As Sete Igrejas - Parte 1

EXPOSIÇÃO DE APOCALIPSE  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Tema: As Sete Igrejas
Série: Exposição de Apocalipse
Autor: Ricardo Moreira
Local: 18ª Igreja Presbiteriana Renovada de Goiânia
Data: 11/05/2025
Texto chave: Apocalipse 2
Apocalipse 1.17–20
“17 Quando o vi, caí a seus pés como morto. Porém ele pôs sobre mim a mão direita, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o último “18 e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno. “19 Escreve, pois, as coisas que viste, e as que são, e as que hão de acontecer depois destas. “20 Quanto ao mistério das sete estrelas que viste na minha mão direita e aos sete candeeiros de ouro, as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candeeiros são as sete igrejas.”  (Apocalipse 1.17–20, ARA).

1. INTRODUÇÃO GERAL

Hoje vamos continuar nossa série da exposição de Apocalipse.
Vimos no último encontro que o objetivo central de Apocalipse transcende a simples descrição de eventos futuros: ele busca incutir nos leitores uma viva esperança e uma atitude de adoração constante, independentemente das circunstâncias vividas.
A mensagem de João, portanto, não é apenas um convite à contemplação, mas um imperativo de adoração que desafia os crentes a reconhecerem a glória de Deus, mesmo em meio ao sofrimento e à incerteza.
Hoje, iremos continuar com o tema das Sete Igrejas.

2. ÀS AS SETE IGREJAS (AP 1:20)

Apocalipse 1.20 - Quanto ao mistério das sete estrelas que viste na minha mão direita e aos sete candeeiros de ouro, as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candeeiros são as sete igrejas.

2.1. Sete Períodos da História da Igreja

Estudiosos têm identificado um paralelo entre as características das igrejas e os períodos históricos do cristianismo. A seguir, um resumo dessa interpretação:

2.2. Aplicações Contemporâneas

Assim, as igrejas não são apenas um retrato histórico, mas também um espelho das condições espirituais da Igreja em todas as épocas. Cada cristão é chamado a examinar sua própria vida à luz dessas mensagens, buscando a renovação e o fervor espiritual.

3. Primeira Igreja de Éfeso(Ap. 2:1-7)

3.1. Aplicação

A carta à igreja de Éfeso oferece lições valiosas para a Igreja de todas as épocas. Embora a diligência e a perseverança sejam virtudes essenciais, a exortação à renovação do primeiro amor é central.
A fidelidade à doutrina e a rejeição de heresias são fundamentais, mas o amor genuíno a Cristo deve ser o motor que impulsiona todas as ações. A promessa da árvore da vida é um lembrete da esperança futura para aqueles que perseveram na fé até o fim.

4. Segunda igreja de Esmirna

4.1. Aplicação

Embora dirigida à igreja de Esmirna, essa mensagem é universal. Cada igreja e crente é chamado a ouvir o que o Espírito diz. A vitória sobre a segunda morte é garantida a todos os que permanecem fiéis em meio à perseguição, lembrando que "as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada"(Rm 8.18).

5. Terceira igreja de Pérgamo

Apocalipse 2.12–17 (RA)
" 12 Ao anjo da igreja em Pérgamo escreve: Estas coisas diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes:
13 Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita.
14 Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição.
15 Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas.
16 Portanto, arrepende-te; e, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca.
17 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei do maná escondido, bem como lhe darei uma pedrinha branca, e sobre essa pedrinha escrito um nome novo, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe. "

5.1. A Cidade de Pérgamo

Pérgamo, conhecida como a “maior cidade da Ásia Menor”, era um centro religioso, cultural e político de grande relevância. Sua altitude de aproximadamente 330 metros fazia dela uma fortaleza natural que dominava a região. No período romano, tornou-se uma capital administrativa e religiosa, sendo lar do primeiro templo dedicado a César, consolidando-se como defensora fanática do culto imperial. Essa peculiaridade está possivelmente associada à expressão “trono de Satanás”, mencionada em Apocalipse 2:13.
A cidade também era famosa pelo altar de Zeus Sōtēr, com cerca de 13 metros de altura, e pelo templo de Esculápio, deus da cura, cujo símbolo — duas serpentes enroladas em uma vara — ainda representa a medicina.

5.2. Cristo a espada aguda (Ap. 2:12)

Cristo se apresenta à igreja de Pérgamo como “aquele que tem a espada aguda de dois fios”, simbolizando sua autoridade soberana e poder para julgar com retidão e justiça.
A igreja é elogiada por sua fidelidade em meio à hostilidade espiritual e cultural. Apesar de habitar na “sede do trono de Satanás”,os crentes de Pérgamo mantiveram firme o nome de Cristo, mesmo diante do martírio de Antipas, chamado de “fiel testemunha”. Este é um exemplo de perseverança e coragem diante da perseguição.

5.3. A Repreensão de Cristo (Ap. 2:14-15)

Apesar de sua fidelidade em tempos de perseguição, a igreja de Pérgamo tolerava doutrinas corruptas, como a de Balaão e a dos nicolaítas. A doutrina de Balaão remete à história do profeta que, em troca de recompensa, aconselhou Balaque a seduzir Israel com idolatria e imoralidade (Nm 22-25). Esse episódio resultou na morte de 24 mil israelitas, ilustrando as consequências devastadoras da transigência espiritual.
Os nicolaítas, mencionados também na carta à igreja de Éfeso (Ap 2:6), promoviam uma forma de libertinagem moral e espiritual, levando os crentes a comprometerem sua fé.
Essas doutrinas representavam uma “prostituição espiritual”, em que a fidelidade a Cristo era trocada por aceitação cultural e vantagens políticas.

5.4. O Chamado ao Arrependimento (Ap. 2:16)

“Portanto, arrepende-te; e, se não, venho a ti sem demora”. O verbo “arrepender-se” aparece doze vezes no Apocalipse, sendo frequentemente dirigido às igrejas como um chamado urgente. Aqui, Cristo adverte que, caso não houvesse arrependimento, ele viria para julgar com a espada de sua boca, simbolizando o poder de sua Palavra em expor e corrigir o pecado.

5.5. A Promessa ao Vencedor (Ap. 2:17)

As promessas ao vencedor são ricas em significado espiritual:
· Maná Escondido: Representa o sustento divino e a comunhão com Cristo, em contraste com os alimentos sacrificados aos ídolos. Assim como o maná no deserto sustentou Israel, Cristo é o “pão da vida” que alimenta os crentes (Jo 6:32-35).
· Pedra Branca: No contexto romano, pedras brancas eram usadas como sinal de absolvição em julgamentos ou como ingresso para banquetes. Aqui, simboliza a justificação pela fé e a entrada na comunhão eterna com Deus. O “novo nome” indica a identidade transformada do crente em Cristo e sua relação íntima com Deus.

5.6. Aplicação para nossa igreja

Fidelidade em Meio à Hostilidade: Assim como os crentes de Pérgamo foram fiéis diante da perseguição, os cristãos hoje são chamados a manter sua confiança em Cristo, mesmo sob pressão cultural e oposição.
Vigilância Contra a Transigência: A tolerância ao pecado e às falsas doutrinas pode comprometer a pureza espiritual e o testemunho cristão. É essencial que os crentes permaneçam firmes na verdade bíblica, rejeitando qualquer ensino que contradiga a Palavra de Deus.
Arrependimento Contínuo: O chamado ao arrependimento é uma oportunidade para restaurar a comunhão com Deus. Assim como Cristo exortou a igreja de Pérgamo, ele continua a chamar sua igreja hoje a se arrepender e buscar a santidade.
Esperança nas Promessas Eternas: As promessas do maná escondido e da pedra branca lembram os crentes de que a fidelidade a Cristo será recompensada. Essa esperança deve motivar os cristãos a perseverarem em meio às dificuldades, sabendo que sua recompensa é garantida em Cristo.

6. Quarta igreja de Tiatira (Ap. 2.18–29)

18 Ao anjo da igreja em Tiatira escreve: Estas coisas diz o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido:
19 Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras.
20 Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher, Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos.
21 Dei-lhe tempo para que se arrependesse; ela, todavia, não quer arrepender-se da sua prostituição.
22 Eis que a prostro de cama, bem como em grande tribulação os que com ela adulteram, caso não se arrependam das obras que ela incita.
23 Matarei os seus filhos, e todas as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mentes e corações, e vos darei a cada um segundo as vossas obras.
24 Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós;
25 tão-somente conservai o que tendes, até que eu venha.
26 Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações,
27 e com cetro de ferro as regerá e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro;
28 assim como também eu recebi de meu Pai, dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã.
29 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

6.1. A Cidade de Tiatira: Contexto Histórico e Religioso

Tiatira, situada na Ásia Menor, era uma cidade de relevância militar e comercial. Sua posição estratégica como um centro de rotas comerciais permitia a prosperidade de várias associações profissionais, conhecidas como guildas. Essas organizações exerciam controle sobre a vida econômica e social da cidade. Contudo, essas guildas eram profundamente enraizadas em práticas religiosas pagãs, promovendo idolatria e imoralidade sexual, elementos que representavam uma ameaça direta à Igreja primitiva.
A cidade abrigava um templo dedicado a Apolo, o "deus Sol", uma divindade central para o culto local. Além disso, as guildas frequentemente adoravam Ártemis (também chamada Tirimânios) e realizavam rituais no altar de Sabata. Participar dessas guildas implicava em um compromisso com essas práticas idólatras, que incluíam banquetes em templos pagãos e atividades moralmente corruptas.
Para os cristãos de Tiatira, a fidelidade a Cristo vinha acompanhada de um alto custo. Recusar-se a participar dessas práticas significava exclusão social, perda de emprego e, em muitos casos, a pobreza extrema. A pressão para se conformar ao sistema religioso e econômico da cidade era intensa, tornando Tiatira um campo de batalha espiritual para os fiéis.
O desafio enfrentado pelos cristãos em Tiatira ecoa a advertência de Paulo em Romanos 12:2, onde ele exorta os crentes a não se conformarem com este mundo, mas a serem transformados pela renovação de suas mentes. A situação em Tiatira ilustra como o sistema mundano, sob a influência de poderes espirituais malignos, busca moldar os seguidores de Cristo à sua imagem, enquanto o chamado do evangelho é para resistir e viver em santidade.

6.2. Cristo como Juiz e Salvador: Olhos de Fogo e Pés de Bronze (Ap. 2:18)

A mensagem à igreja de Tiatira começa com uma apresentação majestosa de Cristo. (Ap. 2:18): “Ao anjo da igreja em Tiatira escreve: Estas coisas diz o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido:”
Desta apresentação maravilhosa, podemos destacar dois atributos significativos:
· "Olhos como chama de fogo" – Essa descrição enfatiza a onisciência de Cristo, que penetra os segredos mais profundos dos corações humanos. Seus olhos flamejantes revelam não apenas o pecado oculto, mas também as intenções do coração (Hebreus 4:13). Ele não é enganado por aparências externas ou hipocrisias religiosas. Sua visão é justa e perfeita, trazendo à tona tanto o bem quanto o mal.
· "Pés semelhantes ao bronze polido" – O bronze, frequentemente associado ao julgamento nas Escrituras, simboliza a pureza e a autoridade de Cristo para julgar. Seus pés reluzentes indicam que Ele é imutável e firme em Sua santidade, pisoteando todo o mal e estabelecendo Sua justiça (cf. Êxodo 27:1-2, onde o altar de bronze é usado para sacrifícios pelos pecados).
A introdução da carta à igreja de Tiatira nos aponta para a autoridade de Cristo como o Filho de Deus, em contraste com Apolo, o falso "deus Sol" adorado na cidade. A igreja é lembrada de que seu Senhor não é apenas um Salvador amoroso, mas também um Juiz justo que não tolera o pecado.

6.3. Aprovação e Crescimento Espiritual (Ap. 2:19)

A carta a igreja de Tiatira inicia destacando uma igreja ativa e crescente, caracterizada por obras motivadas por amor e fé. Além disso é mencionada a perseverança da igreja, demonstrando que, apesar das pressões externas, muitos membros mantinham sua fidelidade a Cristo.
Essa aprovação divina reflete o ideal da vida cristã descrita no livro de Daniel, onde nos exorta a sermos fiéis mesmo no meio da Babilônia, que representa o mundo pervertido e caído.
A igreja de Tiatira exemplificava uma fé viva, traduzida em ações práticas de amor e serviço. No entanto, o crescimento nas obras não poderia justificar a tolerância ao pecado, como será demonstrado nos versículos seguintes.

6.4. A Tolerância à Falsa Profetisa Jezabel e Suas Consequências Espirituais (Ap. 2:20)

Note que a conversa muda de tom a partir do versículo 20, onde a mensagem de Cristo se torna mais severa. Apesar das boas obras da igreja, havia um grave problema: a tolerância ao pecado, simbolizado pela figura de Jezabel.
O nome "Jezabel" não é provavelmente literal, mas simbólico, não era uma mulher, membra da igreja que se chamava Jezabel, o nome remete apenas ao símbolo. Poderia ser uma pessoa, ou um grupo de pessoas que ensinavam essa doutrina distorcida.
Este nome remete à infame rainha de Israel, esposa do rei Acabe, que levou o povo à idolatria e à corrupção espiritual por meio do culto a Baal (1 Reis 16:31; 21:25). Assim como a Jezabel do Antigo Testamento seduziu Israel a pecar, a "Jezabel" de Tiatira era uma falsa profetisa que enganava os servos de Cristo, levando-os à imoralidade sexual e à idolatria.

6.4.1. O Ensino de Jezabel: Um Veneno Espiritual

Os falsos profetas em Tiatira promovia uma visão liberal da moralidade e da adoração. Ela encorajava os cristãos a participarem das festas das guildas[1], que frequentemente envolviam orgias e idolatria. Isso era uma concessão grave, pois comprometia a pureza espiritual da igreja e contradizia a chamada à santidade em Cristo (1 Pedro 1:15-16).
A influência de Jezabel é descrita como "as coisas profundas de Satanás" (v. 24). Isso indica que suas doutrinas eram revestidas de uma falsa espiritualidade, que enganava os menos atentos. Essa estratégia é típica de Satanás, que frequentemente se disfarça como anjo de luz (2 Coríntios 11:14).

6.5. A Longanimidade de Cristo e o Chamado ao Arrependimento (Ap. 2:21-22)

Cristo, em Sua paciência, deu tempo para que Jezabel se arrependesse, mas ela rejeitou Sua misericórdia. Como resultado, Ele anunciou um julgamento iminente:
"Prostrei-a de cama" – Uma expressão que pode indicar enfermidade ou humilhação pública como consequência de seus pecados.
"Tribulação aos que adulteram com ela" – O termo "adulterar" aqui pode ser entendido como adultério espiritual, uma metáfora para a infidelidade a Deus por meio da idolatria.
"Matarei os seus filhos" – Uma referência aos seus seguidores espirituais, que seriam julgados severamente se não se arrependessem.
Cristo lembra à igreja que Ele é "aquele que sonda mentes e corações" (v. 23). Essa expressão, que alude a Jeremias 17:10, reforça Sua onisciência e justiça perfeita. Ele julgará cada um segundo suas obras, um princípio reiterado em passagens como Romanos 2:6.
A tolerância à Jezabel não era apenas um problema individual, mas comunitário. O cristão nunca peca sozinho. Ao permitir que suas doutrinas se infiltrassem, a igreja comprometia sua santidade e testemunho diante dos homens. Isso serve como um alerta para todas as igrejas: o pecado não pode ser tolerado, mesmo sob o pretexto de amor ou aceitação.

6.6. A Consolação e Promessa de Cristo aos Fiéis (Ap. 2:24)

Embora a igreja de Tiatira estivesse contaminada pela influência de Jezabel, nem todos haviam sucumbido. Cristo, em Sua graça, dirige palavras de consolo e encorajamento aos que permaneciam fiéis.
No versículo 24, Cristo fala aos "demais de Tiatira", que não haviam se envolvido com as doutrinas heréticas de Jezabel. Ele reconhece que esses fiéis não haviam se dobrado às pressões culturais e espirituais, mantendo-se afastados das práticas pecaminosas.
A expressão "as coisas profundas de Satanás"provavelmente se refere à falsa espiritualidade promovida por Jezabel, que prometia um conhecimento especial ou revelações superiores. Essa estratégia ecoa a antiga tentação no Éden: "Sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal" (Gênesis 3:5). No entanto, Cristo deixa claro que tais "profundezas" não passam de engano demoníaco.

6.7. O Fardo Leve de Cristo (Ap. 2:25)

Aos remanescentes, Cristo não impõe novas exigências, mas os exorta a "conservar o que tendes, até que eu venha" (v. 25). Essa instrução reflete o ensino de Mateus 11:30, onde Jesus afirma que Seu jugo é suave e Seu fardo é leve. O chamado à perseverança é central na vida cristã, especialmente em meio a um ambiente hostil.

6.8. A Recompensa aos Vencedores (Ap. 2:26-28)

Nos versículos 26-28, Cristo apresenta uma promessa gloriosa aos que perseverarem:
1. Autoridade sobre as Nações – Os vencedores reinarão com Cristo, cumprindo a profecia do Salmo 2:8-9, onde o Messias é descrito como aquele que regerá as nações com cetro de ferro. Essa promessa aponta para o reino milenar de Cristo, onde os santos compartilharão de Sua autoridade (Apocalipse 20:4-6).
2. A Estrela da Manhã – Cristo é identificado como a Estrela da Manhã em Apocalipse 22:16, simbolizando luz, esperança e vitória. Receber a Estrela da Manhã significa participar da glória de Cristo e desfrutar de comunhão eterna com Ele.

6.9. Aplicação para nossos dias

A situação em Tiatira reflete um padrão recorrente na história da igreja: o perigo de comprometer a verdade em nome da conveniência social ou econômica.
A mensagem de Cristo à igreja é clara: a fidelidade a Ele exige separação do pecado e compromisso com a santidade. Como Paulo adverte em 1 Coríntios 10:21, "Não podeis beber do cálice do Senhor e do cálice dos demônios."
A promessa de autoridade sobre as nações ecoa o conceito bíblico de aliança pactual. Assim como Deus prometeu a Abraão que sua descendência herdaria a terra (Gênesis 17:8), Cristo promete aos Seus seguidores que participarão de Seu reino eterno.
Essa herança não é baseada em méritos humanos, mas na graça de Deus e na fidelidade de Cristo como mediador da nova aliança.

7. Quinta igreja de Sardes

Apocalipse 3:1-6
1 Ao anjo da igreja em Sardes escreve: Estas coisas diz aquele que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas: Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto. 2 Sê vigilante e consolida o resto que estava para morrer, porque não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do meu Deus. 3 Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te. Porquanto, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti. 4 Tens, contudo, em Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras e andarão de branco junto comigo, pois são dignas. 5 O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do Livro da Vida; pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos. 6 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

7.1. A Cidade de Sardes: Contexto Histórico e Religioso

Sardes, situada na atual Turquia, era uma cidade de grande relevância histórica e estratégica. Localizada em um platô de difícil acesso, a cidade era considerada quase impenetrável, mas sua história revelou o contrário: foi capturada duas vezes devido à negligência das sentinelas. Esse detalhe histórico ecoa de forma poderosa na mensagem de Cristo à igreja local, que também se encontrava espiritualmente adormecida.
Religiosamente, Sardes era dominada pelo culto a Ártemis, uma divindade associada à fertilidade, morte e renascimento. Esse pano de fundo religioso pagão contrastava com o chamado cristão à verdadeira regeneração espiritual, não baseada em ciclos naturais, mas na obra redentora de Cristo. Além disso, a cidade era conhecida pela produção de vestes de lã, um aspecto que Cristo utiliza simbolicamente em sua mensagem.

7.2. A Mensagem de Cristo à Igreja em Sardes (Ap. 3:1-6)

A mensagem começa com uma introdução que destaca a soberania e a onisciência de Cristo:
"Estas coisas diz aquele que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas" (Ap 3:1).
Os "sete Espíritos de Deus" simbolizam a plenitude do Espírito Santo, cuja obra é perfeita e abrange toda a Igreja universal (cf. Ap 1:4). Já a expressão “as sete estrelas" representar os anjos das igrejas, conforme já dissemos anteriormente, que estão sob o cuidado soberano de Cristo (Ap 1:20). Essa introdução estabelece a autoridade de Cristo como o único capaz de avaliar a verdadeira condição espiritual da igreja.
Mas o texto continua com a seguinte declaração: "Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto" (Ap 3:1). A acusação contra Sardes é particularmente severa, pois ela reflete uma hipocrisia profunda: uma reputação de vitalidade espiritual que, na verdade, encobre a morte interior.

7.3. O Diagnóstico: Uma Igreja Adormecida (Ap. 3:2)

A igreja de Sardes era como a própria cidade: confiava em seu passado glorioso, mas negligenciava a vigilância presente. Por isso Cristo exorta-os dizendo: "Sê vigilante e consolida o resto que estava para morrer" (Ap 3:2). É um verdadeiro chamado à vigilância, nos mesmos termos da advertência de Paulo em Romanos 13:11: "Despertem, porque a nossa salvação está agora mais perto do que quando cremos."
A história de Sardes serve como uma metáfora poderosa. Em ambas as ocasiões em que foi capturada, a cidade sucumbiu porque suas sentinelas negligenciaram seu dever, dever de vigilância. De maneira similar, a igreja havia se acomodado, perdendo sua vitalidade espiritual e deixando de vigiar.

7.4. O Chamado ao Arrependimento (Ap. 3:3)

Diante da constatação do problema que a igreja de Sardes apresentou, o da negligência, Cristo apresenta um remédio para a condição da igreja:
" (3:3) Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te. Porquanto, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti. " (Ap 3:3).
Esse chamado à lembrança, obediência e ao arrependimentoé central na teologia reformada, que enfatiza o retorno às Escrituras como a fonte da renovação espiritual. Não por outro motivo que o lema central da reforma foi o “Sola Scriptura”.  
Também no verso três podemos ver a metáfora do ladrão que vem de forma inesperada e reforça a urgência do arrependimento. Esse tema escatológico da vinda do Senhor como ladrão está presente em Mateus 24:43 e 1 Tessalonicenses 5:2.
Tal advertência destaca a imprevisibilidade da intervenção divina, seja em juízo ou em redenção. A advertência do Senhor “vir como ladrão” não quer dizer que vem repentinamente, mas que vem quando não se espera. Esse foi o problema da cidade de Sardes, que foi invadida pela negligência das sentinelas. Devemos estar sempre vigilantes, mesmo porque, o Senhor pode vir individualmente para cada crente.

7.5. O Remanescente Fiel e a Promessa das Vestes Brancas (Ap. 3:4)

Apesar da severidade da mensagem, Cristo reconhece alguns remanescentes fiéis:
Tens, contudo, em Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras e andarão de branco junto comigo, pois são dignas (Ap 3:4).
As "vestes brancas" possuem um rico significado teológico. Elas simbolizam:
vPureza Moral: Representam uma vida separada do pecado (cf. Isaías 1:18).
vVitória Espiritual: São um emblema de triunfo sobre o mal (cf. Ap 7:14).
vGlória Celestial: Apontam para a glorificação final dos santos na presença de Deus (cf. Ap 19:8).
Importante destacar que essas vestes também são um reflexo da justificação imputada por Cristo. Assim, a promessa das vestes brancas também serve de lembrete de que nossa aceitação diante de Deus é baseada na justiça de Cristo, não em nossos méritos.

7.6. A perseverança dos santos (Ap. 3:5)

O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do Livro da Vida; pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos. (Ap 3:5)
Ao final da carta à igreja de Sardes, Cristo nos traz uma promessa extremamente importante. A promessa de que o nome do vencedor não será apagado do Livro da Vida (Ap 3:5). Essa é uma das doutrinas mais importantes dentro da teologia reformada, que nos garante que a salvação pertence ao Senhor.
A segurança da salvação não está em nossa capacidade de perseverar, mas na fidelidade de Deus em cumprir Suas promessas aos eleitos.

7.7. Aplicação

A mensagem à igreja de Sardes é um alerta contra a negligência e complacência espiritual e um chamado à vigilância. Igrejas e crentes devem buscar continuamente a renovação pela obra do Espírito Santo, num processo de santificação progressiva, lembrando-se de que a verdadeira vitalidade espiritual não está em atividades externas, mas em uma vida transformada pela graça de Deus.

8. Sexta igreja de Filadélfia

Ap 3:7-13 (ARA) (3:7) Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve: Estas coisas diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá: (3:8) Conheço as tuas obras—eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar—que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome. (3:9) Eis farei que alguns dos que são da sinagoga de Satanás, desses que a si mesmos se declaram judeus e não são, mas mentem, eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei. (3:10) Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra. (3:11) Venho sem demora. Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa. (3:12) Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá; gravarei também sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome. (3:13) Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.
O nome "Filadélfia" significa literalmente "amor fraternal", derivado do grego philadelphos (φιλάδελφος). Esse nome reflete a característica que deveria distinguir os cristãos: o amor entre os irmãos em Cristo, como ensinado por Jesus (Jo 13:34-35).
Filadélfia foi fundada por Atalo II Filadelfo, rei de Pérgamo (159–138 a.C.), que a nomeou em homenagem à sua lealdade ao irmão Eumenes II. Localizada a cerca de 50 quilômetros de Sardes, a cidade situava-se em uma região de atividade sísmica intensa, sendo frequentemente abalada por terremotos, como o grande tremor de 17 d.C., que também destruiu Sardes. Essa instabilidade geológica levou muitos habitantes a viverem fora dos muros da cidade, com medo de desabamentos.
Religiosamente, Filadélfia era um centro de adoração a Dionísio (Baco), o deus grego do vinho e da fertilidade. Contudo, a oposição mais significativa enfrentada pela igreja local não veio dos pagãos, mas dos judeus, como fica evidente na carta.

8.1. Aquele que tem a chave de Davi (Ap. 3:7)

Jesus se apresenta como "o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi". A referência à chave de Davi é uma citação direta de Isaías 22:22, onde Eliaquim, servo fiel do rei Ezequias, é investido de autoridade sobre o palácio real. No contexto da carta, essa chave simboliza o poder soberano de Cristo sobre o Reino de Deus, com autoridade para abrir e fechar portas espirituais (cf. Mt 16:19).
Ao descrever-se como "o santo" (hagios) e "o verdadeiro" (alēthinos), Cristo reafirma sua divindade e confiabilidade, suas palavras jamais passarão. Ele é separado de todo pecado e perfeitamente digno de confiança, características que contrastam com a oposição que a igreja enfrentava.

8.2. Uma porta aberta (Ap. 3:8)

8. Conheço as tuas obras—eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar—que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome.
Aqui encontramos uma expressão bastante intrigante. A expressão "eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta" parece apontar para oportunidades missionárias e acesso ao Reino de Deus. Essa porta aberta também simboliza a soberania de Cristo em permitir que a igreja cumpra sua missão, mesmo sendo pequena e aparentemente frágil ("tens pouca força").
Se considerarmos a teoria de que cada igreja representa uma época da história da igreja, como já dissemos em linhas retro, faz todo sentido essa expressão para esta igreja. A igreja de Filadélfia se refere ao período da igreja pós-reforma (sec. XVI -XVIII).
Este período pós-reforma foi marcado por grande expansão da igreja, impulsionado pelos movimentos missionários dessa época. A imagem da porta aberta é frequentemente associada ao trabalho missionário (cf. 1 Co 16:9; 2 Co 2:12; Cl 4:3). No contexto histórico, pode-se ver a Filadélfia como um ponto estratégico para a propagação do evangelho na Ásia Menor.
Mas as coincidências não param por aqui não, vejamos a próxima sentença desse verso 8. A fidelidade da igreja é destacada com a seguinte sentença: "guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome". É sabido de todos que um dos lemas da reforma foi o “sola scriptura”, que é uma das cinco solas[2] da reforma protestante. Este lema “sola scriptura”, é símbolo distintivo de uma igreja que propunha a volta às escrituras como única fonte de fé e prática.

8.3. A Sinagoga de Satanás (Ap. 3:9)

Jesus não deixa de mencionar a "sinagoga de Satanás", uma referência aos judeus que rejeitaram o evangelho e perseguiram os cristãos. Apesar de serem descendentes físicos de Abraão, esses judeus não eram o verdadeiro Israel de Deus, conforme explicado por Paulo em Romanos 2:28-29.
A promessa de que esses opositores "virão e prostrar-se-ão aos teus pés" ecoa o vaticínio de Isaías 60:14, onde os inimigos de Israel reconhecem a supremacia do povo de Deus. Aqui, a promessa aponta para o reconhecimento final da igreja como amada de Cristo.

8.4. Guardados na hora da provação (Ap. 3:10)

Outra promessa também é dada à está igreja "também eu te guardarei da hora da provação". Tal promessa gerou debates teológicos significativos. O termo grego ek (fora de) pode ser interpretado como proteção durante a provação ou isenção dela. À luz de outras passagens bíblicas (Jo 17:15; 1 Co 10:13), parece mais provável que a promessa se refira à preservação em meio às tribulações, em vez de uma remoção literal.
Ao nosso ver, e, considerando a teoria de que cada igreja representa um período da igreja, creio que esta promessa se refira ao seu momento histórico. Ou seja, essa igreja que foi extremamente operosa no tempo da reforma, não passará pela grande tribulação, que está reservada para uma época mais adiante, propriamente dita a época a igreja de Laodiceia.

8.5. Conserva o que tens (Ap. 3:11)

A exortação "conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa" aponta para a necessidade de perseverança. A "coroa" aqui não é uma coroa real (diadema), mas uma coroa de vitória (stéphanos), como a recebida por atletas vencedores nos jogos gregos (cf. 1 Co 9:25; 2 Tm 4:8).

8.6. Coluna no santuário de Deus (Ap. 3:12-13)

Outra promessa feita ao vencedor é que ele será feito "coluna no santuário do meu Deus". No contexto cultural, colunas eram símbolos de estabilidade e honra. Essa imagem sugere segurança eterna e posição de destaque no Reino de Deus.
Além disso, o vencedor terá gravado sobre si o nome de Deus, o nome da Nova Jerusalém e o novo nome de Cristo. Isso simboliza pertencimento, cidadania celestial e a plena revelação de Cristo na eternidade(cf. Ap 21:2-3). Conforme nos ensina a carta de Pedro, somos propriedade exclusiva de Deus (1 Pe 2:9).

8.7. Aplicações Teológicas para a igreja moderna

· Fidelidade em Meio à Fraqueza: A igreja de Filadélfia nos ensina que a fidelidade é mais importante do que a força ou o tamanho. Mesmo com "pouca força", a igreja permaneceu fiel à Palavra de Deus e ao nome de Cristo. Sola Scriptura: Solus Christus.
· Missões e Evangelismo: A porta aberta por Cristo é um convite para a igreja participar ativamente na obra missionária. Isso reflete o mandato de Mateus 28:19-20.
· Promessa de Perseverança: Cristo promete preservar sua igreja, seja em tempos de provação ou na eternidade. Isso reforça a doutrina da perseverança dos santos, um dos cinco pontos da teologia reformada.
A carta à igreja de Filadélfia é uma das mais encorajadoras das sete. Ela destaca o valor da fidelidade, mesmo em meio à fraqueza e oposição. A igreja é chamada a perseverar, confiando nas promessas de Cristo, que é santo, verdadeiro e soberano.

9. Sétima igreja de Laodiceia

Ap 3:14-22 (ARA)
(3:14) Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: (3:15) Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! (3:16) Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca;(3:17) pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu. (3:18) Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas. (3:19) Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te. (3:20) Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo. (3:21) Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono. (3:22) Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.
A mensagem à igreja de Laodiceia apresenta uma das mais severas repreensões entre as sete cartas às igrejas do Apocalipse. É uma advertência contundente contra a mornidão espiritual e a autossuficiência, que são incompatíveis com o verdadeiro discipulado cristão.

9.1. A Cidade de Laodiceia – Contextualização histórica

Laodiceia era uma cidade estrategicamente localizada no vale do rio Lico, cerca de 60 quilômetros a sudeste de Filadélfia. Fundada por Antíoco II, que a nomeou em homenagem à sua esposa Laodice, a cidade era famosa por sua riqueza, sua indústria têxtil de tecidos de lã negra e seu colírio medicinal, conhecido como pó frígio.
A prosperidade material de Laodiceia era tão marcante que, após um terremoto devastador em 60 d.C., a cidade recusou ajuda financeira do Império Romano e reconstruiu-se com seus próprios recursos. Essa autossuficiência é crucial para entender a repreensão espiritual dirigida à igreja local.
Laodiceia também possuía um sistema de aquedutos que trazia água de fontes termais próximas. No entanto, ao chegar à cidade, a água era morna, um fato que Jesus usou como metáfora para a condição espiritual da igreja.

9.2. A apresentação de Jesus (Ap. 3:14)

Jesus se apresenta como "o Amém", um título que enfatiza sua fidelidade e autoridade divina. O termo, que significa "assim seja" ou "verdade", é usado aqui para destacar que Cristo é a confirmação final das promessas de Deus (2Co 1:20). Ele é também "a testemunha fiel e verdadeira", em contraste com a igreja, que havia falhado em seu testemunho.

9.3. Jesus odeia os mornos (Ap. 3:15)

A mornidão espiritual da igreja é condenada com veemência. A metáfora das águas mornas refere-se à inutilidade: a água quente de Hierápolis tinha propriedades terapêuticas, enquanto a água fria de Colossos era refrescante. Em contraste, a mornidão de Laodiceia não tinha propósito ou eficácia.
A água morna não é boa para o banho, nem refrescante para matar a sede. Neste sentido, o crente morno é a condição, o estado mais trágico de todos, pois combina a ausência de zelo com a ilusão de que tudo está bem.

9.4. Aparente riqueza reflete a verdadeira nudez (Ap. 3:17)

A autossuficiência material levou à cegueira espiritual. A igreja havia confundido riqueza física com bênção espiritual, ignorando sua verdadeira condição diante de Deus. A igreja de Laodiceia confundiu riqueza material com riqueza espiritual.
O principal problema dos laodicenses era a falsa sensação de segurança e independência espiritual. A igreja dizia: "Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma". Isso revela uma atitude de orgulho e complacência, típica de uma comunidade que confiava mais em seus recursos materiais do que em Deus. Aqui, vemos um reflexo do ensino de Jesus em Mateus 6:24, onde Ele alerta que não se pode servir a Deus e às riquezas ao mesmo tempo.
Cristo responde a está atitude denunciando essa autossuficiência enganosa: "Nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu." A igreja pensava estar bem espiritualmente, mas na realidade estava espiritualmente falida. Essa falsa percepção é uma característica marcante de uma fé superficial, onde a prosperidade material é confundida com a bênção espiritual.
Aqui podemos destacar Cinco Características da Miséria Espiritual. Cristo usa cinco descrições para demonstrar a verdadeira condição da igreja:
· Infeliz (talaipōros) – Significa uma pessoa digna de pena, alguém que sofre profundamente, mas não reconhece sua miséria.
· Miserável (eleeinos) – Descreve uma situação deplorável, um estado de ruína espiritual.
· Pobre (ptōchos) – Indica extrema pobreza, uma dependência total, sem recursos para suprir a própria necessidade.
· Cego (typhlos) – Representa a incapacidade de enxergar a verdade espiritual. Irônico, pois Laodiceia era famosa por seu colírio medicinal.
· Nu (gymnos) – Símbolo de vergonha e humilhação. Apesar de ser um centro da indústria têxtil, a igreja estava espiritualmente despida.
Eles confiavam na sua riqueza, mas Cristo os via como espiritualmente falidos. Eles se orgulhavam de sua medicina, mas estavam cegos. Eles se vestiam com os melhores tecidos, mas estavam nus diante de Deus.

9.5. Aplicação Contemporânea: O Perigo do Materialismo e da Indiferença Espiritual

A mensagem à igreja de Laodiceia é extremamente relevante para a igreja atual, especialmente em um mundo onde o materialismo e o conforto frequentemente substituem a dependência de Deus.
Diante disso podemos elencar três advertências para a igreja moderna:
· Riqueza não significa bênção espiritual – Muitos cristãos e igrejas hoje confundem sucesso financeiro com aprovação divina. A prosperidade pode ser uma bênção, mas também pode enganar o coração (Mt 19:24).
· A complacência espiritual é perigosa – Laodiceia não era perseguida como Esmirna, nem enfrentava heresias como Pérgamo, mas sua apatia a tornou espiritualmente inútil. O maior perigo para muitos cristãos não é a perseguição, mas a indiferença.
· O engano da autossuficiência – Laodiceia pensava que tinha tudo, mas não tinha Cristo. A igreja se tornou independente de Deus, o que é uma contradição fatal para qualquer comunidade cristã.

9.6. O Chamado ao Arrependimento (Ap. 3:18)

A repreensão de Cristo não é para destruição, mas para restauração. O "ouro refinado pelo fogo" simboliza a verdadeira riqueza espiritual adquirida pela fé e pela purificação através das provações (1Pe 1:7).
As "vestiduras brancas" representam a justiça imputada por Cristo, em contraste com a vergonha da nudez espiritual (Is 61:10). O "colírio" refere-se à iluminação espiritual, que permite discernir a verdade e reconhecer o próprio estado diante de Deus
Então, a partir do versículo (Ap 3:18), Jesus Cristo oferece três soluções para a condição da igreja:
· Ouro refinado – Uma fé autêntica, purificada pelo fogo da provação.
· Vestiduras brancas – A justiça de Cristo, que cobre a vergonha do pecado.
· Colírio para os olhos – A iluminação espiritual que vem do Espírito Santo.
Esse chamado não é apenas para Laodiceia, mas para todos os crentes que se tornaram espiritualmente mornos. Cristo deseja restaurar a igreja, não condená-la.

9.7. O Amor na Disciplina de Deus (Ap 3:19)

Nos versículos anteriores, Cristo já havia denunciado a mornidão espiritual e a falsa segurança da igreja (Ap 3:15-18). Agora, Ele faz um chamado ao arrependimento e à restauração, demonstrando sua disciplina amorosa e seu desejo de comunhão com os crentes.
Na frase: "Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te." Podemos ver claramente o amor Divino. A disciplina divina é expressão do amor de Deus. Este versículo ensina um princípio fundamental: a disciplina de Deus não é sinal de rejeição, mas de amor. Cristo deixa claro que aqueles que Ele corrige e disciplina são, na verdade, os que Ele ama.
Esse princípio está presente em toda a Escritura:
Provérbios 3:11-12: "Filho meu, não rejeites a disciplina do Senhor, nem te enfades da sua repreensão. Porque o Senhor repreende a quem ama, assim como o pai, ao filho a quem quer bem."
Hebreus 12:6: "Porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe."
Assim como um pai amoroso disciplina seus filhos para o bem deles, Deus corrige seus filhos para restaurá-los e levá-los ao arrependimento.
Mas Cristo vai adiante e exorta: "Sê, pois, zeloso e arrepende-te." A palavra "zeloso" (zēloō no grego) significa ser fervoroso, ardente, comprometido. É o oposto da mornidão espiritual que caracterizava Laodiceia. O verbo "arrepender" (metanoeō) significa mudar de mente, converter-se, voltar-se para Deus.
Cristo está chamando Laodiceia a abandonar sua complacência e a retornar ao fervor espiritual e à verdadeira comunhão com Ele.
Muitos crentes hoje vivem como Laodiceia: confortáveis, acomodados e sem zelo por Deus. Mas Cristo nos chama a um arrependimento genuíno e a um amor renovado por Ele. A repreensão de Cristo é um ato de amor, um chamado ao arrependimento e ao zelo renovado.

9.8. O Convite de Cristo à Comunhão (Ap 3:20)

"Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo."
Essa é uma das passagens mais conhecidas do Apocalipse e carrega um convite poderoso à intimidade com Cristo. Note que aqui Cristo se coloca do lado de fora da porta, batendo e chamando.
Há aqui uma triste situação: Cristo, o Senhor da igreja, está do lado de fora. A igreja não tem comunhão com Ele.
Cristo aqui revela Seu amor. Diz Ele: “Estou à porta e bato” (Ap 3:20). Jesus Cristo bate através das Escrituras, de um sermão, de um hino, ou até mesmo de situações trágicas em nossa vida, como um acidente, de uma doença. É preciso ouvir a voz de Jesus. "Eis que estou à porta e bato" – O verbo bater no grego (krouō) indica uma ação contínua. Ou seja, Cristo não bate uma única vez e vai embora, mas persiste em chamar.
Quantas igrejas e quantos crentes vivem sem perceber que Cristo já não está no centro de suas vidas? Ele não arromba a porta; Ele espera ser convidado para entrar.

9.9. Qual deve ser nossa resposta? Ouvir e Abrir  (Ap 3:20)

Cristo diz: "Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta...". Ouvir a voz de Cristo significa estar atento à Sua Palavra, reconhecendo a necessidade de sua presença. Abrir a porta representa um ato de fé e submissão, um convite consciente para que Cristo tome controle da vida.

9.10. A Ceia: Símbolo de Intimidade e Comunhão

Diante da resposta positiva, existe uma linda promessa. "entrarei em sua casa e cearei com ele".
No contexto judaico, a ceia era a principal refeição do dia, um momento de comunhão, amizade e intimidade. Cristo promete não apenas uma visita, mas uma relação profunda e contínua com aqueles que o recebem.
📌 Três Significados da Ceia:
· Comunhão Presente – Quem abre a porta experimenta uma relação pessoal com Cristo.
· Satisfação Espiritual – Cristo sacia a alma e preenche o vazio que nada mais pode preencher.
· A Grande Ceia do Reino – Essa ceia antecipa as Bodas do Cordeiro (Ap 19:9), quando Cristo celebrará com sua igreja na glória.

9.11. 📖 Aplicação para nossos dias

Você tem aberto a porta do seu coração para Cristo? Ele não quer apenas um relacionamento formal, mas uma intimidade real e transformadora.
O convite para abrir a porta é profundamente pessoal, sugerindo que a comunhão com Cristo depende de uma resposta individual. Sendo assim, a imagem de Cristo à porta é uma oferta de restauração, não apenas de julgamento.

9.12. Promessa ao vencedor  (Ap 3:21)

A promessa ao vencedor é de uma participação no reinado de Cristo, uma honra que reflete a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. Essa promessa ecoa a teologia do domínio restaurado em Cristo, descrita em passagens como 2Timóteo 2:12 e Apocalipse 20:4.
A mensagem à igreja de Laodiceia nos ensina que:
· A autossuficiência é espiritualmente perigosa. A dependência de riquezas materiais pode levar à cegueira espiritual.
· Cristo exige fervor espiritual. A mornidão é intolerável para Deus, pois reflete indiferença em relação à sua obra e ao evangelho.
· A comunhão com Cristo é essencial. Ele está sempre disposto a entrar e restaurar aqueles que se arrependem e o buscam com sinceridade.

9.13. 📖 Aplicação para nossos dias

A carta à igreja de Laodiceia é um alerta solene contra a complacência e a apatia espiritual. É também uma demonstração da graça divina, que repreende e corrige para restaurar. Que possamos abrir a porta do nosso coração para Cristo e buscar nele a verdadeira riqueza, justiça e visão espiritual.

10. Resumo das 7 igrejas

Podemos montar o seguinte quadro para resumirmos as 7 cartas às 7 igrejas:
[1] Associações de pessoas que compartilham interesses, como comerciantes, artesãos, artistas, ou grupos de jogadores.
[2] Sola Scriptura: Somente a Escritura; Sola Fide: Somente a Fé; Sola Gratia: Somente a Graça; Solus Christus: Somente Cristo; Soli Deo Gloria: Glória Somente a Deus
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