Texto: Efésios 4:1-16
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Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz; há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.
E a graça foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo. Por isso, diz:
Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens.
Ora, que quer dizer subiu, senão que também havia descido até às regiões inferiores da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas. E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.
■ O viver digno no corpo de Cristo — Ef 4.1–6
■ Os recursos divinos concedidos à Igreja — Ef 4.7–12
■ Os capacitadores e os executores — Ef 4.11–12
■ As características de uma igreja madura — Ef 4.12–16
INTRODUÇÃO:
Aspectos introdutórios da Carta aos Efésios
A carta aos Efésios foi escrita por Paulo durante sua prisão em Roma, por volta de 60–62 d.C. (ver Ef 3:1; 6:20).
A cidade de Éfeso era um centro cosmopolita do mundo greco-romano, famosa pelo templo de Ártemis (uma das Sete Maravilhas do mundo antigo). A cultura era profundamente sincretista, misturando religiões e filosofias.
Paulo enfatiza a unidade da Igreja em oposição ao mundo dividido entre judeus e gentios, escravos e livres, homens e mulheres. A nova humanidade em Cristo rompe essas barreiras (cf. Ef 2:14-16).
A liderança espiritual (apóstolos, profetas, etc.) tinha um papel importante na edificação da nova comunidade cristã, especialmente nas igrejas do primeiro século, ainda carentes de estrutura organizacional sólida.
A imagem do “corpo” era familiar ao mundo romano, usada pelo estoicismo e pelo direito romano para ilustrar coesão social. Paulo a reinterpreta para falar da Igreja unida sob Cristo.
CONTEXTO REMOTO(Amplo)
Entendendo os Propósitos de Deus (Bençãos espirituais)
Introdução: Eleitos pelo Pai; Somos redimidos pelo Filho e selados pelo Espírito
Nossa posição diante de Deus: antes mortos, agora vivos em Cristo 2:1–10
Nossa posição na Igreja: judeus e gentios reconciliados 2:11–22
O mistério da Igreja revelado 3
CONTEXTO IMEDIATO
2. Vivendo de acordo com os Propósitos de Deus (Aplicações)
A unidade, o crescimento e a maturidade do corpo de Cristo
Comentário Exegético (v.1–16)
Comentário Exegético (v.1–16)
Verso 1
“Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados”
John Stott: Paulo, como prisioneiro do Senhor, fala com autoridade moral e não com poder político. O apelo à conduta cristã começa com a identidade em Cristo estabelecida nos capítulos 1–3.
Peter O’Brien: O uso do termo “andar de modo digno” é central na ética paulina. A dignidade aqui é medida pela vocação divina, não pelos padrões humanos.
Lloyd-Jones: Destaca que “andar” indica um estilo de vida consciente. O cristão não anda por instinto, mas com direção revelada.
Conclusão: O chamado não é uma profissão religiosa, mas uma realidade espiritual de ter sido chamado da morte para a vida em Cristo (Ef 2:1–5). A palavra “vocação” aponta para o chamado eficaz de Deus à salvação e ao discipulado.
Que andeis de modo digno. Este é um prefácio e afirmação geral de onde flui o que se segue. Ele ilustrara previamente a vocação com que foram chamados; e agora lhes recorda que devem se submeter ao ensino de Deus, a fim de que não se tornassem indignos de tão imensurável graça.
O verbo grego para “rogo” é παρακαλῶ (parakalō), que pode ser traduzido como “exortar”, “convidar” ou “encorajar com autoridade”. Paulo está falando com ternura pastoral, mas com urgência apostólica.
“Prisioneiro no Senhor” – (δέσμιος ἐν Κυρίῳ, desmios en Kyriō) – expressa a realidade literal de Paulo estar preso, mas também espiritualmente entregue à causa de Cristo.
“Andeis” vem do verbo περιπατέω (peripateō), que na cultura judaica descreve o estilo de vida diário. “Andar de modo digno” (ἀξίως, axiōs) é viver de forma proporcional ao chamado recebido (κλῆσις, klēsis).
Versos 2-3
“…com toda humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor”
v.2
F. F. Bruce: Enfatiza que tapeinophrosynē era desprezada na cultura greco-romana, mas redefinida por Cristo como virtude central do Reino.
Beacon: Mansidão (praÿtēs) não é fraqueza, mas equilíbrio espiritual que permite responder com brandura à injustiça.
Calvino: Diz que essas virtudes só podem florescer onde o ego foi crucificado. O amor cristão exige morrer para si mesmo.
Conclusão: A vida cristã autêntica começa na transformação do coração, e não na conformidade exterior. Essas virtudes são marcas do fruto do Espírito (Gl 5:22–23).
Com toda humildade. Ao passar à detalhes, o apóstolo coloca a humildade em primeiro lugar. A razão é que ele estava para falar sobre unidade; e a humildade é o primeiro passo para alcançá-la. Ela também produz a mansidão, a qual nos faz pacientes. E, ao suportarmos irmãos, conservamos a unidade que, de outra forma, seria quebrada mil vezes ao dia. Lembremo-nos, pois, que, ao cultivarmos a bondade fraternal, é preciso que comecemos com a humildade. Donde procede a rudeza, a soberba e a linguagem desdenhosa lançada contra os irmãos? Donde procede as questiúnculas, os insultos e as reprimendas, senão do fato de cada um amar excessivamente a si próprio e de buscar em demasia seus próprios interesses? Aquele que se desfaz da arrogância e cessa de agradar a si próprio se tornará manso e acessível. E todo aquele que persiste em tal moderação ignorará e tolerará muitas coisas na conduta de nossos irmãos. Observemos criteriosamente esta ordem e arranjo. Será inútil prescrever a paciência, a menos que domestiquemos a mente humana e corrijamos sua disposição; será inútil ensinar a mansidão, a menos que tenhamos iniciado com a humildade.
Suportando-vos uns aos outros em amor. O apóstolo tem em mente o que ele diz em outro lugar, a saber: que a verdadeira natureza do amor está na paciência [1Co 13.4]. Quando o amor predomina e viceja, realizaremos muitos atos de tolerância mútua.
3. Diligenciando por guardar a unidade do Espírito. Além do mais, é com boas razões que ele recomenda a paciência, a fim de isso sustente a continuidade da unidade do Espírito. Inumeráveis ofensas surgem cotidianamente, as quais tendem a aquecer as discórdias entre nós, particularmente em virtude de o espírito humano digladiar sempre impulsionado por sua natural impertinência. Há quem considere a unidade do Espírito como aquela unidade espiritual que o Espírito de Deus efetua em nós. Não há a menor sombra de dúvida que é só o Espírito que fomenta em nós uma só mente [Fp 2.2], e assim de muitos faz um só. Minha interpretação da frase, todavia, é mais no sentido de harmonia de mente. Essa unidade, diz ele, é composta por no vínculo da paz; porquanto as discórdias freqüentemente despertam o ódio e ressentimento. Temos de viver em paz, caso queiramos que o espírito de bondade seja permanente entre nós.
v.3
Andrew Lincoln: A unidade é o pressuposto da nova comunidade criada por Deus em Cristo (Ef 2:15). Não é criada pelos homens, mas mantida por esforço diligente.
John Stott: Observa que spoudazō carrega o peso de zelo ativo. A paz não é apenas um sentimento, mas o cimento da unidade eclesiástica.
Peter O’Brien: A expressão “vínculo da paz” (συνδέσμῳ τῆς εἰρήνης) ecoa Colossenses 3:14. A paz é a evidência externa da obra reconciliadora de Cristo.
Conclusão: A igreja não precisa inventar a unidade; ela já foi criada pelo Espírito. Mas ela deve ser zelosa em mantê-la em meio às tensões culturais e pessoais.
Humildade – (ταπεινοφροσύνη, tapeinophrosynē), uma virtude pouco valorizada no mundo greco-romano, mas essencial no Reino de Deus.
Mansidão – (πραΰτης, praÿtēs), é força sob controle, não fraqueza.
Suportando-vos – (ἀνέχομαι, anechomai), tem a ideia de paciência ativa com as falhas alheias.
A unidade (ἑνότης, henotēs) do Espírito é guardada “no vínculo da paz” (σύνδεσμος τῆς εἰρήνης, syndesmos tēs eirēnēs), sendo a paz o laço que une os crentes em um só corpo.
Versos 4–6
“…há um só corpo e um só Espírito…”
Comentário Beacon: Os sete elementos aqui formam uma doxologia trinitária implícita – Espírito (v.4), Senhor Jesus (v.5), Deus Pai (v.6).
Martyn Lloyd-Jones: Essa unidade teológica é o antídoto contra os sectarismos. A igreja é una não porque pensa igual, mas porque tem o mesmo Pai, Salvador e Espírito.
Ridderbos: Vê aqui a estrutura da nova criação escatológica: o “um só corpo” é o novo povo de Deus, formado já como prenúncio da consumação.
Conclusão: A confissão doutrinária da Igreja deve ser o fundamento de sua comunhão prática. Qualquer “unidade” que ignore estas verdades é falsa.
4. Há um só corpo. Ele continua mostrando mais plenamente quão perfeita deveria ser a unidade dos cristãos. A união deve ser tal que formemos um só corpo e uma só alma. Essas palavras denotam o homem como um todo. Como se quisesse dizer: devemos ser unidos, não apenas em uma parte, mas no corpo e na alma. Ele apóia isso com o poderoso argumento de que todos nós somos “chamados a uma só esperança de vossa vocação”. Desse fato se segue que não podemos obter vida eterna sem vivermos em mútua harmonia neste mundo. Um convite divino sendo dirigido a todos, então todos devem viver unidos na mesma profissão de fé, e prestar todo gênero de assistência uns aos outros. Se ao menos o seguinte pensamento fosse implantado em nossas mentes: de que há posto diante de nós esta lei, que diz que entre os filhos de Deus não pode haver desavença, visto que o reino do céu não pode dividir-se, então certamente cultivaríamos muito mais criteriosamente a bondade fraternal! Quanto aborreceríamos todo gênero de animosidade se refletíssemos devidamente que todos quantos se separam de seus irmãos, esses mesmos se tornam estranhos ao reino de Deus! E, todavia, mui estranhamente, enquanto esquecemos os nossos deveres de mutualidade para com os nossos irmãos, seguimos nos vangloriando de que somos filhos de Deus. Aprendamos de Paulo que quem não é um só corpo e um só espírito, não está absolutamente preparado para aquela herança.
5. Um só Senhor. Na Primeira Epístola aos Coríntios [12.5], Paulo simplesmente denota, pelo termo Senhor, o governo de Deus. Aqui, porém, como logo a seguir fala expressamente do Pai, ele estritamente se refere a Cristo, que fora designado pelo Pai para ser nosso Senhor, e a cujo governo não podemos sujeitar-nos, a menos que sejamos uma só mente. Sempre que o leitor encontrar a expressão um só, neste texto, deve considerá-la como uma ênfase, como se o apóstolo quisesse dizer: “Cristo não pode ser dividido; a fé não pode ser lacerada; não há diversos batismos, senão um só, comum a todos; Deus não pode ser dividido em partes.” Portanto, cabe-nos cultivar entre nós a santa unidade, composta de muitos vínculos. A fé, o batismo, Deus o Pai e Cristo devem unir-nos, a ponto de nos tornarmos como se fôssemos um só homem. Todos esses argumentos em prol da unidade devem ser ponderados mais do que explicados. Sinto-me satisfeito em poder realçar a intenção do apóstolo em termos sucintos e deixar a exposição mais completa para meus sermões. A unidade da fé, que aqui se menciona, depende daquela verdade eterna de Deus, sobre a qual a fé se acha fundada.
Um só batismo. Equivoca-se quem infere dessa frase que o batismo cristão não pode ser repetido, porquanto o apóstolo não quis dizer isso, senão que o batismo é comum a todos, de modo que, por meio dele, somos iniciados numa só alma e num só corpo. Pois se aquele argumento tem alguma força, um muito mais forte ainda será que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Deus; porque o batismo é um só, ele é santificado pelo Nome triúno. Que réplica os arianos e sabelianos poderão apresentar contra este argumento? O batismo possui uma força tal que nos faz uno; e no batismo se invoca o Nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Porventura negarão que uma só Deidade é o fundamento desta santa e mística unidade? Devemos, necessariamente, reconhecer que a ordenança do batismo prova que as três Pessoas se constituem numa só essência divina.
6. Um só Deus e Pai de todos. Eis o argumento primordial, do qual todo o restante procede. Donde procede a fé? Donde, o batismo? Donde, o governo de Cristo, sob cujas diretrizes somos unidos, salvo porque Deus o Pai, emanando dele para cada um de nós, emprega esses meios para reunir-nos a si mesmo? As duas frases, ἐπὶ πάντων καὶ διὰ πάντων (que está acima de todos, através de todos), podem ser tomadas ou no neutro ou no masculino. Ambos sentidos se aplicam suficientemente bem, ou, ainda melhor, em ambos os casos o significado será o mesmo. Pois conquanto Deus, com seu poder, sustente, e cuide, e governe todas as coisas, Paulo, no entanto, não está falando do governo universal, e sim só do espiritual, o qual pertence à Igreja. Pelo Espírito de santificação, Deus flui ricamente através de todos os membros da Igreja, envolve todos em seu governo e habita em todos. Deus, porém, não é inconsistente consigo mesmo, e por isso não podemos estar unidos, senão em um só corpo. Essa é a unidade espiritual mencionada por nosso Senhor: “Pai santo, guarda-os em teu nome, o qual me deste para que eles sejam um, assim como nós [Jo 17.11]. Isso é deveras verdadeiro, num sentido geral, não só de todos os homens, mas também de todas as criaturas. “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos” [At 17.28]. E outra vez: “Porventura não encho eu o céu e a terra?” [Jr 23.24] Devemos, porém, atentar bem para o contexto. Paulo está agora tratando da conjunção mútua dos crentes, a qual não tem nada em comum, seja com os ímpios, seja com as criaturas irracionais. Para isso devemos restringirnos ao que ele diz acerca do governo e presença de Deus. É por essa razão, também, que ele usa a palavra Pai, a qual se aplica somente aos membros de Cristo.
Esta é uma poderosa declaração trinitária disfarçada em linguagem da unidade da fé: um só corpo (Igreja), um só Espírito (Espírito Santo), uma só esperança (futura glorificação), um só Senhor (Jesus), uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai.
É notável a ênfase em um só (εἷς, heis), reforçando a natureza indivisível da fé cristã.
Versos 7–10
“…a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo”
Peter O’Brien: A graça aqui refere-se à capacitação para o ministério, não à salvação inicial.
Lincoln: O Salmo 68, citado no v.8, é reinterpretado cristologicamente: o Cristo exaltado é o Doador dos dons. A mudança de “recebeu” para “deu” é teologicamente intencional.
F. F. Bruce: A descida de Cristo pode apontar à encarnação ou à descida ao Hades, ambas afirmando a totalidade de sua missão.
Conclusão: Os dons são expressões da vitória de Cristo. Ele não apenas nos salvou, mas nos equipa para continuar Sua obra.
7. Mas a cada um de nós. O apóstolo agora descreve a maneira na qual Deus estabelece e preserva entre nós uma relação mútua. Nenhum membro do corpo de Cristo é dotado de perfeição tal que seja capaz, sem a assistência de outros, de suprir suas necessidades pessoais. A cada um se distribui uma certa medida; e é só por meio da comunicação recíproca que possuem o necessário para a manutenção de seus respectivos lugares no corpo. Em outra epístola, ele discute a diversidade dos dons, mas quase com o mesmo objetivo. “Há diversidade de dons, mas do mesmo Espírito”. [1Co 12.4] Ali ele ensina que tal diversidade, longe de prejudicar a harmonia dos crentes, antes corrobora para promovê-la e fortalecê-la. Este versículo pode ser assim resumido: “Deus não concede todas as coisas a ninguém isoladamente, senão que cada um recebe uma certa medida, para que dependamos uns dos outros; e, ao reunir o que lhes é dado individualmente, assim eles têm como socorrer uns aos outros.” Pelos termos graça e dom, ele nos recorda que, sejam quais forem os dons que porventura possuamos, não devemos ensoberbecer-nos por causa deles, visto que eles nos põem sob as mais sérias obrigações para com Deus. Além do mais, lemos que estas bênçãos são dádivas de Cristo; pois como o apóstolo mencionou antes de tudo o Pai, assim também, como veremos, seu alvo era representar tudo o que somos, e tudo o que temos, como convergido em Cristo.
8. Por isso ele disse. Para servir ao propósito de seu argumento, Paulo mudou um pouco esta citação de seu significado original. Os perversos o acusam de ter abusado da Escritura. Os judeus vão ainda mais longe: para tornar suas acusações mais plausíveis, maliciosamente pervertem o significado natural desta passagem. O que se diz de Deus, eles transferem para Davi ou para o povo. “Davi, ou o povo,” dizem, “subiu às alturas quando, animado por muitas vitórias, se tornou superior aos seus inimigos.” Mas um criterioso exame do salmo revelará que as palavras, “subiu às maiores alturas”, se aplicam estrita e unicamente a Deus. O salmo todo pode ser considerado como um ἐπίνικιον (epinicion), um cântico de triunfo, o qual Davi entoa a Deus em razão das vitórias que lhe foram concedidas; mas, aproveitando o ensejo propiciado pelas coisas operadas através de suas mãos, ele menciona de passagem os eventos grandiosos que o Senhor efetuara em favor de seu povo. Seu objetivo é mostrar o glorioso poder e benevolência divina na Igreja; e, entre outras coisas, ele diz: “Subiste às alturas” [Sl 68.18]. A carne está sempre pronta a imaginar que Deus jaz inativo e apático, salvo se executar publicamente seus juízos. Pelo prisma humano, quando a Igreja é oprimida, é como se Deus estivesse humilhado; mas quando estende seus braços vingadores para libertá-la, então parece reagir e sobe ao seu tribunal. “Então o Senhor despertou como dum sono, como um valente que o vinho excitasse. Ele fez recuar a golpes seus adversários; infligiu-lhes eterna ignomínia” [Sl 78.65–66]. Essa forma de expressão é suficientemente comum e familiar; e, em suma, o livramento da Igreja é aqui denominado a ascensão de Deus. Percebendo ser este um cântico de triunfo, no qual Davi celebra todas as vitórias que Deus efetuara para a salvação da Igreja, Paulo, mui oportunamente, citou o relato dado da ascensão de Deus, e o aplicou à pessoa de Cristo. O maior triunfo que Deus já granjeou foi aquele em que Cristo, depois de subjugar o pecado, vencendo a morte e pondo Satanás em fuga, subiu majestosamente ao céu para exercer seu glorioso reinado sobre a Igreja. Até aqui não vemos base alguma para a objeção de que Paulo desviou esta citação de seu significado original dado por Davi. Ele contemplava a glória de Deus na existência contínua da Igreja. Todavia, jamais ocorrerá outra ascensão de Deus mais triunfante ou mais memorável do que aquela em que Cristo subiu para assentar-se à destra do Pai, a fim de subjugar a si todos os principados e potestades e transformar-se no Guardião e Protetor da Igreja.
Levou cativo o cativeiro. Cativeiro é um substantivo coletivo para inimigos cativos; e por isso o apóstolo quer dizer simplesmente que Deus reduziu seus inimigos à sujeição; o que se consumou mais plenamente em Cristo do que de qualquer outra maneira. Ele não só derrotou Satanás, o pecado, a morte e o inferno, mas também dos rebeldes faz para si, dia a dia, um povo obediente, ao dominar, por meio de sua Palavra, a devassidão de nossa carne. Em contrapartida, seus inimigos (isto é, todos os ímpios) são mantidos em cativeiro por correntes de ferro, quando, pela ação de seu poder, ele mantém a fúria deles dentro dos limites de sua permissão.
E deu dons aos homens. Existe muita dificuldade nesta frase. Pois onde o Salmo declara que Deus recebeu dons, Paulo reverte o verbo receber para dar, e assim parece imprimir ao texto um significa contrário. Não há, porém, nenhum absurdo aqui; pois Paulo não estava acostumado a extrair da Escritura citações com exatidão verbal, mas se contentava em indicar a passagem e em seguida extrair dela a substância. Ora, não há dúvida de que os dons mencionados por Davi não eram recebidos por Deus visando a si próprio, e sim a seu povo. E, conseqüentemente, está expresso no Salmo, um pouco antes, que o despojo fora dividido entre as famílias de Israel. Visto, pois, que o propósito em receber estava em dar, Paulo de modo algum afastou-se da substância, por mais que ele tenha mudado as palavras. Todavia, sinto-me inclinado para uma opinião diferente, ou seja: que Paulo intencionalmente mudou a terminologia, e não a retirou do, mas adaptou uma expressão propriamente sua, visando à presente ocasião. Havendo citado do Salmo umas poucas palavras sobre a ascensão de Cristo, ele adiciona sua própria linguagem – “e deu dons” –, visando extrair uma comparação entre o menor e o maior. O apóstolo quer mostrar que a ascensão de Deus na Pessoa de Cristo foi muito maior do que os antigos triunfos da Igreja; porquanto é muito mais excelente para um vencedor distribuir todo seu prêmio generosamente entre todos, do que reunir os despojos da conquista. A interpretação de alguns, de que Cristo recebeu do Pai o que distribuiria à nós, é forçada e completamente estranha ao argumento. A meu ver, nenhuma solução é mais natural do que esta, a saber: tendo decidido citar sucintamente esta parte do Salmo, o apóstolo deu a si mesmo a liberdade de adicionar o que não se encontra ali, ainda que, não obstante, proceda realmente de Cristo – em que a ascensão deste é mais excelente e grandiosa do que aquelas antigas glórias de Deus que Davi enumera.
9. Ora, aquele que subiu. Aqui, novamente, os caluniadores criticam o raciocínio de Paulo como sendo leviano e pueril, ao tentar ele aplicar à real ascensão de Cristo o que fora expresso figurativamente acerca de uma manifestação da glória divina. Quem não sabe, dizem, que o termo subiu é metafórico? Portanto, sua conclusão – senão também aquele que também havia descido –, é destituída de qualquer importância. Minha resposta é que o apóstolo, aqui, não argumenta pelo prisma da lógica, quanto ao que necessariamente segue ou se pode inferir das palavras do profeta. Ele sabia que o que Davi falou sobre a ascensão de Deus era metafórico. Não obstante, tampouco se pode negar que ele ora sugere que Deus, em certo sentido, se humilhara por algum tempo, porquanto declara que Deus, agora, é exaltado. É esta humilhação que Paulo, corretamente, infere da declaração de que Deus havia subido. E quando foi que Deus desceu mais baixo do que quando Cristo a si mesmo se esvaziou? [Ἀλλ ̓ ἐαυτὸν ἐκένωσε, Fp 2.7]. Se houve alguma ocasião em que, depois de aparente e ingloriamente humilhar-se, Deus se exaltou soberanamente, foi quando Cristo se ergueu de nossa frágil condição e foi recebido na glória celestial. Por isso não devemos inquirir minuciosamente sobre a explicação literal do Salmo, visto que Paulo faz mera alusão às palavras do profeta, assim como em outro lugar ele acomoda um versículo de Moisés a seu objetivo pessoal [Dt 30.12; Rm 10.6]. Mas, afora o fato de que ele não o aplica à pessoa de Cristo imprópria e inadequadamente, o final do Salmo revela com toda clareza que o que ele diz ali pertence ao reino de Cristo. Sem mencionar outras coisas, ele contém uma clara profecia acerca da vocação dos gentios.
Às partes inferiores da terra. Estas palavras nada mais significam que a condição da presente vida. Torturá-las a ponto de fazê-las significar o purgatório ou o inferno, constitui uma excessiva estultícia. O argumento que extraem do grau comparativo é por demais frágil. Aqui se traça uma comparação, não entre uma e outra parte da terra, mas entre a totalidade da terra e do céu; como se ele quisesse dizer: “Daquela sublime habitação, Cristo desceu ao nosso profundo abismo.”
10. Subiu acima de todos os céus. É como se dissesse: “Para além deste mundo criado.” Ao dizer que Cristo está no céu, não devemos concluir que ele habita entre os corpos e multidões de estrelas. O céu denota uma região mais elevada do que todas as esferas, a qual foi destinada ao Filho de Deus após sua ressurreição. Não que ela seja estritamente uma região fora do mundo, e sim que não podemos falar do reino de Deus, a não ser pelo uso de nossa própria linguagem. Não obstante, os que consideram as expressões “acima de todos os céus” e “subiu ao céu”, como que significando a mesma coisa, concluem que Cristo não se acha separado de nós pela distância. Mas não ponderam que, quando ele é colocado acima dos céus ou nos céus, exclui-se toda circunferência abaixo do sol e das estrelas e, portanto, abaixo de toda a estrutura do mundo visível.
Para que pudesse encher todas as coisas. Encher às vezes significa aperfeiçoar, e esse significado pode estar presente aqui; porque, por sua ascensão ao céu, Cristo tomou posse do domínio que lhe fora dado pelo Pai, para reger e governar todas as coisas pelo seu poder. Não obstante, como o vejo, será mais judicioso conectar essas duas aparentes contradições, as quais são, contudo, perfeitamente consistentes. Quando ouvimos falar da ascensão de Cristo, surge de imediato a nossa mente que ele foi removido para longe de nós; e na verdade assim o é, no tocante ao corpo e à presença humana. Paulo, porém, nos diz que ele se encontra afastado de nós no que tange à presença corporal, de uma maneira tal que, não obstante, continua enchendo todas as coisas, e isso através do poder de seu Espírito. Sempre que a destra de Deus, que envolve céu e terra, se manifesta, a presença espiritual de Cristo se exterioriza e ele se faz presente através de seu infinito poder, ainda que seu corpo esteja circunscrito ao céu, segundo a afirmação de Pedro [At 3.21]. Nós vemos que a alusão a uma aparente contradição acaba por melhorar a sentença. Ele subiu, mas ele era aquele que, anteriormente confinado a um pequeno espaço, foi capaz de encher os céus e terra. Ele, porém, não os enchia antes? Em sua divindade, confesso, ele o fez; porém não externou o poder de seu Espírito, nem manifestou sua presença, da mesma forma que o fez depois de tomar posse de seu reino: “pois o Espírito até esse momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado” [Jo 7.39]. E novamente: “Convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei” [Jo 16.7]. Numa palavra, assim que começou a tomar assento à destra do Pai, ele começou também a encher todas as coisas.
Medida (μέτρον, metron) – não é desigualdade, mas diversidade funcional.
O verso 8 faz alusão ao Salmo 68:18, mas com uma mudança: no hebraico, “recebeste dons”; aqui, “deu dons aos homens” (ἔδωκεν δόματα τοῖς ἀνθρώποις, edōken domata tois anthrōpois), indicando a generosidade de Cristo após Sua vitória.
Os versículos 9–10 esclarecem essa vitória, aludindo à descida de Cristo à terra (ou ao Hades, segundo algumas interpretações patrísticas) e Sua ascensão gloriosa, com propósito de “encher todas as coisas”.
Versos 11–12
“E ele mesmo concedeu uns como apóstolos, outros como profetas, evangelistas, pastores e mestres…”
Calvino: Observa que os dons não são títulos de prestígio, mas encargos de serviço.
Stott: Destaca a ordem: os dons são pessoas, e essas pessoas existem para equipar os santos.
Lloyd-Jones: Aponta que a verdadeira edificação ocorre quando a liderança espiritual capacita os crentes, e não os controla.
Conclusão: A Igreja cresce saudável quando cada membro é equipado por líderes que ensinam e pastoreiam com fidelidade à Palavra.
11. E ele deu. Primeiramente, ele declara que a Igreja é governada pela proclamação da Palavra, e isso não constitui uma invenção humana, e sim na designação de Cristo. Os apóstolos não designaram a si próprios, mas foram escolhidos por Cristo; e, ainda hoje, os pastores genuínos não se precipitam temerariamente ao sabor de sua própria vontade, mas são levantados pelo Senhor. Em suma, o apóstolo ensina que o governo da Igreja, por meio do ministério da Palavra, não é engendrado pelo homem, e sim, instituído pelo Filho de Deus. Sendo seu próprio decreto divino e inviolável, ele [o ministério da Palavra] demanda nosso assentimento; e aqueles que o rejeitam, ou o menosprezam, injuriam a Cristo e se rebelam contra ele, seu Autor. Foi Cristo mesmo quem no-los deu; pois se ele não os levantasse, não haveria nenhum. Outra inferência é que nenhum homem é apto ou qualificado para tão excelente ofício, se porventura não fosse formado e modelado pelo próprio Senhor Jesus. O fato de termos ministros do evangelho, é dom de Cristo; o fato de se distinguirem nos dons necessários, é dom de Cristo; o fato de que se incumbem da responsabilidade que lhes foi confiada, é igualmente dom de Cristo.
Alguns, apóstolos. O fato de o apóstolo atribuir um título e ofício a alguns, e outro, a outros, sua referência é sempre àquela diversidade dos membros da qual se forma a plenitude de todo o corpo, de sorte que ele remove a emulação, a inveja e a ambição. Pois quão corrompido se torna o uso correto dos dons, quando cada um se dedica a si próprio, quando cada um agrada a si próprio, quando o menor nutre inveja do maior! O apóstolo, pois, lhes diz que algo é dado a cada um, que o que cada um tem recebido não deve ser conservado só para si, mas que seja empregado para o benefício de todos. Na Primeira Epístola aos Coríntios [12], já falamos sobre os ofícios que o apóstolo aqui passa em revista. Aqui ele só menciona qual a explicação que a passagem parece demandar. Mencionam-se cinco tipos de ofícios, ainda que neste ponto, estou bem ciente, há enorme diversidade de opiniões; pois há quem considere os dois últimos como sendo apenas um ofício. Omitindo, porém, as opiniões de outros, seguirei em frente declarando minha opinião pessoal.
Tomo o termo apóstolos não no sentido geral e segundo sua etimologia, e sim em sua significação peculiar, como sendo aqueles a quem Cristo particularmente selecionou e exaltou à mais elevada honra. Tais foram os doze, a cujo número Paulo foi mais tarde agregado. Seu ofício consistia em publicar a doutrina do evangelho por todo o mundo, plantar igrejas e erigir o reino de Cristo. Desse modo não tinham igrejas propriamente a eles confiadas; mas tinham a comissão comum de proclamar o evangelho por onde quer que fossem.
Em seguida vêm os evangelistas, que é um ofício idêntico, porém de uma categoria inferior. Nessa classe incluíam-se Timóteo e aqueles como ele; pois, enquanto Paulo o associa consigo em suas saudações, ele não o inclui no rol dos companheiros de apostolado, senão que reivindica esse título como peculiarmente seu. Portanto, o Senhor os usou como subsidiários aos apóstolos, a quem se assemelhavam em categoria.
A essas duas classes Paulo adiciona profetas. Por esse título, alguns entendem ser atribuído aos que possuíam o dom de predizer eventos futuros, como Ágabo [At 11.28; 21.10]. Em minha opinião pessoal, porém, visto que o presente assunto é sobre doutrina, definiria, antes, a palavra profeta, como em [1Co 14], no sentido de eminentes intérpretes de profecias os quais, por um dom peculiar de revelação, as aplicavam aos propósitos em mãos. Mas, não excluo o dom de profecia [preditiva], desde que ela fosse conectada ao dom de ensino. Há quem pense que pastores e mestres denotam um só ofício, visto não haver nenhuma partícula disjuntiva, como nas demais partes do versículo, para distingui-los. Crisóstomo e Agostinho são dessa opinião. Pois o que lemos nos comentários ambrosianos é demasiadamente pueril e indigno de Ambrósio. Em parte concordo com aqueles que dizem que Paulo fala indiscriminadamente de pastores e mestres como se constituíssem uma e a mesma ordem; tampouco nego que o título mestres, em certa medida, pertença a todos os pastores. Tal fato, porém, não me leva a confundir dois ofícios, os quais sinto que diferem um do outro. Doutrinar é dever de todos os pastores, mas há um dom particular de interpretação da Escritura, para que a sã doutrina seja conservada e um homem possa ser mestre mesmo quando não seja apto para pregar.
Pastores, a meu ver, são aqueles a quem se confia a responsabilidade de um rebanho particular. Não faço objeção a que recebam o título de mestres, desde que compreendamos que existe outra classe de doutores, que superintendem tanto a educação de pastores quanto a instrução de toda a Igreja. É possível que um homem seja ao mesmo tempo pastor e mestre, mas os deveres [facultates] são diferentes. Deve-se observar também que, dos ofícios que Paulo enumera, somente os dois últimos são de caráter perpétuo. Porquanto Deus adornou sua Igreja com apóstolos, evangelistas e profetas só por algum tempo, exceto que, onde a religião se acha sucumbida, ele suscita evangelistas à parte da ordem da Igreja [extra ordinem] para restaurar a pureza da doutrina àquela posição que perdera. Sem pastores e mestres, porém, não pode haver nenhum governo da Igreja.
Os papistas têm sobejas razões em queixar-se de que sua primazia, da que tanto blasonam, é aqui assaltada e insultada. O tema da discussão é sobre a unidade da Igreja. Paulo agrega não só as razões que a estabelecem entre nós, mas também os símbolos pelos quais ela é promovida. Ele chega finalmente ao governo da Igreja. Se porventura ele estivesse ciente de uma primazia com uma sede única, não seria seu dever exibir uma só cabeça ministerial colocada acima de todos os membros, sob cujos auspícios somos reunidos numa unidade? Indubitavelmente, ou a omissão de Paulo é inescusável, deixando fora o argumento mais apropriado e mais poderoso, ou temos de reconhecer que essa primazia é estranha à designação de Cristo. De fato, ele claramente aniquila essa primazia fictícia, quando atribui superioridade exclusivamente a Cristo e sujeita-lhe os apóstolos e todos os pastores, de uma forma tal que se tornam colegas e correligionários uns dos outros. Não há passagem da Escritura que mais poderosamente transtorna essa hierarquia tirânica, na qual se estabelece uma cabeça terrena. Cipriano seguiu a Paulo e definiu sucinta e claramente qual é a legítima monarquia da Igreja. Há, diz ele, um só episcopado, aquela parte à qual aderem indivíduos coletivamente [in solidum]. Ele reivindica esse episcopado como sendo exclusivo de Cristo. Ele delega a indivíduos a participação de sua administração, e isso coletivamente, para que um só não se exalte acima dos demais.
12. Para o aperfeiçoamento dos santos. Em minha versão, segui a Erasmo, não porque aceito sua opinião, mas para que os leitores possam decidir sua preferência, confrontando sua versão com a Vulgata e com a minha. A Vulgata traz ad consummationem [aperfeiçoar]. O termo grego de Paulo é καταρτισμός, o qual significa, literalmente, adaptação [coaptationem] de coisas que devem ter simetria e proporção; assim como, no corpo humano, há uma combinação apropriada e regular dos membros; de modo que o termo é também usado para perfeição. Mas, como a intenção de Paulo, aqui, era expressar um arranjo simétrico e metódico, prefiro o termo constituição [constitutio]. Pois, estritamente falando, o latim indica uma comunidade, ou reino, ou província constituída, quando a confusão dá lugar ao estado legal e regular.
Para a obra do ministério. Deus mesmo poderia ter realizado essa obra, caso o quisesse; no entanto a delegou ao ministério de homens. A intenção aqui é antecipar a seguinte objeção: “Não poderia a Igreja ser constituída e adequadamente ordenada sem a instrumentalidade humana?” Paulo assevera que se requer um ministério, porquanto essa é a Vontade de Deus.
Para a edificação do corpo de Cristo. Isto é a mesma coisa com que ele previamente denominara o estabelecimento ou aperfeiçoamento dos santos. Nossa genuína completude e perfeição consistem em estarmos unidos no corpo de Cristo. Ele não poderia ter exaltado o ministério da Palavra em termos mais sublimes do que lhe atribuindo este efeito. O que é mais excelente do que formar a verdadeira Igreja de Cristo a fim de ser a mesma estabelecida em sua correta e perfeita integridade? Essa obra tão admirável e divina, o apóstolo aqui declara ser estabelecida pelo ministério da Palavra. Desse fato faz-se evidente que os que negligenciam esses meios, e ainda esperam ser aperfeiçoados em Cristo, não passam de seres perversíssimos. Tais são os fanáticos, que inventam para si revelações secretas do Espírito, bem como os soberbos que acreditam que lhes é suficiente a leitura privativa das Escrituras, não tendo qualquer necessidade do ministério da Igreja. Se a Igreja é edificada unicamente por Cristo, prescrever o modo como ela deve ser edificada é também prerrogativa dele. Paulo, porém, afirma de modo iniludível que, em consonância com o mandamento de Cristo, não somos devidamente unidos ou aperfeiçoados senão pela proclamação externa. Devemos deixar-nos ser governados e doutrinados pelos homens. Eis a regra universal, a qual abrange tanto os mais eminentes quanto os mais humildes. A Igreja é a mãe comum de todos os piedosos, a qual suporta, nutre e governa, no Senhor, tanto a reis como a seus súditos; e tal coisa é feita pelo ministério. Os que negligenciam, ou fazem pouco, desta ordem pretendem ser mais sábios do que Cristo. Ai da soberba de tais homens! Não negamos que podemos ser aperfeiçoados somente pelo poder de Deus, sem qualquer assistência humana. Neste ponto, porém, estamos tratando sobre qual é a vontade de Deus e a designação de Cristo, e não do que o poder de Deus pode fazer. Ao empregar a instrumentalidade humana na realização da salvação dos homens, Deus não está conferindo aos homens nenhuma honra ordinária. E a melhor maneira de promover a unidade é unir-se em torno de um ensino de um ensino comum, seguindo o padrão de um líder.
O sujeito do verbo é “Ele mesmo” (αὐτός, autos) – Cristo é quem distribui dons ministeriais.
“Pastores e mestres” pode indicar um só ofício pastoral com função de ensino (ποιμένες καὶ διδάσκαλοι, poimenes kai didaskaloi), como muitos gramáticos notam o uso do artigo definido único em grego.
O objetivo é o “aperfeiçoamento” (καταρτισμός, katartismos) dos santos – termo técnico usado na medicina para restaurar um membro – e “edificação do corpo de Cristo” (οἰκοδομὴ, oikodomē).
Versos 13–16
“…até que todos cheguemos à unidade da fé…”
Andrew Lincoln: O termo “homem perfeito” (ἀνήρ τέλειος) contrasta com os “meninos” do v.14. Maturidade é o alvo da vida cristã.
F. F. Bruce: O crescimento do corpo só ocorre com base na verdade falada e vivida em amor. A maturidade evita que sejamos levados por doutrinas erradas.
Stott: Cada membro tem uma função vital. Nenhum é irrelevante ou desnecessário. O corpo cresce quando cada parte opera eficazmente (kat’ energeian).
Conclusão: O crescimento da Igreja é orgânico e funcional, não institucional. O alvo final é conformidade com Cristo, a Cabeça do corpo.
13. Até que todos nós cheguemos. Paulo já dissera que, pelo ministério de homens, a Igreja é regulamentada e governada, de modo a alcançar a mais elevada perfeição. Mas sua recomendação do ministério é levada ainda mais longe. Para evitar que alguém concluísse que isso é necessário só por um único dia, o apóstolo lhes afirma que sua duração é até o fim. Ou, para falar com mais clareza, ele nos diz que o uso do ministério não é de caráter temporal, como se fosse uma escola preparatória [παιδαγωγία, Gl 3.24], mas constante, ao longo de todo nosso viver neste mundo. Os entusiastas imaginam que o ministério se torna inútil tão logo somos conduzidos a Cristo. Os soberbos, aqueles que querem saber mais do que lhes convém, o desprezam como coisa pueril e elementar. Paulo, contudo, protesta dizendo que devemos perseverar nesse curso até que todas as nossas deficiências sejam supridas; isto é, que devemos progredir até a morte sob o senhorio exclusivo de Cristo; e que não devemos sentir-nos envergonhados de sermos alunos da Igreja, à qual Cristo confiou nossa educação.
À unidade da fé. Ora, a unidade da fé não deve reinar entre nós desde o início? De fato reconheço que ela reina entre os filhos de Deus, mas não tão perfeitamente que os faça viver em união. A fraqueza de nossa natureza é de tal porte, que é preciso que a cada dia alguém se aproxime mais dos outros, e todos se aproximem mais de Cristo. A expressão, viver em união, pressupõe aquela união mais estreita que ainda aspiramos, e que jamais alcançamos até que nossa natureza carnal, que está sempre envolvida em infindáveis resquícios de ignorância e descrença, seja desfeita.
E do conhecimento do Filho de Deus. Esta frase parece ser adicionada à guisa de explicação. Pois o apóstolo queria explicar qual a natureza da verdadeira fé e quando ela passa a existir, ou seja, quando o Filho de Deus é conhecido. Pois é tão-somente a ele que a fé deve buscar, tão-somente dele depender, tão-somente nele repousar e terminar. Se ela tentar ir além, então desaparecerá, pois então já não será fé, e sim uma ilusão. Lembremo-nos de que a fé genuína confina sua visão tão inteiramente em Cristo, que ela não sabe, nem deseja saber, nada mais além dele.
Ao homem perfeito. Essa frase deve ser lida como uma aposição, como se o apóstolo quisesse dizer: “Qual é a perfeição mais sublime dos cristãos? E por que isso é assim?” A humanidade perfeita está em Cristo. Os insensatos não buscam sua perfeição nele como deviam. Entre nós deve haver o seguinte princípio: que tudo quanto se encontra fora de Cristo é nocivo e destrutivo. O homem só é perfeito, em todos os aspectos, quanto está em Cristo.
À medida da estatura significa a idade completa ou madura. Nenhuma menção se faz à velhice, porquanto em tal progresso não há lugar para ela. Tudo quanto se torna velho tem a tendência de deteriorar; no entanto, o vigor desta vida espiritual é continuamente progressivo.
14. Para que não mais sejamos como crianças. Como Paulo havia falado da idade plenamente desenvolvida, rumo à qual prosseguimos ao longo de todo o curso de nossa vida, então ele nos fala que, durante tal progresso, não devemos portar-nos como crianças. Ele assim estabelece um período interveniente entre a infância e a maturidade. Crianças são aqueles que ainda não deram um passo no caminho do Senhor, mas que ainda hesitam – aqueles que ainda não determinaram que estrada devem escolher, mas às vezes se movem numa direção, e às vezes noutra, sempre em dúvida, sempre oscilando. Mas os que estão plenamente fundamentados na doutrina de Cristo, embora ainda imperfeitos, possuem tanta sabedoria e vigor que têm como escolher o que é melhor, e assim prosseguem firmemente no curso certo. Assim a vida dos crentes, almejando constantemente alcançar seu estado designado [por Deus], se assemelha ao período da adolescência. Portanto, ao dizer que nesta presente vida jamais somos pessoas adultas, tal fato não deve ser levado para o outro extremo, como se não houvesse, por assim dizer, nenhum progresso para além da infância. Após havermos nascido em Cristo, deveríamos crescer a fim de não mais sermos crianças no entendimento. Isto revela o tipo de cristianismo existe sob o domínio do papado, onde os pastores usam o máximo de seu poder para manter o povo em absoluta infância.
Arremessados de um lado para outro, levados ao redor. Fazendo uso de duas elegantes metáforas, o apóstolo ilustra a miserável hesitação daqueles que não põem absoluta confiança na Palavra do Senhor. A primeira é tomada de pequenas embarcações, batidas pelas ondas do mar aberto, sem conseguir manter o curso certo, sem ser guiadas por habilidade nem por desígnio, e sim levadas ao léu pela tempestade. Em seguida ele os compara a palhas ou a outros elementos leves, os quais são rodopiados pela força do vento a soprar em círculo ou em direções opostas. Assim são movidas as pessoas inconstantes cujas bases não se encontram na eterna verdade de Deus. Eis o justo castigo aplicado contra todos aqueles que olham mais para os homens do que para Deus. Paulo, em contrapartida, declara que a fé que repousa na Palavra de Deus permanece inabalável contra todas as investidas de Satanás.
Por todo vento de doutrina. O apóstolo faz uso de uma bela metáfora – vento – para qualificar as doutrinas dos homens, pelas quais somos afastados da simplicidade do evangelho. Deus nos deu sua Palavra na qual, quando fincamos bem as raízes, permanecemos inamovíveis; os homens, porém, fazendo uso de suas invenções, nos extraviam à todas as direções. Ao adicionar: pelos estratagemas dos homens, a intenção do apóstolo é dizer que sempre haverá impostores que ameaçam e atacam nossa fé; porém, se estivermos armados com a verdade de Deus, eles fracassarão. Ambas as partes deste fato devem ser criteriosamente observadas, a saber: quando novas seitas ou dogmas ímpios surgem, muitos ficam alarmados. Satanás, porém, jamais descansa enquanto não consegue, através de todo empenho, obscurecer, com suas mentiras, a santa doutrina de Cristo. E a vontade de Deus é que nossa fé seja provada com tais conflitos. Em contrapartida, ao ouvirmos que o melhor e mais eficaz antídoto contra todos os erros consiste em levarmos avante essa doutrina que temos aprendido de Cristo e seus apóstolos, certamente que isso não constitui uma consolação ordinária. Daqui se faz evidente quão imensa e maldita é aquela impiedade do papado que consiste em remover da Palavra de Deus toda a certeza e em negar qualquer outra firmeza da fé além da dependência depositada na autoridade dos homens. Ensinam que, se alguém é atingido pela dúvida, é inútil consultar a Palavra de Deus; ele deve conformar-se com os decretos da Igreja. Nós, porém, que abraçamos a lei, os profetas e o evangelho, não tenhamos dúvida de que receberemos o fruto de que Paulo fala – toda a astúcia dos homens não nos causará dano. Eles nos atacam, sim, mas não prevalecerão. Reconheço que devemos sair em busca da sã doutrina da Igreja, porquanto Deus a confiou à sua responsabilidade. Mas quando os papistas, sob a máscara da Igreja, sepultam a doutrina, dão suficiente prova de que pertencem à sinagoga de Satanás. O termo grego, κυβεία, o qual traduzi por estratagemas, é extraído dos jogadores de dados, que usam muitos truques fraudulentos, muitas artes de ilusionismo. Ele acrescenta ἐν πανουργίᾳ (astúcia), significando que os ministros de Satanás são hábeis no uso da fraude; e o apóstolo prossegue dizendo que eles estão sempre atentos em seu intuito de seduzir, πρὸς τὴν μεθοδείαν τὢς πλάνης. Tudo isso deve despertar e aguçar nossa prudência, não negligenciando os benefícios provenientes da Palavra de Deus, a fim de não cairmos nos laços de nossos inimigos e termos de enfrentar o severo castigo devido à nossa indolência.
15. Falando, porém, a verdade. Ele já havia ensinado que não devemos ser crianças, destituídos de razão e de são juízo. Para confirmá-lo, ele agora nos manda que cresçamos na verdade. Isso é o que eu já havia dito, ou seja: embora não tenhamos ainda chegado à idade adulta estamos, de alguma forma, no último período da infância [pueri maiores]. A verdade de Deus deve estar em nós de uma forma tão sólida, que todos os obstáculos e ataques de Satanás jamais nos demoverão de nossa posição; entretanto, como na presente vida não atingiremos pleno e completo vigor, é mister que façamos progresso até a morte. O apóstolo chama a atenção para a meta desse progresso: Que só Cristo seja a cabeça entre nós, “para que em todas as coisas tenha ele a preeminência” [Cl 1.18], e para que tão-somente nele cresçamos em vigor ou em estatura. Além disso, vemos aqui que ninguém é excetuado; todos são intimados a viver submissos, e para tomar seus devidos lugares no corpo. O que, pois, é o papado senão um corcunda deformado que destrói toda a simetria da Igreja, quando um só homem, levantando-se contra a Cabeça, se exime do número dos membros? Os papistas negam tal fato, e pretendem que o papa é apenas a cabeça ministerial. Mas não conseguem escapar usando esse sofisma. A tirania de seu ídolo é completamente contrária a essa ordem que Paulo aqui recomenda. Sumariando, somente Cristo deve crescer, e todos os demais devem diminuir [Jo 3.30], a fim de que a Igreja seja bem ordenada. Seja qual for o crescimento que obtemos, ele deve ser regulado na proporção em que permanecemos em nosso devido lugar e sirva para enaltecer a Cabeça. Quando o apóstolo nos intima a prestar atenção à verdade em amor, ele usa a preposição em (ἐν); na forma hebraica ב (beth), que significa com, – falando a verdade em amor. Pois ele não quer que indivíduos se devotem a si mesmos, senão que associem diligência pela verdade com preocupação pela comunhão mútua, a fim de progredirem pacificamente. À luz da autoridade de Paulo, essa harmonia deve ser de tal natureza, que os homens não negligenciem a verdade, nem a desconsiderem com o fim de fazer uma combinação segundo seu próprio arbítrio. Isso refuta a perversidade dos papistas, os quais descartam a Palavra de Deus e tentam forçar-nos a fazer o que bem querem.
16. De quem todo o corpo. Ele confirma, mediante as melhores razões, que todo nosso desenvolvimento deve levar-nos a enaltecer de forma muito mais sublime a glória de Cristo. É ele quem nos supre de todas as coisas; é ele quem nos guarda incólumes, de modo a não sentirmos segurança alguma exceto nele. Pois como toda árvore produz seiva proveniente das raízes, assim também ele ensina que todo o vigor que possuímos provém de Cristo. Há três coisas a serem notadas aqui. A primeira consiste no que já declarei. Toda a vida ou saúde que se difunde através dos membros emana da Cabeça; de sorte que os membros são apenas assistentes. A segunda consiste em que, mediante distribuição, a limitada contribuição de cada um demanda comunicação entre si. A terceira consiste em que, sem o amor mútuo, o corpo não pode desfrutar de saúde. E assim ele diz que, através dos membros, como que através de condutores, da Cabeça flui tudo quanto é necessário para a nutrição do corpo. Também diz que, enquanto essa conexão estiver em vigor, o corpo é vivo e saudável. Além do mais, ele atribui a cada membro seu próprio modo de ser – segundo a justa operação de cada parte. Finalmente, o apóstolo mostra que a Igreja é edificada – para a edificação de si mesmo em amor. Isso significa que nenhum crescimento é de utilidade quando não corresponde a todo o corpo. A pessoa que deseja crescer isoladamente segue um rumo equivocado. Pois que proveito traria [ao corpo] se uma perna ou um braço se desenvolvesse sem simetria, ou uma boca fosse grande demais? Seria ele simplesmente afligido como se tivesse presente um tumor maligno. Portanto, caso queiramos ser considerados em Cristo, que nenhum de nós seja tudo para si mesmo, senão que, tudo quanto venhamos a ser, sejamos em relação uns aos outros. Isso só pode ser realizado pelo amor; e onde o amor não reina, também não existe edificação na Igreja, senão mera dispersão.
Há aqui um progresso rumo à maturidade espiritual – τέλειος ἀνήρ (teleios anēr), “homem maduro”.
O contraste com a infância espiritual (v.14) é claro: “não mais meninos” (νήπιοι, nēpioi), levados por ventos de doutrina.
O crescimento saudável vem de Cristo, a cabeça, e é promovido pela verdade em amor (ἀληθεύοντες ἐν ἀγάπῃ, alētheuontes en agapē).
Cada membro contribui com seu papel (συναρμολογούμενον… κατ’ ἐνέργειαν, synarmologoumenon… kat’ energeian), produzindo crescimento mútuo em amor.
Detalhes Teológicos
Vocação - Fundada na eleição e no chamado eficaz de Deus
Unidade - Criada pelo Espírito, centrada na Trindade
Virtudes Cristãs - Humildade, mansidão e amor como expressão da nova criação
Dons Ministeriais - Doados por Cristo ressurreto, visando edificação
Crescimento Espiritual - De meninos a adultos maduros em Cristo
Função dos crentes - Cada membro é vital para o crescimento do corpo
Aplicação Pessoal
Aplicação Pessoal
Efésios 4:1–16 é um chamado à vida cristã comunitária autêntica, baseada na unidade, na maturidade espiritual e no serviço com dons espirituais.
Vocação com dignidade: Paulo não impõe regras religiosas; ele roga por uma vida que seja coerente com o chamado celestial. Cada crente foi chamado para refletir Cristo em sua conduta (v.1).
Aplicação: O seu estilo de vida honra o chamado que você recebeu? Você tem vivido de modo digno da sua fé?
Virtudes da nova humanidade: Humildade, mansidão, paciência e amor não são opcionais na comunidade cristã; são os pilares da unidade (v.2-3).
Aplicação: Com que frequência você suporta, perdoa e ama aqueles que falham com você na igreja?
Unidade sem uniformidade: Há um só corpo e uma só fé, mas muitos dons. Cristo distribuiu dons para capacitar os crentes a servir.
Aplicação: Você conhece e exerce o dom que Cristo lhe deu? Está contribuindo para o crescimento do corpo?
Evite a infantilidade espiritual: Paulo nos chama à maturidade para que não sejamos enganados por falsos mestres (v.14).
Aplicação: Você tem crescido no conhecimento da Palavra? Ou ainda depende dos outros para se alimentar espiritualmente?
Amor que edifica: Falar a verdade em amor é a chave do crescimento coletivo (v.15).
Aplicação: Você corrige e é corrigido com amor? Está ajudando outros a crescerem em Cristo?
