouvido ou a mente – ela deve ser ouvida, compreendida e guardada/entesourada (Lc 2.19). Guardar é ouvir, entender e frutificar (Mc 4.20). O semeador visa o coração para que creiam e sejam salvos (Lc 8.12).

3. O fruto é a única evidência de ouvir direito

Só há uma diferença entre os solos: infrutíferos e frutíferos. Fariseus se achavam mestres, mas seus frutos mostravam que não entendiam a Palavra (Mt 12.33-37). Fruto é o caráter de Deus no crente (Gl 5.22-23), na perseverança. Sem frutos de justiça, o cristianismo é falso. Quem ama quer conhecer a Deus, servi-Lo, entregar-se. Sabe que o remédio para uma vida vazia é o Criador.

4. A semente não muda pelo solo

Poderia-se adaptar a semente aos solos, mas eles são do mesmo terreno – a diferença é a receptividade. A Palavra não pode ser adulterada.
SDG
Referências
MacArthur, John. As parábolas de Jesus comentadas por John MacArthur. Thomas Nelson Brasil. Edição do Kindle.
John D. Barry et al., Faithlife Study Bible (Bellingham, WA: Lexham Press, 2012, 2016).
Fritz Rienecker, Comentário Esperança, Evangelho de Mateus (Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1998), 226.
Itamir Neves, Comentário Bíblico de Marcos: Através da Bíblia, org. Israel Mazzacorati, Primeira edição, Série Através da Bíblia (São Paulo, SP: Rádio Trans Mundial, 2012).
William Hendriksen, Marcos, trad. Lucas Ribeiro, 2ª edição, Comentário do Novo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2014).
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