O prenúncio do sacrifício do Rei (Mc 6.14-29)

O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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O prenúncio do sacrifício do Rei (Mc 6.14-29)

Introdução

Essa passagem está inserida após as instruções que Jesus dá aos Doze em missão. Os apóstolos foram, ensinaram o arrependimento e operaram milagres. Essas notícias se espalharam e tudo isso chegou ao conhecimento de Herodes. Ele pensa que João, que ele havia mandado matar, havia ressuscitado na pessoa de Jesus. Marcos abre então um parênteses para descrever a morte de João Batista. Marcos demonstra que João antecipa a morte de Jesus e antecipa as consequências de seguir Jesus em um mundo de cobiça, decadência, poder e riqueza. O relato fica, portanto, entre o envio dos Doze (Mc 6.7-13) e o retorno deles (Mc 6.30), a fim de marcar na mente dos leitores o custo do discipulado.

Exposição

1. A paranoia de Herodes e a mensagem viva (14-16)

A mensagem acerca do ministério de Jesus, especialmente após o êxito da missão dos Doze nos povoados de Nazaré (Mc 6.12,13), chegou aos ouvidos do rei Herodes. Essa missão espalhou amplamente o nome (ou a “fama”) de Jesus. O sucesso de seis missões distintas realizadas por seis duplas de seus discípulos na Galileia e na Pereia deve ter tornado o nome de Jesus amplamente conhecido entre os governantes e o povo dessas regiões, o que contrasta com a recepção que Jesus recebeu em Nazaré (Mc 6.4).
Em nosso texto, o Herodes mencionado é Antipas. Apesar do título popular de “rei”, Herodes Antipas não era um rei de fato. Ele era um tetrarca, governando uma quarta parte da Palestina, especificamente a Galileia e Pereia (Mateus 14:1; Lucas 9:7). Ele era filho de Herodes “o Grande” e Maltace, sua quarta esposa entre dez. É importante esclarecer que este Herodes é Antipas, pois a árvore genealógica com o nome “Herodes” é complexa. Somente no Novo Testamento, por exemplo, há quatro governantes chamados Herodes.
O relato começa com a paranoia de Herodes em relação à possível ressurreição de João Batista. Herodes suspeitava que Jesus agia no mesmo espírito de João Batista, não como uma espécie de reencarnação, visto que eram contemporâneos. A correlação entre Jesus e João Batista era algo evidentemente natural e popular naquele período. Ambos eram da mesma idade, pregadores itinerantes populares que não estavam associados a nenhum grupo religioso estabelecido. Ambos pregavam uma mensagem escatológica de arrependimento e a chegada do reino de Deus. Ambos eram extremamente populares e, de acordo com a declaração seguinte, ambos operavam “poderes”.
É interessante que essa correlação natural para Herodes é compartilhada pelo povo [“lendas urbanas”], de que Jesus era João Batista, Elias ou algum dos profetas (Mc 8.28). Jesus figurava na imagem popular como um dos grandes de Israel. Interessante que Herodes e muitos do povo tinham aqui uma opinião mais elevada sobre Jesus do que os seus próprios parentes e conterrâneos de Nazaré. Mas ao que vemos, novamente ter uma alta opinião de Jesus não era sinônimo de ter fé. Na verdade, podia ser algo que atrapalhava.

2. A trama para a morte de João Batista (17-29)

a) A razão da morte de João Batista (17-20)

Só agora Marcos desenvolve a história da prisão de João Batista, anunciada em Marcos 1.14, que marcou o início do ministério de Jesus. Ele inicia o parênteses da morte de João apresentando o motivo do profeta estar preso: João Batista acusava a imoralidade daquele casamento entre Herodes e Herodias.
Voltemos para as confusões daquela família real. Herodias era filha de Aristóbulo, meio-irmão de Antipas assasinado pelo pai Herodes “o Grande”, e foi casada com Herodes Filipe, outro meio-irmão de Antipas. No entanto, Antipas a convenceu a se separar de Filipe e se casar com ele. Para isso, Antipas teve que se separar de sua esposa, filha de Aretas, rei da Nabateia. A título de informação, em represália, Aretas derrotou Herodes Antipas em 36 d.C e o imperador Calígula então baniu Herodes e Herodias para a Gália.
O texto apresenta marcações intrigantes. Herodes mandou prender João Batista por causa de sua esposa, Herodias, que o odiava e queria matá-lo. Herodes, por outro lado, temia João Batista, reconhecendo sua justiça e santidade. Herodes ainda é apresentado como alguém que protegia João Batista e o ouvia com atenção, mesmo que se sentisse perplexo com ele.

b) O rei manipulado e o profeta assassinado (21-30)

Marcos revela claramente que Herodias veio de plano pensado: “no dia favorável”. No dia do aniversário de Herodes, em que ele estava com convidados de honra um banquete (dignatários, oficiais militares e os principais da Galileia). Ela usou a própria filha de forma inescrupulosa para alcançar seus objetivos malígnos.
Entra na festa a filha de Herodias, segundo o historiador Flavio Josefo, Salomé. Era uma jovem e que realizou uma dança que agradou a Herodes e os presentes. Agradar era um termo para indicar que a dança tinha um teor apelativo, sexualizado, e que chamou a atenção do rei ao ponto de ele oferecer o que ela quiser (até metade do seu reino).
O plano foi montado de forma que ficaria feio para Herodes negar qualquer pedido da filha de Herodias [“por causa do juramento e dos que estava com ele à mesa”]. A cena é de uma orquestração ímpar: a moça vai até a mãe e pergunta “que pedirei?”. A mãe pede a cabeça de João Batista. O pedido é horrendo: a cabeça de João Batista num prato.
O rei percebeu o tamanho da manipulação e o peso do pedido e “entristeceu-se profundamente”. Veja o ponto de Marcos: o rei é manipulado pela esposa e por uma jovem. Ele está nas mãos da injustiça, pois tem muitos compromissos. Ele repete um padrão que ocorreu com Acabe e Jezabel em relação a Elias e . Não há nada novo debaixo do sol. Vai se repetir com Cristo. Embora triste, atende o pedido e João é decapitado e sua cabeça entregue num prato a jovem e à sua mãe. Aquele que Jesus chama de “o maior nascido de mulher” (Mt 11.11) é executado numa reunião social! 
A única cena de coragem e justiça está no último versículo, quando os discípulos de João vêm e levam o corpo dele para sepultamento.
Por que razão Marcos insere esse relato aqui, entre a ida e o retorno dos apóstolos em missão? Primeiramente, Marcos traça um paralelo entre Jesus e João Batista. João Batista inicialmente antecipa a mensagem e o ministério de Jesus (Mc 1.2-8) e agora sua morte (Mc 6.14-29). Apenas duas passagens em Marcos não são sobre João Batista, e ambas o retratam como uma pré-figura de Cristo (Mc 9.11-13). Tanto Jesus quanto João Batista são mortos por líderes políticos relutantes que reconhecem sua inocência (Mc 6.20 e Mc 15.6-10,14), mas que, apesar de suas sérias apreensões, sucumbem aos desejos de seus adversários e à pressão social (Herodias e o clamor da multidão; Mc 6.25-28 e Mc 15.14,15). Tanto Herodes Antipas quanto Pôncio Pilatos testemunham o caráter justo de suas vítimas. Ambos também morrem silenciosamente como vítimas da intriga e corrupção políticas, como “ovelhas mudas diante dos seus tosquiadores“ (Is 53.7).
Em segundo lugar, uma lição relacionada ao discipulado. O que a morte de João Batista tem a ver com missão e discipulado? Aqueles que seguem a Jesus, precisam entender que isso significa entregar radicalmente suas vidas ao Mestre (Mc 8.34 ). Há um custo em seguir Jesus em um mundo de cobiça, decadência, poder e riqueza.

Aplicações

1. A pregação do evangelho exalta aquele que envia: Jesus.

Jesus envia os Doze, de dois em dois, e lhes confere autoridade. Ele saíram como testemunhas não de si, mas de Jesus. Eles ensinavam o evangelho que tinha como conteúdo o arrependimento e seu ministério era acompanhado de curas e expulsões demoníacas. Ao final, a exaltação, a fama e o testemunho de todo o ministério era de Jesus. Em nosso texto, Herodes não teme os discípulos, mas Jesus. Ao ouvir falar de Jesus, ele não remete a alguém qualquer, mas a homens estimados da história passada e presente de Israel. No final de todo ensino, pregação, ministração e programação, as pessoas não devem pensar “que grande pregador, que grande educadora”, mas “que grande Salvador!”.

2. A mensagem do Evangelho não pode ser silenciada.

João Batista estava morto. Herodes poderia viver com a aparente paz de quem acabou definitivamente com um problemas. Mas o crescimento da reputação de Jesus era um lembrete a Herodes de que, ao decapitar João Batista, a mensagem dele não fora silenciada, mas surgira com mais vigor e substância com Jesus. E isso é realidade perene sobre a Palavra de Deus e sobre a Igreja: nem as portas do inferno triunfarão sobre ela. Ninguém pode parar, impedir, aprisionar ou matar a Palavra de Deus. Impérios passarão, tiranias, reis sucumbirão. Mas o seu povo e sua palavra permanecerão.

3. Se não formos governados pelas Palavra, somos todos manipuláveis.

 Temos duas figuras interessantes nesse texto. Um profeta que não está preso a outro compromisso senão com a Palavra de Deus. Ele não tem compromisso nem com a preservação de sua própria segurança. Ele não tem compromisso com o rei mundano. A igreja precisa lembrar dessa lição que profetas precisam se distanciar do reis mundanos. Ao mesmo tempo temos um rei preso a compromissos. Um Herodes que é governado pela malícia, pelo temor dos homens, pela mulher madura, pela jovem sensual, por aqueles de quem sua posição depende. Não à toa, Jesus o chama de “raposa” (Lc 13.32). No que você é manipulável? Irmãos, só somos livres se estivermos em Cristo. Quando estamos livres de qualquer amarra deste mundo pois somos quem Ele nos chama a ser, confiamos em sua providência, e fazemos a sua vontade deixando os resultados em suas mãos. A fidelidade é a nossa liberdade.

4. Enquanto estivermos neste mundo, haverá uma ligação entre missão e martírio, discipulado e morte.

No final do trecho, chegam homens sem medo de seguir o destino de seu mestre. Eles entenderam o custo de seguir a Jesus. Os apóstolos retornarão de viagem e também aprenderão isso. Há, ainda no palácio de Herodes, pessoas que aprenderão isso, como Joana (Lc 8.3), mulher do procurador de Herodes, que apoiava o ministério de Jesus, ou Manaém (At 13.1), colaço de Herodes que se tornará membro da igreja em Antioquia e enviador de Paulo e Barnabé em missão. Pode custar a acusação de traição? O que eles podem perder se já ganharam tudo em Cristo? E se alguém desgostar deles por causa disso? É uma honra ser desgostado por amar a Cristo. Paulo diz aos Gálatas em Gl 1.10: “Porventura, procuro eu, agora, o favor dos homens ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo.”
SDG
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