A família no Senhor - 3

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Cl 3.22-4.1

Introdução:
Nas duas últimas mensagens, vimos a questão do comportamento familiar dentro da esfera de ação “no Senhor”. É interessante perceber o quanto o cristianismo influenciou o comportamento social — e isso ainda hoje causa grande impacto. Se a vida passou a ser mais valorizada, deve-se muito à concepção cristã que norteou o mundo desde o primeiro século.
O modo como o líder familiar se porta diante de sua casa foi moldado pelo caráter de Cristo. Esposa e filhos passaram a ter uma dignidade que antes não era comum. Agora, são vistos como pessoas de igual valor e, igualmente, banhadas pelo precioso sangue de Cristo.
Essa dimensão, que se iniciou com Cristo, trouxe mudanças significativas — não apenas para os que partilham de um laço matrimonial ou sanguíneo, mas até mesmo sobre os “pertences” das pessoas, como eram vistos os escravos. O cristianismo trouxe outro olhar. Agora, em Cristo, eles também participam da família da fé. Isso não deve torná-los mais relaxados, mas tanto um quanto o outro devem agir “em Cristo”.
Desse modo, podemos entender o seguinte: dignidade e sinceridade cristã devem ser as marcas entre patrão e servo. Notaremos isso no texto.
Desenvolvimento:
Irmãos, como citei na primeira mensagem, não devemos achar estranho haver a menção aos escravos nesta parte relacionada à família. Eles, apesar de não terem parentesco como os demais, acabavam não apenas sendo adquiridos como propriedade, mas também se tornavam parte da família.
Um certo autor nos ajuda a entender melhor esse contexto:
“Os escravos eram considerados parte da família, mas também eram propriedade do senhor e, nesse sentido, parte de seus bens domésticos. Havia basicamente três tipos de escravos, correspondentes ao local onde trabalhavam: no campo, na casa ou nas propriedades comerciais do senhor. Os trabalhadores do campo costumavam ser prisioneiros de guerra; de modo geral, eram analfabetos. Outros escravos desempenhavam tarefas valiosas e, muitas vezes, haviam recebido educação formal e eram instruídos.”
Esses escravos, inclusive, podiam até se tornar herdeiros de uma família, como teria acontecido se Isaque não fosse gerado. Logo, não deve nos parecer estranho sua presença nesse contexto.
Outro ponto que podemos considerar é o seguinte: não podemos aplicar exatamente o mesmo contexto descrito aqui, mas podemos extrair princípios que nos guiem no nosso comportamento no ambiente de trabalho. Por que dizemos isso? Porque o texto trata de escravos, não de trabalhadores contratados por concurso ou meios semelhantes.
É necessário, portanto, notar os princípios eternos deixados aqui por Paulo.
Verso 22
Vemos mais uma vez a menção ao “obedecer em tudo”. Creio que não precisamos mais explicar essa expressão — os irmãos já entendem que ela se refere à atitude “no Senhor”.
Portanto, qualquer atitude que vá contra a Palavra do Senhor não deve ser seguida.
Note também que, apesar de pertencerem ao Senhor, Paulo não incentiva os escravos a se revoltarem contra seus patrões.
Ele não promove o desrespeito — ao contrário, o apóstolo ensina aos servos que não deve ser necessária a vigilância para que realizem seu trabalho.
Aplicando aos nossos dias: não é necessário que nós, cristãos, sejamos motivados a trabalhar apenas porque há uma câmera nos vigiando, ou porque alguma medida de controle foi tomada por estarmos sendo relaxados.
Isso, segundo o texto, é ser movido por um tipo de pressão — “agradar aos homens” — que foge da verdadeira compreensão cristã de realizar o trabalho por temor a Deus.
A ideia de temer ao Senhor indica que o ato de trabalhar deve ser motivado por reverência, não por medo de perder o emprego ou de desagradar o patrão.
No fim das contas, “tudo o que fizerdes” deve ser feito ao Senhor, mesmo quando somos remunerados por isso.
Paulo adverte que nossas ações não devem ser motivadas pela vigilância externa, nem pelo desejo de agradar às pessoas, mas pela sinceridade que brota de um coração que vive “no Senhor”.
Que sejamos motivados pelo fato de estarmos diante de Deus — princípio reformado do século XVI — e não por temermos a desaprovação dos homens.
Verso 23-25
Note que Paulo, mais uma vez, retoma a mesma ideia do verso 17. Essa repetição traz, para cada um de nós, a percepção correta que deve nos motivar em nossos afazeres.
O nosso supremo “Patrão” é o Senhor. Por isso, nossas atitudes não devem ser geradas pelo desejo de receber um “aumento do chefe” ou um elogio dele.
Irmãos, todas as nossas ações são motivadas pelo desejo de agradar ao Senhor. Isso fica claro no verso 23: o “fazei-o de todo o coração” apenas reflete que a nossa devoção sincera ao Senhor também se manifesta em nossas ações enquanto cidadãos, empregados e em tudo o mais que fazemos.
Não é possível — e que nenhum irmão saia daqui com esse pensamento — fazer separação entre nossa vida na igreja e a vida social.
Não dá! Esse é um ponto chave no texto. O “tudo o que fizerdes” não permite a separação, mas, sim, nos dá a responsabilidade de ter uma visão mais ampla e integrada da vida cristã.
No fim das contas, a recompensa principal que esperamos é aquilo que receberemos do Senhor, e não os possíveis tesouros desta terra.
Pois, se fosse o contrário, por que deveríamos ter temor de fazer o que é errado? Por que seguiríamos o princípio de agir “no Senhor”? Na verdade, não haveria necessidade de freios morais, já que o nosso “tesouro” estaria aqui.
Mas é a Cristo que servimos, e é a Ele que buscamos agradar. Talvez tentemos justificar o descuido com nosso trabalho, e a principal desculpa é a má remuneração.
Irmãos, se havia pessoas que poderiam se apegar a essa justificativa, eram os escravos do primeiro século! Percebam que dignidade não era algo que eles tinham — isso começou com a perspectiva cristã sobre a vida.
Você se sente desmotivado a dar seu melhor no seu emprego? Pense neles. Será que eles também não se sentiam assim?
Lembre-se de que Paulo não está citando apenas o cenário entre patrão e empregado cristãos. Mesmo que uma das partes não fosse crente, isso não anulava a responsabilidade do cristão de entregar o seu melhor.
Os escravos, muitas vezes, eram vítimas de injustiça, mas Paulo não os motiva à retribuição. Lembrem-se do Salmo 120 — e essa ideia também é aludida por Paulo aqui: as pessoas que se portam como espertas e causam injustiça aos necessitados não passarão impunes diante de Deus.
O Senhor não agirá com favoritismo com ninguém. Diante dEle, todos são igualmente responsáveis e culpados por seus erros e desleixos.
Se o empregado não entrega o seu melhor, não está apenas desonrando seu trabalho, mas também desonrando seu papel diante do Senhor. E, se um patrão usa sua posição para maltratar ou humilhar seu empregado, Deus lhe pedirá contas.
Lembre-se de Tiago 2.1: “Meus irmãos, como crentes em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, não façam diferença entre as pessoas, tratando-as com parcialidade.”
Nosso impulso natural deve ser honrar ao Senhor — não a condição financeira de ninguém, nem os favores que os homens podem nos dar. Servimos a Cristo, e trabalhamos para Cristo!
Verso 4.1
Por fim, Paulo agora lida diretamente com os senhores. Seu papel não é, a qualquer preço, ter sua vontade feita, e sob qualquer custo — isso levaria ao ponto de humilhar as pessoas que estão em uma condição inferior.
Isso ainda acontece hoje? Sim! Quantos patrões não se aproveitam da dificuldade que é arrumar um emprego para humilhar as pessoas sob sua liderança?
Porém, é uma justificativa válida saber que o empregado não vai largar o emprego para tratá-lo como quiser? Não!
Na estrutura expansiva do “no Senhor”, o que deve encher a terra é o princípio da igualdade diante de Deus. Por isso, Paulo adverte aos senhores que não usem sua posição para humilhar alguém.
Esse comportamento fere a conduta prescrita “no Senhor”. Não está correto utilizar sua condição superior para “olhar por cima” das pessoas e vê-las como objetos de pouco valor.
O que Paulo enfatiza aqui é um tratamento justo e digno. Não é correto um crente utilizar a necessidade do outro para roubar seu valor humano e tratá-lo como uma coisa.
O ponto final do texto serve como alerta: se esse comportamento for praticado por um cristão, não se esqueçavocê tem um Deus no céu que está reprovando sua atitude!
O “tudo o que fizerdes” é amplo e não dá desculpas, mas impõe responsabilidade sobre quem você é e como se porta na sociedade. Nenhum rico é superior. Nada pode nos tornar melhores que alguém.
No fim das contas, todos tomarão o rumo ao pó, como é ensinado em Tiago 1.9–10. Todos estaremos de pé diante de Deus. Por que, então, achar algum tipo de superioridade por causa de algo que temos aqui?
Todos estavam mortos em seus pecados. Logo, diante de Deus, ninguém é melhor do que ninguém!
Conclusão:
O que nos guia é a compreensão de que somos motivados pela revolução que o evangelho traz à vida das pessoas. Somos valorizados porque reconhecemos que Deus viveu entre nós e se entregou em nosso lugar.
Essa compreensão nos permite imaginar e viver uma realidade que, embora ainda não plena, pode ser experimentada em pequenas porções aqui e agora. Nosso desejo não é conquistar pessoas para obter algo em troca, mas que o próprio evangelho as alcance, promovendo uma mudança profunda na visão equivocada sobre o valor humano que muitos têm ou tiveram.
Não existem pessoas inferiores ou superiores; todos são iguais perante Deus. Por isso, as estruturas sociais devem ser vistas como temporárias — apenas o Reino de Deus é eterno, e nele a injustiça terá fim.
Portanto, o caminho para cada um de nós é agir com justiça para com todos, sem parcialidade ou distinção!
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