O Rei que reescreve histórias (Mc 5.1-20)

O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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O Rei que reescreve histórias (Mc 5.1-20)

Introdução

Irmãos, fechem os olhos por um instante e imaginem: um homem preso por demônios, gritando entre túmulos, tão feroz que cadeias não o seguram. Ele vive na escuridão, solitário, ferindo-se, um grito de desespero ecoando pelos montes. Agora, abram os olhos e vejam esse mesmo homem, sentado, calmo, aos pés de Jesus, com uma nova história pra contar. Isso é Marcos 5. No dinamismo de seu ministério, após acalmar a tempestade (Mc 4.35-41), a ordem de Jesus se cumpre e eles chegaram a outra margem, desembarcando na região dos gerasenos, na Decápolis, uma terra gentia cheia de impurezas. Não são mais ondas, mas demônios que Ele enfrenta. Não é a natureza, mas o mal que Ele subjuga. Marcos nos mostra Jesus transformando o impuro em puro, o perdido em missionário. Jesus dando o presente de sua presença. Daqui, Ele tocará uma mulher impura e uma menina morta (Mc 5.21-43), e nunca é contaminado – Ele purifica. A pergunta que ressoa, como na tempestade, é: Quem é este? E uma coisa clara é que esse Rei reescreve histórias - inclusive a nossa.

Exposição

1. O homem digno de pena (Mc 5.1-5)

Marcos abre a cena com um dos relatos bíblicos mais tristes sobre a condição miserável do homem: um homem vive nos sepulcros, num lugar de mortos, longe da santa Jerusalém. A Decápolis, com seus porcos, é terra de impureza, e esse homem é o auge disso – possesso por um “espírito imundo” (Mc 5.2). Há toda a sorte de impurezas. É alguém impuro que se torna mais impuro por morar entre os mortos (Mt 23.27). No Antigo Testamento, túmulos e porcos são símbolos de contaminação (Mt 23.27; Lv 11.7).
Ele é mais que impuro; é escravizado. Governado pelos demônios que o atormentavam. Sofria. Dia e noite, clama e se fere com pedras, seu sofrimento ecoando pelos montes como uma tormenta (Mc 5.5). Sua força é sobrenatural – cadeias e grilhões (correntes que prendiam mãos e pés) são despedaçados (Mc 5.4). Como uma tempestade, ninguém o subjuga. Marcos, portanto, enfatiza a total incapacidade das pessoas tratarem com aquele homem.
Há uma controversa interpretativa acerca da reação dele diante de Jesus. Se é o próprio homem que tem esperança em Jesus e corre para Ele, ou se ele é controlado pelo espírito imundo, ao ponto de, no contato com Jesus, correr e adorá-lo não como homem, mas como os demônios o fazem. A preferência que predomina é que o homem se dobra e suplica reconhecendo o poderio superior de Jesus (Mc 5.6).

2. Os demônios rendidos (Mc 5.6-10)

Os demônios, que atormentam o homem, entram em cena [e em pânico] diante de Jesus. Fazem-no correr e adorar [suplicar], mas falam em desespero: “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Não me atormentes!” (Mc 5.7). Eles se curvam, como em outras vezes, diante de Jesus e imploram um favor àquele que é maior (Mc 3.27), cuja identidade eles revelam, Jesus, “Filho do Deus Altíssimo”. Eles sabem quem Ele é – o mesmo que expulsou espíritos em Cafarnaum (Mc 1.21-27).
Notem, irmãos: Jesus já ordenou: “Sai desse homem!” (Mc 5.8). A fala dos demônios é uma resposta a ordem de Jesus. Mediante a ordem de Jesus, eles suplicam que não sejam atormentados. Há um diálogo, mas não há negociação, apenas rendição. O verbo grego para “atormentar” (basanizō) aponta pro juízo final, que os demônios temem. Jesus tem controle e comando totais da situação. Depois de terem lido Mc 1.1—4.41, os leitores de Marcos achariam impossível ver aqui um encontro de barganha entre um exorcista e um demônio. Não há “guerra” ou “batalha” entre Jesus e os demônios. Do início ao fim a cena antevê a rendição e o julgamento de um inimigo derrotado.
Chamam-se “Legião” (Mc 5.9), evocando uma unidade romana de milhares [seis mil homens], um exército de mal. É como se o espírito imundo fosse um líder de vários outros. A pergunta de Jesus não é uma “fórmula” para exorcismo, mas funciona para demonstrar simultaneamente o alcance da dominação sobre o homem e a grandeza do poder de Jesus. Eles reconhecem que Jesus tem o poder de trazer juízo e a destruição final deles (Mc 1.21), por isso, suplicam pra não ir ao abismo (Lc 8.31) ou sofrer antes do juízo final (Mt 8.29; Ap 20.10). Temos outra questão interessante: o verso 2 afirma que o espírito imundo vivia nos sepulcros. Agora, no 10, ele pede que não seja mandado para fora do país.

3. Os porcos e a cegueira dos homens (Mc 5.11-17)

Naquela terra gentia, havia criação porcos – outro sinal de impureza. Os demônios, desesperados, pedem pra entrar neles, e Jesus permite (Mc 5.12-13). O que dá a entender é que os espíritos imundos não entendem o propósito de Jesus neste mundo [pensavam trazer a sua destruição], então buscam alternativas. No caso, porcos servem. Porém, dois mil porcos correm ao mar e se afogam.
Irmãos, isso não é acaso: é um prenúncio do juízo final dos demônios, jogados no “lago de fogo” (Ap 20.10). O destino futuro dos demônios já pode ser visto no destino presente dos porcos. Mas os porqueiros não veem o homem liberto, nem Jesus – só os porcos, seu tesouro perdido que vale mais do que a vida daquele homem. Correm à cidade, e os moradores vêm, curiosos (Mc 5.14).
Falando em curiosidade, não é o homem que fala sobre o que aconteceu, mas os porqueiros. Encontram o endemoninhado transformado, mas têm medo (Mc 5.15). Como os demônios, vêm a Jesus (5.6 e 14,15) e reagem com medo (5.7 e 15) e suplicam: “Vai embora!” (Mc 5.17). O medo deles é uma reação natural ao fato de terem experimentado a presença de Deus. Muitos já temeram e se admiraram em outras cenas. Na última, a admiração foi expressa em pergunta: “quem é este?” O tom da mesma pergunta permanece aqui. Quem é este que subjuga aquele que não podia ser subjugado (Mc 3.27)? Quem é este que até os espíritos imundos obedecem? Quem é este que traz esperança aquele que estava fadado ao sofrimento? É o Rei que confronta, mas que muitos preferem evitar. Que ironia! Rejeitam o Salvador por causa de porcos.

4. O homem digno e enviado (Mc 5.15-20)

Chegando lá viram o mesmo, mas outro homem. O homem, antes andando nos túmulos, agora está sentado; antes nu, agora vestido; antes endemoniado, agora em perfeito juízo; antes solitário, agora aos pés de Jesus (Mc 5.15). Ganhou a presença de Jesus de presente. Não é mais “endemoninhado” – é um homem, um simples homem, restaurado. Endemoninhado? Era. Não é mais. Chegou a bonança.
O homem mudado, movido por sua própria vontade e não mais a do espírito imundo, suplica pra seguir Jesus (Mc 5.18). Não pede para Jesus ir embora, mas que ele possa estar com Ele onde quer que eles vá. Mas Jesus tem outros planos e o envia: “Vai para tua casa, aos teus, e anuncia o que o Senhor te fez” (Mc 5.19). Ele obedece, proclamando na Decápolis a compaixão de Jesus, e todos se maravilham (Mc 5.20). Irmãos, esse homem é um espelho: de sepulcros a missionário, de perdido a digno. Marcos nos faz perguntar: Quem é este que transforma assim? É o Rei que não só liberta, mas comissiona.

Aplicações

1. Reconheça o Rei além dos demônios

Até os demônios confessam: Jesus é o “Filho do Deus Altíssimo” (Mc 5.7). As Escrituras nos conclamam a fazer mais que os demônios, e não somente acreditar na existência da Deus (Tg 2.19). Até os demônios reconhecem a identidade de Jesus, mas tem gente que faz surpreendentemente menos que os demônios e não creem ou negam a origem e identidade de Jesus: O Filho do Deus Altíssimo. Mas crer n’Ele é mais que saber quem Ele é – é entregar a vida. Irmãos, quem é Jesus pra você? Um profeta, um mestre, ou o Rei capaz de mudar totalmente sua história? Não faça menos que os demônios. Hoje, prostre-se e confesse-O como Senhor (Rm 10.9).

2. Novas criaturas pela cruz

As vezes queremos ser apenas “um simples homem”. Alguém que não é notado por algo grave, por episódios vexatórios, trágicos. Alguém que apenas vive a vida simples. Creio que em medidas diferentes, todos que se encontram com Jesus possuem coisas pelas quais se envergonhava, pelas quais não queria mais ser identificados. Todos temos um “antes” – pecados, vergonhas, cadeias que nos prendiam. Mas, na cruz, Jesus nos faz “alguém que era” (2Co 5.17). Eis um dos grandes trunfos da cruz. Jesus não só perdoa; Ele nos torna novos. Seu ministério em nós não implica apenas em morrer e ressuscitar para perdoar nossos pecados, mas também em nos tornar novas criaturas mediante a sua ressureição. Essas novas criaturas que são extraordinariamente simples homens. Há algo no seu passado que você acha que Deus não pode apagar? Entregue a Ele. Deixe-O te fazer um “simples homem”, livre pra viver conforme suas ordenanças. E a pergunta que suscitará sempre será? Quem fez isso?

3. Jesus é o centro de nossas vidas

Em todas as narrativas do texto, alguém é central e superior: Jesus. Ele é quem está incansavelmente cumprindo a vontade do Pai, seja em Cafarnaum, no mar da Galileia, ou em Genesaré. É a Ele que o homem endemoninhado corre. É diante d’Ele que os espíritos imundos se curvam. É a sua ordem que eles temem. É a sua ordem que obedecem. É Ele quem permite. É Ele quem é temido pelos homens. É Ele quem entrega e faz uma nova história. E há algo belo nisso em nossas vidas. Sempre teremos protagonistas insuficientes e opressores – nós, outros ou o diabo –, mas, quando nos encontramos com Aquele que é Senhor, em arrependimento e graça, nossa vida não é diminuída, mas resgatada e dignificada. Aquele homem é agora um simples homem, ainda que ninguém possa dizer que ele é ‘simplesmente um homem’ (Stenio Marcius). Ele está restaurado e agora tem um propósito na vida: anunciar Aquele que teve compaixão dele e contar sobre suas obras. Aquele que foi glorificado glorificará a muitos (Jo 13.31-32). Sua glória não vem pelo rebaixamento dos seus, mas sua glória dignifica os seus.

4. Jesus está conosco quando anunciamos seu Senhorio

Aquele homem queria continuar com Jesus e Jesus tinha planos de torná-lo um missionário. Mas isso não significa estar distante ou ausente de Jesus. Pelo contrário, algo que Jesus vai nos ensinar é que aqueles que o anunciam são os que experimentam da promessa da sua companhia certa (Mt 28.18-20). E assim experimentamos o presente da sua presença em nós.
SDG
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