Olhando onde pisa
Livro de Colossenses • Sermon • Submitted • Presented
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Cl 4.2-6
Cl 4.2-6
Introdução:
Chegamos às últimas instruções do apóstolo Paulo aos irmãos em Colossos. Ao longo desta carta, ele exaltou a centralidade de Cristo como chave essencial para compreendermos a fé cristã e a superioridade de Jesus em relação a qualquer crença ou filosofia de seu tempo. Essa verdade continua sendo o nosso norte.
Neste encerramento, Paulo nos apresenta algumas áreas práticas da vida cristã que ainda merecem atenção. Ele destaca a importância da oração e do modo como nos relacionamos com os que estão fora da fé — e isso não é por acaso.
Para nós hoje, o alerta continua atual: se negligenciarmos esses aspectos, nossa vida espiritual pode afundar sem que percebamos.
Diante disso, ao observarmos com atenção esse trecho final, aprendemos uma lição clara: nossa oração deve ter como propósito abençoar os outros. Vamos ver como isso é apresentado no texto.
Desenvolvimento:
A oração aparece como o primeiro destaque nessa chamada final de Paulo. Ele enfatiza a necessidade de constância na oração, algo que temos refletido juntos às quartas-feiras.
Para o cristão, a oração não é uma opção descartável, mas uma disciplina indispensável. É por meio dela que nos aproximamos do Senhor e mantemos viva nossa comunhão com Ele.
Paulo não trata a oração como um recurso emergencial, mas como um hábito constante, uma prática que molda nossa caminhada e nos mantém sensíveis à vontade de Deus. Por isso, devemos cultivá-la com zelo, sabendo que ela não apenas nos edifica, mas também abençoa outros, como veremos no restante da passagem.
Verso 2-4
Assim como é colocado no texto, recebemos uma ordem clara: perseverar na oração. Esse chamado deve nos impulsionar a cultivar o hábito de orar constantemente, sem desânimo.
Paulo nos encoraja a não desistir, a continuar orando mesmo quando achamos que as circunstâncias nos impedem ou desmotivam.
Note ainda o progresso no ensino: ao dizer “vigiando”, ele indica que a oração não deve ser feita de forma desatenta ou automática. Já aprendemos que a oração precisa envolver o coração — mas também deve ser consciente das realidades ao nosso redor.
Orar sem observar as necessidades dos irmãos é, na prática, ignorar seu sofrimento. E isso revela um coração insensível.
Por isso, Paulo nos chama a ter os olhos abertos, discernindo as situações e refletindo com cuidado sobre aquilo que colocamos diante de Deus.
E, como de costume em sua carta, tudo isso deve vir acompanhado de ações de graças. Não podemos perder de vista a bondade do Senhor, que tem nos sustentado — a nós e aos que estão ao nosso redor.
No verso 3, Paulo apresenta um pedido específico que acompanha diretamente a ordem anterior. Se os irmãos estavam atentos ao que ele vinha ensinando sobre a oração, deveriam agora colocar isso em prática intercedendo por ele.
Mesmo preso, Paulo não pede para ser libertado, mas para que a Palavra continue sendo proclamada sem impedimentos.
Isso nos ensina algo profundo: não podemos permitir que nossos problemas se tornem barreiras à missão principal que recebemos — pregar o evangelho.
Essa sensibilidade missionária precisa habitar o nosso coração. Não oramos apenas por conforto ou soluções pessoais, mas para que Deus nos ajude a cumprir com fidelidade o chamado que temos, ainda que em meio a dificuldades.
E sabemos, pela carta aos Filipenses, que esse pedido foi atendido. Como está escrito em Filipenses 1.12: “Quero que saibam, irmãos, que aquilo que me aconteceu tem, ao contrário, servido para o progresso do evangelho.”
Ou seja, Paulo não só recebeu o que pediu, mas aproveitou a oportunidade aberta por Deus, fruto das orações da igreja.
Aqui há mais uma lição para nós: não basta pedir — precisamos reconhecer quando Deus responde e agir com zelo diante disso.
Seria um erro clamar para que Deus traga pessoas à congregação e, quando isso acontecer, tratá-las com frieza ou indiferença.
A resposta de Deus deve nos despertar à responsabilidade: transmitir com amor o evangelho àqueles que Ele mesmo está trazendo até nós.
O “mistério de Cristo”, mencionado por Paulo, refere-se à própria pessoa e obra de Jesus, o conteúdo do evangelho que ele tinha a responsabilidade de anunciar. Foi justamente por causa dessa pregação que Paulo estava preso.
Talvez alguém pensasse que isso seria motivo suficiente para ele parar. Afinal, se pregar o evangelho levou à prisão, não seria melhor se calar? Mas não é isso que Paulo faz.
Ele pede que sua missão não seja interrompida, que continue tendo oportunidades para anunciar a Palavra, mesmo em meio às correntes.
Paulo sabia que havia recebido do próprio Senhor a missão de proclamar o evangelho aos gentios — por isso é chamado de “apóstolo dos gentios”. E, em cada lugar por onde passou, ele foi fiel a essa responsabilidade.
A atitude de Paulo nos leva a uma pergunta direta: temos cumprido a nossa responsabilidade? Ou temos nos calado, com medo, vergonha ou por causa de um testemunho incoerente?
Muitos se calam não apenas por medo da rejeição, mas porque sabem que suas ações não condizem com a mensagem que deveriam anunciar.
Paulo viveu o evangelho com tal intensidade que foi preso por não se desviar do seu chamado.
E o que ele pede no verso 4 nos desafia ainda mais: ele não pede apenas por novas oportunidades, mas para que pregue como convém, ou seja, com ousadia, clareza e fidelidade, do mesmo modo como vinha fazendo.
Ele não está pedindo para evitar a prisão ou a morte — está pedindo para não retroceder, para não mudar nem suavizar a mensagem, mesmo que isso custe mais do que já custou.
Esse é o coração do evangelho: se vivemos por ele, também devemos estar dispostos a morrer por ele. Pois essa é a nossa vida, e é para isso que estamos aqui.
Verso 5-6
Com isso em mente, Paulo prossegue e nos leva a refletir sobre algo que já abordamos: as oportunidades que temos com os que são de fora — isto é, aqueles que ainda não conhecem a Cristo.
Aqui, a sabedoria nas palavras e no comportamento se torna essencial. Paulo entende bem o poder que o testemunho tem na pregação do evangelho.
O verbo “portai-vos” transmite essa ideia: o modo de viver dos colossenses já era uma porta aberta para o evangelho.
Por isso, eles deveriam se portar com sabedoria. E essa sabedoria não é qualquer uma — é a sabedoria bíblica, que se expressa com graça, discernimento e verdade.
Assim como deviam se relacionar corretamente com os de dentro da igreja, deveriam também se portar com clareza e dignidade diante dos de fora.
Vivemos muitas vezes no “modo automático”, repetindo rotinas sem perceber as oportunidades que Deus coloca diante de nós.
Imagino quantas vezes os irmãos de Colossos foram zombados por sua fé, talvez chamados de “ateus” por rejeitarem os ídolos de sua época — e mesmo assim, respondiam com sabedoria e mansidão.
Douglas Moo comenta bem: “Os cristãos colossenses, embora resistindo ao tipo errado de influência externa, ainda assim precisam permanecer engajados com seus conterrâneos e tentar ganhá-los para Cristo.”
Podemos pensar que podemos escolher as oportunidades e deixar algumas passar. Afinal, “se portar” e “aproveitar” parecem atitudes distintas. Mas o texto ensina o contrário: as duas andam juntas.
O simples fato de viver como um cristão verdadeiro já é uma oportunidade missionária que deve ser aproveitada.
Muitas vezes achamos que serão atos extraordinários que impactarão os descrentes. Mas é o modo constante e fiel de viver o evangelho que, dia após dia, planta sementes nos corações.
Isso se conecta com Efésios 5.16: “remindo o tempo, porque os dias são maus.” A ideia é viver de forma sábia, não desperdiçando as oportunidades.
Não fomos chamados para ser cristãos secretos, mas luz visível no mundo. Se desejamos multiplicar a fé, devemos ver o mundo como um campo a ser semeado — e lembrar que esse mesmo mundo pode enfraquecer nossas raízes se dermos brechas.
“Todas as vezes que você se porta com sabedoria, está aproveitando a oportunidade.”
Além do comportamento, as palavras também devem ser cuidadosas. O verso 6 termina com um conselho claro: “a vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal”.
Vivemos dias em que palavras são lançadas ao vento, sem filtro, sem sabedoria — tanto nas conversas quanto nas músicas, redes sociais e discursos.
Mas não é “penso, logo, falo” — é: “com sabedoria, eu escolho o que direi”. A expressão “seja sempre” indica que o cuidado com as palavras deve ser constante. Elas precisam refletir a mesma sabedoria do comportamento.
Se não for assim, o nosso testemunho se contradiz. Como evangelizar alguém que nos conhece e já foi ferido por palavras duras ou irônicas que dissemos?
Ele poderá retrucar: “Agora vem pagar de santinho, mas eu conheço você”. Assim, a porta que estava aberta se fecha, não porque o evangelho perdeu o poder, mas porque não vivemos à altura dele.
Por isso Paulo usa a expressão “temperada com sal”, ecoando Mateus 5.13: “Vós sois o sal da terra”.
A imagem aqui é de algo saboroso, desejável — como uma comida bem temperada que atrai quem prova. É assim que nossas palavras devem ser: verdadeiras, cuidadosas, e cheias de graça.
Mesmo que não tenhamos o português mais acadêmico, devemos ser aqueles que sabem escolher bem suas palavras, porque sabemos que o evangelho passa também pela boca — e pelo coração — de quem o anuncia.
Conclusão:
Oração e prudência, como destacam os títulos de muitas versões bíblicas, devem acompanhar cada um de nós com sinceridade e zelo pelo evangelho.
Se falhamos nessa missão, corremos o risco de fechar portas que o próprio Deus abriu, contradizendo nossas orações para que mais pessoas conheçam a verdade. Quando agimos sem sabedoria ou coerência, erramos o alvo — demonstramos que não entendemos o que pedimos nem vivemos condizentes com o que cremos.
Que o Senhor nos ajude a viver com integridade, zelo e amor pela Sua Palavra, e que em cada atitude e palavra, sejamos instrumentos fiéis para o avanço do evangelho — todos os dias da nossa vida.
