QUANDO DEUS PARECE DORMIR
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Texto: Salmo 44
Tema: A fidelidade a Deus não nos isenta do sofrimento, mas nos fortalece nele, enquanto aguardamos a redenção em Cristo.
Proposição: O Salmo 44 ensina que mesmo na dor inexplicável, o povo de Deus deve lembrar-se de Sua fidelidade passada, lamentar com honestidade presente e esperar com esperança escatológica — tudo isso em Cristo.
INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO
Era domingo de manhã na terra dos patos. Todos os patos se levantaram, arrumaram suas penas e marcharam até a igreja. O pastor pato proclamou com entusiasmo: “Irmãos, Deus nos deu asas! Podemos voar como águias!” Todos aplaudiram com grasnidos de alegria. Mas, ao fim do culto, todos os patos marcharam de volta para casa… andando.
Essa pequena parábola nos confronta: podemos declarar verdades gloriosas sobre Deus — Sua fidelidade, soberania, aliança — e ainda assim viver como se Ele estivesse ausente quando a dor chega. O Salmo 44 é um convite para que não apenas confessemos, mas vivamos com fé quando Deus parece dormir.
CONTEXTO DO TEXTO
CONTEXTO DO TEXTO
CONTEXTO GERAL DO LIVRO
CONTEXTO GERAL DO LIVRO
O Salmo 44 pertence ao segundo livro do Saltério (Sl 42–72), uma coleção de orações marcadas pela aflição nacional e pessoal. Nessa porção, a fé do povo de Deus é confrontada com o silêncio e o aparente abandono divino, e frequentemente as promessas da aliança parecem em conflito com a realidade.
CONTEXTO IMEDIATO
CONTEXTO IMEDIATO
É um salmo dos filhos de Corá, com estrutura de lamento coletivo: começa com a memória das ações salvíficas de Deus no passado (vv. 1–8), narra o sofrimento presente (vv. 9–16), insiste na inocência do povo (vv. 17–22), e culmina em um clamor por intervenção (vv. 23–26). Diferente de outros salmos penitenciais, este não reconhece culpa. A dor surge apesar da fidelidade.
ILUSTRAÇÃO
ILUSTRAÇÃO
Durante a Segunda Guerra Mundial, Dietrich Bonhoeffer, preso por resistir ao nazismo, escreveu: “Não é o sofrimento em si, mas o sofrimento injusto que é mais difícil de suportar. Mas é exatamente nesse lugar que Cristo está mais próximo.”
PROBLEMÁTICA
PROBLEMÁTICA
Como podemos continuar crendo e orando quando Deus parece estar ausente? Quando a fidelidade nos leva não ao livramento, mas à perseguição?
AFIRMAÇÃO TEOLÓGICA
AFIRMAÇÃO TEOLÓGICA
Tema: A fidelidade em meio ao sofrimento.
Ponto: O povo de Deus pode lamentar com fé quando sofre por fidelidade, porque está unido à história redentora que culmina em Cristo.
Aplicação: Devemos aprender a orar lamentando honestamente, firmados na aliança e na esperança da vitória final em Cristo.
Cristo: O verdadeiro Israelita que foi “entregue à morte o dia todo” (Sl 44.22; Rm 8.36), para que nunca estivéssemos sozinhos no sofrimento.
SENTENÇA INTERROGATIVA
SENTENÇA INTERROGATIVA
Como a fé persevera quando Deus parece não responder?
SENTENÇA DE TRANSIÇÃO
SENTENÇA DE TRANSIÇÃO
O Salmo 44 nos mostra que a fé persevera quando (1) lembra da fidelidade passada de Deus, (2) lamenta com honestidade diante da dor presente, e (3) espera com confiança escatológica em Cristo.
ARGUMENTAÇÃO
ARGUMENTAÇÃO
PONTO 1: LEMBRAR A FIDELIDADE DE DEUS NO PASSADO (vv. 1–8)
PONTO 1: LEMBRAR A FIDELIDADE DE DEUS NO PASSADO (vv. 1–8)
1 Com os nossos próprios ouvidos ouvimos, ó Deus; os nossos antepassados nos contaram os feitos que realizaste no tempo deles, nos dias da antigüidade. 2 Com a tua própria mão expulsaste as nações para estabelecer os nossos antepassados; arruinaste povos e fizeste prosperar os nossos antepassados. 3 Não foi pela espada que conquistaram a terra, nem pela força do seu braço que alcançaram a vitória; foi pela tua mão direita, pelo teu braço, e pela luz do teu rosto , por causa do teu amor para com eles. 4 És tu, meu Rei e meu Deus! És tu que decretas vitórias para Jacó! 5 Contigo pomos em fuga os nossos adversários; pelo teu nome pisoteamos os que nos atacam. 6 Não confio em meu arco, minha espada não me concede a vitória; 7 mas tu nos concedes a vitória sobre os nossos adversários e humilhas os que nos odeiam. 8 Em Deus nos gloriamos o tempo todo, e louvaremos o teu nome para sempre.
Explica (teológico):
Por que Davi acrescenta “com os próprios ouvidos”? MARTINHO LUTERO: por que o salmista diz “ouvimos, ó Deus, com os próprios ouvidos”? Alguém é capaz de ouvir sem ouvidos? Sem seus próprios ouvidos? O profeta tinha medo de que as pessoas pensassem ter ouvido com as narinas ou olhos, e não com seus próprios ouvidos e, por isso, concluiu ser necessário acrescentar “com nossos ouvidos”? Fazemos a mesma pergunta sobre as seguintes cláusulas: “Então, disse eu com a própria língua”, “proferiram os meus lábios” e “Davi dedilhava a harpa”. Alguma outra parte do corpo além da língua ou da boca é capaz de falar? Ou em algum momento Davi tocou a harpa com seus pés ou lábios? Eu respondo: mistérios são aludidos aqui.
O primeiro é que ouvir com os ouvidos é ouvir somente coisas que estão sujeitas aos sentidos, e ouvir pode ser aplicado absolutamente a ambos. Então, com a intenção de distinguir a audição de assuntos espirituais, ele acrescenta “com os ouvidos”, com os quais as coisas espirituais não podem ser ouvidas, pois, no salmo, ele aborda os benefícios reais mostrados aos patriarcas.
Em segundo lugar, para expressar prontidão, obediência e perfeição… Não devemos sentir que desejamos ouvir a Deus apenas internamente, devemos também, humildemente, ouvir com atenção com nossos ouvidos, para que o ministério da igreja não seja desprezado. Como Moisés declara em Deuteronômio 32: “Pergunta a teu pai, e ele te informará”. Assim, esses fiéis, pela obediência, confiam mais nas palavras de outros que em seus próprios sentimentos. Preferem aprender a ensinar. Por isso, ouvem uns aos outros. Da mesma maneira, a humildade também é elogiada aqui, na medida em que não acrescenta nada de si mesma, mas somente o que vem dos outros, ou seja, dos pais.
Em terceiro lugar, não é suficiente que qualquer virtude seja apenas interna, a menos que se manifeste em uma obra dos sentidos. É isto o que ele deseja: que ouçam com os ouvidos, falem com a boca, toquem a harpa com as mãos e vejam com os olhos. Com nosso coração, acreditamos na justiça. Com nossa boca, confessamos para a salvação. Muitos ouvem internamente e falam e lidam consigo mesmos, mas não desejam mostrar isso abertamente. PRIMEIRAS LIÇÕES SOBRE OS SALMOS (1513–1515).
Deus permanece o mesmo. JOÃO CALVINO: admito livremente que, quanto mais pensamos sobre os benefícios que Deus concede aos outros, maior é a tristeza que sentimos quando ele não nos ajuda em nossas dificuldades. Mas a fé nos leva a outra conclusão: que devemos acreditar profundamente que, no tempo certo, também receberemos algum alívio, pois Deus é imutável e continua sendo o mesmo. Não existe motivo para duvidar que os fiéis se lembram agora das coisas que Deus fez anteriormente para o bem-estar de sua igreja, com a intenção de inspirar sua mente com uma esperança mais forte. Eles não se limitam a fazer uma comparação, o que tenderia a estabelecer uma linha de separação entre aqueles que, em tempos passados, foram protegidos pelo poder de Deus e aqueles que, agora, lutam e gemem contra as aflições. Em vez disso, estabeleceram a aliança de Deus como o vínculo de santa aliança entre eles e seus antepassados, de modo que puderam concluir disso que, seja qual for a quantidade de bondade que a igreja experimente em qualquer momento, ela pertence também a eles em Deus.
Deus sustenta a igreja. NIKOLAUS SELNECKER: o próprio Deus protege e sustenta sua igreja contra os tiranos e hereges sedentos por sangue… Deus sempre sustentará sua igreja por dois motivos. Em primeiro lugar, porque a escolheu como seu povo, aliás, como seus filhos e herdeiros em seu Filho, Cristo Jesus. Ele é seu Pai e Rei. Em segundo, porque prometeu ajudar a igreja em sua Palavra. Sua Palavra é verdadeira, e ele cumprirá tudo o que prometeu… Todos nós, que somos membros da verdadeira igreja, devemos agradecer a Deus de coração por tamanha graça divina e declarar com Davi: “Diariamente desejo louvar a Deus e dar graças ao seu nome para sempre. Pois ele, em tantos e tão grandes perigos e mudanças, sustentou maravilhosamente suas igrejas e escolas, por meio de nós e entre nós; contra e acima de toda razão humana, ele as protegeu e aumentou. Ele continua a fazer isso neste momento: ‘Graças te rendemos, ó Deus; graças te rendemos, e invocamos o teu nome, e declaramos as tuas maravilhas’ ”. TODO O SALTÉRIO.
A confiança em Deus. KONRAD PELLIKAN: esse versículo é cheio de doutrina santa e mostra toda a confiança com a qual os crentes devem se lançar a Deus, sem tomarem um arco ou espadas sem que Deus seja consultado e, se fizerem isso em obediência a uma ordem, não podem fazer como aqueles que colocam sua esperança nessas armas, mas como aqueles que esperam apenas no Senhor. No entanto, se esse for o caso, não teremos um inimigo além da nossa própria infidelidade e vida ímpia. Para os crentes, uma causa muito justa é necessária em uma guerra. Além disso, é preciso que ela esteja de acordo com a lei. O Senhor não será provado; as orações não devem estar ausentes. COMENTÁRIO SOBRE O SALMO 44.6.
Ilustra:
Calvino escreve: “Quanto mais pensamos nos benefícios que Deus concedeu aos outros, maior deve ser a nossa esperança de que Ele agirá também conosco, pois Ele é imutável.”
Durante a epidemia de cólera em Londres (1854), Charles Spurgeon, jovem pastor de apenas 20 anos, pregava dia e noite, visitava os moribundos e enterrava os mortos. Quando ele mesmo quase desmoronou, parou em uma rua e viu um letreiro em uma vitrine com estas palavras: “Lança o teu cuidado sobre o Senhor, e Ele te susterá” (Sl 55.22). Ele escreveu: “A verdade do Deus fiel saltou do letreiro para dentro da minha alma... e nunca mais duvidei da fidelidade divina, nem mesmo no vale da morte”.
Aplica (pastoral):
Ouvimos sobre os feitos de Deus
Ele não muda
Ele sustenta a Igreja
Podemos confiar nele
Quando o presente parece um deserto espiritual, a lembrança dos feitos de Deus é um poço de esperança. Lembre-se de como Deus salvou você. Lembre-se da cruz, onde Ele já demonstrou o quanto o ama. A memória da graça passada é a âncora da fé presente.
No deserto espiritual do presente, o povo de Deus vive da memória dos atos de redenção.
A Escritura não é só um livro antigo — é nossa genealogia espiritual. É a certidão de que pertencemos a uma linhagem sustentada por Deus.
A igreja de hoje enfrenta dúvidas culturais, perseguições e frieza espiritual. Devemos lembrar: nossa história não começou em nossa fraqueza, mas na força de Deus.
Pastores, pais, educadores: contem aos seus filhos e discípulos as obras de Deus. “Com os nossos próprios ouvidos ouvimos...” significa: herança da fé viva.
Desafio prático: Esta semana, escreva uma oração ou testemunho que relembre como Deus agiu em sua vida no passado. Isso será âncora para dias futuros.
PONTO 2: LAMENTAR COM HONESTIDADE O SOFRIMENTO PRESENTE (vv. 9–22)
PONTO 2: LAMENTAR COM HONESTIDADE O SOFRIMENTO PRESENTE (vv. 9–22)
9 Mas agora nos rejeitaste e nos humilhaste; já não sais com os nossos exércitos. 10 Diante dos nossos adversários fizeste-nos bater em retirada, e os que nos odeiam nos saquearam. 11 Tu nos entregaste para sermos devorados como ovelhas e nos dispersaste entre as nações. 12 Vendeste o teu povo por uma ninharia, nada lucrando com a sua venda. 13 Tu nos fizeste motivo de vergonha dos nossos vizinhos, objeto de zombaria e menosprezo dos que nos rodeiam. 14 Fizeste de nós um provérbio entre as nações; os povos meneiam a cabeça quando nos vêem. 15 Sofro humilhação o tempo todo, e o meu rosto está coberto de vergonha 16 por causa da zombaria dos que me censuram e me provocam, por causa do inimigo, que busca vingança. 17 Tudo isso aconteceu conosco, sem que nos tivéssemos esquecido de ti, nem tivéssemos traído a tua aliança. 18 Nossos corações não voltaram atrás, nem os nossos pés se desviaram da tua vereda. 19 Todavia, tu nos esmagaste e fizeste de nós um covil de chacais, e de densas trevas nos cobriste. 20 Se tivéssemos esquecido o nome do nosso Deus e tivéssemos estendido as nossas mãos a um deus estrangeiro, 21 Deus não o teria descoberto? Pois ele conhece os segredos do coração! 22 Contudo, por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro.
Explica (teológico):
Julguem segundo o Espírito, não segundo a carne e o sangue. NIKOLAUS SELNECKER: até o momento, Davi falou no Espírito, segundo a Palavra de Deus, sobre a graça e a auxílio de Deus. Agora ele começa a analisar a carne e os sentidos de todos os santos, inclusive sua própria carne e seus próprios sentidos, e mostra como sua carne e sangue funcionam e quais as suas tendências. Pois constantemente a carne murmura contra Deus, como se ele julgasse e reinasse impiamente segundo a razão, como se ele deixasse o piedoso – a quem deveria ajudar – sofrer e exaltasse os ímpios – a quem deveria castigar.
Em poucas palavras, não existe nada mais difícil para a carne do que aprender a esperar a ajuda de Deus… A carne sempre deseja que a experiência termine em um piscar de olhos e quer ser poupada de angústias, mantendo-se tranquila, como diz a juventude. Agora, desse modo, segundo o costume da carne, Davi fala e reclama com muita amargura do sofrimento da igreja de Deus, no qual, segundo a razão, pode parecer que o Senhor a lançou, como se estivesse distante ou não se importasse de maneira alguma com os piedosos, sempre que são perseguidos, odiados, martirizados e mortos pelo mundo, como quando um apóstolo era assassinado após o outro, e os profetas também foram. Isaías foi partido ao meio com uma serra por ordem do rei Manassés. Jeremias foi apedrejado no Egito pelos judeus por ordem do rei Apriés, a quem ele chamava de Faraó Ofra. Muitos outros tiveram de sofrer e ser atormentados. Todos os apóstolos, com exceção de João, tiveram de ser sacrificados, um por um… Todo aquele que for um verdadeiro cristão descobrirá, com certeza, que esse julgamento é segundo sua razão em sua carne e sangue, de modo que jamais pensará e dirá: “Deus não se importa conosco. Ele nos envergonha”. TODO O SALTÉRIO.
As lições aprendidas no sofrimento. DAVID DICKSON: após firmar a resolução de crer sempre no Senhor, o salmista aponta a condição lamentável da igreja diante de Deus por causa da tentação que ataca seu povo durante o sofrimento.
Por isso, aprendemos o seguinte:
em primeiro lugar, pode ser que o amor constante de Deus por seu povo o leve a provações duras com uma variedade de dificuldades que podem parecer não só interromper seu curso anterior de bondade em seu favor, mas também abandoná-lo e se voltar contra ele, enviando-lhe julgamentos pesados, o que geralmente sugere ao ser humano uma ira profunda.
Em segundo lugar, como a presença de Deus, manifestada entre seu povo e em seu favor, aos olhos do mundo, o torna o povo mais famoso, sábio, corajoso, próspero e abençoado do mundo, quando o Senhor, provocado pelo comportamento ímpio do seu povo professo, abandona-o, deixa de protegê-lo e demonstra a ele sua ira, então ele se torna um povo tolo e fraco, um povo mais indigno e desprezado que todos os outros. “Tu nos fazes bater em retirada à vista dos nossos inimigos, e os que nos odeiam nos tomam por despojo.”
Em terceiro lugar, seja qual for a calamidade que possa vir sobre nós – seja qual for o motivo –, precisamos entender claramente que Deus é o criador de toda a nossa angústia. Mesmo se provocarmos esse sofrimento, é Deus quem produz a aflição, pois não existe problema na cidade que o Senhor não confesse ter causado. COMENTÁRIO DE SALMOS.
As promessas de Deus fortalecem nosso coração. JOÃO CALVINO: desse modo, os fiéis querem dizer que foram descartados como se fossem completamente indignos, de modo que sua condição era pior que a dos escravos. E como preferiram recorrer a Deus a se voltarem para seus inimigos, de cujo orgulho e crueldade tinham motivo justo de reclamar, aprendemos com isso que não existe nada melhor ou mais vantajoso para nós, em nossa adversidade, que nos dedicarmos à meditação sobre a providência e o julgamento de Deus. Quando os seres humanos nos atormentam, não há dúvida de que é o diabo que os leva a agir assim e é com ele que devemos lidar. Entretanto, precisamos elevar nossos pensamentos a Deus, para saber que somos provados e testados por ele, seja para nos punir, exercitar nossa paciência, dominar os desejos pecaminosos da nossa carne ou nos humilhar e treinar na prática da abnegação. E quando ouvimos que os antepassados que viviam sob a lei foram tratados de maneira tão repulsiva, vemos que não existe razão para perder a coragem por qualquer ofensa ou tratamento ruim se, a qualquer momento, Deus desejar nos submeter a isso. Aqui não é dito simplesmente que Deus vendeu algumas pessoas, mas que vendeu seu próprio povo, como se sua herança não tivesse valor para ele. Até nos dias atuais, em nossas orações, podemos fazer a mesma reclamação, desde que, ao mesmo tempo, usemos esse exemplo com o objetivo de apoiar e estabelecer nossa fé, para que, independentemente de quão angustiados possamos estar, nosso coração não nos engane. COMENTÁRIO DE SALMOS.
44.17–22 Continuamos a nos lembrar de ti e sofremos por isso
Uma restrição sagrada. JOÃO CALVINO: vemos como a grande maioria das pessoas murmura e reclama sem parar de Deus, como cavalos indomados que se enfurecem contra seus mestres e lhes dão coices. Por isso, sabemos que uma pessoa que, em meio às aflições, coloca uma restrição santa em si mesma, para não ser influenciada por sua impaciência e não se desviar do caminho certo, realizou algo considerável no temor a Deus. Até para os hipócritas é uma questão simples bendizer o Senhor no tempo de sua prosperidade, mas logo que ele começa a tratá-los de maneira mais rigorosa, enfurecem-se contra ele. Desse modo, os fiéis declaram que, ainda que as muitas aflições que sofreram possam tê-los desviado do caminho correto, não se esqueceram de Deus, mas o serviram sempre, mesmo quando ele não se mostrou favorável e misericordioso com eles. COMENTÁRIO DE SALMOS.
Eles não se renderam. ANOTAÇÕES INGLESAS: com essas palavras, desejam se inocentar do horrível pecado da idolatria. Declarando que, de certo modo, Deus parece tê-los abandonado, deixando-os nas mãos dos idólatras, de quem sofreram todo tipo de perseguição, não o abandonaram como os idólatras, mas se submeteram a diversos tipos de tormento e morte cruel em vez de serem atraídos por isso. OBSERVAÇÕES SOBRE O SALMO 44.17.
Sugestões do diabo. JOÃO CALVINO: esse é um artifício do diabo, pois, como ele é incapaz de eliminar definitivamente do nosso coração o sentimento de religião, empenha-se em derrubar nossa fé, sugerindo à nossa mente os seguintes truques: que precisamos buscar outro deus ou que o Deus a quem servimos até hoje deve ser satisfeito de outra maneira ou que a certeza de sua bondade deve ser procurada em outro lugar, não na lei e no evangelho. Como, então, essa é uma questão muito mais complicada para o ser humano, para permanecer firmes e tranquilos na verdadeira fé em meio às ondas da adversidade, devemos observar cuidadosamente a afirmação feita aqui pelos santos pais, a saber, que mesmo quando são reduzidos às extremidades mais baixas de angústia por causa de todo tipo de sofrimento, não deixam de confiar no verdadeiro Deus. COMENTÁRIO DE SALMOS.
A sombra da morte. KONRAD PELLIKAN: ele chama essas mesmas dificuldades de sombra da morte, pois ser exposto a todos os desejos dos ímpios é mais difícil que morrer… por toda a piedade a ser condenada: é isso que significa ser totalmente coberto pela escuridão mortal e pela sombra da morte. COMENTÁRIO SOBRE O SALMO 44.19.
Ódio a Deus e à igreja. PHILIPP MELANCHTHON: a igreja não está sob opressão pesada, como os impérios do mundo, por causa de seus ídolos, tiranias e desejos, pois esses são os principais motivos pelos quais eles estão em processo de mudança, mas porque o diabo odeia a Deus e provoca os príncipes ímpios, levando-os a se enfurecer contra a igreja. Desse modo, como o diabo tenta destruir o verdadeiro conhecimento de Deus, em suas orações a igreja o contesta com uma confissão real. Assim, nossas aflições se tornam testemunhos de doutrina e sacrifícios que agradam a Deus.
Portanto, esse salmo ensina que a confissão deve ser feita em nossas súplicas e mostra o motivo dos avanços do mundo contra a igreja, a saber, ódio a Deus e à verdadeira doutrina. Mas como sabemos que Deus não permitirá que essa doutrina seja destruída, somos sustentados por este consolo: Deus estará conosco nessa luta. COMENTÁRIO DE SALMOS.
Ilustra:
Philipp Melanchthon comentou que esse salmo nos mostra como “o diabo odeia a Deus e inflama os ímpios contra a igreja”. O sofrimento do povo de Deus nem sempre é disciplinar, mas testemunhal.
Corrie ten Boom, cristã holandesa presa por esconder judeus durante o nazismo, viu sua irmã Betsie morrer em um campo de concentração. Em meio à fome e aos espancamentos, Betsie dizia: “Há um poço mais profundo que qualquer sofrimento — e esse poço é o amor de Deus.” Após a guerra, Corrie voltou à Alemanha e perdoou seus antigos carcereiros, porque entendeu que a fé que lamenta diante de Deus é também a fé que sobrevive à escuridão.
Aplica (pastoral):
Há espaço na vida cristã para o lamento. A fé não anula a dor, mas transforma a dor em oração. Você não precisa fingir força. Pode clamar: “Por que, Senhor?” Pode chorar, pode protestar. O lamento não é fraqueza — é confiança de que Deus nos ouve mesmo quando parece calado.
A igreja precisa redescobrir a linguagem do lamento. O cristão não está proibido de dizer “Por quê, Senhor?” — está autorizado.
Em um mundo obcecado com positividade, a Bíblia nos convida a uma fé honesta. A dor não nega a fé; ela a refina.
Jovens desiludidos, cristãos perseguidos, famílias em luto — não estão sozinhos. A Bíblia tem um salmo para cada lágrima.
Jesus não disse “Se vocês sofrerem…”, mas “Quando sofrerem por minha causa, alegrem-se” (Mt 5.11-12). Mas essa alegria passa pelas lágrimas do Getsêmani.
Exortação: Lamente com fé. Não sufoque a dor. Traga-a à luz da aliança. Lembre-se: o Deus que permitiu o sofrimento é o mesmo que caminha com você por ele.
PONTO 3: ESPERAR REDENTIVAMENTE EM CRISTO (vv. 23–26)
PONTO 3: ESPERAR REDENTIVAMENTE EM CRISTO (vv. 23–26)
23 Desperta, Senhor! Por que dormes? Levanta-te! Não nos rejeites para sempre. 24 Por que escondes o teu rosto e esqueces o nosso sofrimento e a nossa aflição? 25 Fomos humilhados até o pó; nossos corpos se apegam ao chão. 26 Levanta-te! Socorre-nos! Resgata-nos por causa da tua fidelidade.
Explica (teológico):
O clamor “Desperta, Senhor!” não é heresia — é esperança. O salmista apela à ḥesed (misericórdia pactual), base da fidelidade divina. Deus parece dormir, mas não está morto. Ele é o Deus da aliança, que se lembra dos Seus. Paulo, ao citar esse salmo em Romanos 8, faz o contraponto definitivo: sim, somos entregues à morte, mas “nem a morte nem a vida... poderão nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus” (Rm 8.38-39).
Alivie seu coração. JOÃO CALVINO: realmente precisamos acreditar firmemente que Deus nunca deixa de cuidar de nós, embora pareça deixar. Não obstante, como essa certeza é da fé, não da carne, isto é, não é natural para nós, os fiéis se colocam diante de Deus e se aliviam desse sentimento contrário, que concebem pelo estado das coisas como são apresentadas aos seus olhos. Agindo desse modo, descarregam do peito os sentimentos mórbidos que pertencem à corrupção de nossa natureza e, como consequência, sua fé brilha intensamente em seu caráter puro e natural. COMENTÁRIO DE SALMOS.
A metáfora da contrição. MARTINHO LUTERO: em primeiro lugar, isso é uma metáfora, como foi mostrado na glosa. Em segundo lugar, isso denota a mortificação da carne, pois, enquanto o ventre vive entre prazeres e abundância de pecados, ela mantém os pés no chão quando é privada dessas coisas e, assim, a alma é humilhada no pó, em vez de se orgulhar com glória e riquezas e se aquecer no bem-estar da carne. Dessa maneira, Isaías declara: “Desce e assenta-te no pó, ó virgem filha de Babilônia”… E, assim, isso significa estar em contrição, que é o pó. Todavia, o que acontece aos santos está de acordo com a carne. Em terceiro lugar, o bendito Agostinho explica isso em um mistério contrário, como referindo-se àqueles que estão envolvidos na terra pelo prazer físico, pois o ventre é a própria gula ou o desejo de comer. PRIMEIRAS LIÇÕES SOBRE OS SALMOS (1513–1515).
Ilustra:
Jesus viveu esse salmo no Getsêmani e na cruz. Ele clamou: “Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46). Mas Ele não desceu da cruz. Ele confiou, e o Pai o ressuscitou.
Em 2015, 21 cristãos coptas egípcios foram sequestrados pelo Estado Islâmico. No vídeo de sua execução, repetiam: “Senhor Jesus Cristo”. Um deles, Matthew Ayariga, não era cristão quando foi capturado, mas ao ver a fé dos outros, declarou: “O Deus deles é agora o meu Deus”. Ele morreu confessando a Cristo. O silêncio de Deus, ali, foi preenchido pela certeza da ressurreição.
Aplica (pastoral):
Não interprete o silêncio de Deus como rejeição. Na cruz, Deus esteve mais presente do que nunca. Quando você não vê a mão de Deus, confie no Seu coração. Espere, ore, confesse: “Levanta-te, ajuda-nos, resgata-nos por tua misericórdia” (v. 26). Ele virá.
O silêncio de Deus nunca é vazio. Ele está carregado de propósito redentor.
Quando oramos “Desperta, Senhor!”, confessamos que só Ele pode nos socorrer.
A esperança cristã não é otimista — é escatológica. Ela olha para a cruz e a ressurreição e espera o dia em que Deus se levantará para julgar e redimir.
A igreja precisa aprender a esperar em oração. Não é passividade — é resistência profética.
Encerramento: A oração do salmo termina em súplica. O evangelho termina em ressurreição. Entre o lamento e a glória, permanecemos firmes porque Cristo já venceu. Ele não falhará.
CONCLUSÃO
CONCLUSÃO
A fé bíblica não ignora o sofrimento, mas enfrenta-o com olhos firmes na fidelidade de Deus. O Salmo 44 nos ensina a lembrar, lamentar e esperar.
O que ser?
Um povo que ora mesmo quando Deus parece ausente.
O que saber?
Que o silêncio de Deus não é ausência. A cruz prova isso.
O que fazer?
Clamar com honestidade, sustentar-se na aliança, e esperar pela ressurreição — pessoal e cósmica — que Cristo inaugurou.
ORAÇÃO FINAL (para leitura comunitária)
ORAÇÃO FINAL (para leitura comunitária)
Senhor da aliança,
Quando tua mão parece oculta, ajuda-nos a lembrar de tuas obras.
Quando sofremos sem resposta, ensina-nos a lamentar com fé.
Quando clamamos: “Desperta!”, sustenta-nos com tua misericórdia.
Sabemos que não nos abandonaste, pois Cristo, nosso Redentor, também clamou e venceu.
Firma nossa esperança em tua promessa, até o dia em que todo choro cessará.
Em nome de Jesus, Amém.
