TEONTOLOGIA
No princípio criou Deus os céus e a terra (
(a) O ato da criação é um mistério para nós. Há mais nele do que podemos compreender. Não podemos criar por fiat, e não sabemos como Deus pôde. Dizer que ele criou do nada é confessar o mistério e não explicá-lo. Em particular, não podemos conceber como a existência dependente pode ser existência distinta, nem como anjos e seres humanos, em sua existência dependente, podem não ser robôs, mas criaturas capazes de decisões livres, pelas quais são moralmente responsáveis perante aquele que os fez. Entretanto, a Escritura em todos os lugares ensina que é assim.
(b) Espaço e tempo são dimensões da ordem criada. Deus não está “em” um ou outro, nem está sujeito a um ou outro, como nós estamos.
(c) Como a ordem universal não é autóctone, ela tampouco é autossustentável, ao contrário de Deus, que não teve origem e é suficiente em si mesmo. A estabilidade do universo depende da constante manutenção divina. Esse é um ministério específico do Filho de Deus (
(d) A possibilidade de intromissões criativas (e.g., milagres de poder criativo; criação de novas pessoas por meio da atividade procriativa humana; reorientação do coração e redirecionamento da vontade e energia humanas na regeneração) é tão velha como o próprio cosmos. Está além de nosso poder saber até quando Deus, em sua atividade mantenedora, realmente continuará a criar novas coisas, que não podem ser explicadas em termos de qualquer coisa que foi antes, porém certamente este mundo permanece aberto ao seu poder criativo em todos os pontos.
Saber que Deus criou o mundo à nossa volta, e nós mesmos como parte dele, é básico à verdadeira religião. Deus deve ser louvado como Criador, em razão da maravilhosa ordem, variedade e beleza de suas obras. Salmos, como o 104, são modelos desse louvor. Deus deve ser crido como o Senhor soberano, que tem um plano eterno abrangendo todos os eventos e destinos, sem exceção, e que tem poder de redimir, recriar e renovar. Tal crença se torna racional quando nos lembramos de que é no Criador todo-poderoso que estamos crendo. Reconhecer a cada momento nossa dependência do Deus Criador para nossa existência faz com que se torne apropriado viver de forma piedosa, comprometida, grata e leal para com ele, sem qualquer impureza. A retidão começa aqui, com Deus, o soberano Criador, como o primeiro foco de nosso pensamento.
Deus é Espírito, disse Jesus à mulher samaritana junto ao poço (
Primeiro, Deus não é limitado pelo espaço (ele está continuamente em todo lugar em sua plenitude) nem pelo tempo (não há o “momento presente” no qual ele esteja contido, como nós estamos). Os teólogos referem-se à liberdade limitativa de Deus como sua infinidade, sua imensidade e sua transcendência (
Segundo, Deus é imutável. Isso significa que ele é totalmente consistente: por ser necessariamente perfeito, ele não pode mudar, seja para melhor ou para pior e, por não ser limitado pelo tempo, ele não está sujeito a mudança, como as criaturas (
Terceiro, os sentimentos de Deus não estão fora de seu controle, como os nossos frequentemente estão. Os teólogos expressam isso dizendo que Deus é impassível e insensível, porém aquilo que ele sente, tanto quanto o que ele faz, é uma questão de sua própria escolha deliberada e voluntária e está incluída na unidade de seu ser infinito. Deus jamais é nossa vítima no sentido de que o fazemos sofrer naquilo que ele não tinha previamente escolhido sofrer. Contudo, são abundantes as passagens que expressam a realidade das emoções de Deus (alegria, tristeza, ira, deleite, amor, ódio etc.), sendo um grande equívoco esquecer que Deus sente — embora em forma de necessidade que transcende a experiência emocional de um ser finito.
Quarto, todos os pensamentos e ações de Deus envolvem todo o seu ser. Essa é a sua integração, às vezes chamada de “simplicidade”. Ele se coloca em completo contraste com a complexidade e falta de integração de nossa própria existência pessoal, na qual, como resultado do pecado, raramente ou talvez nunca somos capazes de concentrar a totalidade de nosso ser e todos os nossos poderes sobre qualquer coisa. Um aspecto da maravilha de Deus, entretanto, é que ele simultaneamente dá total e indivisa atenção não apenas a uma coisa de cada vez, mas a todas as coisas e a todas as pessoas em todo lugar em seu mundo passado, presente e futuro (cf.
Quinto, o Deus que é Espírito deve ser adorado em espírito e verdade, como Jesus ensinou (
Nenhum lugar sobre a terra é atualmente determinado como único centro para adoração. A habitação simbólica de Deus na Jerusalém terrena foi substituída, quando veio o tempo (
Os quarenta ou mais escritores que produziram os sessenta e seis livros da Escritura no espaço de tempo aproximado de mil e quinhentos anos viram a si mesmos, e a seus leitores, envolvidos na realização do propósito soberano de Deus para este mundo, propósito que o levou a criar, que o pecado depois rompeu, e que sua obra de redenção está presentemente restaurando. Esse propósito era, e é, em essência, a incessante expressão e gozo do amor entre Deus e suas criaturas racionais — amor manifesto em sua adoração, louvor, gratidão, honra, glória e serviço prestados a ele, e na comunhão, privilégios, alegrias e dádivas que ele lhes dá.
Os escritores lançam um olhar àquilo que já se fez para promover o plano salvífico no planeta Terra danificado pelo pecado, e olham para a frente, para o dia de sua plenitude, quando o planeta Terra será recriado com glória inimaginável (
Predestinação é uma palavra frequentemente usada para significar a preordenação de Deus de todos os eventos da história universal, passados, presentes e futuros, e esse uso é bem apropriado. Contudo, na Escritura e na principal linha teológica, predestinação significa especificamente a decisão de Deus, tomada na eternidade antes da existência do mundo e de seus habitantes, com respeito ao destino final dos pecadores individuais. De fato, o Novo Testamento usa as palavras predestinação e eleição (ambas sinônimas) somente para indicar a escolha divina de pecadores específicos para a salvação e a vida eterna (
À pergunta: “Sobre que base Deus escolhe indivíduos para a salvação?”, responde-se ocasionalmente: com base em sua presciência de que, quando se defrontassem com o evangelho, eles escolheriam Cristo como seu Salvador. Nessa resposta, presciência significa uma previsão passiva da parte de Deus daquilo que os indivíduos se inclinam a fazer, sem que ele predetermine sua ação. Porém
(a) Antever, em
(b) Uma vez que todos estão naturalmente mortos em pecado (isto é, excluídos da vida de Deus e indiferentes a ele), ninguém que ouve o evangelho jamais chegará ao arrependimento e à fé sem um toque íntimo que somente Deus pode transmitir (
Embora todos os atos humanos sejam livres no sentido de autodeterminados, nenhum deles está livre do controle de Deus, conforme seu eterno propósito e preordenação.
Os cristãos devem, portanto, agradecer a Deus por sua conversão, olhar para ele para que os guarde na graça para a qual os trouxe e, confiantemente, esperar seu triunfo final, de acordo com seu plano.
As obras da providência de Deus são a sua maneira muito santa, sábia e poderosa de preservar e governar todas as suas criaturas, e todas as ações delas (Breve Catecismo de Westminster, p. 11). Se a Criação foi um exercício único da energia divina ao fazer com que o mundo existisse, a providência é um exercício contínuo da mesma energia, pela qual o Criador, de acordo com sua própria vontade, (a) mantém todas as criaturas como seres, (b) envolve-se em todos os eventos, e (c) dirige todas as coisas a seu fim determinado. O modelo é de orientação pessoal intencional com total e efetivo controle: Deus tem o comando completo desse mundo. Sua mão pode estar escondida, mas seu governo é absoluto.
Alguns têm restringido a providência de Deus à presciência sem controle, ou sustentação sem intervenção, ou supervisão geral sem preocupação com detalhes, mas o testemunho da providência, conforme formulado acima, é extraordinariamente abrangente.
A Bíblia ensina claramente o controle providencial de Deus (1) sobre o universo como um todo,
Uma clara noção sobre o envolvimento de Deus no processo universal e nos atos das criaturas racionais requer um conjunto complementar de afirmações, como: uma pessoa pratica uma ação, ou um evento é desencadeado por causas naturais, ou Satanás se manifesta — entretanto, Deus prevalece. Essa é a mensagem do livro de Ester, em que o nome de Deus não aparece em parte alguma. Outra: fazem-se coisas que se opõem ao conselho da vontade de Deus — não obstante, elas cumprem seu propósito por meio dos acontecimentos (
A natureza do envolvimento “simultâneo” ou “confluente” de Deus em tudo o que acontece em seu mundo, como ele — sem violar a natureza das coisas, o avanço dos processos causativos ou a livre intervenção humana — faz com que sua vontade resultante ocorra, é um mistério para nós, mas o consistente ensino bíblico sobre o envolvimento de Deus é como acima afirmamos.
Dos males que infestam o mundo de Deus (perversidade moral e espiritual, desperdício de bens, desordens físicas e rupturas de um cosmos arruinado), pode-se dizer em resumo que: Deus permite o mal (
A doutrina da providência ensina aos cristãos que eles nunca estão sob o domínio de forças cegas (ventura, oportunidade ou sorte); tudo quanto acontece a eles é divinamente planejado, e cada acontecimento é acompanhado de um novo chamamento à crença, obediência e regozijo, sabendo que tudo é para o bem espiritual e eterno de cada um (
