A Eficácia da Graça

O Evangelho do Cristo Ressurreto  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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TEXTO Rm 3.1-31

Introdução: A Conexão com Romanos 1 e 2

Antes de entrarmos no capítulo 3, é fundamental entendermos a linha de raciocínio de Paulo. Nos capítulos anteriores, ele expõe a condição universal do homem diante de Deus.
Em Romanos 1, ele revela o estado perdido dos gentios, que, embora conhecendo a Deus, O rejeitaram e se entregaram ao pecado.
Já em Romanos 2, Paulo confronta os judeus, que se julgavam superiores por possuírem a Lei, mas que na prática não a obedeciam.
Assim, chegamos ao capítulo 3 para uma conclusão poderosa e desconfortável: ninguém é justo diante de Deus por seus próprios méritos; todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus (3.23). Essa constatação, embora dura, não é o ponto final, mas o ponto de partida para a revelação da eficácia da graça de Deus que nos alcança em Cristo.
Agora, pergunto a você: diante desse diagnóstico universal, onde encontrar esperança? Como confiar em Deus quando nossa realidade é o fracasso e a imperfeição?
Paulo começa a responder a essa pergunta já no início do capítulo 3. Vamos juntos descobrir!
E essa resposta começa com a fidelidade inabalável de Deus, tema que veremos a seguir.

2. A Fidelidade de Deus (Romanos 3.1–8)

1 - Qual é, então, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão?

2 - Muita, sob todos os aspectos. Principalmente porque aos judeus foram confiados os oráculos de Deus.

3 - E então? Se alguns não creram, será que a incredulidade deles anulará a fidelidade de Deus?

4 - De modo nenhum! Seja Deus verdadeiro, e todo ser humano, mentiroso, como está escrito:

“Para que sejas justificado nas tuas palavras

e venhas a vencer quando fores julgado.”

5 - Mas, se a nossa injustiça evidencia a justiça de Deus, que diremos? Seria Deus injusto por aplicar a sua ira? Falo em termos humanos.

6 - É claro que não. Do contrário, como Deus julgará o mundo?

7 - E, se a minha mentira faz com que aumente a verdade de Deus para a sua glória, por que ainda sou condenado como pecador?

8 - E por que não dizemos, como alguns caluniosamente afirmam que o fazemos: “Pratiquemos o que é mau, para que nos venha o que é bom”? A condenação destes é justa.

Após desmontar a vanglória humana nos capítulos anteriores, Paulo usa um método de perguntas e respostas — a diatribe — dialogando com o ouvinte crítico. Ele não foge das objeções; ele as antecipa e as desarma.
1ª Objeção: Sabotagem da Aliança (3.1–2)
Valeu de quê toda nossa história e herança?”
A resposta é clara: “Muita, especialmente porque aos judeus foram confiadas as palavras de Deus” (v.2).
Israel recebeu não só a Lei, mas a mensagem que aponta para o Messias, chamado a ser luz para os gentios — a igreja nascente antes mesmo de existir.
Porém, privilégio não é imunidade. Como diz Hendriksen, “privilégios trazem deveres.” Israel confundiu posse com proteção, achando que ter a Lei e a circuncisão os livrava do juízo de Deus.
Mas falharam nessa missão. Como lembra N. T. Wright, guardaram a luz para si, esquecendo que a mensagem era para todas as nações. O nome de Deus, que deveria ser exaltado, passou a ser blasfemado por causa da infidelidade do mensageiro
📌 (Aplicação Pastoral)
Quantas vezes repetimos esse erro? Podemos trocar “circuncisão” por “membresia”, “tradição”, “história familiar” ou “rituais de igreja”. Ter acesso à Palavra não significa viver a Palavra. É perigoso confundir intimidade com o texto bíblico com comunhão real com o Autor.
2ª Objeção: Anulação da Fidelidade de Deus (3.3–4)
“Se alguns não creram, isso desfaz a fidelidade de Deus?”
Paulo é firme: “De maneira nenhuma! Seja Deus verdadeiro, e mentiroso todo homem.”
A incredulidade humana não cancela a fidelidade de Deus. Agostinho dizia: a verdade de Deus triunfa sobre toda mentira humana.
📌 (Aplicação Pastoral)
Talvez você tenha quebrado promessas — Deus não. Você pode ter falhado — Ele permanece fiel. Mesmo quando Israel foi infiel, Deus manteve Sua promessa e enviou o Messias no tempo certo.
3ª Objeção: Contradição da Justiça de Deus (3.5–6)
“Se nossa injustiça ressalta a justiça de Deus, Deus seria injusto ao punir?”
Paulo rebate: “De modo nenhum! Do contrário, como Deus julgará o mundo?”
Deus pode até usar o mal para manifestar o bem, mas isso não torna o pecado aceitável. Spurgeon disse: Deus não é o autor do pecado, mas é soberano sobre ele.”
📌 (Aplicação Pastoral)
Hoje também é perigoso cair na armadilha da hipergraça — achar que a graça de Deus tolera o pecado sem arrependimento. A graça não é permissão para pecar; é poder para vencer o pecado. Como disse Bonhoeffer, “graça barata é perdão sem arrependimento.” A verdadeira graça custou o sangue de Cristo — por isso, vivemos para honrá-Lo.
4ª Objeção: Falsa promoção da glória de Deus (3.7–8)
“Se minha mentira evidencia a verdade de Deus, por que sou condenado?”
Paulo é claro: “A condenação desses é justa.”
Erdman adverte: “Deus pode trazer bem do mal, mas isso não inocenta quem pratica o mal.”
📌 (Aplicação Pastoral)
Não pense que fins bons justificam meios errados. Uma vida de mentiras e atalhos nunca glorifica a Deus de verdade. A graça não encobre o pecado — ela transforma o pecador.
Assim, Paulo mostra que, apesar das objeções humanas, Deus permanece fiel e justo — e essa fidelidade expõe a depravação total da humanidade.

3. Deus Não Faz Acepção de Pessoas: A Depravação Total da Humanidade (Romanos 3.9–20)

9 - Que se conclui? Temos nós alguma vantagem? Não, de forma nenhuma. Pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado.

10 - Como está escrito: “Não há justo, nem um sequer,

11 -  não há quem entenda, não há quem busque a Deus.

12 -  Todos se desviaram e juntamente se tornaram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer.

13 - A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua enganam, veneno de víbora está nos seus lábios.

14 - A boca, eles a têm cheia de maldição e amargura;

15 - os seus pés são velozes para derramar sangue.

16 - Nos seus caminhos, há destruição e miséria;

17 - eles não conhecem o caminho da paz.

18 - Não há temor de Deus diante de seus olhos.”

19 - Ora, sabemos que tudo o que a lei diz é dito aos que vivem sob a lei, para que toda boca se cale, e todo o mundo seja culpável diante de Deus.

20 - Porque ninguém será justificado diante de Deus por obras da lei, pois pela lei vem o pleno conhecimento do pecado.

Transição:
Depois de confrontar a falsa segurança dos judeus sobre seu privilégio e a fidelidade imutável de Deus, Paulo despeja a verdade que não poupa ninguém: “todos os homens estão debaixo do pecado” (v.9). Não importa raça, cultura ou religião — a condição humana é universalmente caída.
a) Uma conclusão dolorosa e inescapável (3.9–10)
Paulo pergunta e responde com firmeza:
“Que se conclui? Temos alguma vantagem? Não, de forma nenhuma. Pois todos, tanto judeus como gentios, estão debaixo do pecado.”
A vantagens não melhoram a posição diante do julgamento de Deus. Ou seja: privilégio não é garantia de salvação.
William Hendriksen e Charles Erdman reforçam: judeus e gentios possuem necessidades iguais — a graça de Deus.
b) A universalidade da culpa e o silêncio diante do juízo (3.9–20)
Paulo reforça com uma série de citações do Antigo Testamento (Salmos, Isaías, Eclesiastes) que não há nenhum justo, nenhum sequer (v.10-12). Ele destaca cinco elementos que demonstram a rebelião humana:
A injustiça praticada por todos — nenhum alcança a perfeição da Lei (v.10).
A cegueira intelectual — o entendimento espiritual está obscurecido (v.11a).
A vontade adormecida — a inclinação humana é fugir de Deus (v.11b).
A apostasia deliberada — todos se extraviaram e se afastaram de Deus (v.12a).
A degradação moral — abandonando a Deus, caíram em corrupção (v.12b).
John Stott afirma que o pecado é uma revolta contra Deus — é a essência da impiedade (1.18). É a autodeificação, o colocar-se no lugar de Deus.
c) A depravação total refletida na relação do homem consigo mesmo (3.13–18)
Paulo revela a extensão do pecado em todo o ser humano: mente, emoções, palavras e ações são corrompidas.
A garganta é um “abismo” faminto, devorador da humanidade (v.13a). Calvino chama isso de um abismo devorador.
A língua é um instrumento de engano e mentira (v.13b). Stott diz que a língua é o “laboratório da mentira”.
Os lábios destilam veneno letal, muito pior que o da víbora (v.13c).
A boca está cheia de maldição e amargura (v.14), revelando um coração corrompido.
William MacDonald e John Stott ressaltam que o pecado contamina todos os órgãos e membros, que foram criados para servir e glorificar a Deus, mas que agora são usados para ferir e destruir.
d) A depravação total refletida na relação do homem com o próximo (3.15–17)
Paulo enfatiza três aspectos:
Violência e desprezo pela vida humana: “São os seus pés velozes para derramar sangue” (v.15). O homem sem Deus torna-se pior que uma fera selvagem, cruel e destrutivo.
Destruição dos valores e bens humanos: “Nos seus caminhos há destruição e miséria” (v.16). O pecado corrompe tudo que toca, deixando sofrimento e injustiça.
Ruptura dos relacionamentos: “Desconheceram o caminho da paz” (v.17). Em rebelião, o homem promove ódio e conflito, destruindo a harmonia social e familiar.
William Greathouse lembra que esse homem age sem temor, comprometendo a paz e a felicidade dos outros.
e) A depravação total diante do juízo: Israel sob a lei e a condição universal de culpa (3.18–20)
Paulo conclui que todos são réus diante de Deus, inclusive Israel, que está sob a lei. Mesmo com a lei, Israel se junta ao restante da humanidade no banco dos réus, pois a lei não salva, apenas expõe o pecado e condena:
Falta o temor de Deus (v.18), que é o freio da corrupção.
A lei condena e silencia toda defesa (v.19).
Ninguém é justificado por obras da lei (v.20).
Aplicação pastoral direta
Meus irmãos, Paulo pinta um quadro sombrio — mas real — da condição humana. Não podemos subestimar a gravidade do pecado. Se não reconhecermos nossa depravação, ficaremos presos no orgulho espiritual, na autojustificação e na ilusão de sermos melhores do que realmente somos.
Mas não é para nos desesperar que Paulo faz esse diagnóstico. É para nos levar a uma urgente necessidade de salvação, a um encontro com a graça eficaz de Deus que vem pela fé em Cristo.
Como disse J. I. Packer: “Ninguém é tão mau quanto poderia ser, e nenhum dos nossos atos é tão bom quanto deveria ser.” O quadro é sombrio, mas a graça é mais profunda ainda.
Transição para o próximo ponto
O que Paulo vai mostrar em seguida é como Deus, mesmo diante desse quadro aterrador da humanidade, proporciona justiça e redenção através de Cristo. Pois a eficácia da graça não está em nossa justiça, mas na justiça revelada pela fé (Rm 3.21–26).

4. A Justiça de Deus e a Eficácia da Graça (Romanos 3.21–31)

21 - Mas, agora, sem lei, a justiça de Deus se manifestou, sendo testemunhada pela Lei e pelos Profetas.

22 - É a justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que creem. Porque não há distinção,

23 - pois todos pecaram e carecem da glória de Deus,

24 - sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus,

25 - a quem Deus apresentou como propiciação, no seu sangue, mediante a fé. Deus fez isso para manifestar a sua justiça, por ter ele, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos,

26 - tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, a fim de que o próprio Deus seja justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.

27 - Onde fica, então, o orgulho? Foi totalmente excluído. Por meio de que lei? A lei das obras? Não! Pelo contrário, por meio da lei da fé.

28 - Concluímos, pois, que o ser humano é justificado pela fé, independentemente das obras da lei.

29 - Ou seria Deus apenas Deus dos judeus? Será que não é também Deus dos gentios? Sim, também dos gentios,

30 - visto que Deus é um só, o qual justificará o circunciso a partir da fé e o incircunciso por meio da fé.

31 - Anulamos, então, a lei por meio da fé? De modo nenhum! Pelo contrário, confirmamos a lei.

Até aqui, Paulo nos levou ao tribunal de Deus para mostrar que toda a humanidade — judeus e gentios — estão igualmente condenados. A Lei não salva; antes, revela o pecado. Israel, que recebeu a Lei, senta-se junto com o resto do mundo no banco dos réus. Mas agora, Paulo revela a virada do Evangelho: Deus, em Cristo, manifesta uma justiça que cumpre a Lei e restaura a aliança.

a) A Justiça Revelada e a Fé no Messias (3.21–22)

Paulo proclama: “Mas agora se manifestou uma justiça que provém de Deus, independente da Lei, mas da qual testemunham a Lei e os Profetas.”
A Lei foi incapaz de justificar, mas não é anulada — ela aponta para Cristo, que é seu cumprimento perfeito. Ele é o Israelita fiel, o cumprimento da promessa.
Essa justiça não é mérito humano; é dada “mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que creem”. Aqui, Deus oferece um novo status: declarados justos, não pelas obras, mas pela fé.

b) A Justificação Gratuita e a Redenção em Cristo (3.23–26)

“Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.”
Essa frase resume o Evangelho: todos pecaram, mas Deus oferece perdão e justiça de graça.
Cristo é a propiciação — o sacrifício que satisfaz a ira justa de Deus. Nele, Deus demonstra que é justo (não ignora o pecado) e justificador (perdoa o pecador).
A cruz é o ponto onde a santidade e o amor de Deus se encontram de forma perfeita.
📌 Aplicação pastoral
Nossa maior segurança não está em quão bons podemos ser, mas em quão perfeito Cristo é. Não é nossa performance, mas a fidelidade de Jesus que garante nossa salvação. Isso nos livra da escravidão da culpa e do peso do legalismo.

c) A Exclusão da Jactância e o Senhorio de Deus (3.27–31)

Paulo então pergunta: “Onde está a jactância? Foi excluída.” Não há espaço para orgulho religioso. A salvação pela fé destrói qualquer vanglória humana.
Ele declara: “Deus é Deus de judeus somente? Não o é também dos gentios? Sim, dos gentios também, visto que Deus é um só, que justificará pela fé os circuncisos e também os incircuncisos.”
Aqui está o coração da aliança: Deus não faz acepção de pessoas. O Evangelho é para todos.
E Paulo encerra dizendo: “Anulamos, pois, a Lei pela fé? De maneira nenhuma! Antes, confirmamos a Lei.”
A Lei não é abolida, mas cumprida em Cristo — Ele é o ponto final da antiga aliança e o início de uma nova e viva.
📌 Aplicação pastoral
A Igreja hoje é chamada a viver como esse povo que abraça a justiça de Deus pela fé, sem orgulho espiritual, e testemunha essa graça ao mundo. Não fomos salvos para sermos um clube fechado, mas para sermos luz para as nações, assim como Israel foi chamado a ser.
Nossa obediência não compra a salvação — ela revela que fomos transformados por ela.

🎯 Conclusão Pastoral

Meus irmãos, Romanos 3 mostra nossa real condição: todos carecemos da glória de Deus — mas também revela a eficácia da Sua graça, que nos alcança onde a Lei não podia.
Fomos justificados pela fé, não para esconder essa mensagem, mas para vivê-la e anunciá-la. Que a igreja não se feche em si mesma, mas seja luz para o mundo.
Que nós, como MOB, possamos ser fiéis mensageiros do evangelho, servindo as famílias da cidade, e que o evangelho seja o modelador de nossas relações comunitárias e experimentado na forma como conduzimos a vida, trabalhamos e gerimos nossos recursos.
A graça é eficaz. A fé é o meio. Nós somos os mensageiros.
Amém!
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