O DOLOROSO PREÇO DA DESOBEDIÊNCIA (Parte 2)1 Samuel 14
Deus usa de meios para revelar o coração do homem, até o limite de revelar se ele está completamente rendido ou não.
Sabemos que Jônatas foi um pecador, mas na sua descrição bíblica vemos um modelo brilhante de virilidade cristã, amizade fiel e serviço dedicado à causa do Senhor.
David Jobling escreve: “Sua própria glória real tendo partido, onde mais esperaríamos que Saul estivesse senão com um parente do ‘foi-se a glória’?” Tendo substituído o conselho dinâmico de Samuel pelo degradante conselho da casa de Eli, Saul perdeu o rumo e é capaz de fazer pouco mais do que agarrar-se a fragmentos da sua credibilidade perdida.
“Enquanto Saul, o comandante, publicamente desonrava o Senhor por meio de sua desobediência inspiradora de medo, Jônatas, o guerreiro, honrava o Senhor por meio de sua fé destemida.”
Lembrando-se dos exemplos dos juízes e concentrando sua fé no poder soberano de Deus, Jônatas resolveu tornar-se disponível para ser usado pelo Senhor. Sem dúvida, ele estava consciente da desmoralização do exército israelita, e partiu para ver se o Senhor o usaria para mudar a situação.
Deus não estava falando com Saul, e os rituais sacerdotais estavam demorando demais. Pelos padrões bíblicos, essa interrupção nos procedimentos divinamente ordenados deu mais uma prova da incompetência espiritual de Saul. Gordon Keddie põe o dedo na ferida: “Saul nos dá a impressão de que sabia que devia ser ‘religioso’ e observar certas convenções nos momentos apropriados, mas realmente não tinha convicções pessoais profundas. Ele usava a religião, em vez de ter uma vida de fé pessoal no Senhor”. Há um contraste muito grande entre a religião de Saul e a fé ousada de Jônatas.
Jônatas respondeu imparcialmente: “Meu pai turbou a terra” (
Matthew Henry ridiculariza o juramento de Saul como imprudente, “pois, se ganhou tempo, perdeu força”; despótico, pois “proibi-los de se banquetearem seria elogiável, mas proibi-los até de comer, mesmo estando tão famintos, foi bárbaro”; e ímpio “por reforçar a proibição com uma maldição e um juramento. Não teria ele uma punição menor que um anátema para sustentar sua disciplina militar?”. Foi por causa do juramento insensato de Saul que “estavam os homens de Israel angustiados naquele dia” (
Como o sangue era um símbolo de vida, os israelitas não podiam comer carnes cujo sangue ainda não tivesse sido drenado (normalmente isso era feito pendurando-se a carne; veja
Henry faz o sábio comentário de que “Saul estava se afastando de Deus; no entanto, começou a construir altares, sendo mais zeloso (como muitos) pela forma da piedade quando nega o poder dela”. Em todas essas ações, Saul não mostrou sinal de arrependimento a Deus, tristeza pelo seu pecado ou zelo real em honrar o Senhor. “Ele sente apenas que seus próprios interesses como rei estão em perigo. É esse motivo egoísta que o faz decidir ser mais religioso.”
É possível que Saul tivesse o coração tão duro a ponto de se recusar a reconhecer a si mesmo como a fonte do desfavor de Deus? Mais provavelmente, como suas ações sugerem, Saul estava simplesmente cego quanto à sua verdadeira condição espiritual. É irônico e tragicamente insensato o rei buscar identificar o pecado que havia afastado o Senhor, enquanto recusa-se a tratar da condenação de Deus ao seu próprio pecado.
Sem a presença de Deus, o Urim e Tumim simplesmente não eram capazes de funcionar adequadamente. A escolha de Jônatas por sortes para juízo – quando, na verdade, Jônatas havia sido o único homem fiel naquele dia – só prova a vaidade da prática religiosa sem a aprovação da presença de Deus. Blaikie comenta que até mesmo “Saul deveria ter visto isso. E ele deveria ter confessado que estava totalmente errado. De maneira honesta e solidária, deveria ter assumido a responsabilidade e imediatamente isentado seu nobre filho”. Contudo, essa atitude exigia uma qualidade de caráter e uma piedade que Saul não possuía.
A credibilidade de Saul, agora, estava totalmente despedaçada – uma realização notável para um rei num dia em que o Senhor havia concedido tão grande vitória sobre seus inimigos – com o efeito de que a perseguição ficou pela metade: “Saul deixou de perseguir os filisteus; e estes se foram para a sua terra” (14.46). Os filisteus sobreviveriam para lutar novamente, e Saul nunca teria novamente tão grande oportunidade de defender seu povo.
A diferença entre o Saul pecador e o Davi pecador, que o sucederá como rei, é a mesma diferença que há entre Judas, o discípulo apóstata, e o apóstolo pecador Pedro, ambos os quais traíram Jesus na noite da sua prisão. A diferença entre Davi e Pedro, de um lado, e Saul e Judas, do outro, é a humildade que se arrepende do pecado e busca a misericórdia e a graça do Senhor. A grande oração de arrependimento feita por Davi começa com um fervoroso pedido de misericórdia e uma fé confiante na oferta de perdão feita por Deus por meio do sangue sacrificial: “Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; e, segundo a multidão das tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões. Lava-me completamente da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado” (
Essa é uma lição que se aplica a todo pecador cercado pela insensatez do seu pecado. Não pense que Deus pode ser comprado com boas obras, formalismo religioso ou pagamentos em dinheiro. Deus requer que cada pecador confesse seu pecado e recorra ao sangue do Salvador a quem ele enviou, Jesus Cristo. Ele promete: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (
