O Rei pregador (Mc 1.29-39)
O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos • Sermon • Submitted • Presented
0 ratings
· 40 viewsNotes
Transcript
Introdução
Introdução
Nosso texto em Marcos 1.29-39 dá continuidade à apresentação de Jesus como o Filho de Deus, o Messias prometido e o Rei que traz o Reino de Deus. Marcos já nos mostrou que o evangelho de Jesus exige arrependimento e fé, e que ele chama seguidores para se tornarem "pescadores de homens", participantes na pregação da justiça e graça de Deus.
Agora, ao responder à pergunta “Quem é esse Jesus?”, vemos uma característica marcante de seu ministério: ele está sempre trabalhando. Marcos nos convida a acompanhar um dia típico na vida de Jesus, revelando seu poder não apenas sobre demônios, como vimos semana passada, mas também sua dedicação ao cuidado com as pessoas à proclamação do Reino. Esse trecho reforça tanto a identidade de Jesus como Filho de Deus quanto o exemplo de seu ministério ativo e compassivo, do Rei que se torna servo. Assim, chamando-nos a refletir sobre nossa resposta como seguidores dele.
Exposição
Exposição
A cura da sogra de Pedro (29 a 31)
A cura da sogra de Pedro (29 a 31)
Este é mais curto milagre de cura encontrado nos Evangelhos (Mc 1.29-31). Robert H. Steindestaca semelhanças entre este relato e a ressurreição da filha de Jairo (Mc 5.22-24,35-43): em ambos, Pedro, Tiago e João estão presentes, a cura/ressurreição acontece em uma casa, envolve uma mulher/menina, Jesus segura a mão da pessoa, e comida é servida em seguida.
Marcos deixa evidente a correria do ministério de Jesus no início desses versos [e, saindo…]. Logo após o episódio na sinagoga, Jesus e os discípulos vão a casa de Pedro, não para um descanso ou um almoço após ‘culto’, mas para continuar o trabalho. É importante destacar que Marcos destaca que os discípulos estão ali com Jesus, seguindo e observando, fazendo questão de mencionar Tiago e João na companhia (diferentemente de Mateus e Lucas).
Pedro, ao que a arqueologia indica, morava bem próximo a sinagoga de Cafarnaum (“pode dar um Google”), reforçando a cena da correria. Ao chegarem, a sogra de Pedro estava acamada, com febre. Naquela época, febre era tida como doença e não apenas como sintoma (vide João 4.46-54). Fica claro no texto, que o estado dela era grave, visto que estava acamada. Lucas, que era médico, em seu relato, destaca que ela estava enferma e a febre era alta (Lc 4.38).
Jesus não ganha espaço. Os homens trazem para ele o relato de uma enferma. Provavelmente Pedro mesmo quem apresenta o caso. É interessante notar que Marcos também deixa claro que nos três relatos de ação de Jesus que abordaremos, pessoas chegaram até ele apresentando as demandas. Jesus dá atenção e exerce misericórdia.
Jesus se reclina a ela (Lc 4.39) e a toma pela mão. Não houve exigência de fé antecipada. Ela é curada, a febre a deixa e ela passa a servi-los. Servir aqui, para muitos estudiosos é uma forma de deixar claro que ela de fato foi curada. É a evidência da eficaz obra de Cristo. Mas, seguindo a lógica de Marcos, é mais do que isso. Ele quer enfatizar a resposta adequada daqueles que são alvos da misericórdia de Deus. A resposta ao Rei que se torna servo é se tornar servo. É uma qualidade acrescentada à resposta imediata que já aprendemos na chamada dos discípulos.
Marcos deixa claro: muitos se maravilharam de seu ensino (Mc 1.22). Todos se admiraram de sua autoridade sobre demônios (Mc 1.27). Muitos falaram dele por toda a parte (Mc 1.28). Porém, até agora, somente uma mulher, uma senhora, respondeu adequadamente: com serviço.
O relato da tarde de Jesus (32 a 34)
O relato da tarde de Jesus (32 a 34)
Agora estamos diante de um relato editorial de Marcos. É uma espécie de resumo de todas as atividades daquele final de tarde. Embora até aqui o fato de Jesus curar no sábado ainda não ser um problema para as autoridades judaicas, parece que muitos esperam o final do dia para trazer suas demandas a Jesus.
Diz o verso 32 que “trouxeram a Jesus”. Novamente, pessoas auxiliando outras e trazendo casos. O uso do tempo imperfeito (traziam, ἔφερον, epheron) sugere um fluxo contínuo [33 toda a cidade estava reunida à porta]. Ou seja, Marcos destaca implicitamente que o exorcismo na sinagoga e a cura que acabou de mencionar (1.21-31) são apenas dois exemplos das muitas pessoas que Jesus curou.
Devemos observar que Marcos distingue entre doença [enfermos] e possessão demoníaca [endemoninhados]. Isso significa que é errado afirmar, como muitos o fazem, que no século primeiro as pessoas acreditavam que todas as doenças eram de natureza essencialmente espiritual.
No relato, Marcos demonstra que Jesus não agia somente em alguns casos de enfermidades, mas em “toda a sorte”. Lendo o Evangelho de Marcos, observamos que algumas das “várias” (ποικίλαις, poikilais) enfermidades curadas por Jesus em Marcos incluem febre (Mc 1.30,31), lepra (Mc 1.40-45), paralisia (Mc 2.1-12), hemorragia (Mc 5.25-34), surdez e distúrbio da fala (Mc 7.31-37) e cegueira (Mc 8.22-26; 10.46-52).
Sobre a expulsão de demônios, é enfatizado novamente o “silêncio messiânico”, quando Jesus não permitia ao demônios que revelassem sua identidade. Vale ressaltar que o silêncio messiânico não era um silêncio absoluto. Num próximo sermão, veremos Jesus ordenando a um leproso curado a testemunhar o milagre ao sacerdote e ao povo (Mc 1.43-44). Além disso, Jesus está continuamente ensinando, o que envolve falar sobre sua identidade. No entanto, Jesus não quer gerar confusões, nem atropelar os tempos. Não fica claro o principal objetivo de Marcos em mencionar esse silêncio messiânico, mas provavelmente ele quisesse demonstrar que não era possível esconder a grandeza de Jesus, o Filho de Deus.
A oração de Jesus é interrompida (35-39)
A oração de Jesus é interrompida (35-39)
Novamente demonstrando a troca de cena naquele dia extenuante [“tendo-se levantado alta madrugada, saiu…”], Jesus se retira para orar. Provavelmente devido às multidões, Jesus procurar lugares mais solitários para buscar o Pai em oração. Marcos não está conectando a orações de Cristo a grandes feitos posteriores, como uma espécie de preparação para momentos decisivos (a exemplo de Lucas), nem contrastando oração com pregação (tema a seguir), mas demonstrando que a oração sempre tinha espaço dentro da agenda corrida de Jesus.
Os discípulos, pressionados pela multidão (“todos te buscam”), interrompem a oração de Jesus - para que ele trabalhe ainda mais. Provavelmente, toda a cidade ainda estava ali. Sua grandeza era tamanha que, mesmo quando queria estar a sós para orar, as multidões o procuravam. Mas note a situação: Jesus deixa aquela multidão para ir a outras povoações vizinhas. Por que? O propósito é apresentado: “a fim de que eu pregue também ali, pois para isso é que eu vim”.
A ênfase de “Vamos a outros lugares” não está em excluir Cafarnaum da missão de Jesus, mas em incluir mais cidades em seu ministério de cura e pregação. O ministério de Jesus era, por sua própria descrição, essencialmente pregação. O rei pregador. Sua agenda não estava determinada pelas multidões (fama), nem pela urgência do momento (os enfermos), mas pelo propósito de sua missão.
Aplicações
Aplicações
1. Jesus se interessa por todos os tipos de problemas. Desde os maiores, como a libertação de um endemoninhado, até os mais simples, como a febre alta de uma senhora. Não nos ocupemos de afastar as pessoas com seus pequenos problemas de Jesus. Pelo contrário, não tenhamos nada em nossas mãos. “Só Jesus para fazer isso” vale para todos os impossíveis - até os pequenos.
2. A resposta ao rei que se tornou servo é se tornar servo. Marcos é enfático: Jesus quer mais que admiração, ele quer arrependimento e fé no evangelho. E essas coisas são acompanhadas de serviço. Discípulos servem. Em uma sociedade apática e passiva, esse aspecto do discipulado é esquecido. Mas devemos sempre ressaltá-lo (Mc 1.42-45). Em Marcos 10.45, Ele declara: "Pois nem mesmo o Filho do Homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos."
3. Jesus tem poder universal de curar. Por meio de um relato de expulsão demoníaca (1.21-28), um de cura (29-31) e de um resumo do ministério de Jesus (1.32-34), Marcos revela o poder universal de Jesus de curar. Tanto a doença física (a sogra de Pedro em 1.29-31) quanto o mundo demoníaco (o homem com o espírito impuro em 1.21-28) estão sujeitos a seu poder. Confiemos em seu poder. Ainda o título de Filho do Homem, o Santo de Deus, é revelado em sua autoridade sobre toda a criação (Cl 1.15-16).
4. A oração tem prioridade. A oração sempre tinha espaço dentro da agenda corrida de Jesus. Não é significativo isso? Quando olhamos nossa agenda parece que tudo tem lugar frente a oração: trabalho, cuidado da casa, filhos, estudos, academia, descanso, redes sociais. Às vezes colocamos na conta do cansaço e da falta de tempo. Mas quando olhamos para Jesus, essas desculpas vão para o lixo. Oração era fôlego para Jesus. Não era apenas um lazer devocional ou uma distração [será que para os discípulos ali era um tempo tomado do trabalho a se fazer?]. Era comunhão própria de um Deus Triúno. Para Jesus, intimidade com Deus era mais vital do que o sono. Oração é relacionamento.
5. Propósitos acima de urgências e fama. Objetivos suplantam necessidades e fama. Jesus estava pressionado por uma multidão lá fora. Uma cidade efervescendo por ele. Mas Jesus tinha o foco em seu propósito. Ele não estava suscetível a direção da fama, ou mesmo da urgência. Quem não tem propósito em Deus sempre vai se curvar a alguma dessas coisas: viver pela urgência da rotina ou viver pelo dinheiro/fama. Viver cada dia numa mesmice sem direção ou direcionados pelo bolso. Embora todo cristão tenha um chamado universal (grande comissão), Deus nos dotou de talentos e habilidades. Coloquemos estas coisas no mundo para refletir a glória de Deus nele.
SDG
