Como Discernir a Vontade de Deus?

Cristiano Gaspar
Igreja em Movimento  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Introdução

Imagine que você está em um avião. Não há janelas. Você não vê o céu, nem a terra, nem as asas. Tudo o que você pode fazer é confiar em quem está pilotando. De repente, uma voz surge no alto-falante:
“Senhores passageiros, fiquem tranquilos… eu não estou exatamente seguindo um plano de voo, mas estou com um forte pressentimento de que esse é o caminho certo.”
Qual seria sua reação? Pânico. Ansiedade. Medo. Afinal, um piloto que voa sem mapa, sem instrumentos, apenas com “sentimentos”, é um perigo.
Mas, ironicamente, é assim que muitos de nós vivemos a vida cristã. Tomamos decisões importantes — sobre trabalho, casamento, ministério, finanças, amizades — guiados por impulsos, ressentimentos, emoções, ou até superstições. Procuramos sinais em coincidências, seguimos conselhos aleatórios ou confiamos em nossos instintos… e chamamos isso de “fé”.
A verdade é que muitos cristãos tratam a vontade de Deus como um mistério indecifrável — como se Ele estivesse escondendo o mapa só para ver se a gente adivinha. Outros tratam como um enigma místico, esperando um “arrepio no espírito” para tomar uma decisão. E há aqueles que vivem congelados, com medo de dar qualquer passo, com pavor de “errar a vontade de Deus”.
Mas Atos 1 nos mostra algo diferente. Neste trecho, os discípulos enfrentam um momento crucial: escolher quem substituirá Judas, o traidor. Parece uma tarefa administrativa, mas é, na verdade, uma questão teológica, espiritual e missionária. Eles precisam discernir a vontade de Deus. E o que eles fazem? Eles não apelam para um pressentimento. Eles não esperam uma visão do céu. Eles seguem um processo que revela maturidade espiritual.
Neste texto, Deus nos mostra que discernir Sua vontade não é um salto no escuro, mas um passo em fé com luz suficiente para o próximo passo. Discernir a vontade de Deus não é mágica. É maturidade. E é isso que vamos aprender juntos hoje: como viver uma vida de decisões centradas na Palavra, na oração, na missão e na confiança em Deus.
Atos dos Apóstolos 1.12–20 NAA
12 Então os apóstolos voltaram do monte das Oliveiras para Jerusalém. A distância até a cidade é de cerca de um quilômetro. 13 Quando entraram na cidade, subiram para o cenáculo onde se reuniam Pedro, João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelote, e Judas, filho de Tiago. 14 Todos estes perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele. 15 Naqueles dias, Pedro se levantou no meio dos irmãos, que formavam um grupo de mais ou menos cento e vinte pessoas, e disse: 16 — Irmãos, era necessário que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo predisse pela boca de Davi, a respeito de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus. 17 Ele era um dos nossos e teve parte neste ministério. 18 Ora, este homem adquiriu um campo com o preço da iniquidade e, caindo de cabeça, rompeu-se pelo meio, e todos os seus intestinos se derramaram. 19 Isto chegou ao conhecimento de todos os moradores de Jerusalém, de maneira que em sua própria língua esse campo era chamado Aceldama, isto é, Campo de Sangue. E Pedro continuou: 20 — Porque está escrito no Livro dos Salmos: “Fique deserta a sua morada, e não haja quem nela habite.” — E: “Que outro tome o seu encargo.”

1 - Deus tem um plano maior: tome decisões em vista da missão, não apenas da sua vida

Depois de Jesus ascender aos céus, os discípulos fazem algo muito significativo: eles obedecem. O versículo 12 diz que “voltaram para Jerusalém”. Jesus havia ordenado isso em Atos 1.4. Pode parecer um detalhe, mas não é. Eles não ficaram paralisados, nem seguiram o próprio coração, nem se dispersaram. Eles voltaram. Obedeceram.
E ao chegarem, o texto diz que “subiram ao cenáculo onde estavam hospedados” (v.13), e lá, perseveraram unânimes em oração com as mulheres e com os irmãos de Jesus. Esse momento é marcado por obediência, comunhão e oração — ingredientes que preparam o coração para discernir a vontade de Deus.
É nesse contexto que Pedro se levanta (v.15). Ele assume liderança. E note: sua liderança não é pragmática ou baseada em sentimentos. Ele interpreta o momento à luz da Escritura. Ele cita os Salmos para dizer que a traição de Judas não pegou Deus de surpresa. Era necessário que a Escritura se cumprisse (v.16).
Pedro está fazendo teologia pastoral. Ele olha para a crise e enxerga o plano de Deus. Isso é o oposto da nossa tendência natural. Quando algo dá errado, nós dizemos: “Como Deus permitiu isso?”. Pedro olha para a mesma tragédia e diz: “Deus já havia falado sobre isso.”
E aqui está a primeira lição:
Discernir a vontade de Deus exige enxergar a nossa vida dentro da história maior da redenção.
Pedro entende que o colégio apostólico precisa ser restaurado. Não é apenas uma vaga a ser preenchida — é uma representação teológica: os doze apóstolos refletem as doze tribos de Israel. Eles representam o novo povo de Deus. Ou seja, essa escolha não é sobre conveniência. É sobre missão. Eles estão olhando para frente, para o que Deus está fazendo no mundo.
Aplicação:
Muitas das nossas decisões são feitas a partir de perguntas como:
“O que é melhor pra mim?”
“O que me dá mais conforto?”
“O que parece mais seguro?”
Mas e se, antes de qualquer coisa, nós perguntássemos:
“Como essa decisão contribui para o avanço do evangelho?”
“Como isso afeta minha igreja, minha comunidade, minha vocação missionária?”
A maioria de nós se pergunta o que Deus quer da nossa vida… mas poucos se perguntam o que Deus quer para o mundo — e como nossa vida se encaixa nisso.
Imagine um quebra-cabeça. Cada peça, isoladamente, parece aleatória, sem sentido. Você pode até achar que uma delas está errada. Mas quando o todo é revelado, você vê como cada detalhe tinha um lugar. Sua vida é essa peça. Isolada, você se sente frustrado. Mas encaixada na missão de Deus, tudo ganha sentido.
É curioso… queremos que Deus nos diga o plano completo da nossa vida, mas não queremos nos envolver com o plano dEle para o mundo.
Queremos clareza total para nossos caminhos… mas não nos preocupamos em obedecer o caminho que Ele já revelou.
Queremos revelação para o futuro… enquanto negligenciamos a obediência no presente.
Você já pensou que talvez esteja ansioso por não estar enxergando sua vida dentro do plano maior de Deus?
Será que você está tentando preencher uma vaga no seu coração com conforto, quando Deus está te chamando a preencher um espaço na missão?
Tentar entender sua vida sem considerar a missão de Deus é como usar GPS sem estar conectado ao satélite.
Conclusão do ponto:
Os discípulos entenderam: antes de tomar uma decisão importante, precisamos lembrar quem somos, a que povo pertencemos, e qual missão nos foi dada.
Você não está apenas tomando uma decisão sobre a vida. Você está decidindo como viver em meio ao plano de Deus para redimir o mundo. Você está escolhendo se vai viver como quem está no centro do quebra-cabeça… ou como uma peça disposta a encaixar-se onde Deus quiser.
Atos dos Apóstolos 1.21–23 NAA
21 — Portanto, é necessário que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo em que o Senhor Jesus andou entre nós, 22 começando no batismo de João, até o dia em que foi tirado do nosso meio e levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição. 23 Então propuseram dois: José, chamado Barsabás, também conhecido como Justo, e Matias.

2 - Comece com o que Deus já revelou

Após reconhecer que a escolha de um novo apóstolo era necessária para a missão, Pedro propõe critérios. Mas observe com atenção: ele não propõe um processo baseado em preferência pessoal, nem em espiritualidade subjetiva. Ele volta-se para a Palavra de Deus. O critério para escolher um novo apóstolo era este: ele deveria ter acompanhado todo o ministério de Jesus, desde o batismo de João até a ascensão, e deveria ser testemunha da ressurreição (v.22).
Por que isso é importante? Porque Pedro entende que não basta “sentir no coração”. Para discernir a vontade de Deus, precisamos começar com o que Deus já deixou claro.
Eles não inventam um caminho novo. Eles retornam ao caminho antigo.
Aplicação:
Muitos cristãos dizem:
“Não sei o que Deus quer da minha vida…” Mas a pergunta mais honesta seria: “Estou vivendo o que Ele já revelou com clareza?”
Quer saber se deve mudar de cidade? Antes disso:
Você está vivendo em santidade?
Você está tratando sua família com graça e verdade?
Você está buscando o bem da sua igreja local?
Você está sendo fiel nas pequenas responsabilidades?
Por que Deus te mostraria o próximo passo se você ainda não andou no primeiro?
A Palavra de Deus é como um farol na costa durante a tempestade. Ela não ilumina todos os detalhes da rota, mas aponta com segurança a direção que você não pode ignorar. Quem desconsidera o farol, corre para as pedras.
É impressionante: muitos de nós querem ouvir a “voz de Deus”, mas ignoram a voz que Ele já registrou. Queremos que Deus fale em sonhos e sinais, enquanto a Bíblia está fechada na cabeceira, pegando poeira. Buscamos revelações profundas, mas rejeitamos a simplicidade da obediência.
É como se estivéssemos pedindo uma senha nova enquanto ignoramos o acesso que já foi concedido.
Em que áreas você está esperando respostas de Deus enquanto negligencia aquilo que Ele já falou claramente?
Que decisões você poderia tomar com mais segurança se voltasse ao fundamento da Escritura?
Você quer saber a vontade de Deus sobre o futuro, mas está negligenciando o que Ele já revelou no presente? Obedeça o claro antes de buscar o obscuro. A Bíblia não é uma lanterna fraca; é um farol em meio à tempestade.
Muitos estão em busca de sinais, quando o sinal mais claro já foi dado: “Tua Palavra é lâmpada para os meus pés” (Sl 119.105).

Conclusão do ponto:

Antes de lançar sortes, antes de tomar uma decisão sensível, os discípulos voltaram-se para a Palavra. Eles não sabiam quem seria escolhido, mas sabiam como escolher. Eles não tinham revelação nova, mas tinham a revelação suficiente.
Quer discernir a vontade de Deus? Comece com o que Ele já revelou. Porque a obediência à Sua Palavra é o solo fértil onde floresce a direção do Espírito.
Atos dos Apóstolos 1.24–26 NAA
24 E, orando, disseram: — Tu, Senhor, que conheces o coração de todos, revela-nos qual dos dois escolheste 25 para preencher a vaga neste ministério e apostolado, do qual Judas se desviou, indo para o seu próprio lugar. 26 Depois fizeram um sorteio, e a sorte caiu sobre Matias, que foi acrescentado ao grupo dos onze apóstolos.

3 - Confie na soberania de Deus ao decidir o que ainda não está claro

Depois de obedecer ao que já sabiam, de definir critérios baseados na Palavra e de levantar dois nomes que preenchiam esses critérios — José (Barsabás) e Matias — os discípulos fazem algo fundamental: oram.
Eles dizem: “24 E, orando, disseram: — Tu, Senhor, que conheces o coração de todos, revela-nos qual dos dois escolheste”
Esse versículo é uma confissão. Eles reconhecem: mesmo com critérios objetivos, oração, sabedoria e comunhão, a escolha final pertence a Deus. Eles estão dizendo:
“Senhor, nós fizemos tudo o que está ao nosso alcance com responsabilidade e temor… agora, guia-nos.”
E então lançam sortes — um método comum no Antigo Testamento para decisões importantes — e a sorte cai sobre Matias. Na prática do Antigo Testamento, o lançamento de sortes consistia em colocar pedaços de material com os nomes escritos (em madeira, pedra ou cerâmica) em um recipiente, misturá-los e tirar um deles. Era um método confiável entre os judeus, não por superstição, mas por fé na soberania divina: “a sorte é lançada no colo, mas do Senhor procede toda a decisão” (Pv 16.33).
Esse é o último momento nas Escrituras em que esse tipo de sorte é lançado. A partir de Atos 2, o Espírito Santo passa a habitar na Igreja, e o processo de discernimento muda: agora, Ele nos guia internamente por meio da Palavra, oração, comunhão e sabedoria.
Agora, talvez você esteja pensando: "Se Deus vai dirigir mesmo, então por que se preocupar tanto?" — e é aí que precisamos entender algo essencial.
A soberania de Deus nunca anula nossa responsabilidade. Pelo contrário: é porque Deus é soberano que podemos agir com confiança.
Os discípulos não ficaram esperando uma voz do céu cair sobre eles. Eles obedeceram à Palavra, oraram, refletiram nas Escrituras, estabeleceram critérios, analisaram as possibilidades e só então confiaram a decisão final a Deus.
Providência não exclui previdência. Deus governa todas as coisas, mas Ele também nos chama a participar com responsabilidade e sabedoria. Ele estabelece limites claros pela sua Palavra, mas dentro desses limites Ele nos concede liberdade.
Quer um exemplo? A escolha de uma profissão, de um local para morar ou de um cônjuge. Se você está em obediência à Palavra, em oração, buscando conselhos piedosos e caminhando com temor, você tem liberdade. Deus não quer controlar você por medo, mas formar você pela confiança.
Ele governa soberanamente sem violentar nossa liberdade em questões do dia a dia. E nos responsabiliza sem perder o controle. Essa é a beleza da vida cristã: não vivemos com ansiedade por saber tudo, mas com paz por confiar naquele que sabe.
Aplicação:
Às vezes, mesmo depois de fazer tudo certo — orar, estudar a Palavra, buscar conselho, refletir — ainda resta uma dúvida. E a gente paralisa. Fica esperando um anjo aparecer. Mas esse texto nos ensina que há um momento em que precisamos confiar, agir e descansar.
Você não é Deus. Você não conhece todos os corações. Mas você pode confiar naquele que conhece. O que Deus espera de você não é controle absoluto, mas confiança absoluta.
A vontade de Deus não é uma corda bamba, estreita, instável, onde qualquer passo em falso te joga no abismo. A vontade de Deus é uma ponte firme, construída pela graça, com corrimões de misericórdia e segurança nos pés. Você não está tentando se equilibrar no escuro — você está sendo guiado por um Pastor que te ama mais do que você imagina.
Às vezes, a nossa obsessão por “acertar a vontade de Deus” não vem de reverência… vem de perfeccionismo espiritual. A gente quer controlar os resultados, evitar qualquer risco, viver com garantias.
Mas Deus não nos chama para isso. Ele nos chama para a fé. E fé não é saber tudo. É confiar em quem sabe.
Você está paralisado por medo de tomar a decisão errada?
Será que sua busca por “certeza” é, na verdade, uma tentativa de viver sem depender de Deus?
Conclusão do ponto:
O ponto não é se Matias ou José eram “melhores”. O ponto é que Deus escolheu. E os discípulos confiaram. Tomar decisões à luz da soberania de Deus não significa irresponsabilidade, mas liberdade. Liberdade para agir com sabedoria. Liberdade para descansar no Pai. Liberdade para saber que mesmo quando não sabemos tudo, Ele nos guia.
Você pode errar em detalhes… mas se estiver andando com Deus, você nunca estará fora do caminho.

Conclusão

Caminhando para a conclusão do primeiro capítulo, à primeira vista, parece apenas uma “reunião administrativa” dos apóstolos… mas na verdade, revela o coração do que significa discernir e viver a vontade de Deus.
Vimos que discernir a vontade de Deus não é misticismo, não é mágica, não é perfeccionismo espiritual. É um caminho de maturidade. E esse caminho envolve três passos claros:
Olhar para a missão de Deus como seu referencial maior. A pergunta não é: “o que é melhor para mim?”, mas: “como essa decisão glorifica a Cristo?”
Obedecer àquilo que Deus já revelou. Antes de buscar sinais, volte-se para a Palavra.
Confiar na soberania de Deus. Depois de orar, avaliar, refletir… decida, e descanse no Deus que guia mesmo os passos imperfeitos dos que confiam nele.
Mas esse texto também nos lembra de algo ainda maior: enquanto os apóstolos procuravam um substituto para Judas, o verdadeiro Escolhido já havia sido revelado. Jesus é o único que não falhou. O único cuja obediência foi perfeita. O único cuja missão foi cumprida até o fim. O único que confiou plenamente no Pai — mesmo quando tudo parecia escuro. Ele não apenas discerniu a vontade do Pai — Ele a cumpriu até a cruz.
É por causa dEle que você pode descansar hoje. É por causa dEle que você pode caminhar sem medo. A vontade de Deus já não é um enigma, nem uma punição caso você erre. A vontade de Deus é um convite. Um convite à comunhão, à missão e à confiança no seu Filho.
Então, pare de viver como quem está em um avião sem piloto. Cristo está vivo. Ele reina. Ele conduz a sua igreja. E Ele cuida de você.
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