Rute 3

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O autor elabora o cenário no qual a honra e a graça serão os qualificadores da resgatada e do resgatador, performando as qualidades de Cristo como redentor, e da igreja como redimida.

Notes
Transcript

Rute 3: A providência divina na preservação da extinção pela concessão de um herdeiro real (pt 3) - O caráter do resgatador e a união virtuosa com a resgatada.

Seja o SENHOR bendito, que não deixou, hoje, de (…) dar um (…) resgatador” (Rt 4.14).
Pr. Paulo U. Rodrigues
Recapitulação
Estrutura cênica anterior:
v.1 - Inserção personal: apresentação do “ente-resgatador”.
vv. 2-23 - Encontro providencial.
Propósito: exibir o encontro providencial entre Rute e Boaz, de modo a ressaltar a graça e o favor do SENHOR na promoção dos eventos vindouros (i.e. resgate de Rute/Noemi (e consequentemente, a concessão de descendência à Elimeleque)).
Elucidação
Cenário:
Cena 1 (vv.1-5) - Planejamento providencial [#concursus].
- Iniciativa de Noemi: “…não hei de eu buscar-te um lar, para que sejas feliz?” (v.1).
Comentários do Antigo Testamento: Rute a. O Plano Inteligente de Noemi (3.1–5)

Aqui os meios humanos (i.e., o plano de Noemi) executam algo previamente entendido como sendo da província de Yahweh. Em resposta a uma oportunidade concedida providencialmente, Noemi começou a responder a sua própria oração! Assim, ela dá o modelo de uma maneira em que as ações divinas e humanas operam juntas (…).

- Insinuação velada, porém moral: “Banha-te, e unge-te, e põe os teus melhores vestidos, e desce à eira…”. (v.3).
a) Noemi planeja que Rute se ponha na posição de ser vista como possível noiva de Boaz.
b) A ênfase repetida ao longo de toda a narrativa, de que Rute deveria colocar-se aos pés de Boaz, quebra a impressão insinuativa imoral, fazendo-a ser vista como “humilde requerente buscando a proteção dele” (HUBBARD).
Cena 2 (vv.6-15a) - Exposição de caráter: virtude e graça.
- Intr. (v.6-7): Obediência e fidelidade.
- Corte 1 (vv.8-14) : Reação virtuosa e graça abundante.
a) “… assustando-se o homem, sentou-se; e eis que uma mulher estava deitada a seus pés” (v.8).
b) “…estende a tua capa sobre a tua serva…”: Comparativo referencial - união das imagens de Boaz à do SENHOR na promoção da percepção da graciosa providência divina (cf. 2.12 “כְנָפֶ֨ךָ֙” = asa/capa).
c) Ênfase moral: “...toda a cidade do meu povo sabe que és mulher virtuosa” (v.11). A constatação de Boaz quanto a opinião pública do povo de Israel a respeito de Rute (mesmo sendo esta uma estrangeira), reforça a tônica da integridade de Rute (cf. 14b “não se saiba que veio mulher à eira”).
d) Firmamento do compromisso: “…se não lhe apraz resgatar-te, eu o farei, tão certo como vive o SENHOR”.
Cena 3 (vv.15b-18) - Conclusão: Arremate referencial (rf. resgate deNoemi).
- cf. v.17b “Não voltes para tua sogra sem nada”: Ênfase do autor na ligação entre nora e sogra, perfomando os benefícios recebidos por Rute, como também direcionados à Noemi, preparando o caminho para o resgate desta ao final da trama (cf. “… voltou Noemi da terra de Moabe, com Rute (cf. 1.22a) = “…veio à cidade; e viu sua sogra” (cf. 2.18a) = “…entrou ela na cidade”… “chegando à casa de sua sogra”… “não voltes para tua sogra sem nada” (cf. vv. 15c, 16a, 17b)).
- Desfecho preparativo (cf. v.18b “...aquele homem não descansará, enquanto não se resolver este caso ainda hoje”): conclusão providencial cênica que aponta para um novo episódio (cf. 1.22b “chegaram a Belém no princípio da sega da cevada”; 2.23b “até que a sega da cevada e do trigo se acabou”). O autor enfatiza a iniciativa de Boaz em casar-se/resgatar Rute, preparando o leitor para a narração desse evento.
Síntese principiológica
O curso do enredo, segundo arquitetado pelo narrador, assume outra perspectiva. A providência divina que antes era retratada como que escondida por detrás do cenário, confluindo para o bem dos personagens, agora manifesta-se através das próprias atitudes destes. Noemi, chegara amargurada a Belém (cap. 1), mas, após o encontro providencial de Rute e Boaz, vê a graça do SENHOR lembrar-se dela (cf. Rt 1.6), através de sua nora, efetivando o concurso de seu favor e promovendo aos poucos o que será seu resgate total.
À luz disso, o narrador/autor agora dispõe a imagem de Noemi como alguém que “assume as rédeas” da situação, e propõe uma atitude que, embora ousada, reflete diretamente a graça do SENHOR, ao posicionar Rute como possível noiva de Boaz, seu parente-resgatador. Diferente do que o cenário parece sugerir, ao invés da penumbra de imoralidade, as ações de Boaz e Rute exibem a moralidade e ética dignas do resgatador e da resgatada, proporcionando o palco ideal para que o clímax da história salvadora/redentora aconteça.
A providência divina revela-se também pelo concurso das ações humanas. A disposição honrada de Rute e a graça moral de Boaz contracenam e referenciam o laço conjugal gracioso entre Cristo e sua noiva (i.e. seu povo/sua igreja). Pondo-se sobre a capa de Cristo, a igreja é acolhida e tratada honrosamente por aquele que a resgatou e haverá de resgatá-la.

O goel é uma figura belíssima projetada por Deus para apontar para a ação futura do messias. Paul Miller explica:

Até onde sabemos, o goel ou resgatador era único de Israel. Um goel antecipa algo sobre Jesus, a personificação da lei que redime seu povo. À medida que Jesus ia por Israel curando os enfermos, cuidando dos pobres e incluindo o estrangeiro, ele estava sendo o goel que Israel nunca fora. Ele completou Israel. Quando Jesus morreu na cruz, ele foi o goel pelo mundo. Deus não enviou para nós meramente um livro de instruções, ele enviou seu Filho. Ele não nos deu meramente conselhos; ele nos deu sua carne. Ele não apenas mostrou como fazer, ele mesmo o fez – indo até sua morte. Jesus é o perfeito goel.

Aplicações
1. A providência divina não está limitada a esconder-se por detrás dos acontecimentos, e agir em nossa vida de modo indireto. Como criaturas habitantes deste mundo, mas, sobretudo, como filhos de Deus, redimidos em Cristo, estamos habilitados e somos chamados a, por meio de nossas ações, concorrer (ref. i.e. correr ao lado) com a vontade divina, sendo instrumentos da providência soberana do Altíssimo.
Como já dito, Noemi, que dantes fora descrita como amargurada, e sempre tendo um papel passivo na trama, decide agir, promovendo ela mesma a organização de uma situação que poderia resultar no casamento e felicidade de sua nora, Rute, e consequentemente, seu resgate.
A atitude de Noemi deflagra toda uma cadeia de acontecimentos que culminam com o comprometimento de Boaz em casar-se com Rute, mediante o estabelecimento da legitimidade do resgate a ser feito.
Como reformados, enfatizamos sobremodo (e não erradamente) a soberania do SENHOR. Nada obstante, tendemos a assumir uma postura passiva quando colocamos tal princípio diante de nós. Embora a ótica da soberania divina seja correta, precisamos compreender que o SENHOR não age apenas de modo externo a nós, fazendo com que todas as coisas interfiram em nossa vida de uma forma ou de outra. Nós podemos, e somos, igualmente instrumentos de sua vontade.
O que precisamos ter diante de nós, são os princípios da Palavra de Deus, que norteiam o modo como pensamos e agimos, mas de modo nenhum isso deve servir como uma espécie de bloqueio. Pelo contrário, precisamos compreender aquele princípio teológico reformado, que chamamos de concursus (ou concorrência), que é a
Teologia Sistemática 1. A Ideia da Concorrência Divina e Sua Prova Bíblica

A cooperação do poder divino com todos os poderes subordinados, em harmonia com as leis pré-estabelecidas de sua operação, fazendo-os agir precisamente como agem.

Noutras palavras, como cristãos, tanto oramos ao SENHOR para que opere em nossas vidas, quanto envidamos todos os esforços necessários para que aquilo que desejamos, sendo lícito, ocorra. Se queremos um emprego, esforçamo-nos por nos qualificar para tal. Se queremos melhorias em nosso casamento, colocamo-nos à disposição de nosso cônjuge, servindo-o para a glória de Deus e bem-estar de nossos relacionamentos. Se queremos uma igreja forte e unida, disponibilizamo-nos para os serviços, tudo isso, sob as preces de que o SENHOR realize essas obras em nós, através de nós.
2. Sob as asas de Cristo, encontramos nosso resgatador; aquele que com graça, nos trata com a dignidade que deseja ver em sua noiva.
O autor exibe todo caráter gracioso e honroso de Boaz, ao frustrar as expectativas do leitor quando, num cenário aparentemente duvidoso, a graça e moralidade tanto de Boaz quanto de Rute, proporcionam um encontro através do qual a união dos dois, dá-se de modo honroso. Ela, coloca-se sob a proteção e cuidado dele; ele, a trata com honradez e compromete-se em resgatá-la.
Do ponto de vista histórico-redentivo, o capítulo 3 do livro de Rute, estabelece o cenário no qual a redenção do povo de Deus é efetivada. Segundo Emílio Garofalo:
Redenção nos Campos do Senhor: As Boas Novas em Rute Uma Multidão em Busca de Descanso e Proteção

(…) O povo de Deus, assim como Noemi e Rute, é como uma mulher precisando de proteção e descanso. Essa temática é comum nas escrituras (

Assim como Rute encontrou abrigo aos pés de Boaz, nós encontramos proteção, cuidado e redenção aos pés de Jesus. Providencialmente, tal como através do planos de Noemi (ainda que aparentemente duvidosos) Rute foi vista por Boaz e comprometida à ele, Deus, o Pai, em seu Filho, segundo a operação do Espírito, estendeu sobre nós sua capa (ou asas), e encontramos santo refúgio de nossa situação de pecado e miséria.
Conclusão
Calvino, falando sobre a providência divina, asserta: “Deus cobre sob as asas de seu cuidado cada uma de suas criaturas”. Assim foi conosco, Igreja do SENHOR; fomos cobertos com o amor do SENHOR, encontrando nosso Boaz, nosso resgatador: Cristo Jesus.
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