(Lv 12) A purificação da mulher depois do parto
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Enquanto Levítico 11 aborda a impureza ritual decorrente de questões relacionadas a animais, Levítico 12–15 aborda a impureza ritual decorrente de questões relacionadas ao corpo humano.
Após uma breve introdução (vv. 1–2a), ele identifica os procedimentos de purificação exclusivos do nascimento de um menino (vv. 2b–4), depois aqueles exclusivos do nascimento de uma menina (v. 5), e conclui com os procedimentos finais de purificação, que são os mesmos para meninos e meninas (vv. 6–8). Durante esses procedimentos, a mãe passa por um processo de três estágios: uma purificação inicial com duração de sete ou quatorze dias (vv. 2, 5a), uma segunda purificação de trinta e três ou sessenta e seis dias (vv. 4, 5b), e uma série de ofertas que completam a purificação (vv. 6–8).
Nossa passagem está dividida em duas partes: a santidade da vida está expressa nos versículos 1–5, e a santificação da vida, nos versículos 6–8.
Outra forma de entender esse texto também é que, primeiro, nossa natureza é corrupta e nascemos assim; segundo, o remédio pra isso é colocado diante de nós - um sacrifício substituto.
A Santidade da vida
Levítico 12.1–5 “Disse mais o Senhor a Moisés: Fala aos filhos de Israel: Se uma mulher conceber e tiver um menino, será imunda sete dias; como nos dias da sua menstruação, será imunda. E, no oitavo dia, se circuncidará ao menino a carne do seu prepúcio. Depois, ficará ela trinta e três dias a purificar-se do seu sangue; nenhuma coisa santa tocará, nem entrará no santuário até que se cumpram os dias da sua purificação. Mas, se tiver uma menina, será imunda duas semanas, como na sua menstruação; depois, ficará sessenta e seis dias a purificar-se do seu sangue.”
Uma mulher se tornava impura no parto. O nascimento de uma criança era um sinônimo de vida, uma alegria para todos e uma ordem divina de crescer e multiplicar. Mas ao mesmo tempo a mulher dava a luz a um pecador, e por isso era também impura. Além disso, a impureza da mãe estava ligada à perda de sangue no parto. A mulher devia esperar muitos dias até ser purificada do seu sangramento. O sangue é a evidência mais natural da vida e da morte. O sangue pertencia ao Senhor porque só ele é Senhor da vida.
Levítico 17.11 “Porque a vida da carne está no sangue. Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pela vossa alma, porquanto é o sangue que fará expiação em virtude da vida.”
Devemos lembrar que havia uma diferença entre impureza moral e cerimonial. A mãe nao se tornava moralmente ou espiritualmente inferior por dar à luz. Ser mãe é uma dádiva divina inigualável. É um mandato da criação, e louvável para a mulher, como é dito no NT, que uma mulher é redimida na sua missão de mãe. A mensagem aqui não era que a mãe havia pecado necessariamente, mas que ela era uma pecadora, que seu filho era um pecador, e a perda de sangue demonstrava isso. O simbolismo era muito importante pra que Deus revelasse sua vontade. Todo esse ritual de purificação quer dizer que Deus estava ensinando algo a respeito dele mesmo, de sua santidade e da santidade que ele requer de nós.
Domingo passado eu expliquei pra vocês que a impureza cerimonial geralmente está associada à alguma anormalidade. Por exemplo, um animal impuro, que não podia ser comido, não era impuro apenas por uma questão de higiene, talvez nem fosse esse o caso. Mas poderia ser impuro porque, de alguma forma, ele fugia do padrão da sua espécie. Um peixe sem escama, mesmo que criado por Deus assim, não está dentro de um padrão do que conhecemos por peixes. É como uma deficiência. Aqui da mesma forma, ainda que seja o esperado que uma mulher tenha filhos, a gravidez e especialmente o parto afasta a mulher desse estado de normalidade, porque ela perde muito sangue. É uma experiência incomum, que foge do dia a dia.
Outra coisa importante era que essas leis tinham o benefício prático de fornecer às mulheres uma maneira socialmente aceitável de se afastarem dos outros para descansar e se recuperar, o que pode ter sido especialmente bem-vindo em um mundo sem medicamentos para ajudar com a dor e o desconforto.
A reclusão dentro de casa seria de sete dias se o bebê fosse menino ou catorze se fosse menina. Mais ainda havia mais um período de 33 dias para o nascimento de menino e 66 para o de menina. Até que o corpo da mulher voltasse ao seu estado normal. Agora por que o dobro de dias para meninas? Ninguém sabe responder. Tem algumas sugestões, como o fato de que um menino é circuncido, e a circuncisão dele ajudou a diminuir a exigência da purificação; mas a que parece fazer mais sentido é que uma menina seria uma mãe em potencial, então há uma purificação por duas mulheres, incluindo uma futura mãe.
Para os israelitas, as impurezas ‘menores’ duravam apenas até a noite (cf. 11:24), enquanto as impurezas ‘maiores’ — como aqui — exigiam sete dias ou mais. Como o número sete era associado à completude, sete dias representavam uma espera completa. Além disso os primeiro sete dias de purificação mais os próximos 33 dias somam 40 dias, que também é um número importante par aos israelitas, e nos lembra os 40 anos no deserto, os 40 dias de Moisés, como quando o Senhor enviou o dilúvio por 'quarenta dias e quarenta noites' (Gn 7:4), ou os israelitas espiaram a terra por 'quarenta dias' (Nm 13:25) etc.
Uma característica das leis de pureza na Bíblia é a necessidade de guardar um tempo como um passo necessário para a purificação e reintegração na comunidade. A purificação era sempre um processo que levava tempo, e não um acontecimento instantâneo.
Esse princípio sobre o tempo da purificação deve nos ajudar a entender o processo de santificação. A santificação é tanto um instantânea, em Cristo, de uma vez por todas, quanto progressiva. É um processo que leva tempo, precisamos caminhar, esperar.
Hebreus 10.10 “Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas.”
O nosso relacionamento com Jesus precisa ser vivido progressivamente. A gente precisa se aprofundar cada dia mais em nosso relacionamento com Deus e na purificação da nossa vida. Isso requer resistir ao pecado.
1Tessalonicenses 4.3–4 “Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da prostituição; que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra,”
Qual é a vontade de Deus para minha vida?” Eles têm muitas perguntas a respeito de com quem se casarão, que carreira devem seguir e muitas outras decisões. Mas, a Bíblia é bastante clara a respeito da principal vontade de Deus para nossa vida. O apóstolo Paulo escreveu: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da prostituição” (1 Ts 4.3)
R. C. Sproul
A santificação é uma qualificação indispensavelmente necessária para aqueles que estarão sob a orientação do Senhor Cristo para a salvação; ele não levará ninguém ao céu, senão apenas aquele a quem ele santifica na terra. O Deus santo não receberá pessoas ímpias; esta cabeça viva não admitirá membros mortos, nem trará os homens à posse de uma glória da qual eles não amam nem gostam.
John Owen (teólogo puritano e estadista)
A circuncisão
Após sete dias do nascimento de um menino, no oitavo dia, ele deveria ser circuncidado. A mãe levava a criança ao santuário, onde o prepúcio do menino era cirurgicamente removido (v.3).
A circuncisão já existia em outras culturas e era um ato de higienização, ou um símbolo de puberdade. A circuncisão dos hebreus aqui representava também a purificação da criança, e que ela nascia pecadora.
Salmo 51.5 “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe.”
Além, representava também que já em seu nascimento ela faria parte da comunidade. Era o seu ingresso na comunidade da aliança. A circuncisão também era um símbolo, um símbolo de compromisso e pureza.
Jeremias 9.25–26 “Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que castigarei a todos os circuncidados juntamente com os incircuncisos: ao Egito, e a Judá, e a Edom, e aos filhos de Amom, e a Moabe, e a todos os que cortam os cabelos nas têmporas e habitam no deserto; porque todas as nações são incircuncisas, e toda a casa de Israel é incircuncisa de coração.”
Deuteronômio 10.16 “Circuncidai, pois, o vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz.”
No NT temos um paralelo com a circuncisão, que é o batismo. Da mesma forma que a circuncisão, o batismo representa purificação e compromisso, mas sem derramamento de sangue, pois o sangue de Cristo foi derramado em nosso lugar de uma vez por todas, por isso o sangue foi definitivamente substituído pela água e pelo vinho. É isso que Paulo quer dizer quando fala da circuncisão de Cristo em Cl2, exatamente explicando que o batismo substitui a circuncisão, porque Cristo morreu por nós.
A santificação da vida
Levítico 12.6–8 “E, cumpridos os dias da sua purificação por filho ou filha, trará ao sacerdote um cordeiro de um ano, por holocausto, e um pombinho ou uma rola, por oferta pelo pecado, à porta da tenda da congregação; o sacerdote o oferecerá perante o Senhor e, pela mulher, fará expiação; e ela será purificada do fluxo do seu sangue; esta é a lei da que der à luz menino ou menina. Mas, se as suas posses não lhe permitirem trazer um cordeiro, tomará, então, duas rolas ou dois pombinhos, um para o holocausto e o outro para a oferta pelo pecado; assim, o sacerdote fará expiação pela mulher, e será limpa.”
Em algumas ocasiões, o procedimento da purificação incluía água (p. ex., Lv 14.8), mas os casos de impurezas mais prolongadas requeriam o derramamento de sangue no altar do santuário. Impurezas físicas significavam que o altar havia sido contaminado. Então era necessário derramamento de sangue para purificação.
A mãe agora deve trazer ofertas para finalizar sua purificação. Dois sacrifícios são mencionados: uma oferta de purificação (tradicionalmente oferta pelo pecado; veja em 4:3) e uma oferta queimada (holocausto), uma oferta de consagração. A oferta de purificação consistia em um pombo ou uma pomba (veja em 1:14); a oferta queimada de um cordeiro de um ano (veja em 9:15–21).
Lembrando que isso era uma purificação cerimonial, não requeria perdão de pecado em si, pois não havia nenhuma ofensa moral em ser mãe. Pelo contrário.
Se a mãe não tivesse condições de comprar um cordeiro, ela deveria trazer duas pombas ou dois pombinhos, um para o holocausto e o outro para a oferta de purificação (cf. 5:7). Esta era uma concessão misericordiosa, que não apenas demonstra o amor do Senhor pelos pobres, mas também antecipa o fato de que um dia o Senhor Jesus compartilharia dessa experiência e dessa fraqueza
Lucas 2.22–24 “Passados os dias da purificação deles segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor, conforme o que está escrito na Lei do Senhor: Todo primogênito ao Senhor será consagrado; e para oferecer um sacrifício, segundo o que está escrito na referida Lei: Um par de rolas ou dois pombinhos”).
Jesus cumpriu toda a lei, mesmo não tendo pecado, ele veio como nosso representante completo, em semelhança de carne pecaminosa, se submeteu à lei como um pecado, sendo circuncidado e batizado. Isso é o que na teologia é chamado de “obediência ativa” de Jesus. Ele cumpriu a lei ativamente.
Gálatas 4.4–5 “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos.”
É essa justiça perfeita de Jesus que é imputada em nós pela fé. Quando Deus olha pra nós ele vê alguém que cumpriu perfeitamente a justiça.
Mas havia também uma obediência passiva de Jesus. Em que ele cumpriu as exigências da lei por ela ter sido quebrada. Então, ele cumpriu toda a lei por nós, e ele foi tratado como quem não cumpriu a lei também por nós. Ele recebeu a maldição da lei sendo crucificado em nosso lugar.
Filipenses 2.7–8 “antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.”
Foi assim que nosso Senhor nos salvou. E é por isso que devemos nos purificar.
1João 1.7 “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.”
Assim aprendemos que “A santidade não é o caminho para Cristo; Cristo é o caminho para a santidade.” Adrian Rogers
