A glorificação de Cristo
EXPOSIÇÃO DE APOCALIPSE • Sermon • Submitted • Presented
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Tema: A glorificação de Cristo
Série: Exposição de Apocalipse
Autor: Ricardo Moreira
Local: 18ª Igreja Presbiteriana Renovada de Goiânia
Data: 01/06/2025
Texto chave: Apocalipse 4
1 Depois destas coisas, olhei, e eis não somente uma porta aberta no céu, como também a primeira voz que ouvi, como de trombeta ao falar comigo, dizendo: Sobe para aqui, e te mostrarei o que deve acontecer depois destas coisas. 2 Imediatamente, eu me achei em espírito, e eis armado no céu um trono, e, no trono, alguém sentado; 3 e esse que se acha assentado é semelhante, no aspecto, a pedra de jaspe e de sardônio, e, ao redor do trono, há um arco-íris semelhante, no aspecto, a esmeralda.
INTRODUÇÃO GERAL
INTRODUÇÃO GERAL
Hoje vamos continuar nossa série da exposição de Apocalipse.
Breve retrospectiva do que já vimos.
Após as cartas para as sete igrejas, João recebe uma nova visão. Anteriormente ele tinha visto Cristo caminhando entre os candeeiros, as igrejas (1.12–13), e agora ele vê a sala do trono celestial.
A mensagem central do livro de Apocalipse é mostrar para a noiva perseguida, que o seu Deus está no Trono do Universo. Antes de Deus visitar a terra com seus juízos, (a abertura dos sete selos), bem como de Deus derramar sua ira nos ímpios (sete trombetas) e o Seu juízo final (sete taças) é revelado a João que Deus está entronizado e governando o Seu universo. Não importa quão temíveis ou incontroláveis forças do mal pareçam agir na terra, elas não podem frustrar os desígnios de Deus nem vencer a igreja, pois Deus está governando o Universo, do Seu trono.
O destino da noiva não está nas mãos dos homens, mas nas mãos de Deus. Quando o mundo está incendiado pelo ódio, guerras e conflitos; quando a terra está cambaleando, bêbada de sangue, ou sacudida por terremotos e maremotos, precisamos levantar os nossos olhos e ver o nosso Deus assentado sobre um Alto e Sublime Trono. Ele é quem governa o universo.
No meio das provas e tribulações, precisamos fixar nossos olhos naquele que é o Rei dos reis e Senhor dos senhores. Somente quando olhamos todas as coisas, inclusive nossas tribulações, desde o aspecto do trono, é que alcançamos o verdadeiro discernimento da história.
1. A REVELAÇÃO DO TRONO DE DEUS: UMA VISÃO CELESTIAL (AP. 4)
1. A REVELAÇÃO DO TRONO DE DEUS: UMA VISÃO CELESTIAL (AP. 4)
1.1. A Mudança de Perspectiva: Da Terra ao Céu (Ap. 4:1)
1.1. A Mudança de Perspectiva: Da Terra ao Céu (Ap. 4:1)
1 Depois destas coisas, olhei, e eis não somente uma porta aberta no céu, como também a primeira voz que ouvi, como de trombeta ao falar comigo, dizendo: Sobe para aqui, e te mostrarei o que deve acontecer depois destas coisas. (Apocalipse 4.1, ARA)
A primeira expressão que devemos destacar aqui é “Depois destas coisas”. Ela irá se repetir 7 vezes no Apocalipse.
Essa expressão marca uma mudança de perspectiva da visão. Num primeiro momento, João foi chamado para ver o que acontecia com a igreja[1], na terra. Agora, no capítulo 4 de Apocalipse, ocorre uma transição significativa. A narrativa se desloca da terra, onde João descreveu as condições espirituais das igrejas (Ap 2–3), para o céu, onde ele testemunha a glória e soberania de Deus. A visão muda de um cenário de inquietação, aflições e imperfeições para uma atmosfera de segurança e paz perfeita.
Essa mudança enfatiza a transcendência divina, demonstrando que, enquanto a igreja enfrenta lutas terrenas, Deus reina soberano em harmonia perfeita. Esse é um dos objetivos do livro, deixar claro aos leitores que Deus está em seu trono reinando.
Essa transição, que irá se repetir mais 6 vezes, é teologicamente rica, pois reflete a dualidade da existência cristã: vivemos em um mundo marcado por tribulações, guerras, perseguições e sofrimentos, mas somos chamados a olhar para o céu, onde Cristo está entronizado (Cl 3:1-2) e reinando soberanamente sobre tudo e todos. A visão do céu nos lembra que a história não é caótica, mas está sob o controle soberano de Deus.
1.1. Uma porta aberta no céu
1.1. Uma porta aberta no céu
Seu primeiro olhar lhe mostra “uma porta aberta no céu”. Nos escritos judaicos, a abertura do céu significava o acesso a Deus (Sl 78.23). No Novo Testamento, a ideia de “céu aberto” indica que os últimos dias se iniciaram (At 7.56, 10.11; 2Co 12.1–4). Os céus se abriram no batismo de Jesus (Mt 3.16), e em João 1.51 Jesus diz que os céus permanecem abertos para ele. Isto significa que o reino chegou, e os eventos finais são iniciados no ministério de Jesus.
“O céu aberto” não apenas libera acontecimentos, mas também entendimento”. Agora a visão que segue será das grandes tensões que a noiva enfrentará até a segunda vinda do Noivo. Esta revelação inclui a destruição dos poderes do mal. Mas, antes de serem destruídas, estas forças más se empenharão num esforço desesperado de frustrar os planos de Deus, tentando destruir o Seu povo. Essa é a grande tensão entre o Reino de Deus e o reino de Satanás.
1.2. O Convite Celestial: "Suba para Cá" (Ap. 4:1)
1.2. O Convite Celestial: "Suba para Cá" (Ap. 4:1)
João é chamado a subir ao céu para contemplar as realidades espirituais de uma nova perspectiva: "Suba para cá, e lhe mostrarei o que deve acontecer depois dessas coisas" (Ap 4:1).
A voz como de trombeta desempenha um papel significativo nesse chamado. No contexto bíblico, a trombeta é um símbolo de revelação divina e convocação solene. No Monte Sinai, a trombeta anunciou a entrega da Lei (Êx 19:16, 19). Nos tempos festivos de Israel, ela marcava o início de eventos importantes, como o Ano Novo e a Festa das Trombetas (Lv 23:24).
Além disso, a trombeta está associada à escatologia, indicando o retorno de Cristo (Mt 24:31; 1Ts 4:16). Dessa forma o som da trombeta é sempre o prelúdio de uma manifestação divina. Todo judeu ou leitor do primeiro século estava familiarizado com a liturgia que envolvia o som da trombeta.
O convite para subir revela a natureza apocalíptica do texto, onde o futuro é desvelado por meio de símbolos e visões.
1.3. O Trono: Centro da Soberania Divina (Ap. 4:2)
1.3. O Trono: Centro da Soberania Divina (Ap. 4:2)
2 Imediatamente, eu me achei em espírito, e eis armado no céu um trono, e, no trono, alguém sentado;
O trono é o elemento central da visão de João, mencionado (12) doze vezes no capítulo 4 e (41) quarenta e uma vezes ao longo do livro. Ele simboliza o governo absoluto de Deus sobre a criação. Em um contexto de perseguição, onde os cristãos enfrentavam a autoridade opressiva de César, a visão do trono reafirma que o poder supremo pertence a Deus, não ao imperador romano.
João começa a descrever da forma que ele viu, e com as palavras que encontrou: "Imediatamente me vi tomado pelo Espírito, e diante de mim estava um trono no céu e nele estava assentado alguém"(Ap 4:2). O verbo grego "assentar-se" (καθίζω, kathízō) sugere estabilidade e autoridade. Essa imagem faz referência à visão de Isaías, que viu o Senhor "assentado num alto e sublime trono" (Is 6:1). A soberania divina é um tema central em Apocalipse, e o trono é o símbolo visível dessa verdade teológica.
1.4. A Glória do Trono: Pedras e Arco-Íris (Ap. 4:3)
1.4. A Glória do Trono: Pedras e Arco-Íris (Ap. 4:3)
3 e esse que se acha assentado é semelhante, no aspecto, a pedra de jaspe e de sardônio, e, ao redor do trono, há um arco-íris semelhante, no aspecto, a esmeralda.
A descrição de Deus como semelhante ao jaspe e ao sardônio (Ap 4:3) é repleta de simbolismo. Embora a identificação exata dessas pedras seja incerta, o jaspe pode representar pureza e santidade, enquanto o sardônio, com sua tonalidade vermelha, pode simbolizar a justiça e o juízo divino. O arco-íris ao redor do trono remete à aliança de Deus com Noé (Gn 9:11-17), sendo um sinal de fidelidade e misericórdia.
Importante ressaltar que não se pode descrever em palavras humanas o que Deus é em sua essência. O que João faz, é tentar encontrar palavras em sua língua nativa, que pudessem servir de comparação, mas de fato, até as comparações usadas por João são insuficientes para descrever com precisão a essência divina.
O arco-íris aqui não é apenas um arco, mas um círculo completo, pois no céu todas as coisas são completas. O arco-íris lembra a aliança de Deus com Noé (Gn 9:11-17), simbolizando sua promessa de jamais destruir a Terra novamente com um dilúvio. Como veremos adiante, Deus firmou sua aliança não apenas com Noé, mas com toda a criação.
O julgamento está preste a sobrevir, mas o arco-íris lembra que, mesmo quando julga, Deus é misericordioso (Hc 3:2). Normalmente, o arco-íris aparece depois da tempestade; aqui, porém, aparece antes da tempestade.
1.5. Os Vinte e Quatro Anciãos: A Igreja Redimida (Ap. 4:4)
1.5. Os Vinte e Quatro Anciãos: A Igreja Redimida (Ap. 4:4)
4 Ao redor do trono, há também vinte e quatro tronos, e assentados neles, vinte e quatro anciãos vestidos de branco, em cujas cabeças estão coroas de ouro.
Os “vinte e quatro anciãos” ao redor do trono representam a totalidade do povo de Deus, unindo os doze patriarcas de Israel e os doze apóstolos do Cordeiro. Essa composição simboliza a igreja em sua plenitude, composta por judeus e gentios reconciliados em Cristo (Ef 2:14-16).
11 Portanto, lembrai-vos de que, outrora, vós, gentios na carne, chamados incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisos, na carne, por mãos humanas, 12 naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo. 13 Mas, agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo. 14 Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derribado a parede da separação que estava no meio, a inimizade, 15 aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, 16 e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade.
O número vinte e quatro representa a igreja na sua totalidade. É uma visão não do que é, mas do que há de ser, ou seja, a igreja plena, como será na glória, adorando e louvando a Deus diante do trono, nos céus.
Os anciãos estão “vestidos de branco”,simbolizando a justiça imputada por Cristo (Ap 19:8), e usam “coroas de ouro”, que indicam a vitória e a realeza compartilhada com Cristo (2Tm 4:8).
8 Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda.
1.6. Relâmpagos, Vozes e Trovões: A Majestade de Deus (Ap. 4:5)
1.6. Relâmpagos, Vozes e Trovões: A Majestade de Deus (Ap. 4:5)
5 Do trono saem relâmpagos, vozes e trovões, e, diante do trono, ardem sete tochas de fogo, que são os sete Espíritos de Deus.
Do trono emanam relâmpagos, vozes e trovões (Ap 4:5), ecoando a teofania no Sinai (Êx 19:16). Esses elementos simbolizam a majestade e o poder de Deus, cuja presença é ao mesmo tempo gloriosa e terrível. Note que "os trovões e relâmpagos são sinais visíveis da proximidade de Deus". Vale lembrar que no primeiro século ainda não existia o Novo Testamento, apenas cartas e documentos espalhados pelas igrejas. Assim, as escrituras que os cristãos possuíam neste momento histórico eram as escrituras judaicas, ou seja, a Torá. Qualquer cristão do primeiro século, acostumados com as escrituras judaicas, iria compreender com facilidades os símbolos “relâmpagos, vozes e trovões” com referência ao monte Sinai.
1.7. Os Seres Viventes: Guardiões da Adoração (Ap 4:6-8)
1.7. Os Seres Viventes: Guardiões da Adoração (Ap 4:6-8)
6 Há diante do trono um como que mar de vidro, semelhante ao cristal, e também, no meio do trono e à volta do trono, quatro seres viventes cheios de olhos por diante e por detrás.
Os quatro seres viventes ao redor do trono possuem uma aparência peculiar, com múltiplos olhos e quatro rostos distintos (Ap 4:6-8). Esses seres são uma reminiscência dos querubins de Ezequiel (Ez 1:10) e dos serafins de Isaías (Is 6:2-3). Seus olhos indicam vigilância total, enquanto os rostos simbolizam diferentes aspectos de Cristo:
· O leão representa sua realeza (Mateus).
· O boi, seu serviço sacrificial (Marcos).
· O homem, sua humanidade perfeita (Lucas).
· A águia, sua divindade transcendente (João).
Essa interpretação encontra guarida em outros teólogos. Por exemplo, William Barclay (BARCLAY, 1960), citando H. B. Swete afirma que
Os quatro seres viventes representam tudo o que é nobre, forte, sábio e rápido da natureza. Cada um deles tem a preeminência em sua própria esfera e mundo. O leão é supremo entre os animais selvagens; o boi entre os animais domésticos; a águia é a rainha das aves; o homem é supremo entre todos os seres viventes. O leão é o rei das feras, o mais nobre entre todos os animais selvagens. O boi é o mais resistente e forte dos animais que ajudam o homem. A águia é a mais veloz de todas as aves. O homem é o mais sábio de toda a criação. Quer dizer, os quatro seres viventes representam toda a grandeza, poder e beleza da natureza. Aqui vemos o mundo natural que eleva seu louvor a Deus.
Eles proclamam incessantemente: "Santo, santo, santo é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso" (Ap 4:8). A repetição tripla enfatiza a perfeição e a santidade de Deus, enquanto o título "Todo-Poderoso" (παντοκράτωρ, pantokrátor) sublinha sua soberania absoluta.
1.8. Adoração Celestial: Glória ao Criador (Ap. 4:10-11)
1.8. Adoração Celestial: Glória ao Criador (Ap. 4:10-11)
10 os vinte e quatro anciãos prostrar-se-ão diante daquele que se encontra sentado no trono, adorarão o que vive pelos séculos dos séculos e depositarão as suas coroas diante do trono, proclamando: 11 Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas.
Os anciãos lançam suas coroas diante do trono, reconhecendo que toda glória pertence a Deus: "Tu, Senhor e Deus nosso, és digno de receber a glória, a honra e o poder, porque criaste todas as coisas"(Ap 4:11). Essa adoração enfatiza Deus como o Criador e Sustentador de todas as coisas, um tema central na teologia bíblica (Sl 33:6-9; Hb 1:3).
O que está assentado no trono é o criador de todas as coisas. O mesmo Deus que criou tudo, sustenta tudo, levará o mundo, a história e a igreja à consumação final. João é chamado ao céu para ver o trono e o Entronizado. O trono de Deus está no centro do universo. Tudo acontece a partir do trono. Tudo está ao redor do trono. Graça e juízo emanam do trono. Todo o louvor e glória são dirigidos Àquele que está assentado no trono.
Ao final do capítulo 4, vimos Deus sentado no seu trono eterno, recebendo louvor perpétuo como Criador. No capítulo 5, encontramos Cristo, o Cordeiro, revelado como Redentor divino.
2. O LIVRO SELADO E SEU SIGNIFICADO
2. O LIVRO SELADO E SEU SIGNIFICADO
A história redentiva não se desenvolve de forma caótica ou arbitrária. A existência humana não é conduzida por forças impessoais do acaso, nem está à deriva sob os influxos incertos das circunstâncias temporais. Pelo contrário, a trajetória da vida, tanto individual quanto cósmica, está inserida no desígnio eterno e soberano de Deus.
O fim último da história não é a tragédia, mas a consumação gloriosa segundo os propósitos divinos. As hostes do mal, ainda que atuem de forma intensa na presente era, não prevalecerão. O trono de Deus permanece inabalável. Ele governa todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade (cf. Ef 1.11), estabelecendo que nada acontece fora do Seu decreto eterno.
A soberania divina assegura que todos os eventos históricos, mesmo os mais obscuros, estão ordenados rumo à consumação escatológica em Cristo.
Apocalipse 5:1 nos apresenta um rolo escrito de ambos os lados e selado com sete selos:
1 Vi, na mão direita daquele que estava sentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, de todo selado com sete selos.
O rolo que Deus sustentava em suas mãos estava escrito sobre ambos os lados. Isto significa que seu conteúdo era extenso. Tinha sido necessário utilizar tanto a parte frontal como o verso! A história narrada neste rolo é longa e detalhada. O fato de estar escrito de ambos os lados sugere sua completude e irrevogabilidade. Deus tem em Sua mão direita um livro, cujo conteúdo são todos os decretos de Deus, as linhas gerais de todos os acontecimentos até o fim dos tempos (ERDMAN, 1960, p. 54-55).
2.1. O Significado do Livro Selado (Ap. 5:1)
2.1. O Significado do Livro Selado (Ap. 5:1)
Em relação ao significado desse rolo é interpretado de diversas formas. Para alguns, trata-se do decreto divino sobre a consumação da história. Outros entendem como a escritura da herança do Cordeiro (Salmos 2:8)[2], que somente Ele pode reivindicar.
(ERDMAN, 1960) menciona que esse rolo pode significar uma prática legal romana:
"Uma resolução, de acordo com o Testamento Pretoriano, na lei romana, trazia os sete selos das sete testemunhas nos fios que seguravam as tabuinhas ou o pergaminho. Esse testamento não podia ser executado até que todos os sete selos tivessem sido quebrados".
Outro entendimento remete ao costume judaico dos testamentos, que eram selados por sete selos, sendo sua abertura restrita ao herdeiro legítimo (BEALE, 1999, p. 339).
A melhor explicação para o livro é que ele é um testamento contendo o desfecho da história da redenção e do juízo divino. O Salmo 2:8 declara: "Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão". Em Hebreus 1:2, Cristo é descrito como "herdeiro de todas as coisas". Ele é o Parente-Resgatador (Lv 25:23-46; Rt 4:1-10), que pagou o preço da nossa redenção com Seu próprio sangue.
2.2. Quem é Digno de Abrir o Livro? (Ap. 5:2-4)
2.2. Quem é Digno de Abrir o Livro? (Ap. 5:2-4)
2 Vi, também, um anjo forte, que proclamava em grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos? 3 Ora, nem no céu, nem sobre a terra, nem debaixo da terra, ninguém podia abrir o livro, nem mesmo olhar para ele; 4 e eu chorava muito, porque ninguém foi achado digno de abrir o livro, nem mesmo de olhar para ele.
Nos versículos seguintes, João nos mostra a busca por alguém digno de abrir o livro. Aqui, João expressa sua angústia diante da aparente falta de um redentor. Seu choro demonstra a gravidade da situação: se o livro não for aberto, os planos de Deus para a redenção e juízo da terra não poderão se cumprir. No entanto, um dos anciãos lhe conforta com a notícia gloriosa:
Ap 5:5 Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos.
Aqui, temos duas designações messiânicas de Cristo:
2.2.1. O Leão da Tribo de Judá
2.2.1. O Leão da Tribo de Judá
Essa expressão remete à profecia de Gênesis 49:8-10, onde Jacó declara a Judá que a realeza pertence à sua descendência.
8 Judá, teus irmãos te louvarão; a tua mão estará sobre a cerviz de teus inimigos; os filhos de teu pai se inclinarão a ti. 9 Judá é leãozinho; da presa subiste, filho meu. Encurva-se e deita-se como leão e como leoa; quem o despertará? 10 O cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de entre seus pés, até que venha Siló; e a ele obedecerão os povos.
Se Judá for um “leãozinho” será justo chamar o descendente maior de sua estirpe "o Leão de Judá". É importante lembrar que este título foi um dos títulos messiânicos que se utilizavam na literatura intertestamentária.
2.2.2. A Raiz de Davi
2.2.2. A Raiz de Davi
Isaías 11:1, 10 apresenta o Messias como um rebento do tronco de Jessé e, ao mesmo tempo, como a raiz de Davi. Isso sugere que Cristo não apenas descende de Davi, mas é também sua origem. Jesus é tanto o descendente prometido de Davi como seu Senhor eterno, estabelecendo sua realeza sobre todas as nações.
2.3. O Cordeiro Imolado (Ap. 5:6)
2.3. O Cordeiro Imolado (Ap. 5:6)
6 Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto. Ele tinha sete chifres, bem como sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra.
Ao se virar para ver o Leão, João vê um Cordeiro: “6 Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto”
A aparente contradição entre Leão e Cordeiro enfatiza a dualidade do Messias: Ele conquista não pela força, mas pelo sacrifício. A figura do Cordeiro remete ao sacrifício pascal (Êx 12:5-7) e à profecia de Isaías 53:7 [3].
Os sete chifres simbolizam poder perfeito, e os sete olhos representam a onisciência de Cristo. O número sete reforça a plenitude de autoridade e conhecimento de Cristo, características essenciais para o cumprimento do juízo divino.
2.4. A Dignidade do Cordeiro para Abrir o Livro Selado (Ap. 5:7-9)
2.4. A Dignidade do Cordeiro para Abrir o Livro Selado (Ap. 5:7-9)
7 Veio, pois, e tomou o livro da mão direita daquele que estava sentado no trono; 8 e, quando tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um deles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos,
O versículo 7 constitui um marco central da visão celestial: o Cordeiro toma o livro da mão direita de Deus, Aquele que está assentado no trono. Este gesto não é meramente simbólico, mas tem valor jurídico-escatológico. O "livro" (βιβλίον) está selado com sete selos (Ap 5.1), e representa o decreto divino quanto ao desenrolar dos juízos e da consumação da história. Apenas alguém com autoridade intrínseca poderia acessar esse conteúdo, e o Cordeiro é declarado digno por sua obra redentora.
Teologicamente, o ato de “tomar o livro” implica um reconhecimento da prerrogativa messiânica de Cristo para executar o plano soberano de Deus. O Fato de Cristo “tomar o livro” é assumir o papel de executor do decreto divino. O verbo grego ἔλαβεν (eleben, “tomou”) está no aoristo, indicando uma ação pontual e decisiva, reforçando o aspecto solene do momento.
No versículo 8, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos — representando a totalidade da criação e o povo redimido, respectivamente — prostram-se diante do Cordeiro. A postura de prostração é uma linguagem cultual que, no contexto apocalíptico, indica adoração devida apenas a Deus (cf. Ap 19.10; 22.9). Logo, temos aqui uma declaração implícita da divindade de Cristo.
A harpa e as taças de ouro cheias de incenso representam, respectivamente, louvor e oração. O incenso é explicitamente identificado como as orações dos santos (cf. Sl 141.2). Isso demonstra a mediação celestial de Cristo no culto cósmico, onde a intercessão dos santos é parte integral do drama escatológico.
Neste momento podemos ver o papel sacerdotal de Cristo na consumação, pois Ele não apenas reina, mas também intercede como Cordeiro imolado.
O versículo 9 apresenta um cântico novo, conceito recorrente no Antigo Testamento ligado a atos salvíficos de Deus (cf. Sl 33.3; 96.1). Este cântico não é apenas uma composição nova, mas celebra uma nova realidade redentora. O conteúdo da canção declara que a dignidade do Cordeiro procede de sua morte vicária: “foste morto e com o teu sangue compraste para Deus...”
A linguagem de "compra" remete ao vocabulário da redenção (do gr. agorazō), comum no mundo escravocrata greco-romano, e teologicamente ligada ao conceito de substituição penal. O sangue do Cordeiro é o preço do resgate (cf. Mc 10.45; 1Pe 1.18-19).
A abrangência da obra redentora é enfatizada: “de toda tribo, língua, povo e nação” — uma expressão tetrádica que visa mostrar a universalidade étnica e cultural da salvação. Trata-se de uma antecipação da colheita escatológica e da unidade do povo de Deus em Cristo (cf. Ap 7.9). Este hino enfatiza a redenção universal operada por Cristo. Podemos ver o que evangelho do Cordeiro não está limitado a um grupo étnico específico; sua eficácia se estende a toda a humanidade redimida.
· Em Gênesis 22 o cordeiro substitui Isaque (Cristo oferecido para o indivíduo).
· Em Êxodo 12:3, na Páscoa, o cordeiro é oferecido para uma família.
· Em Isaías 53:8 diz que o Cordeiro foi morto por uma nação.
· Mas João 1:29 diz que o Cordeiro morreu para salvar os que procedem de todo o mundo.
2.5. Conclusão: O Que Não Podemos Esquecer
2.5. Conclusão: O Que Não Podemos Esquecer
· João é levado ao céu: A transição das "coisas que são" para as "coisas que hão de ser" marca o início das revelações futuras.
· A voz de trombeta: No contexto bíblico, trombetas são sinais de alerta e convocação solene (Êx 19:16; Jl 2:1).
· Toda glória e adoração a Cristo: O Cordeiro recebe louvor como Criador (Ap 4) e como Redentor (Ap 5).
· Deus está no controle da história: O livro selado mostra que tudo já está escrito e determinado pela soberania divina.
· Somente Cristo pode abrir o livro: Ele é o único digno por ser o Redentor e o Herdeiro legítimo do plano divino.
Dessa forma, Apocalipse 5 revela que a consumação da história está segura nas mãos do Cordeiro, que venceu pelo Seu sacrifício. O Cordeiro imolado é também o Leão conquistador. A cruz foi a sua vitória e, por ela, Ele governa soberanamente todas as coisas.
[1] Lembrando que as 7 igrejas representam toda a igreja durante toda a dispensação cristã.
[2] Sl 2:8 Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão.
[3] Is 53:7 Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca.
