A QUEDA DO HOMEM
O Primeiro Livro de Moisés • Sermon • Submitted • Presented
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Gênesis 3
Moisés continua contando a história do homem e da mulher em Gênesis 3, contudo, aqui, a humanidade se desvia tragicamente. Teologicamente, dizemos que todos nós estávamos ali em Adão, pois ele é a “liderança federal” ou o “representante federal” de toda raça humana.
Essa teoria é frequentemente discutida em contextos cristãos e se baseia na ideia de que Adão, como o primeiro homem criado por Deus, atuou como um representante de toda a humanidade. Aqui estão alguns Pontos-chave sobre esse conceito:
Chefe Federal: Adão é visto como o chefe federal da raça humana. Isso significa que suas ações, especialmente a desobediência ao comer do fruto proibido, têm implicações para toda a humanidade.
Pecado Original: De acordo com essa visão, quando Adão pecou, ele não apenas caiu em pecado, mas também trouxe o pecado e a morte para toda a raça humana. Isso é frequentemente associado ao conceito de pecado original, que sugere que todos os seres humanos herdam uma natureza pecaminosa devido à queda de Adão.
Romanos 5:12: Este versículo bíblico é frequentemente citado para apoiar essa ideia: "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram." Isso indica que a desobediência de Adão teve consequências universais.
Prefiguração de Cristo: Em Romanos 5:14, Paulo menciona que Adão "prefigurava aquele que havia de vir", referindo-se a Jesus Cristo. Assim como Adão trouxe pecado, Jesus, como o novo Adão, traz redenção e vida.
Aliança com Deus: A teoria da liderança federal também sugere que Deus fez uma aliança com Adão, onde sua obediência ou desobediência afetaria não apenas a ele, mas toda a humanidade.
Em resumo, a ideia de Adão como representante federal implica que suas ações têm um impacto coletivo sobre toda a raça humana, estabelecendo um fundamento teológico para entender a natureza do pecado e a necessidade de redenção.
Acredito que esse é o ponto de partida para que possamos compreender a nossa relação com Adão. Pois de outro modo, podemos ser levados a concluir que há uma distância milenar entre nós e ele, de modo que não haveria qualquer relação, ou mesmo, por qual motivo seríamos nós também responsabilizados pelo pecado de Adão, que afinal, nós não cometemos?
A relação de “federalidade”, nos ensina, conforme Romanos 5, que há uma representatividade em Adão, ele é pai e representante legal de toda raça humana, assim nós, herdamos a culpa original do pecador original.
- Vamos ao texto!
v.1-6 “Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o Senhor Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim? 2 Respondeu-lhe a mulher: Do fruto das árvores do jardim podemos comer, 3 mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais. 4 Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. 5 Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal. 6 Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu”. [1]
Visão geral: A premissa para os eventos desastrosos de Gênesis 3 é fornecida no capítulo anterior, em Gênesis 2.17, em que Deus proíbe comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e adverte que a desobediência causará morte.
- Consequentemente, as curiosas perguntas de cosmologia, história natural, geografia e antropologia que foram provocadas em abundância em Gênesis 1 e 2 dão lugar aqui, em grande medida, a uma linha de pesquisa mais adequada a um tribunal que a uma sala de aula.
- Muito embora, mais tarde, a teologia cristã tenha encontrado na história uma descrição de uma queda de toda a espécie humana, ou mesmo uma queda cósmica, é preciso ressaltar que neste texto de Gênesis não temos o uso dessa linguagem.
- As maldições dadas ao homem, mulher e serpente deixam claro, a história explica em parte porque os humanos não vivem no esplendor edênico.
- Quando observamos a a narrativa da queda de perto algumas questões tendem a surgir:
1) Yahweh é confiável? (a serpente diz não);
2) O conhecimento do bem e do mal, a condição necessária da escolha moral e da responsabilidade, pertence apenas ao reino divino?
3) A posse de tal conhecimento exige um conjunto de práticas formacionais que tornem seu uso sustentável e benéfico?
Os cristãos ocidentais, influenciados por Santo Agostinho, entenderam a história como uma punição divina por causa da arrogância. Ela é suscetível a outras interpretações (e frequentemente as encontrou no cristianismo ortodoxo oriental): a expulsão do jardim pode ser a proteção da humanidade contra o abuso do conhecimento.
- Os sofrimentos do parto e do trabalho extenuante são efeitos da queda, os quais são parcialmente invertidos no final do Pentateuco, visto que Israel está pronto para entrar na “terra que mana leite e mel” (Deuteronômio 31.20).[2]
A Forma do Tentador (3.1a)
1. a serpente. No antigo Oriente Próximo, em contextos variados, as serpentes são símbolos de proteção (uraeus egípcia) do mal (veneno mortífero [apopis egípcia]), da fecundidade (deusa cananita da fertilidade), ou da vida contínua (renovação da pele) (cf. Jó 26.12,13; Is 27.1).
- Aqui a serpente é um símbolo de antideus. Embora aqui não tenha nome, ela é o adversário de Deus e da humanidade, chamado Satanás (hebraico śāṭān [“adversário, perseguidor ou acusador”]), no Antigo Testamento, e diabo (diabolos, o equivalente grego), no Novo Testamento.
- Sua origem é do céu, externa à ordem natural da terra. Ele é malevolente e mais sábio que os humanos, mantendo-os sob seu domínio.
- Ele conhece os assuntos divinos (3.5) e usa o diálogo para introduzir confusão; o texto sugere que a serpente carrega uma capacidade argumentativa notória. E com isso aprendemos que capacidade argumentativa não significa dizer que os argumentos empregados são verdadeiros.
astuta [‛ārûm]. O jogo de palavras “despido” e “sagaz” (‛ārûm; em 2.25 e 3.1) liga as duas cenas e chama a atenção para a dolorosa vulnerabilidade de Adão e Eva. A astúcia de Satanás é vista em sua ardilosa distorção das palavras de Deus. Com aparência sutil, o adversário fala como um teólogo angélico cativante.
tinha feito. A serpente não é uma figura mitológica, mas uma parte da história real.
ela perguntou. Deus mune a humanidade de linguagem para subjugar a terra, para trazer tudo sob seu domínio. A serpente perverte a linguagem, usando-a para trazer confusão e atrair Adão e Eva ao seu controle.
A Forma da Tentação (3.1b–5)[3]
1b. Deus realmente disse … Satanás polidamente manobra Eva para o que pudesse parecer uma discussão teológica sincera, porém subverte a obediência e distorce a perspectiva ao enfatizar a proibição de Deus, não sua provisão (esse modo de operar continua o mesmo, satanás facilmente te faz esquecer o que tens recebido, para lembrar do que você tem sido privado), reduzindo a ordem divina a uma questão: pondo em dúvida sua sinceridade, difamando seus motivos e negando a fidedignidade de sua ameaça.
não coma de qualquer árvore. As acusações sutis da serpente às palavras de Deus distorcem inteiramente a verdade. Ela quer que a palavra de Deus pareça dura e restritiva. Perante a toda criação, o que implica a própria existência humana, a consideração de uma certa “injustiça” na única restrição adicionada, começa a ser considerada.
2,3. podemos … ou vocês morrerão. Eva gradualmente cede às negações e meias-verdades da serpente, depreciando seus privilégios, fazendo acréscimo à proibição e minimizando a ameaça.
4. Certamente morrerão. Tentando remover os temores de Eva, a serpente contradiz a palavra de Deus (2.17). “É certo que não morrereis” – Isso é exagero, isso não passa de uma hipérbole da parte de Deus, afinal não é para tanto, Deus só queria dar um susto em vocês!
5. como Deus, conhecendo. A palavra hebraica para “conhecer” é yōḏē‛a, um particípio plural masculino. O significado é ambíguo. De um lado, o plural pode ser usado como uma forma honorífica para Deus, na qual a tradução apresentada é legítima. Do outro, pode ser um plural computável, em cujo caso a tradução seria “vocês serão como seres divinos, conhecedores do bem e do mal”. O último significado é mais provável, visto que, depois de comerem o fruto proibido, o texto diz sem ambigüidade: “se tornarão como um de nós, conhecedores do bem e do mal” (lit., Gn 3.22). Em qualquer caso, a serpente faz com que Deus pareça estar restringindo-os da humanidade plena.[4]E eles, no caso Eva, sem qualquer dificuldade recebe prontamente a sugestão de satanás.
A Forma do Pecado (3.6)
6. fruto … sabedoria. Eva toma a decisão de dar prioridade aos valores pragmáticos, à aparência estética e aos desejos sexuais acima da palavra de Deus.
- Armstrong afirma: “O que Adão e Eva buscaram na árvore do conhecimento não era conhecimento filosófico ou científico tão desejado pelos gregos, mas conhecimento prático que lhes daria bênção e satisfação”.
- Não estão buscando mais informação, mas fome de poder que vem do conhecimento – conhecimento que tem o potencial para o mal termina igualmente para o bem.
- Mauro Meinster afirma que aqui está registrado o primeiro pecado de idolatria. A idolatria é um pecado completamente ligado a imaginação, ele se materializa em atos, em feitos, em imagens. Mas, antes de tudo, ele é cometido na mente, através da imaginação.
- O texto nos diz que Eva, a partir do sentido da visão, dado do por Deus deduziu que: “A árvore era boa para se comer e agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento”. Isso é puramente idolatria, a mulher, iludida com as palavras da serpente usa a imaginação para presumir, o que isso significa, ela projeta um ídolo. Compenetrada na árvore proibida e seus frutos, ela coloca naquilo seu futuro e esperança.
Bom ou Boa. À luz do capítulo 1, esta afirmação é seguramente irônica. Bom já não está radicado no que Deus diz que intensifica a vida, mas no que a pessoa pensa ser desejável para elevar a vida. Distorcem o que é bom para o que é mal.
Sabedoria ou entendimento [haśkîl]. Esta é mais bem compreendida como “prudência” ou “competência” (isto é, dar atenção a uma situação ameaçadora, ter a percepção de sua solução, agir decisivamente e com isso efetuar sucesso e vida e impedir fracasso e morte).
ele comeu. O homem decide obedecer à sua esposa, não a Deus (ver 3.17).
Continuação
No último sermão, um dos aspectos enfatizados, e que quero retomar hoje diz respeito ao modo de operar da serpente, que é depreciando os privilégios concedidos por Deus.
- Frente a dádiva da criação, ela se apega a única restrição (não comer da árvore). Como eu disse na última semana, na cabeça de Eva, liberdade só é liberdade se não houver restrição, portanto, para que a liberdade seja plena, a restrição precisa ser superada.
- Aqui entra a transgressão!
- A serpente astuta, diz para Eva, falta uma só coisa para você ser como Deus. Coma da árvore que Ele proibiu!
O que é o pecado?
É comum as pessoas pensarem no pecado hoje como um crime, mas, talvez essa visão não seja nem bíblica, nem teologicamente correta. O Pecado é transgressão, mas na concepção bíblica de Gênesis, o pecado é caracterizado de duas formas “fardo a ser carregado” e “débito a ser pago”.
Também é comum, nos depararmos com a ideia, vindo das palavras hebraicas caracterizando pecado como “errar o alvo”. – Aqui eu explico uma questão importante sobre a interpretação bíblica. Que é o problema da semântica, alguns se equivocam com o funcionamento dela.
- É verdade que o verbo ḥṭʾpode se referir a não conseguir atingir um objetivo (Pv 8.36; Is 65.20), e também já foi utilizado até mesmo para atiradores com a funda que não erram seus alvos (Jz 20.16).
- Contudo, não há razão, para entender que tais usos seriam reflexos do sentido “original” da palavra traduzida por “pecado”.
- Os sentidos das palavras derivam de seu uso, não de sua etimologia,6 e esse verbo simplesmente significa “pecar”. – Há casos que visitamos dicionários para tirar melhor proveito semântico de um conceito, mas isso não é absoluto, ou seja, não se aplica a todo processo semântico. – Repetindo, o sentido das palavras deriva do seu uso, e não de sua etimologia.
- Gosto de pensar que a melhor forma de definição que podemos ter sobre o pecado, é por meio da abordagem que fala sobre o que o pecado faz, em vez de o que ele é. Nessa linha, o pecado separa, divide, aliena, escraviza, resulta em perversão em todos os níveis cognitivos.
- O conceito de alienação é bem conhecido no Antigo Testamento, é está estampado nesse episódio de Gênesis.
Ele não está necessariamente limitado à ideia de errar o alvo, ou não alcançar um objetivo. As palavras para pecado podem nos ajudar a reconhecer seus vários aspectos (rebelião, transgressão, iniquidade, culpa), mas tal análise semântica pode nos levar apenas até aí.[5]
- O pecado, portanto, é disruptivo para o relacionamento com Deus, que é o desejo mais profundo dos humanos. Relacionamento foi a intenção de Deus na criação dos seres humanos. Ele foi perdido em Genesis 3, e o restante da Escritura documenta os estágios para reestabelecê-lo. Outra forma de expressar isso é em termos do desequilíbrio causado pelo pecado.
O modelo bíblico vê o pecado como um desequilíbrio que adentra um sistema em desarranjo […] A existência humana autêntica […] aspira realizar seu pleno potencial de imagem de Deus, enquanto consistentemente reconhece sua condição de criatura e suas limitações. O pecado é o desequilíbrio nessa aspiração: a humanidade falhando na tarefa de refletir seu chamado divino e esquecendo-se de suas limitações.[6]
A Forma das Consequências do Pecado (3.7)
- v.7 Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si. 8 Quando ouviram a voz do Senhor Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim[7]
7. os olhos de ambos se abriram. Ironicamente, seus olhos se abriram trazendo-lhes vergonha. Este conhecimento do bem e do mal não é um estado neutro, maturidade desejada ou um progresso da humanidade, como comumente se argumenta.
- Deus deseja salvar os humanos de sua inclinação para a ética autônoma. Visto que Adão e Eva obtiveram este estado pecaminoso, não devem comer da árvore da vida, e são perenemente consignados ao estado de proibição como seres inclinados a escolher seu próprio código de ética (Gn 3.22).
- nudez[‛ārûm]. Na Bíblia, ‛ārûm geralmente descreve alguém despido de roupa protetora e “nu” no sentido de ser indefeso, fraco ou humilhado (Dt 28.48; Jó 1.21; Is 58.7).
- Com o senso de culpa e a perda da inocência, o casal agora sente vergonha em seu estado de nudez.
- Sua morte espiritual se revela por meio de sua alienação recíproca, simbolizada pela confecção de folhas de figueira para servir de obstáculos, e por sua separação de Deus, simbolizada por se esconderem por entre as árvores.
7. O resultado de comer a fruta foi que o casal teve seus olhos abertos, não para ver com sabedoria (cf. v. 5), mas para ver sua nudez, que eles estavam ansiosos para cobrir. Ironicamente, o restante das Escrituras trata os seres humanos caídos como tendo olhos fechados em questões espirituais. Os olhos cegados pelo pecado só podem ser abertos pela ação de Deus (21:19; Nm 22:31; 24:3, 15; 2 Rs 6:17, 20; Sl 119:18; 146:8; Is. 35:5; 42:7; Lucas 24:31; Atos 26:18).
7. folhas de figueira. Essas são folhas bastante fortes e largas para vestir-se.
Cena 2: A Forma de Juízo (3.8–19)
8. O Senhor Deus que andava pelo jardim. O Jardineiro não abandonou seu jardim. A prova de amor é a indisposição de abandonar o objeto do amor, mesmo quando o amor falha em preencher seu desejado fim.
soprava a brisa do dia. Literalmente equivale a “vento” ou “espírito” do dia. O vento/espírito é o símbolo da presença de Deus (ver 1.2).
esconderam-se. Suas ações são uma implícita admissão de culpa.
v.9-13 – “9 E chamou o Senhor Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás? 10 Ele respondeu: Ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi. 11 Perguntou-lhe Deus: Quem te fez saber que estavas nu? Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses? 12 Então, disse o homem: A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi. 13 Disse o Senhor Deus à mulher: Que é isso que fizeste? Respondeu a mulher: A serpente me enganou, e eu comi”. [8]
9–13. Onde? … Quem? … O quê? Deus modela a justiça. O Rei justo não impetrará a sentença sem cuidadosa investigação (cf. 4.9,10; 18.21). Embora seja onisciente, Deus lhes interroga, induzindo-os a confessar sua culpa.
- “Onde estás?” – Deus procurando o homem é um tanto irônico.
10. ouvi [šm‛]. Ironicamente, a palavra hebraica pode também significar “obedeci”, que é precisamente o que Adão não fez.
fiquei com medo. Ações motivadas pelo medo representam a falta de fé e por isso não agradam a Deus.
- Medo de quê? Por que sentiram medo ao ouvirem a voz de Deus?
v.11 - Perguntou-lhe Deus: Quem te fez saber que estavas nu? Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses? [9]- Como chegastes a essa conclusão?
12,13. A mulher que puseste aqui … a serpente … eu comi. O casal revela sua aliança com Satanás distorcendo a verdade e acusando um ao outro e, por fim, a Deus (ver Tg 1.13). Estão preocupados com o “Eu”.
- Eu sempre que leio esse versículo, me vem aquele tom irônico, como até hoje os homens carregam esse aspecto da culpa. Que aspecto é esse? O de não assumir seus próprios erros e deslizes, de delegar a culpa de sua fraqueza e fracasso ao outro.
Imediatamente cada um dos pecadores, procuram se livrar da culpa, nem homem, nem mulher assumem a responsabilidade dos seus atos, ao contrário, eles apontam para o “outro”.
É preciso ressaltar que Adão e Eva escolheram livremente fazer de si mesmos o centro da ordem e a fonte da toda sabedoria acolhendo a desordem no cosmos.
- Ao tomar da árvore, Adão e Eva estavam tentando estabelecer a si mesmos como um centro satélite de sabedoria à parte de Deus. É um tipo de resposta infantil: “Eu posso fazer por mim mesmo!” ou “Eu quero fazer isso do meu modo!”. Essas não são uma rejeição da autoridade per se, mas uma insistência na independência. O ato é uma afirmação de que é “tudo sobre mim”, e é aquele que tem caracterizado a humanidade (individual e corporativamente) desde o primeiro ato. Com pessoas como a fonte e o centro de sabedoria, o resultado não foi uma cujo núcleo deslocou-se a eles, mas a desordem. Tal desordem estendeu-se a todas as pessoas de todos os tempos, assim como ao cosmos, e a vida na presença de Deus foi perdida[10]
14. à serpente. Satanás, que instigou a esse mal, não é interrogado nem tem oportunidade de explicar-se. O juízo se refere a ambos, a serpente e Satanás.
maldita [’ārûr]. Consignada à impotência, a semente da serpente não tem sobre si a produtividade de Deus. Não pode subjugar a morte final e viver para sempre.
pó. Na Bíblia, isto simboliza humilhação abjeta (Sl 44.25; 72.9) e derrota total (Is 25.12; Mq 7.17).
todos os dias. A derrota final da serpente sob o calcanhar do Messias (3.15) é delongada para a realização do programa divino de redenção por meio do descendente prometido. No ínterim, Deus permite que Satanás teste a fidelidade de cada geração sucessiva do povo pactual (Jz 2.22) e para lhes ensinar a “lutar” contra a inverdade (Jz 3.2).
15. Porei inimizade. Em sua graça soberana, Deus converte as depravadas afeições da mulher por Satanás em desejo justo por ele [Deus].
entre sua descendência e o descendente dela. “Descendência” é a tradução de zera‛, “semente”, que comumente é usada como figura para descendentes. Como faz o termo em português, zera‛ pode referir-se a um descendente imediato (Gn 4.25; 15.3), um descendente remoto, ou um grande grupo de descendentes.
- Aqui, e por toda a Escritura, os três sentidos são desenvolvidos e incorporados. Nesse texto de Gênesis, podemos inferir ambos os sentidos, singular e coletivo. Visto que a semente da mulher luta contra a semente da serpente, inferimos que ela tem um sentido coletivo. Visto, porém, que somente a cabeça da serpente é representada como esmagada, esperamos um indivíduo que aplicará o golpe fatal e será ferido unicamente em seu calcanhar.
- A semente da serpente não é literal, como em serpentes pequenas, pois já ficou estabelecido que a serpente é apenas um disfarce para um espírito celestial. Tampouco a semente são demônios, pois tal interpretação não se ajusta ao contexto, e Satanás não é pai dos demônios.
- Ao contrário, a semente da serpente se refere à humanidade natural, a qual ele tem conduzido à rebelião contra Deus, e os réprobos que amam a si mesmos (Jo 8.31,44; 1Jo 3.8). Cada um dos personagens do Gênesis será ou da semente da mulher que reproduz sua inclinação espiritual, ou da semente da serpente que reproduz sua incredulidade. A pergunta inexprimível para o leitor é: “De qual semente é você?”
Este … você. Deus anuncia uma batalha de campeões, e haverá uma semente que vence Satanás. Visto que o Adão natural fracassou, finalmente o descendente da mulher viria a ser o Adão celestial e sua comunidade (ver Dn 7.13,14; Rm 5.12–19; 1Co 15.45–58; Hb 2.14; Ap 12).
Esmagará … ferirá [šup]. Ambas as palavras portuguesas traduzem a mesma raiz hebraica. O paralelismo pressupõe que ambos os indivíduos são gravemente feridos. Haveria luta, aflição e sofrimento para vencer-se esta batalha contra a serpente (ver Is 53.12; Lc 24.26,46,47; Rm 16.20; 2Co 1.5–7; Cl 1.24; 1Pe 1.11).
- O juízo de Deus revela que o sofrimento exerce uma parte sobre aqueles que se identificam com a vitória de Deus contra a serpente. Como resultado, a moralidade não se confundirá com prazer e recompensa. Adão e Eva devem servir a Deus movidos por um desejo de retidão, não por um desejo de autogratificação, o qual originalmente guiou a este lugar de juízo (ver Reflexões Teológicas).
16. À mulher. A mulher é frustrada em suas relações naturais íntimas no lar: parto doloroso de filhos e insubordinação a seu esposo. O controle substitui a liberdade; a coerção substitui a persuasão; a divisão substitui a multiplicação.
dores. O contexto indica que a dor física está em pauta aqui. Justamente como o labutar do homem no solo resistente agora será muito difícil e doloroso; o labutar da mulher na geração de filhos pode envolver grande penúria (cf. este conceito da labuta dolorosa em Sl 127.2 e Pv 5.10).
dará à luz filhos. A imortalidade é substituída pela progênie, abrindo a porta à história redentora. O privilégio de gerar e suscitar filhos pactuais salva as mulheres da perda de sua liderança (1Tm 2.15).
desejo. A estrutura quiasmática da frase de termos pares “desejo” e “domínio”, pressupondo que seu desejo será dominar. Esta interpretação de uma passagem ambígua é validada pela mesma parelha no contexto não ambíguo de 4.7.
dominará. Ironicamente, o homem a dominará. Sua alienação recíproca é profundamente ilustrada pela descrição que Deus faz dos poderes porfiantes, em lugar de amor e carinho, que advirão. A liderança masculina, não a dominação feminina, foi assumida na situação ideal e anterior à queda (ver 2.18–25; Reflexões Teológicas).
17. a Adão. Como se dá com os outros, o castigo de Deus se ajusta ao delito. Em resposta ao pecado de Adão de comer, o discurso de Deus para Adão faz menção de “comer” não menos de cinco vezes (3.17–19). Adão igualmente sofrerá dor e frustração nas relações naturais.
solo. A relação natural do homem com o solo – o dominará – é revertido; em vez de submeter-se a ele, o resistirá e eventualmente o deglutirá (ver Gn 2.7; Rm 8.20–22). A ecologia da terra em parte depende da moralidade humana (Gn 4.12; 6.7; Lv 26; Dt 11.13–17; 28; Jl 1 e 2).
trabalho penoso. O narrador usa o mesmo termo usado para a angústia da mulher. O trabalho em si é uma bênção do trabalho de Deus, não uma maldição (ver 2.15), mas agora veio a ser maldito pela alienação da humanidade do solo que gera vida. A humanidade nunca mais será sempre recompensada pelo árduo trabalho.
18. espinhos e ervas daninhas. O desenvolvimento do que não é comestível rouba a terra de plantas vitais de que as pessoas necessitam para sua subsistência. A criação hostil que deve ser vencida pelo trabalho serve como parábola para a hostilidade espiritual que deve ser vencida pela sabedoria celestial (ver Pv 24.30–34).
19. ao pó voltará. Ironicamente, transgredir as fronteiras divinamente ordenadas não traz ao homem e à mulher a vida elevada que esperaram, mas, em vez disso, lhes traz o caos e a morte. A morte física é tanto ruína quanto favor. Ela torna toda atividade vã, porém livra os mortais da eterna consignação à maldição e abre caminho à salvação eterna que sobrepuja ao túmulo.[11]
v.20-24 – “20 E deu o homem o nome de Eva a sua mulher, por ser a mãe de todos os seres humanos.
21 Fez o Senhor Deus vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu. 22 Então, disse o Senhor Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente. 23 O Senhor Deus, por isso, o lançou fora do jardim do Éden, a fim de lavrar a terra de que fora tomado. 24 E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida”[12]
- Epílogo: Salvação Além da Queda (3.20–24)
20. deu o nome. À designação genérica de mulher, Adão adiciona um nome pessoal que define o destino dela.
mãe de todo vivente. Ao dar-lhe Adão o nome de Eva, dá-se o início da esperança. Adão revela sua restauração em relação a Deus crendo na promessa de que a mulher fiel gerará o descendente que derrotará Satanás. Embora esta história esteja saturada de morte – julgamento da serpente, dor do parto, conflito de vontades –, um raio de esperança permanece na promessa de que a semente da mulher que nutre inimizade para com a serpente derrotará a incorporação do mal.
21. roupas. A “cobertura” de Adão e Eva de 3.7 cobria apenas parte do corpo, inadequada para cobrir sua vergonha. Agora, com o “sacrifício” de um animal, Deus confecciona para eles túnicas que descem até os joelhos ou até os tornozelos. Brueggemann explica: “Com a sentença proferida, Deus faz (3.21) para o casal o que não podem fazer por si mesmos (3.7). Não podem resolver sua vergonha. Deus, porém, pode, quer e faz”.
com elas vestiu. Isto descreve a imagem do terno cuidado de Deus pelo casal. Por meio de seu sacrifício, ele restaura o casal alienado à comunhão com ele e entre si.
22. um de nós. Ver nota sobre 1.26. A melhor explicação da primeira pessoa plural é que Deus está se referindo à corte celestial. Concernente ao conhecimento do bem e do mal, Adão e Eva são agora como os demais seres celestiais. Parece improvável que Deus esteja se referindo só a si próprio (2Sm 14.17).
e viva para sempre. Em seu fracasso, a humanidade não participaria da imortalidade. A morte é tanto juízo quanto livramento.
23. o baniu. Assim Deus purifica seu templo-jardim (cf. Jo 2.12–17; Ap 21.27).
24. querubim. Como o querubim angélico em Ezequiel 28.14, cuja tarefa possivelmente fosse bloquear a ascensão de alguém ao cimo do trono (cf. Is 14.13), esses seres chamejantes exercem o papel admoestatório de impedir que os pecadores se assenhoreiem da imortalidade. Ocupantes de trono semelhantes a esfinges aladas são atestados em todo antigo Oriente Próximo.
A sabedoria é boa, e podemos, portanto, assumir de forma segura que Deus não tinha a intenção de retê-la da humanidade.
- Contudo, a verdadeira sabedoria deve ser adquirida por meio de um processo, geralmente pela instrução daqueles que sãosábios. A queda é definida pelo fato de que Adão e Eva adquiriram sabedoria ilegitimamente (Gn 3.22), tentando, assim, tomar o papel de Deus para si mesmos em lugar de se juntarem a ele, na medida em que aprendessem a sabedoria, tornando-se de forma plena vice-regentes funcionais de Deus, envolvidos no processo de trazer ordem.
- Se os humanos devem trabalhar juntamente a Deus estendendo a ordem (“subjugar” e “governar” [Gn 1.28]), eles precisam adquirir sabedoria, mas como uma dádiva de Deus, não a tomando para seu uso autônomo.
- Todas as vezes que esse processo é realizado dessa forma há pura desordem no mundo. Desde Adão o homem vem tentando estabelecer-se por sua força.
- Dada essa interpretação, aqui, eu não vou dizer que discordo daqueles que veem a queda como uma desobediência a um caso de teste arbitrariamente escolhido. Me refiro à visão de que as árvores não tinham propriedades inerentes, mas apenas serviam para oferecer uma oportunidade para a obediência (conhecimento do bem) ou desobediência (conhecimento do mal).
- Nessa visão, Deus poderia da mesma forma ter dito que eles não devessem andar na praia.
- Ao invés disso, eu mantenho que o que foi tomado (sabedoria) não é arbitrário, e que é mais importante do que o ato de tomar (falha em um teste).
- Uma opção legítima é que desde o princípio as pessoas fossem mortais, com a dor e o sofrimento já fazendo parte de um cosmos ainda não totalmente ordenado, não podemos pensar a morte e o sofrimento como impostos a nós pela falha de Adão e Eva.
- Muitos pensam ser injusto que todos nós soframos as consequências de seu erro.
- Em lugar disso, nós podemos ter uma atitude muito mais caridosa em relação à Adão e Eva quando percebemos que não foram eles que iniciaram essa situação; é que eles falharam em alcançar uma solução que estava ao seu alcance para aquela situação.
- Suas escolhas resultaram em sua falha em adquirir alívio a nosso favor. Sua falha significou que estamos condenados à morte e a um mundo desordenado, cheio de pecado.
- Essas são consequências profundamente significativas para o que foi uma séria ofensa. Em contraste a isso, Cristo foi capaz de alcançar o resultado desejado onde Adão e Eva falharam.
- Estamos todos condenados a morrer porque, quando eles pecaram, nós perdemos o acesso à árvore da vida. Estamos, portanto, sujeitos à morte por causa do pecado. Cristo teve êxito e providenciou, na verdade, o remédio para a morte e o pecado.
- Alguns seguiriam essa mesma linha de raciocínio para sugerir que o que chamamos de pecado original é o resultado de nossos ancestrais “abortando o programa” de forma prematura.
- James Gaffney identifica essas abordagens como envolvendo uma visão de que nossa condição humana é subdesenvolvida, incapaz de atingir a meta intencionada, porque nós escolhemos agir da nossa maneira – “não um paraíso perdido, mas, como foi, um paraíso não conquistado”.
- Podemos ir um pouco mais além. Não tanto perdemos o paraíso, mas perdemos um espaço sagrado e o relacionamento que ele oferecia, danificando, portanto, nossa habilidade de estar em um relacionamento com Deus e manchando sua criação com nossas próprias habilidades subdesenvolvidas de trazer ordem por nós mesmos em nossa própria sabedoria.
- Yoda faz um lamento parecido sobre Luke Skywalker, no filme O Império Contra-Ataca de Star Wars, dizendo que ele ainda não estava pronto porque seu treinamento não havia sido terminado (“imprudente ele é […] agora as coisas estão pior”).
Nada existe semelhante à queda na literatura do Antigo Oriente Próximo, porque não existe um cenário primevo idealizado.
- No pensamento mesopotâmico, a civilização no ambiente urbano era ideal e o “mundo externo” era povoado por “animais selvagens, monstros primitivos, demônios, almas vagantes e nômades”.
- Essa imagem do “mundo externo” também era a imagem dos tempos primevos. Não existe um casal original, não existe um espaço sagrado, não existe a desobediência a um mandamento, nenhuma tomada de sabedoria para se tornar como Deus.
- Mesmo a discussão sobre o pecado é problemática em um contexto do Antigo Oriente Próximo. Eles certamente entendiam o conceito de ofensa a uma deidade e de sofrer em razão disso. Porém os deuses não tinham feito com que suas expectativas fossem conhecidas. A Grande Simbiose no mundo antigo significava que a responsabilidade dos humanos era suprir as necessidades dos deuses.
- Esse ritual envolvia, em grande medida, a performance, mas também incluía um comportamento ético, reconhecido como o desejo de justiça dos deuses suficiente para assegurar uma sociedade operando de maneira correta.
- Uma sociedade sem leis seria improdutiva, e as pessoas não seriam capazes de cultivar suas plantações, criar seus rebanhos nem oferecer suas ofertas aos deuses.
Tanto no Antigo Oriente Próximo quanto no Antigo Testamento, o pecado era comumente objetificado; ou seja, era visto como algo quase físico a ser carregado, e poderia começar em uma pessoa. Ele era percebido em consequências físicas (especialmente em doenças). Porém, como mencionado anteriormente, estas se relacionavam com as consequências do pecado. Ambos os contextos podem ter objetificado o pecado, mas quando perguntamos o que ele era, fortes diferenças emergem.
Embora o comportamento ético fosse essencial no Antigo Oriente Próximo, um imperativo moral baseado em um discernimento da natureza de Deus, como encontrado em Israel, era ausente.
- Os deuses não haviam se revelado, e eles não eram conhecidos por seu caráter consistente. Consequentemente, encontramos muitas das mesmas expectativas éticas por todo o mundo antigo, como encontramos em Israel,18 mas a fonte das normas no pensamento israelita (Deus ao invés da sociedade), o raciocínio por trás delas (santidade para reter a presença de Deus) e seus objetivos (ser como deus) são todos bastante diferentes. As normas éticas do Antigo Oriente Próximo estão mais interessadas com a ordem contra a desordem na sociedade, enquanto em Israel o principal foco é sobre o relacionamento com a deidade e o que é correto e errado na medida em que alguém tenta viver de acordo com a santidade de Deus. Encontramos, da mesma forma, performances rituais similares, mas, novamente, elas são dirigidas por uma ideologia bastante diferente.
Por essas razões, nós não esperamos encontrar nada como a queda no pensamento do Antigo Oriente Próximo. As pessoas do Antigo Oriente Próximo teriam de ver a si mesmos em um relacionamento com Deus para que este relacionamento fosse quebrado. Nem os deuses nem as pessoas desejavam um relacionamento fora da Grande Simbiose. O que encontramos no Antigo Testamento é um reflexo da revelação de Deus que resultou em uma teologia unicamente israelita. O mundo perdido precisa, assim, ser recuperado não pelo maior aprendizado sobre o Antigo Oriente Próximo, mas ao retornarmos aos textos do Antigo Testamento em seu contexto antigo, antes de considerar a forma de interpretação dos desdobramentos no Novo Testamento e a articulação do entendimento teológico ao longo da história da igreja. Isso não significa a rejeição de desenvolvimentos posteriores, mas, para os propósitos de entendimento do texto do Antigo Testamento em seu contexto, é importante ver os temas que estruturam o texto em seu cenário antigo.
- Concluindo, Gênesis 3 fala mais sobre a invasão da desordem (trazida pelo pecado) em um mundo que está sendo ordenado, do que sobre o primeiro pecado.
- É sobre como a humanidade perdeu o acesso à presença de Deus quando seus representantes tragicamente declararam sua independência de seu Criador. Ele é mais orientado literal e teologicamente a como a humanidade corporativa é, portanto, distanciada de Deus – alienação – do que ao estado pecaminoso de cada ser humano (sem a intenção de diminuir o último fato).
- Uma reflexão similar das diferenças de perspectiva pode também ser vista em como nós pensamos sobre a antropologia teológica. Nós estamos acostumados a falar sobre o corpo, a alma e o espírito na medida em que discutimos quem somos como indivíduos, e quais partes continuarão a nos definir pela eternidade.
- Os egípcios falavam sobre a pessoa humana em termos teológicos, também demonstrando um interesse na vida após a morte (termos como bae ka). Em contraste, os babilônicos eram mais inclinados a pensar sobre a humanidade em termos de protologia – ou seja, os inícios humanos nos definindo.
- Em Israel, os termos que eles utilizavam (nepeš, rûaḥ,comumente traduzidos, respectivamente, por “alma” e “espírito”) são termos que ajudam a definir nosso relacionamento com Deus.
- Nepeš é dado por Deus (Gn 2.7) e se vai quando um ser humano morre (Gn 35.18). De forma interessante, Deus também é caracterizado por um nepeš. Nepeš não é algo que as pessoas têm; é algo que elas são.
- É vida, e está associada ao sangue (Lv 17.11). Em contraste, rûaḥ energiza e está relacionado com a consciência e a vitalidade.
- Cada pessoa tem o rûaḥ de Deus, que retorna a ele quando a pessoa morre. O rûaḥde Deus sustenta a vida humana. Dessa forma, podemos entender seu ponto de vista como relacional e teológico ao invés de psicológico. Nem nepeš nem rûaḥ são considerados existentes na vida futura.
Que diferença tudo isso faz? Isso não está em desacordo com as ideias tradicionais de que o pecado teria entrado no mundo em um momento no tempo em razão das escolhas feitas por pessoas reais em um passado real, e que essas escolhas teriam afetado a todos nós.
- Ver Adão e Eva como representantes sacerdotais em um espaço sagrado que trouxeram alienação da presença de Deus à humanidade pode nos conduzir a uma estruturação distinta de nossas questões sobre nossa situação presente.
Conclusão
Esse texto nos permite compreender, de forma aprofundada a estrutura da queda e suas consequências para a humanidade.
- Também, conseguimos aprender sobre o modo de satanás operar, enganando, iludindo, diminuindo nosso interesse por Deus e sua criação.
SDG.
[1]Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Gn 3.1–6.
[2]Brian Kibuuka, A Torá Comentada(São Paulo: Fonte Editorial, 2020), 115–116.
[3]Bruce K. Waltke e Cathi J. Fredericks, Gênesis, org. Cláudio Antônio Batista Marra, trad. Valter Graciano Martins, 1aedição, Comentários do Antigo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2010), 107–108.
[4]Bruce K. Waltke e Cathi J. Fredericks, Gênesis, org. Cláudio Antônio Batista Marra, trad. Valter Graciano Martins, 1aedição, Comentários do Antigo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2010), 108.
[5] John H. Walton, O Mundo Perdido de Adão e Eva: O Debate sobre a Origem da Humanidade e a Leitura de Gênesis, org. Guilherme de Carvalho e Roberto Covolan, trad. Rodolfo Amorim Carlos de Souza, Primeira edição, Ciência e Fé Cristã (Viçosa, MG: Ultimato, 2016), 134.
[6]John H. Walton, O Mundo Perdido de Adão e Eva: O Debate sobre a Origem da Humanidade e a Leitura de Gênesis, org. Guilherme de Carvalho e Roberto Covolan, trad. Rodolfo Amorim Carlos de Souza, Primeira edição, Ciência e Fé Cristã (Viçosa, MG: Ultimato, 2016), 134–135.
[7]Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Gn 3.7–8.
[8] Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Gn 3.9–13.
[9]Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Gn 3.11.
[10]John H. Walton, O Mundo Perdido de Adão e Eva: O Debate sobre a Origem da Humanidade e a Leitura de Gênesis, org. Guilherme de Carvalho e Roberto Covolan, trad. Rodolfo Amorim Carlos de Souza, Primeira edição, Ciência e Fé Cristã (Viçosa, MG: Ultimato, 2016), 136.
[11]Bruce K. Waltke e Cathi J. Fredericks, Gênesis, org. Cláudio Antônio Batista Marra, trad. Valter Graciano Martins, 1aedição, Comentários do Antigo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2010), 108–113.
[12]Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Gn 3.20–24.
