Arrependimento de Deus
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O arrependimento de Deus
O capítulo três fecha com o mais forte encorajamento para o arrependimento, pois nos conta da resposta de Deus à humilhação de Nínive. Quando o povo ímpio se arrependeu de seu pecado, Deus se arrependeu de seus planos para destruir a cidade: “Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez” (Jn 3.10).
Primeiro, observe o que Deus deseja ver: “Como se converteram do seu mau caminho”. Deus não queria ver cerimônias externas. Deus compadeceu-se não porque observou que eles não comiam ou bebiam durante certo tempo ou se vestiram com roupas baratas no lugar de seus vestimentos luxuosos habituais. Não foi por causa do sacrifício de animais ou dinheiro feitos num esforço de conquistar o favor de Deus. Foi porque eles se arrependeram: os corações se converteram dos seus maus caminhos.
Deus deseja o mesmo de nós. Podemos ir à igreja e adorá-lo. Podemos recitar liturgias de arrependimento. Podemos oferecer cânticos fervorosos de louvor. Podemos depositar grandes quantias de dinheiro nos cofres da igreja. Podemos nos tornar peritos em teologia. Mas o que Deus deseja ver é uma conversão sincera dos nossos pecados como resultado de nossa crença em sua lei e em seu evangelho.
Foi por isso que Jesus começou seu ministério de pregação com este chamado: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 4.17).
A perversão de Nínive era grande e sua culpa se empilhava como as pirâmides de crânios que seus regentes conquistadores gostavam de construir. Quando ela se arrependeu, Deus mudou seu julgamento. Isso nos mostra que Deus pode perdoar a qualquer um que crê e se arrepende. Calvino escreve: “Daí aprendemos por que Deus nos incentiva diariamente para o arrependimento, e ele o faz porque deseja se reconciliar conosco; para que nós sejamos reconciliados com ele”.
Algumas traduções de Jonas 3.10 afirmam que Deus “se arrependeu” de seu julgamento. Isso tem levado alguns a questionarem a onisciência de Deus, como se ele tivesse errado ao julgá-los anteriormente; ou a imutabilidade de Deus, isto é, o fato de ele não mudar, visto que ele aparenta ter mudado de opinião. Existem várias respostas a essas alegações. Uma é que Deus adapta a sua Palavra à nossa compreensão. Como a Bíblia atribui a fisicalidade humana a Deus, falando da “mão do Senhor” ou dos “ouvidos do Senhor”, assim a Escritura atribui também o raciocínio humano a Deus quando fala que ele “se arrependeu”. John Mackay escreve: “Quando dizem que Deus muda de opinião, vemos tudo da perspectiva humana. Nós temos a impressão de que ocorreu uma mudança em Deus, mas o que realmente mudou é a nossa conduta humana”. Fato é que, quando “se arrependeu” de seu juízo, Deus estava manifestando não sua mutabilidade, mas sua consistência e fidelidade inerrante.
É exatamente pelo fato de Deus ser imutável que somos encorajados a nos arrepender. Deus é inerrante tanto em sua ira contra o pecado quanto em sua misericórdia diante do arrependimento fiel. Não há alteração em sua oposição à perversão; assim, somos constantemente chamados para o arrependimento dos nossos pecados. Não há alteração em sua alegria de receber pecadores que recorrem ao nome do Senhor e procuram sua misericórdia por meio da fé em sua Palavra.
Mesmo assim, nos perguntamos: “Como Deus pôde perdoar uma cidade tão má? Como Deus pôde ignorar seus muitos pecados graves, recusando-se a vingar o sangue de suas inúmeras vítimas?”. Mas poderíamos fazer essa mesma pergunta em relação a nós mesmos: “Como Deus pôde perdoar as coisas que eu fiz? Como ele pôde ignorar as blasfêmias que o desonraram, o sofrimento e a dor que causei a outras pessoas?”.
A resposta se encontra na palavra hebraica usada para descrever o arrependimento de Deus. A palavra shubh descreve o arrependimento de Nínive: significa a conversão do mal para o bem. Mas outra palavra é usada para descrever o arrependimento de Deus, já que Deus não possui mal do qual poderia se arrepender. Aqui, é a palavra nacham que denota um sofrimento interior.
05162 נחם nacham
uma raiz primitiva; DITAT - 1344; v
1) estar arrependido, consolar-se, arrepender, sentir remorso, confortar, ser confortado
1a) (Nifal)
1a1) estar sentido, ter pena, ter compaixão
1a2) estar sentido, lamentar, sofrer pesar, arrepender
1a3) confortar-se, ser confortado
1a4) confortar-se, aliviar-se
1b) (Piel) confortar, consolar
1c) (Pual) ser confortado, ser consolado
1d) (Hitpael)
1d1) estar sentido, ter compaixão
1d2) lamentar, arrepender-se de
1d3) confortar-se, ser confortado
1d4) aliviar-se
"Arrependeu-se o Senhor" ou "Mudou o Senhor de ideia"
Exemplos e explicações:
1. Gênesis 6:6-7
“Então arrependeu-se (נִחַם – nicham) o Senhor de haver feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração.”
Contexto: Antes do dilúvio, Deus observa a corrupção humana. O texto diz que Ele "se arrependeu" de ter criado o homem.
Explicação: Este “arrependimento” não significa que Deus cometeu um erro. É uma forma antropopática de expressar o pesar divino diante do pecado humano. Deus responde com pesar moral diante da maldade, e decide agir — no caso, com o juízo do dilúvio.
3. 1 Samuel 15:11, 29, 35
“Arrependo-me (נִחַמְתִּי – nichamti) de haver constituído Saul rei...”
“...porque não é homem, para que se arrependa (יִנָּחֵם – yinnachem)”.
Contexto: Deus rejeita Saul como rei.
Explicação: O texto parece contraditório à primeira vista, pois em um verso Deus “se arrepende”, e no outro “não é homem para se arrepender”. A chave está no significado contextual: o primeiro uso refere-se ao pesar divino pela conduta de Saul, e o segundo à imutabilidade do propósito de Deus: Ele não é volúvel como o ser humano.
Conclusão
נָחַם (nacham), quando usado em relação a Deus, comunica:
· Pesar moraldiante do pecado humano
· Misericórdiae graça ao responder à intercessão ou arrependimento
· Mudança de ação com base no relacionamento, não erro ou instabilidade
· Uma linguagem adaptada ao entendimento humano, sem comprometer a soberania e imutabilidade divina
Esse termo, portanto, é uma rica ponte entre o Deus transcendente e o Deus relacional, que se envolve com Seu povo de forma compassiva e responsiva.
A palavra hebraica "shūbh" é um termo importante no Antigo Testamento para descrever arrependimento ou conversão. Ela significa "voltar atrás" ou "ir na direção oposta", enfatizando uma mudança de direção do caminho errado para o certo12. Shūbh implica abandonar o pecado e voltar-se para Deus, como exemplificado em várias passagens bíblicas.
Quando שׁוּב (shuv) é usado no sentido de "arrependimento"
Diferente de נָחַם, que descreve uma emoção ou atitude interna de pesar, שׁוּב enfatiza a mudança de comportamento ou direção. Na teologia bíblica, shuv está ligado à conversão, à metanoia prática — ou seja, voltar ao caminho certo.
Exemplos bíblicos de שׁוּבno contexto do arrependimento
1. Isaías 55:7
“Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos; e volte-se (וְיָשֹׁב – veyashov) ao Senhor, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar.”
🔎 Explicação: O arrependimento aqui é um retorno a Deus. Envolve abandono de caminhos e pensamentos errados e uma volta ativa ao relacionamento com o Senhor.
🧩 Quando שׁוּב é aplicado a Deus
Embora mais raro, shuv também pode ser aplicado a Deus, mas não no sentido de arrependimento, e sim de agir restauradoramente — ou seja, Deus retorna para abençoar ou restaurar o povo.
Exemplo:
Oséias 11:9
“Não executarei o furor da minha ira [...] porque sou Deus, e não homem [...]”
Neste e outros contextos, Deus “volta” de sua ira, ou “faz voltar” os cativos. Esse uso é muito mais relacional e de restauração do que de mudança de opinião.
✅ Conclusão
O termo שׁוּב (shuv) é o verbo mais comum para arrependimento humano no Antigo Testamento. Sua teologia é ativa, relacional e ética: envolve voltar-se de todo o coração ao Senhor, deixando o pecado para trás.
Enquanto נָחַם lida com o interior (emoções, vontade), שׁוּב lida com o exterior (ações, direções).
Resumo e Aplicações Teológicas de נָחַם (nacham) e שׁוּב (shuv)
1. נָחַם (nacham): O arrependimento de Deus
📌 Sentido principal:
O verbo נָחַם expressa mudança de intenção, compaixão ou pesar, frequentemente traduzido como "arrepender-se", "lamentar" ou "mudar de ideia".
📖 Uso bíblico:
· É aplicado a Deus, revelando Sua sensibilidade ética e moral diante da maldade humana (Gn 6:6; 1Sm 15:11).
· Deus "se arrepende" não por erro, mas porque responde dinamicamente às escolhas humanas, ajustando Seu trato com o povo.
· Em outros textos, a Escritura também afirma que Deus não muda como o homem(1Sm 15:29), destacando que Sua natureza é constante, mesmo que Sua ação possa variar conforme a relação com os seres humanos.
✨ Aplicações teológicas:
· Deus não é um ser estático. Ele se envolve com o mundo de forma viva e responsiva.
· O arrependimento divino mostra que Deus leva a sério tanto o pecado quanto a intercessão.
· Revela um Deus misericordioso e justo, que se entristece com o mal e está disposto a reverter julgamentos quando há arrependimento humano (Êx 32:14; Jn 3:10).
2. שׁוּב (shuv): O arrependimento humano
📌 Sentido principal:
O verbo שׁוּב significa "retornar", "voltar-se" ou "converter-se". É o principal termo hebraico para o arrependimento humano.
📖 Uso bíblico:
· Aparece centenas de vezes com o sentido de voltar-se para Deus (Is 55:7; Ez 18:30; Os 14:1).
· Envolve ação deliberada e moral: abandonar o pecado e caminhar de volta à vontade de Deus.
· Frequentemente associado a aliança e restauração — quem se volta a Deus é recebido com perdão e cura (Zc 1:3).
✨ Aplicações teológicas:
· O arrependimento é mais do que um sentimento de pesar — é uma mudança de vida e direção.
· Toda conversão no Antigo Testamento é um ato de retorno à aliança, uma resposta ao chamado gracioso de Deus.
· O uso frequente de שׁוּבmostra que Deus deseja restauração, não destruição. O juízo é real, mas o arrependimento abre o caminho para a vida (Ez 18:32).
