Pastor e o Supremo Pastor
Cristiano Gaspar
Ordenação Pastoral • Sermon • Submitted • Presented
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Transcript
Introdução
Introdução
Imagine um hospital de campanha montado no meio de uma zona de guerra. Explosões ao longe, feridos sendo trazidos às pressas, sangue por todos os lados. É um cenário caótico.
No meio disso tudo, um cirurgião permanece firme dentro da tenda, operando sem parar há horas. Ele está exausto. Alguém se aproxima e pergunta:
— “Doutor, por que você não para um pouco? Está há horas nisso.”
E ele responde, sem desviar os olhos do paciente:
— “Porque essa é a minha vocação. Essas vidas me foram confiadas. Não posso abandoná-las.”
Essa é uma imagem intensa. Mas, de certa forma, é uma imagem do ministério pastoral.
O pastor também está no campo de batalha. Só que não lida com ferimentos físicos, mas com almas quebradas. Com famílias feridas, pecados ocultos, medos profundos, ovelhas perdidas.
Ele não opera com bisturis, mas com a Palavra de Deus. E, muitas vezes, também termina o dia coberto de cansaço, lágrimas e frustrações — e ainda assim permanece firme porque recebeu um chamado.
E o mais desafiador: ele faz tudo isso não por conta própria, mas como alguém que serve sob ordens do verdadeiro Médico. O verdadeiro Pastor.
O pastor é apenas um servo. Um mordomo. Um mensageiro. E sua autoridade está diretamente ligada à sua submissão ao Supremo Pastor.
Neste culto de ordenação pastoral, celebramos exatamente isso: Deus levantando um homem para cuidar do rebanho que pertence a Ele.
E poucos textos expressam essa verdade com tanta clareza e profundidade quanto o que vamos ler agora. Ele foi escrito por um homem que falhou e foi restaurado. Um homem que conheceu Jesus face a face.
O apóstolo Pedro, que negou o Supremo Pastor e depois ouviu dele: “Apascenta as minhas ovelhas.”
Hoje, esse mesmo Pedro nos convida a entender o que significa ser pastor. O que significa pastorear o rebanho de Deus.
Seja você pastor, membro da igreja ou visitante, essa palavra é para todos nós. Porque o chamado ao pastoreio revela algo essencial sobre quem Deus é — e o quanto Ele ama sua Igreja.
1 Portanto, apelo para os presbíteros que há entre vocês, e o faço na qualidade de presbítero como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, como alguém que participará da glória a ser revelada: 2 pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. 3 Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho. 4 Quando se manifestar o Supremo Pastor, vocês receberão a imperecível coroa da glória.
1. O Chamado: “Pastoreiem o rebanho de Deus”
1. O Chamado: “Pastoreiem o rebanho de Deus”
Depois de se apresentar como “presbítero como eles” — alguém que fala de igual para igual, com empatia pastoral — Pedro começa com um verbo no imperativo: “Pastoreiem”.
Essa palavra carrega uma força enorme. No original grego, é o verbo poimainō — e não significa apenas “liderar” ou “supervisionar”. É um verbo rico, usado para descrever a tarefa de alimentar, proteger, guiar e amar as ovelhas.
É o mesmo verbo que Jesus usou com Pedro em João 21, quando o restaurou e disse: “Apascenta as minhas ovelhas.”
Pedro não diz apenas “liderem bem”. Ele diz: “pastoreiem.” E mais: “o rebanho de Deus que está aos seus cuidados.”
Explicação bíblica-teológica:
Explicação bíblica-teológica:
Pedro está lembrando aos líderes algo essencial: as ovelhas não são deles.
A igreja não é nossa. Não pertence ao pastor. Não pertence ao conselho. Nem mesmo aos próprios membros.
A igreja pertence a Deus. E o pastor é apenas alguém encarregado de cuidar daquilo que pertence a outro.
É como um mordomo que administra uma casa, mas sabe que a casa tem dono.
Veja que Pedro usa a expressão “que está aos seus cuidados” — ou, literalmente, “entre vocês” ou “entre as suas mãos”.
Ou seja, o pastor não cuida de um povo distante. Ele caminha com o povo. Ele vive entre o rebanho. Ele conhece as dores, os rostos, os nomes.
Este chamado não é uma posição de status. É um peso sagrado. É um ministério que exige tudo de você.
Aplicação ao pastor que está sendo ordenado:
Aplicação ao pastor que está sendo ordenado:
Irmão, Deus confiou a você algo que não tem preço: vidas. Almas. Pessoas pelas quais Cristo morreu.
Elas não são um projeto. Nem um número no relatório. Elas são o rebanho de Deus.
Você está sendo chamado para viver entre essas pessoas, caminhar com elas, e — com a Palavra, com a oração e com o amor — apontar para o Supremo Pastor.
Seu chamado não é para ser eficiente, mas fiel. Não para impressionar, mas para servir.
Você não está sendo chamado para construir uma plataforma, mas para descer ao vale com as ovelhas.
Você não é o centro do ministério. Cristo é.
Aplicação à igreja:
Aplicação à igreja:
Igreja, este pastor que será ordenado não é um prestador de serviços religiosos. Ele é um servo de Deus entre vocês.
Não é seu papel agradar a todos, resolver todos os problemas ou carregar tudo sozinho.
É responsabilidade da igreja orar por ele, encorajá-lo, segui-lo com humildade, e protegê-lo das pressões desumanas que muitos líderes sofrem.
Como disse Hebreus 13.17:
“Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes para que o trabalho deles seja uma alegria, e não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês.”
Este é o chamado. Este é o início. E antes de falar sobre a postura do pastor, Pedro deixa claro o alvo: pastorear o rebanho de Deus com reverência, compaixão e fidelidade.
2. A Postura: “Não por obrigação… não por ganância… não como dominadores”
2. A Postura: “Não por obrigação… não por ganância… não como dominadores”
Pedro agora desce do “chamado” para tocar no coração do pastor. Porque não basta fazer o que é certo — é preciso fazer com o coração certo.
E para isso, ele apresenta uma tríade de advertências e contrastes:
“Não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer; não por ganância, mas com o desejo de servir; não como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho.”
Explicação bíblica-teológica:
Explicação bíblica-teológica:
Pedro mostra que existem três tentações que rondam o coração pastoral:
1. De servir por obrigação, não por amor.
1. De servir por obrigação, não por amor.
É o perigo do ministério como dever sem paixão.
O pastor faz o que faz porque “tem que fazer” — movido pelo peso, pelo cansaço, ou até pelo medo da opinião dos outros.
Mas Deus não quer um servo mecânico. Ele quer um pastor cujo coração arde por Ele e pelas ovelhas.
É a diferença entre o mercenário e o pastor (João 10): o mercenário corre quando vê o lobo. O pastor permanece.
2. De servir por ganância, não por zelo.
2. De servir por ganância, não por zelo.
Essa ganância não é apenas financeira. Pode ser ganância por status, por poder, por admiração.
É o desejo de ser reconhecido, de construir algo que traga glória pessoal.
Mas Pedro diz: “sirva com o desejo de servir.” Sirva porque você ama o Supremo Pastor e ama o que Ele ama.
Como disse Martinho Lutero: “Onde a ambição começa, o ministério termina.”
3. De servir com dominação, não com exemplo.
3. De servir com dominação, não com exemplo.
O pastor não é tirano, nem CEO, nem dono da verdade.
Pedro diz: “não como dominadores dos que lhes foram confiados.” Isso lembra as palavras de Jesus em Marcos 10:
“Entre vocês não será assim. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo.”
O pastor lidera com a autoridade do exemplo. A autoridade do caráter.
John Stott dizia que o púlpito sem a vida enfraquece a pregação. E a vida sem o púlpito enfraquece a igreja. As duas coisas precisam andar juntas.
Aplicação ao pastor que está sendo ordenado:
Aplicação ao pastor que está sendo ordenado:
Irmão, o seu ministério será constantemente testado por essas três tentações.
Você será tentado a fingir alegria, quando estiver vazio. A buscar recompensas humanas, quando ninguém aplaudir. E a exercer autoridade sem quebrantamento, quando se sentir ameaçado.
Mas o pastor segundo Deus é aquele que serve com um coração livre, uma motivação pura e um espírito humilde.
A autoridade que Deus dá ao pastor nunca é uma licença para controle, mas uma oportunidade de encarnar Cristo diante das ovelhas.
Pregue com coragem. Corrija com paciência. Lidere com mansidão. E, acima de tudo, ame com verdade — mesmo quando não houver retorno.
Aplicação à igreja:
Aplicação à igreja:
Igreja, não se esqueçam: o pastor é um servo. Ele não é perfeito. Ele vai errar. Vai falhar. Mas se ele tiver um coração humilde, submisso a Cristo, sigam-no com alegria.
Cuidem do coração dele como ele cuidará do coração de vocês.
Ele não está aqui para agradar a todos. Ele está aqui para agradar ao Supremo Pastor.
O ministério verdadeiro não se impõe. Ele se oferece. Ele se doa.
E o mundo pode até admirar pastores carismáticos, mas Deus se agrada dos pastores fiéis.
3. A Esperança: “Quando se manifestar o Supremo Pastor…”
3. A Esperança: “Quando se manifestar o Supremo Pastor…”
Pedro encerra essa exortação pastoral com um olhar voltado para o futuro.
Ele leva nossos olhos para além das dificuldades do presente, além das tensões do ministério, além do reconhecimento humano, e nos faz enxergar o que realmente sustenta o coração do pastor: a promessa da vinda do Supremo Pastor.
“Quando se manifestar o Supremo Pastor, vocês receberão a coroa da glória que nunca perde o seu brilho.” (v. 4)
Explicação bíblica-teológica:
Explicação bíblica-teológica:
1. “Supremo Pastor”
1. “Supremo Pastor”
Pedro usa um título único aqui: archipoimēn — o Pastor dos pastores.
É a única vez que esse título aparece no Novo Testamento. É majestoso.
Ele está dizendo: “Você não é o centro. Você não é o dono. Você não é o herói. Jesus é.”
Jesus é o verdadeiro Pastor. O bom Pastor que deu a vida pelas ovelhas (João 10.11). O grande Pastor das ovelhas ressuscitado dentre os mortos (Hebreus 13.20).
O pastor local é apenas um reflexo pálido da liderança perfeita de Cristo.
2. “Quando ele se manifestar…”
2. “Quando ele se manifestar…”
Pedro está se referindo à volta de Jesus.
Tudo isso que vivemos — dores, lutas, tentações, injustiças — será restaurado.
E o ministério pastoral só faz sentido à luz da eternidade.
Quem pastoreia olhando apenas para os resultados imediatos desanima rápido.
Mas quem serve olhando para o retorno do Rei, serve com os olhos na glória — mesmo que esteja com os pés no pó.
3. “Receberão a coroa da glória que nunca perde o seu brilho.”
3. “Receberão a coroa da glória que nunca perde o seu brilho.”
Na cultura greco-romana, vencedores recebiam coroas de folhas — que murchavam.
Pedro diz: o que Cristo dará não murcha, não perde valor, não enferruja, é eterno.
Não é salário. Não é fama. Não é uma placa na parede. É glória com Cristo.
Não é uma recompensa por performance, mas uma herança por fidelidade.
Aplicação ao pastor que está sendo ordenado:
Aplicação ao pastor que está sendo ordenado:
Irmão, o ministério vai te custar muito. Haverá dias escuros. Haverá domingos vazios. Haverá pessoas que você amará profundamente... e que te abandonarão.
Mas há alguém que nunca vai te abandonar.
O Supremo Pastor voltará. E Ele conhece cada oração que ninguém viu. Cada visita que você fez no silêncio. Cada lágrima que você derramou sozinho.
Você não serve por aplausos. Serve por esperança.
E quando Cristo voltar, Ele mesmo colocará em suas mãos uma coroa que não pode ser comprada, nem conquistada com esforço humano — apenas recebida com gratidão por aqueles que permaneceram fiéis.
Não desanime. Olhe para o Supremo Pastor. Sirva para Ele. E saiba: Ele vem.
Aplicação à igreja:
Aplicação à igreja:
Igreja, lembrem-se disso: o pastor de vocês é apenas uma sombra. Ele aponta para alguém maior.
Honrem-no. Caminhem com ele. Mas nunca confundam o servo com o Senhor.
A esperança da igreja não está no pastor ordenado hoje — está em Cristo, o Supremo Pastor, que voltará para buscar seu rebanho.
E quando Ele voltar, não haverá mais feridas para curar, nem ovelhas perdidas para buscar. Haverá uma só voz, uma só fé, uma só alegria — a glória eterna do Cordeiro que pastoreou até o fim.
Conclusão
Conclusão
Pedro não escreve esse texto de uma torre de marfim. Ele não fala como um teórico.
Ele fala como alguém que foi chamado, caiu e foi restaurado.
Ele conhece a vergonha de negar Jesus. E conhece a graça de ouvir dEle: “Apascenta as minhas ovelhas.”
E agora ele diz aos presbíteros — e a nós hoje — que pastorear o rebanho de Deus não é uma tarefa para os fortes em si mesmos, mas para os quebrantados que confiam em Cristo.
Esse chamado é santo. Essa postura é contracultural. E essa esperança é gloriosa.
Ao pastor que hoje é ordenado:
Ao pastor que hoje é ordenado:
Você está sendo ordenado hoje diante de testemunhas humanas, mas sobretudo diante do Supremo Pastor.
O seu ministério não começa com uma conquista, mas com uma rendição.
Você não foi chamado porque é o mais capaz, mas porque Deus ama esse povo — e escolheu te usar como um vaso para derramar Sua graça sobre eles.
Sirva com alegria. Pregue com fidelidade. Ame com perseverança.
E quando as forças faltarem, lembre-se de que você está debaixo da mão do Supremo Pastor, que te sustentará até o fim.
Você não precisa ser o herói desta igreja. O herói já veio. Ele é Jesus.
Você só precisa apontar para Ele, todos os dias, com sua vida, com sua palavra, com seu serviço.
À igreja:
À igreja:
Recebam este pastor como um presente da parte de Deus.
Apoiem-no, orem por ele, encorajem-no — mas nunca o coloquem no lugar de Cristo.
Lembrem-se: a melhor forma de honrar um pastor fiel é seguir, juntos, o Supremo Pastor.
Que esta igreja cresça não por estratégias, mas por pastoreio fiel.
Que a marca deste ministério não seja grandiosidade, mas santidade.
E que, quando Cristo voltar, este lugar seja encontrado como um rebanho pronto, maduro, cheio de amor, sob a liderança de homens que não se exaltam, mas que servem como exemplos do Pastor que deu a vida por suas ovelhas.
