CRISTOLOGIA
A Trindade e a encarnação são temas que se relacionam. A doutrina da Trindade declara que o homem Jesus é verdadeiramente divino; a da encarnação declara que o divino Jesus é verdadeiramente humano. Juntas, elas proclamam a plena realidade do Salvador que o Novo Testamento apresenta, o Filho que veio da parte do Pai, pela vontade do Pai, para tornar-se o substituto do pecador sobre a cruz (
O momento decisivo sobre a doutrina da Trindade ocorreu no Concílio de Niceia (325 d.C.), quando a Igreja rejeitou a ideia ariana de que Jesus era a primeira e mais nobre criatura de Deus, e afirmou que ele era da mesma “substância” ou “essência” (isto é, a mesma entidade existente) do Pai. Assim, há somente um Deus, não dois; a distinção entre Pai e Filho está dentro da unidade divina, e o Filho é Deus no mesmo sentido em que o Pai o é. Dizendo que o Filho e o Pai são de uma substância, e que o Filho é gerado (“único gerado”, ou “unigênito”,
Um evento crucial para a confissão da doutrina da encarnação aconteceu no Concílio de Calcedônia (451 d.C.), quando a Igreja rejeitou tanto a ideia nestoriana de que Jesus era duas personalidades — o Filho de Deus e um homem — sob a mesma pele, como a ideia eutiquiana de que a divindade de Jesus tinha absorvido sua humanidade. Rejeitando ambos, o concílio afirmou que Jesus é uma pessoa divino-humana em duas naturezas (isto é, dois conjuntos de capacidades para a experiência, expressão, reação e ação), e que as duas naturezas são unidas em seu ser pessoal, sem mistura, confusão, separação ou divisão, e que cada natureza retém seus próprios atributos. Em outras palavras, todas as qualidades e poderes que estão em Deus, estavam, estão e sempre estarão real e distintamente presentes na pessoa do homem da Galileia. Assim, a fórmula calcedônia afirma, em termos categóricos, a plena humanidade do Senhor (nascido homem pela ação divina).
A encarnação, esse milagre misterioso no coração do Cristianismo histórico, é o ponto central do testemunho do Novo Testamento. É surpreendente que os judeus tenham chegado a aceitar tal crença. Oito dos nove escritores do Novo Testamento, como os discípulos originais de Jesus, eram judeus instruídos no axioma judaico de que há somente um Deus e nenhum homem é divino. Todos eles, no entanto, ensinam que Jesus é o Messias de Deus, o filho de Davi ungido pelo Espírito prometido no Antigo Testamento (por exemplo,
O Evangelho de João emoldura as narrativas do testemunho visual do escritor (
Paulo cita o que parece ser um hino que declara a divindade pessoal de Jesus (
O escritor da carta aos Hebreus, pretendendo expor a perfeição do sumo sacerdócio de Cristo, começa declarando a plena divindade e consequente única dignidade do Filho de Deus (
Não menos significativo é o uso que Pedro faz de
O Novo Testamento proíbe a adoração de anjos (
O Novo Testamento insiste que Jesus era totalmente isento de pecado (
Hebreus 4.15
A impecabilidade de Jesus era necessária para a nossa salvação. Não fosse ele um cordeiro sem defeito e sem mácula, seu sangue não teria sido “precioso” (
O ministério salvador de Jesus Cristo está resumido na afirmação de que ele é o Mediador entre Deus e os homens (
Cada membro de nossa raça degradada e rebelde é, por natureza, “hostil a Deus” (
Objetiva e definitivamente, Cristo realizou a reconciliação para nós através da substituição do objeto da pena. Ele tomou sobre a cruz nosso lugar, assumiu, por assim dizer, nossa identidade, carregou a maldição que devia ser nossa (
Jesus é o Mediador de uma nova aliança (
Uma das grandes contribuições de Calvino para a compreensão cristã foi a de que os escritores do Novo Testamento expõem o ministério mediatório de Jesus em termos do ofício tríplice (“ofício” quer dizer tarefa fixada ou papel definido) de profeta, sacerdote e rei.
Os três aspectos da obra de Cristo são encontrados reunidos na carta aos Hebreus, onde Jesus é tanto o Rei messiânico, exaltado a seu trono (1.3, 13; 4.16; 2.9), como também o grande Sumo Sacerdote (2.17; 4.14–5.10; caps. 7–10), que se oferece a Deus como um sacrifício pelos nossos pecados. Além disso, Cristo é o mensageiro (“apóstolo”, o enviado para anunciar, 3.1), por meio de quem a mensagem, da qual ele é a substância, foi primeiramente proclamada (2.3). Em
Enquanto no Antigo Testamento os papéis mediadores de profeta, sacerdote e rei foram preenchidos por indivíduos separados, todos os três ofícios se aglutinam na pessoa única de Jesus. É sua glória, dada a ele pelo Pai, ser assim o Salvador todo suficiente. Nós, os que cremos, somos chamados a compreender isso e mostrar-nos, seu povo, pela obediência a ele como nosso rei, crendo nele como nosso sacerdote e aprendendo dele como nosso profeta e mestre. Centralizar em Jesus Cristo dessa forma é o selo de qualidade do Cristianismo autêntico.
