O Rei e a cegueira espiritual (Marcos 8.1-13)
O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos • Sermon • Submitted • Presented
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O Rei e a cegueira espiritual (Marcos 8.1-13)
Introdução
Introdução
Nesta nossa jornada pelo Evangelho de Marcos, na série "O Rei que se tornou Servo", temos sido convidados a um entendimento mais profundo de quem é Jesus e como é o Seu reino. Vimos no capítulo 7 como Jesus confrontou a religiosidade vazia e a hipocrisia dos líderes religiosos, revelando que a verdadeira impureza reside no coração. Em nosso último texto, Jesus foi até localidades gentias fora dos limites de Israel, onde encontrou entendimento e fé que não achou nem mesmo entre Seus conterrâneos e os líderes religiosos em Israel. Vimos Jesus diante de uma mãe gentia que, com base no caráter e no poder de Cristo, sustentou sua fé, certa de que as menores fagulhas de Sua graça seriam mais do que suficientes para suas necessidades. Nisso, Marcos nos abriu os olhos para a realidade redentiva de Jesus a todos os povos, conforme profetizado no Antigo Testamento. Vimos ainda Cristo curar um homem surdo e com dificuldade de fala, apontando não somente para o aspecto da redenção internacional, mas para a realidade da nova criação. Jesus, o Messias, não veio trazer cura e salvação apenas como atos pontuais ou desordenados, mas como parte do plano divino de iniciar uma nova criação em Seu povo e em toda a criação. E Cristo é o autor dessa nova criação.
Agora, em Marcos 8.1-13, somos trazidos novamente ao tema do poder divino de Cristo e, infelizmente, à resposta de incredulidade dos discípulos e dos fariseus. Estamos diante da segunda multiplicação dos pães e peixes, mas parece que os discípulos se esqueceram da primeira. E os fariseus, por sua vez, agem como se nenhuma tivesse ocorrido, pedindo ainda um sinal.
A perícope que vamos estudar hoje nos força a questionar:
Como podemos ser tão cegos para a manifestação do poder e da identidade de Jesus, mesmo diante de evidências claras, especialmente quando nossos corações parecem não enxergar Deus agindo?
Qual a nossa resposta diante dos desafios da vida, mesmo quando estamos ao lado de Cristo?
Por que nos preocupamos tanto com a provisão material a ponto de esquecer a natureza de quem nos provê?
Qual o perigo da incredulidade e da cegueira espiritual, especialmente para aqueles que deveriam ver e entender?
Exposição
Exposição
Marcos 8.1-13 pode ser naturalmente dividido em dois momentos principais, que se complementam para ilustrar a tensão entre a abundância da provisão de Jesus e a persistente falta de percepção humana.
1. A Compaixão e a Provisão Abundante de Jesus (Marcos 8.1-10)
1. A Compaixão e a Provisão Abundante de Jesus (Marcos 8.1-10)
1.1. A Situação de Necessidade e a Compaixão Proativa de Jesus (vs. 1-3):
1.1. A Situação de Necessidade e a Compaixão Proativa de Jesus (vs. 1-3):
Marcos nos situa em um contexto de grande multidão (quatro mil homens, sem contar mulheres e crianças), indicando uma vasta necessidade. Ao se compadecer [relacionamento afetivo] delas, Jesus demonstra uma preocupação genuína e proativa, observando que estavam sem comer há três dias e que, se os mandasse para casa famintos, desmaiariam no caminho. Uma distinção importante aqui, em relação à primeira multiplicação, é que naquela ocasião Jesus primeiramente forneceu ensino e somente depois, quando o tempo se estendeu, multiplicou pães e peixes. Aqui, Jesus já vinha ensinando aquela multidão há três dias, e é provável que seus recursos já estivessem exauridos, tornando a volta para casa extremamente difícil. Jesus permitiu que o tempo passasse e a situação ficasse próxima de um momento crítico, e então interveio com Sua milagrosa providência.
1.2. A Perplexidade e o Questionamento Recorrente dos Discípulos (v. 4):
1.2. A Perplexidade e o Questionamento Recorrente dos Discípulos (v. 4):
Surpreendentemente, apesar de terem presenciado e participado da alimentação dos 5.000 há pouco tempo, os discípulos perguntam, intrigados: "Onde alguém poderia conseguir pão suficiente para alimentar tanta gente neste lugar deserto?" Essa pergunta revela uma notável falta de memória espiritual e uma perplexidade que beira a incredulidade. Eles viram a provisão milagrosa antes, mas agora, diante de uma situação semelhante, parecem ter esquecido o poder ilimitado de Jesus. É como se o milagre anterior não tivesse solidificado Sua identidade em suas mentes. Como Robert H. Stein sugere ao abordar a pergunta "Por que os discípulos simplesmente não se lembraram?", isso nos faz refletir sobre a amnésia espiritual e a importância de sempre lembrar as bênçãos de Deus. Sua pergunta revela uma falta de compreensão contínua do poder ilimitado e da identidade de Jesus. Aqui, a cegueira espiritual dos discípulos já começa a se manifestar.
1.3. A Ação e a Provisão Milagrosa e Abundante (vs. 5-10):
1.3. A Ação e a Provisão Milagrosa e Abundante (vs. 5-10):
Jesus não repreende imediatamente a falta de fé dos discípulos, mas os direciona para a solução presente: "Quantos pães vocês têm?". Eles respondem: "Sete". Também tinham alguns peixes pequenos. Jesus comanda a multidão a sentar-se, toma os pães, dá graças, parte-os e os distribui, e o mesmo ocorre com os peixes [semelhança com a Última Ceia]. O milagre da abundância se repete: todos comem "até se fartar". Além disso, são recolhidos sete cestos cheios de pedaços restantes. Isso demonstra não apenas a capacidade de Jesus de suprir, mas a Sua generosidade transbordante.
As sete cestos, um número diferente das doze cestas na alimentação dos 5.000, podem simbolizar uma provisão para as nações (o que se alinha com a direção gentílica do ministério de Jesus observada no capítulo 7 e as profecias de Isaías sobre a salvação para os gentios).
O fato de sobrar mostra a superabundância da provisão de Cristo. J.C. Ryle argumenta que a repetição do milagre serve para "parar a boca de todos os que não são deliberadamente cegos" ao poder de Cristo. Jesus demonstra novamente Sua capacidade de prover para necessidades massivas com recursos limitados, destacando Sua soberania e suficiência.
Após o milagre, Jesus e os discípulos entram no barco e vão para a região de Dalmanuta (v. 10).
2. A Incredulidade e a Cegueira Espiritual dos Fariseus (Marcos 8.11-13)
2. A Incredulidade e a Cegueira Espiritual dos Fariseus (Marcos 8.11-13)
A incredulidade dos discípulos, que vimos na primeira parte, dá lugar à incredulidade obstinada dos fariseus. Eles se aproximam de Jesus, buscando um "sinal do céu".
2.1. O Pedido Cínico de um Sinal (v. 11):
2.1. O Pedido Cínico de um Sinal (v. 11):
Os fariseus chegam e começam a "discutir" ou "argumentar" com Jesus de forma hostil [disputar/brigar]. Entender isso é importante, pois “provar” um profeta não era algo problemático (Jz 6.36-40; 2Rs 20.8-11; Is 7.10-12), mas eles vinham fazer isso sem interesse em Cristo. Eles pedem um "sinal do céu", um sinal milagroso evidente, para "testar" Jesus. O pedido é notavelmente absurdo e cínico. Eles ignoram os inúmeros milagres já realizados por Jesus (curas, exorcismos, controle da natureza, e as duas alimentações milagrosas de multidões) e exigem um sinal espetacular vindo do céu [apocalíptico], como se Jesus ainda precisasse provar-se. Esse pedido de "mais um" sinal, em vez de ser um anseio por confirmação, é um desafio, uma tentativa de testar e descreditar Jesus. J.C. Ryle pontua que eles não pediam por fé, mas por incredulidade (ex.: a explicação do testemunho da ressureição como um ‘delírio coletivo’).
2.2. A Resposta de Jesus: Indignação e Recusa Definitiva (v. 12-13):
2.2. A Resposta de Jesus: Indignação e Recusa Definitiva (v. 12-13):
Essa incredulidade profunda e deliberada arranca um "suspiro profundo em seu espírito" de Jesus. Esse suspiro expressa Sua dor, tristeza e [principalmente] indignação pela dureza de coração e pela cegueira espiritual. Ele chega ao limite da sua paciência. Ele lamenta a incredulidade obstinada que Seus adversários demonstram. Ele responde: "Por que esta geração pede um sinal? Em verdade lhes digo que a esta geração não será dado sinal algum." Jesus recusa-se a performar para a incredulidade teimosa. Ele não Se submeterá aos termos de quem deliberadamente se recusa a ver a verdade. Como D.A. Carson frequentemente destaca, o problema deles não era a falta de evidências, mas a falta de vontade em reconhecê-las, uma questão moral e espiritual, não intelectual. Se eles não viam os inúmeros sinais já realizados, nenhum outro seria suficiente. Eles estavam cegos não por falta de luz, mas por recusarem a luz. Jesus não dará mais sinal para provar-se à incredulidade obstinada, pois o problema não é a evidência, mas a vontade de crer.
Jesus os deixa, entra novamente no barco e parte para o outro lado. Essa partida é um ato de rejeição à obstinação deles. Ele não perde tempo com aqueles que se recusam deliberadamente a ver a verdade que já foi abundantemente manifesta.
Aplicações
Aplicações
Aqui estão 4 lições cruciais que podemos extrair deste texto para nossa vida hoje:
Cultive uma memória dos feitos de Deus. Guarde a frase "A lentidão, não a dúvida, é o inimigo mais forte da fé, assim como a indiferença, não o ódio, é o inimigo mais forte do amor" de Peter Kreeft (citado por Keller). Jesus reage aos necessitados com compaixão genuína, e Sua provisão é sempre superabundante. Ele não espera ser solicitado, mas proativamente supre. No entanto, o texto expõe a fragilidade da nossa memória espiritual. Como os discípulos, podemos facilmente esquecer as grandes obras de Deus em nossas vidas e na história. Diante de novas dificuldades, a pergunta "Quem poderá atender aquela multidão?" ressurge, revelando nossa amnésia espiritual. Como sugere Robert H. Stein, precisamos cultivar a memória dos feitos de Deus para fortalecer nossa fé em Sua provisão contínua e em Quem Ele É (identidade). Como você tem lembrado e registrado o que Deus já fez em sua vida e na vida de sua igreja, para que a lentidão não se torne um inimigo da sua fé?
A Incredulidade Não nos Permite Ver Jesus do Tamanho Certo: Às vezes, a incredulidade não apenas afeta nossa memória dos feitos de Deus, mas distorce a maneira como vemos Jesus diante das nossas dificuldades. Pense comigo: Jesus já havia multiplicado pães e peixes antes. Ele já fizera tantas coisas que ninguém mais poderia fazer. Mas, na cabeça dos discípulos, o que se passava era: "Quem poderá atender aquela multidão?". A falta de entendimento não lhes permitia ter a dimensão adequada do poder e da pessoa de Jesus. Da mesma forma, a incredulidade faz com que os sinais nunca sejam o bastante. Invertendo a colocação anterior: Jesus já fez tanta coisa, inclusive já multiplicou pães e peixes novamente aqui. Não deveria haver dúvida de que o mesmo Cristo que outrora supriu, supriria novamente. Mas "enganoso é o coração". Será que nós mesmos, diante de situações semelhantes a outras em que Jesus já se mostrou providente, agora nos encontramos duvidosos?
A Incredulidade tira Gemidos de Incredulidade de Jesus. Os fariseus tinham todas as evidências do poder de Jesus, mas seu coração endurecido os impedia de ver. Eles queriam um "sinal do céu" que se encaixasse em suas próprias expectativas, ignorando os inúmeros sinais que já estavam diante deles. A incredulidade nos diminui a capacidade de percebê-lo agindo. O pedido deles é tão absurdo e cínico que arranca um gemido de Jesus. A incredulidade pode nos levar a exigir de Deus o que Ele não nos dará, enquanto ignoramos o que Ele já nos revelou abundantemente. Penso em um vídeo que vi outro dia, de uma pessoa criticando a revelação de Deus em Gênesis, conforme o relato da criação e queda de Adão e Eva. A narrativa dela, que parece fazer sentido, só faz sentido se você negar o óbvio; se você deixar de lado tudo o que as demais Escrituras revelam e se encaixotar no recorte narrativo dela. É preciso muito esforço e malabarismo para não crer. Por isso, como nos lembra D. A. Carson, Jesus não fica aborrecido quando o acordam cedo, mas quando confrontado com a falta de fé. Daí a importância da humildade, que é essencial para o verdadeiro conhecimento de Deus (como frequentemente ressalta Augustus Nicodemus). Temos buscado conhecer a Ele de verdade, ou temos "testado" Deus com nossas condições e resistido à Sua revelação em nossa vida?
A Graça Incomparavelmente Paciente de Jesus: Ele Não Desiste dos Seus: Apesar da incredulidade e da falta de entendimento de Seus discípulos, Jesus não desiste deles. Ele veio comprá-los, resgatá-los do poço do pecado, da morte espiritual e do engano da mente. Somente pela reação deles, pareceria que estariam perdidos. Mas Cristo veio resgatá-los. Ele os instrui pacientemente (como veremos nos próximos versículos, onde Ele os leva para longe dos fariseus para uma aula particular) e continua a investir neles. Isso revela que o amor de Cristo dura para sempre e Sua graça é incomparavelmente paciente. Ele nos convida não a um caminho sem dúvidas, mas a um caminho de dependência e aprendizado contínuo, mesmo quando nossa fé é fraca ou nossa memória nos falha. Ele quem substitui nossas perguntas negativas como “quem pode?” para respostas positivas como “Ele pode”! Como John Piper frequentemente nos lembra, nossa satisfação máxima está em Deus e em Sua soberana provisão, mesmo quando não a compreendemos plenamente.
SDG
