O Rei é o Cristo (Marcos 8.22-33)

O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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O Rei é o Cristo (Marcos 8.22-33)

Introdução

Imagine uma turma de 12 alunos que, aula após aula, tem oportunidades de aprender e se aprofundar em determinados assuntos. Há dúvidas persistindo entre eles, mas novas e vivas oportunidades de aprendizado vão sempre surgindo. Um dia, o professor testa o conhecimento da turma e faz uma pergunta cuja resposta exige perspicácia. Pedrinho, um aluno bastante determinado, responde com prontidão e exatidão. Mas depois o professor pede: "Justifique" ou o velho "responda com suas palavras". E aquela resposta certa revela que, por trás, há uma total falta de compreensão.
Guardadas as devidas proporções, temos algo semelhante aqui. Em Marcos 8.22-33, duas situações distintas ("então", nos versículos 22 e 27) se conectam diretamente aos episódios anteriores da multiplicação de pães e peixes e à persistente falta de entendimento dos discípulos.
A primeira situação, a cura do cego de Betsaida, aparentemente serve a um propósito de Marcos: demonstrar que aos discípulos não faltavam oportunidades para testemunharem o ministério de Jesus. Qualquer falta de compreensão não era por ausência de revelação, mas por uma dureza de coração (ou lentidão para compreender). A segunda situação, a confissão de Pedro e a primeira predição da paixão, é onde Marcos demonstra que o entendimento dos discípulos sobre Jesus ser o Cristo é ainda distorcido e não envolve a necessidade de Sua paixão. Jesus revela assuntos divinos, e eles ainda cogitam os assuntos dos homens.

Exposição

1. A Cura Gradual do Cego de Betsaida: Enxergando a Realidade do Reino (Marcos 8.22-26)

Este milagre, único na narrativa de Marcos, ocorre em Betsaida, a mesma cidade onde Jesus havia sido rejeitado e onde os discípulos tinham demonstrado sua lentidão em entender a multiplicação dos pães (Marcos 6.45-52). A cura acontece em duas etapas, o que é incomum nos milagres de Jesus e aparentemente carrega um profundo simbolismo.
1.1. O Pedido e a Ação de Jesus (vs. 22-23):
Pessoas trazem um cego a Jesus e Lhe pedem que o toque. Jesus o leva para fora da aldeia, o que pode simbolizar uma separação do ambiente de incredulidade e falta de percepção (Betsaida havia sido amaldiçoada por Jesus em Mateus 11.21).
Jesus cospe nos olhos do cego e Lhe impõe as mãos, perguntando se ele via algo. O uso da saliva e o toque são gestos comuns em alguns de Seus milagres, mostrando uma conexão física e direta com a cura. Aqui, no entanto, não fica claro o motivo do uso da saliva.
1.2. A Cura em Duas Etapas e a Percepção Progressiva (vs. 24-25):
Na primeira etapa, o cego responde: "Vejo homens, mas os vejo como árvores que andam". Sua visão é parcial, embaçada e distorcida. Ele vê, mas não vê com clareza. É óbvio que não foi o caso de falta de poder de Jesus, mas que há algo que será ensinado a partir dali.
Jesus impõe as mãos sobre ele novamente, e então sua visão é restaurada completamente. Ele passa a ver "tudo nitidamente".
Exegese e Significado Teológico: Esta cura gradual é amplamente interpretada como um milagre-parábola ou uma ação profética de Jesus. Ela serve como uma representação visual da cegueira espiritual dos discípulos, que, como o cego, estavam começando a ver, mas ainda de forma distorcida e incompleta. Eles haviam reconhecido algo sobre Jesus, mas sua visão ainda era embaçada em relação à verdadeira natureza de Sua missão e do Seu reino [vide Pedro e os discípulos a seguir]. Jesus está demonstrando que Sua obra é progressiva e que o entendimento espiritual nem sempre vem de uma só vez, mas através da paciente intervenção do Mestre.
1.3. A Ordem de Não Retornar à Aldeia (v. 26):
Jesus o manda para casa, ordenando que não entre na aldeia. Isso reforça a ideia de separação daquele ambiente de incredulidade.

2. A Grande Confissão e o Grande Confronto: Quem É Jesus? (Marcos 8.27-33)

Logo após essa cura simbólica, a cena muda para um momento crucial na jornada dos discípulos, onde Jesus testa o que eles realmente compreenderam.
2.1. A Pergunta Crucial de Jesus (vs. 27-29a):
Jesus se dirige com Seus discípulos para os povoados de Cesareia de Filipe, uma região majoritariamente gentílica, com forte culto a divindades pagãs e ao imperador romano, um cenário que realça a identidade exclusiva de Jesus.
Jesus já ensinou que aos discípulos importa considerar primariamente quem Cristo é e o seu poder. Ele já havia os alertado sobre o "fermento dos fariseus e de Herodes", que se detinham na tradição dos homens e na disputa de poder, e não na verdadeira identidade de Jesus e Sua provisão milagrosa (Marcos 8.14-21).
Jesus, então, faz a pergunta crucial, primeiro sobre a opinião popular: "Quem os outros dizem que eu sou?" Os discípulos respondem com as opiniões comuns: João Batista, Elias, ou um dos profetas. Isso mostra que Jesus era visto como um grande homem de Deus, mas não como o Messias. A nação não o compreendia.
A seguir, vem a pergunta decisiva: "Mas vocês, quem dizem que eu sou?" Essa pergunta é a virada da narrativa de Marcos. Vimos as perguntas “quem é este?” ecoando até aqui. Diante de repetidos episódios de falta de compreensão sobre quem Cristo é e Seu poder, Jesus quer que eles respondam o que pensam sobre Ele agora. A pergunta se agiganta e sai “quem eu sou?”.
2.2. A Confissão de Pedro: Correta, mas Incompleta (v. 29b):
Pedro, com prontidão e exatidão, responde: "Tu és o Cristo!" (O Messias).
Exegese e Significado Teológico: Esta é a confissão central do Evangelho de Marcos, um ponto culminante na compreensão da identidade de Jesus. Pedro, aqui, fala movido por uma revelação divina (como Mateus 16.17 deixa claro). A resposta é precisa: Jesus é o Messias prometido.
2.3. A Advertência de Jesus (v. 30):
Jesus os adverte severamente para não contarem isso a ninguém.
Exegese e Significado Teológico: Essa "ordem de silêncio" é um tema recorrente em Marcos (o "Segredo Messiânico"). Jesus não queria que Sua identidade messiânica fosse divulgada antes que Seu ministério estivesse completo, especialmente Sua morte e ressurreição. O conceito popular de Messias era político e triunfalista, e uma proclamação prematura poderia gerar expectativas erradas, tumultos e dificultar Sua missão de sofrimento.
2.4. A Primeira Predição da Paixão e o Confronto com Pedro (vs. 31-33):
Jesus, então, começa a ensinar-lhes o que significa ser o Cristo. Ele revela, pela primeira vez, que o Filho do Homem deve padecer muitas coisas, ser rejeitado pelos líderes religiosos (anciãos, chefes dos sacerdotes, escribas), ser morto e, depois de três dias, ressuscitar.
Exegese e Significado Teológico: Esta é a primeira das três predições claras da paixão em Marcos. Ela redefine radicalmente o que significa ser o Messias. O Messias não é apenas um Rei vitorioso, mas um Messias sofredor. O "Filho do Homem" é um título que combina soberania e humildade, e a necessidade de sofrimento é central para Sua missão.
O Confronto com Pedro: Pedro, no entanto, reage de forma impensada. Ele leva Jesus à parte e começa a repreendê-Lo. Essa atitude de Pedro demonstra rapidamente que, embora a resposta correta estivesse na ponta da língua, a compreensão da resposta estava longe da mente e do coração. É como aquele aluno que responde o certo, mas você pede para explicar a resposta e ele se perde. Esse é Pedro. Sua compreensão equivocada se dá pelo pequeno alcance de sua visão; ele ainda cogita as "coisas dos homens". Para Pedro, ainda é importante que Jesus permaneça vivo, destrone Roma e liberte Israel, um Messias político e glorioso, não um Messias sofredor.
A Repreensão Dura de Jesus: Jesus vira-Se para os discípulos e repreende Pedro duramente: "Para trás de mim, Satanás! Porque não pensas nas coisas de Deus, mas sim nas dos homens." Essa é uma das repreensões mais severas de Jesus a um discípulo. A atitude de Pedro, embora talvez bem-intencionada humanamente, estava alinhada com as tentações de Satanás de desviar Jesus de Seu caminho sacrificial. Pedro estava pensando conforme as expectativas humanas de glória e poder, e não conforme o plano redentor de Deus. Porém, esses momentos de erro, por mais desastrosos que sejam, são excelentes momentos para o verdadeiro aprendizado.

Aplicações

Um Chamado Contínuo para Ver e Crer: O ministério de Jesus é como um contínuo convite para "vinde e vede" (Jo 1.39). Mesmo após episódios de falta de entendimento por parte de Seus discípulos, Jesus persiste em demonstrar Seu poder e em dar sinais do aspecto redentivo e restaurador de Sua obra. Jesus ensina os discípulos a receberem sua mensagem tal qual ela é. Isso nos lembra que o aprendizado e a compreensão da fé são um processo contínuo, e que Deus, em Sua paciência, continua a nos revelar Sua verdade. Muitas verdades sobre Cristo e sobre o Seu Reino não serão assimiladas de pronto por nós, mas teremos sempre o testemunho diante de nós (Escrituras) e o ambiente certo de crescimento (Igreja).
Respostas Corretas Podem Esconder Compreensões Incorretas: A experiência de Pedro nos mostra que é possível ter a resposta certa na ponta da língua, mas uma compreensão totalmente equivocada no coração. Confissões doutrinariamente corretas podem não se sustentar diante dos desafios e provações da vida. Pense nisso: perdoar é lindo até ter de perdoar alguém que nos magoou profundamente; ajudar os pobres é bom até vermos um necessitado real ao nosso lado; discipulado é fundamental até alguém demonstrar inconsistências doutrinárias que nos deveriam levar a ensiná-las.
A Incompreensão Humana Resulta da "Falta de Alcance": Muitas de nossas respostas que parecem certas, mas que no fundo estão erradas, se devem a uma "falta de alcance" em nossa visão espiritual. A teologia da prosperidade é isso (“Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens, 1Coríntios 15.19). O materialismo é outra manifestação dessa visão curta, como Jesus adverte: "Louco, ainda hoje pedirão a tua alma" (Lucas 12.20). A teologia da mutilação que “tira pedaços das Escrituras”. É muito esforço e malabarismo para não crer na plenitude do Evangelho. Por isso, precisamos de momentos de confissão e de autoexame. É pedagógico para nós termos momentos para compartilharmos nosso entendimento sobre Jesus, para sermos aperfeiçoados. Não podemos morrer com a falta de compreensão.
A Pergunta Essencial: Quem Você Diz que É Jesus? O mundo não conhece Jesus Cristo. Muitos pelo mundo têm suas próprias opiniões sobre Jesus, diversas e muitas vezes distorcidas. Mas, para Jesus, o que realmente importa é qual a opinião que Seus discípulos têm d'Ele. É para eles que, claramente, Ele tem Se revelado de forma tão paciente e persistente. Jesus não os induz ao erro; ao contrário, Jesus é o Mestre que expõe as incompreensões dos discípulos para dirigi-los ao verdadeiro e mais profundo entendimento de quem Ele é e qual é a Sua missão.
E se Jesus te perguntasse: E você, quem dizes que eu sou? Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo. És o Verbo de Deus, por meio de quem todas as coisas foram criadas (João 1:1-3). És a Luz que brilha sobre a escuridão. És o Princípio e o Fim. És a Semente de Abraão e o Descendente Aguardado da Mulher (Gênesis 3:15, 12:3). Pedra Angular, Raiz de Davi (Isaías 11:1, Salmo 118:22). Servo Sofredor (Isaías 53). És o Pão do faminto. És a fonte de águas vivas (João 6, João 4). És o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (João 1:29). És o Verdadeiro Amigo que dá a vida pelos Seus (João 15:13). És o Perdão dos pecados. O nosso descanso. Aquele que veio em humildade e voltará em glória. Tu és o Supremo Pastor. És o Primogênito de Deus, o Primeiro entre os Mortos e o Primeiro entre os que ressuscitaram para a vida eterna. És o Cabeça da Igreja (Efésios 1:22-23). És nosso Advogado e Consolador (1João 2:1, João 14:16). És o Sim de Deus para todas as promessas (2Coríntios 1:20). É o Caminho, a Verdade e a Vida, o único Mediador entre Deus e os homens (João 14:6, 1Timóteo 2:5). És Aquele que tem um Nome sobre todo o nome (Filipenses 2:9). É nosso Salvador, nosso Redentor. O nosso amado. Nosso Irmão mais velho que nos chama para a casa do Pai. Tu és o amor.
SDG
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