O Rei compassivo (Mc 1.40-46)
O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos • Sermon • Submitted • Presented
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Contexto e introdução
Contexto e introdução
Temos exposto o Evangelho conforme o relato de Marcos. Nele, o evangelista apresenta Jesus como o Filho de Deus, o Messias prometido, o Rei que traz o reino de Deus. Jesus possui uma autoridade singular, destacada por João Batista em seu prenúncio, reconhecida pelo povo e até mesmo pelos demônios. Essa autoridade é demonstrada tanto por seu ensino quanto por seu poder sobre demônios e doenças. No Evangelho de Marcos, Jesus é retratado como alguém sempre em atividade, profundamente envolvido com o reino de Deus.
Além disso, à medida que Marcos apresenta Cristo em diversas situações, ele aprofunda a revelação sobre Jesus e nos introduz, enquanto expande, alguns temas. Por exemplo, o tema de Cristo como Messias: embora fique claro desde o início que Jesus é o Filho de Deus, o significado dessa identidade se amplia com cada novo relato. Outro tema importante é o discipulado, no qual percebemos o cuidado de Marcos em mostrar qual deve ser a postura do verdadeiro discípulo diante do Salvador.
No texto de hoje, vemos novamente Jesus realizando uma cura. Marcos nos oferece mais detalhes sobre a autoridade e o caráter de Cristo, sobre o chamado "silêncio messiânico", sobre sua identidade como Messias e sobre a resposta ou atitude das pessoas que tiveram encontros com Ele. Com isso, seguimos para uma análise mais detalhada deste relato, buscando compreender o que ele nos ensina sobre Jesus e sobre como devemos responder a Ele.
Exposição
Exposição
Versículo 40
Versículo 40
O relato nos apresenta aquele que se aproxima de Jesus: um leproso, ou seja, uma pessoa com doenças de pele. Conforme o Evangelho de Mateus, Jesus havia descido de um monte e era seguido por uma multidão. É improvável que esse homem conseguisse permanecer entre a multidão, já que os leprosos não podiam manter contato com outras pessoas devido à sua condição, vista como uma impureza.
Ser leproso era como carregar uma sentença devastadora, que roubava não apenas a saúde, mas também o nome, a ocupação, os hábitos, a família, o convívio social e a comunidade de adoração. A pessoa enferma, para proteger a comunidade, era obrigada a declarar-se impura (Lv 13.45-46). O diagnóstico de lepra possuía tanto dimensões médicas quanto sociais, e a cura era considerada tão difícil quanto ressuscitar alguém dos mortos. Aliás, a lepra não era apenas uma doença a ser curada, mas uma condição a ser purificada.
Por isso, o leproso representava um risco para o povo santo, sendo visto como uma fonte de impureza. Era necessário manter uma distância de outras pessoas (cerca de cinquenta passos). Segundo a tradição, se um leproso entrasse em uma casa, contaminaria o ambiente; se permanecesse sob uma árvore, corromperia os que passassem por ali.
Portanto, este versículo não pode ser lido como um simples encontro corriqueiro. O leproso quebra a lei e os costumes ao se aproximar de Jesus. Conforme Mateus, essa aproximação não é apenas uma súplica, mas um ato de adoração. Ele se achega com fé, crendo que Jesus pode socorrê-lo. Sua confiança não está na habilidade de Jesus em curá-lo, mas em sua disposição de fazê-lo.
Versículos 41 e 42
Versículos 41 e 42
A reação de Jesus é ainda mais escandalosa e surpreendente para a época: Ele não se atemoriza (como quem recua) nem repele o homem (como quem se defende). Em vez disso, há compaixão, não desprezo. Jesus não se protege, mas estende a mão. Em vez de manter a intocabilidade ritual e física, Ele toca o leproso.
Não é à toa que Marcos enfatiza a profunda compaixão de Jesus. Somente Nele os ritualmente impuros podem ser purificados sem medo, pois Ele é aquele a quem podem se achegar. O toque de Jesus transmite uma mensagem poderosa, mas Marcos também destaca a disposição do coração do Salvador: "Quero. Seja purificado." Jesus não é contaminado ou tornado impuro; ao contrário, Ele cura e purifica. Jesus possui uma santidade que é contagiosa.
Vale mencionar que, em um manuscrito antigo e importante (Códice D), no lugar de “cheio de compaixão” está escrito “cheio de ira”. Como a expressão "ira" foi substituída por "compaixão"? Por que Mateus e Lucas omitem o sentimento de Jesus? Uma explicação plausível é que Jesus estava indignado com a miséria e sofrimento causados pela lepra (como vemos em Jz 10.16 e Jo 11.33-38). Essa indignação é seguida de ação e do resultado, e a lepra imediatamente desaparece diante de Seu poder.
Versículos 43 a 45
Versículos 43 a 45
Jesus despede o homem com certa urgência, instruindo-o seriamente a permanecer em silêncio, evitando interpretações equivocadas sobre sua identidade. Ele requer preocupações com a sua imagem. Ele orienta que o homem vá ao sacerdote, que seria responsável por declarar a purificação e, em seguida, oferecer o sacrifício ordenado por Moisés em Levítico 14 (Lv 14.2-4). Isso seria um testemunho a eles.
No entanto, o texto nos apresenta uma ironia. Embora não saibamos se o homem cumpriu a exigência mosaica, fica evidente que ele não obedeceu à ordem de Cristo. Ele saiu e começou a divulgar amplamente o ocorrido. Marcos – e somente ele – nos informa que o leproso curado contribuiu para a fama de Jesus se espalhar ainda mais. Nesse ponto, Marcos nos mostra que parte da explicação para o "silêncio messiânico" está na realidade de que, apesar das ordens para não divulgar quem Jesus era, é impossível conter a propagação do evangelho. A verdade sobre Cristo, uma vez experimentada, não pode ser silenciada.
Nesse ponto, os papéis e os fardos se invertem: o leproso, antes excluído, tem seu fardo removido, enquanto Jesus, antes livre para circular, não podia mais entrar publicamente nas cidades. Antes, Jesus estava dentro da cidade e o homem, fora; agora, os papéis se invertem.
Aplicações
Aplicações
1. Jesus recebe os leprosos. Apresente-se a Ele.
1. Jesus recebe os leprosos. Apresente-se a Ele.
Sabe, irmãos, todos nós podemos ter "lepras" que nos afastam da comunhão com Deus e com nossos irmãos. Às vezes, temos medo de enfrentar essas áreas de nossa vida e as deixamos nos consumir. Mas o que o texto nos ensina hoje é claro: Jesus cura os leprosos. E não só pode, como também quer. O que Ele deseja de você é que apresente a Ele suas "lepras", aquilo que te afasta de Sua presença, para que Ele possa purificar sua vida. Podemos ter confiança na autoridade de Jesus para nos transformar, assim como o leproso teve confiança em Sua disposição de curá-lo. Ele não se recusa a tocar nossas feridas; pelo contrário, Ele deseja restaurar-nos e nos aproximar Dele. Pergunta para reflexão: O que você tem escondido de Jesus por medo de Sua reação, e que Ele está esperando que você traga até Ele para que te purifique?
2. O Rei que se torna servo carrega nossas iniquidades.
2. O Rei que se torna servo carrega nossas iniquidades.
Marcos nos apresenta Jesus não apenas como o Messias, mas como o Rei que se faz servo para carregar nossas iniquidades (Is 53.11). Ele não veio para ser servido, mas para servir e dar Sua vida em resgate de muitos. O gesto de tocar o leproso é um reflexo do Seu amor incondicional: Jesus, em Sua santidade, não se contamina, mas purifica. Assim, Ele nos ensina que, mesmo em nossa condição de pecado, Ele se aproxima para nos libertar. Pergunta para reflexão: Como você tem vivido à luz do sacrifício de Cristo? Tem compreendido que, ao aceitar o convite de Jesus, você está sendo liberto de sua impureza espiritual e chamado a viver em santidade?
3. O homem purificado se torna um frenético evangelista. E nós?
3. O homem purificado se torna um frenético evangelista. E nós?
O leproso, após ser curado, não pode conter a alegria de compartilhar com todos o que Jesus fez por ele. Ele se torna um evangelista espontâneo, propagando a boa nova de sua cura. E nós? Será que estamos tão tocados pela transformação que Jesus fez em nossas vidas que, naturalmente, nossa vida é um testemunho dEle? Devemos perguntar: estamos nos empenhando para espalhar a fama de Jesus, tornando Seu nome conhecido por onde passamos? O Natal e as festas de fim de ano, por exemplo, são ocasiões em que podemos compartilhar o evangelho de forma natural, mostrando a diferença que Cristo faz em nossas vidas. Pergunta para reflexão: O que tem impedido você de ser um fervoroso propagador do evangelho? Será que estamos vivendo de tal forma que a fama de Jesus se espalha por nossas ações, palavras e atitudes?
4. Por que buscamos o Rei?
4. Por que buscamos o Rei?
É certo que falamos positivamente sobre a importância de buscar o Senhor. No entanto, precisamos refletir sobre os motivos pelos quais buscamos a Jesus. Será que, em nossa busca, estamos nos apegando a motivos insuficientes? O que a multidão queria de Jesus? Eles O adoraram e O honraram como Rei, ou estavam apenas interessados nas curas que Ele podia proporcionar? Muitas vezes, buscamos a Jesus para que Ele nos cure, nos abençoe, mas será que, após recebermos a graça dEle, nossa relação com Ele se limita a um interesse próprio? Lembremos de outro texto em que dez leprosos foram curados, mas apenas um voltou para agradecer e adorar (Lc 17.11-19). Essa história nos desafia a avaliar nosso coração: buscamos Jesus por quem Ele é, ou apenas por aquilo que Ele pode nos dar? Pergunta para reflexão: Após experimentar a graça e o poder de Jesus em sua vida, você tem se dedicado a honrá-Lo e adorá-Lo como Rei, ou sua relação com Ele é apenas de interesse pessoal?
SDG
