"Saiam dela, povo meu" : A fidelidade que Deus requer de você
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Introdução
Boa noite, meus irmãos. Hoje eu aceitei um desafio pessoal. Há 14 anos eu pregava o meu primeiro sermão. O texto que escolhi na época foi um texto de Apocalipse. Erro de principiante. Um texto difícil e não foi surpresa que olhando para trás eu sei que foi um sermão muito ruim. Tão ruim que demorei esse tempo todo para voltar a pregar o Apocalipse. Então você já sabe, se eu não pregar Apocalipse nos próximos anos qual é o motivo.
Brincadeiras à parte, pregar o Apocalipse não é uma tarefa fácil. E quando acontece de ouvirmos uma mensagem no livro geralmente é nos primeiros capítulos quando fala-se sobre as 7 igrejas da Ásia, já que esse texto não é envolto em tantas polêmicas quanto o restante. O restante do Apocalipse é tomado por uma variada rede de teorias escatológicas (estudo sobre as últimas coisas) e como é um assunto espinhoso muitos preferem não entrar nele, pelo menos não em uma pregação. Para quem tem interessa a classe Sola Scriptura, antiga Cartas de Paulo, em nossa EBD tratará destes assuntos.
Mesmo que alguns fiquem muito empolgados com estes temas e teorias, não é o que vou propor aqui. O que vou propor aqui é lermos esse texto e imaginarmos como a primeira audiência, o público original que João endereçou o seu texto, recebeu este texto e a partir de então tirarmos lições para a nossa vida cristã hoje. Por isso, peço aos irmãos que abram suas Bíblia em Apocalipse 18.1.
(Leitura do texto) - até o v. 8.
Desenvolvimento I - A queda da Babilônia (v.1-8)
Exposição-ilustração: O texto que acabamos de ler é uma mensagem de juízo contra a Babilônia. No entanto, devemos perceber que o Apocalipse é repleto de metáforas e o nome “Babilônia” aqui é mais uma delas. Grandes comentaristas bíblicos são quase unânimes em afirma que Babilônia aqui neste texto é uma metáfora para Roma. O livro de Apocalipse foi escrito no reinado de Imperador Domiciano (81-96 d.C.), uma época em que a adoração ao imperador era amplamente praticada e incentivada. Domiciano, ao contrário de seus predecessores, exigia ativamente ser adorado como um deus. João, portanto, está falando para uma comunidade de cristãos perseguidos, que vive sob forte pressão social e espiritual. Assim como a Babilônia do Antigo Testamento era símbolo de opressão, exílio e idolatria, Roma é retratada como a nova Babilônia no Apocalipse pois ela exerce poder imperial, ideológico e opressor.
No período em que foi escrito Apocalipse, muitos cristãos eram tentados a participar dos cultos imperiais e das festividades em homenagens a deuses pagãos para não serem excluídos ou perseguidos. Participar dessas cerimônias significava aceitar e ser aceito pela sociedade romana, garantindo direitos civis, oportunidades econômicas e tranquilidade social. Recusar-se, porém, poderia resultar em exclusão social, isolamento econômico e até perseguição violenta. Eles eram tentados a abrir mão de Cristo para se encaixarem no ambiente romano.
E vale a pena a gente parar aqui e entender por que isso era tão sedutor. Por que tantos cristãos se sentiam tentados a participar do culto ao imperador? Não era só medo de perseguição. Era porque participar trazia vantagens reais, palpáveis, diárias, concretas. Não era só uma questão religiosa, era uma questão de vida prática.
Primeiro: participar do culto imperial te ajudava financeiramente. As cidades da Ásia Menor, onde as igrejas de João estavam, eram centros comerciais gigantescos, lembre-se das mensagens iniciais do livro dirigidas a igrejas como Éfeso, Pérgamo, Esmirna… todas envolvidas em indústrias como couro, cerâmica, tecidos e metais. E essas cidades eram movidas por guildas, algo como sindicatos de comerciantes e artesãos. Só que pra fazer parte dessas guildas, era comum ter que participar das cerimônias de adoração aos deuses e ao imperador. Era tipo: “você quer vender aqui? Então vem no festival, oferece um incenso a César, bebe com a gente, participa do ritual.”
Se você fazia isso, o caminho ficava aberto: mais clientela, mais respeito, mais negócios. Era como receber um selo de aprovação da sociedade. O texto de Apocalipse 18:3 fala que os comerciantes da terra “se enriqueceram com o luxo de Babilônia”. João tá dizendo: “vocês acham que esse sistema é neutro? Que o sucesso financeiro não tem custo espiritual?” Não. Participar disso significava vender a alma em troca de prosperidade. E quem não participava era cortado do circuito: não conseguia vender, não conseguia comprar, não conseguia sustentar a família. Já viu aquela pessoa sendo deixada de lado na empresa ou na repartição pública porque não entrou no “esquema”? Porque não bajulou o chefe, não mentiu na planilha, não participou do churrasco da firma que virava bebedeira? Era isso.
Segundo: o culto imperial dava status. Pessoas comuns podiam subir na vida através dessas cerimônias. Tinha gente que financiava templo, participava como sacerdote, organizava os festivais e com isso, ganhava destaque. O nome ia parar em monumento, a família virava referência. João cita casos assim, como o de um homem em Éfeso chamado Tibério Cláudio Aristio, que foi generoso com a cidade e, adivinha, ocupou quase todos os cargos públicos possíveis. Por quê? Porque ele estava alinhado com Roma. Era como se dissesse: “eu sou fiel ao imperador, e por isso mereço confiança e poder”. Quem não fazia parte disso era deixado de fora, tachado de ingrato, esquisito, subversivo.
Terceiro: segurança. O Império Romano, apesar de brutal, dava paz. A famosa Pax Romana: as estradas eram seguras, os piratas estavam sob controle, o comércio podia fluir. E o povo sabia: “se Roma cair, o caos volta”. Então a adoração ao imperador não era só bajulação: era uma maneira de garantir que as estruturas de proteção continuassem funcionando. Tinha até juramento de lealdade ao imperador, do tipo “César é o Senhor” … e quem recusava era visto como ameaça. Hoje a gente não pensa muito nisso, mas imagine um cristão de Éfeso dizendo: “Eu não vou jurar por César. Só por Cristo.” Isso era visto como traição pelos seus contemporâneos.
Quarto: aceitação social. Participar do culto imperial era o ingresso para a “normalidade”. Plínio, o Jovem, um governador da época, escreve que depois da perseguição aos cristãos, os templos voltaram a lotar. Ou seja: quando os cristãos foram silenciados, os eventos voltaram a ser “legais”, todo mundo pôde participar em paz. Isso mostra que os cristãos incomodavam. Só de se recusarem a ir, já geravam suspeita. As pessoas olhavam e pensavam: “O que tem de errado com esse povo? Por que eles não participam como todo mundo?” Isso criava fofoca, calúnia, isolamento. Hoje talvez você não precise adorar uma estátua, mas basta você dizer que é cristão e que não participa de certos comportamentos e pronto: começam a te olhar torto. No trabalho, na universidade, até na própria família.
Por isso João usa uma imagem tão forte: ele chama Roma de grande meretriz, uma mulher sedutora, luxuosa, que embriaga as nações com seus encantos (Ap 17:1–18). É como se dissesse: “ela é linda por fora, mas podre por dentro.” E o pior: ela oferece prazer, sucesso, segurança, pertencimento. Mas tudo isso vem ao custo da sua fidelidade a Deus. João não está dizendo: “Não se envolva com Roma porque ela é feia.” Ele está dizendo: “Ela é linda. E por isso mesmo, perigosa.”
Então quando João diz “sai dela, povo meu” (Ap 18:4), ele não está falando de geografia. Ele está dizendo: “Sai desse sistema. Sai dessa lógica. Sai dessa dependência emocional e espiritual de um império que promete tudo, mas te afasta de Cristo.”
Aplicação: Hoje, talvez você e eu não estejamos sendo obrigados a adorar um imperador romano, mas enfrentamos outras tentações modernas semelhantes. Essa Babilônia descrita por João não é apenas uma cidade física, mas uma mentalidade, uma forma de viver que rejeita Deus e seus valores. Hoje, os cristãos enfrentam tentações equivalentes: culto ao consumismo, busca de poder a qualquer custo, nacionalismo messiânico, celebrização de líderes – todos são ídolos modernos que podem tomar o lugar de Deus.
Quantas vezes não somos tentados a relativizar nossos princípios para garantir aceitação social, sucesso profissional, conforto financeiro ou simplesmente para não nos sentirmos excluídos? Talvez você esteja cedendo à pressão de sacrificar seus valores cristãos em prol de algo passageiro e mundano.
E a mensagem de João continua atual: “Saiam desse sistema! Não se deixem contaminar pelo jeito babilônico!” Porque assim como a Babilônia histórica caiu, todo sistema baseado na idolatria e na corrupção também cairá. Apocalipse nos lembra que o juízo sobre Babilônia, isto é, sobre esse sistema anti-Deus, é inevitável. Versículo 8 diz claramente: “Por isso num só dia virão as suas pragas: morte, pranto e fome, e será consumida pelo fogo, porque poderoso é o Senhor Deus que a julga.”
Esse é o nosso desafio hoje: identificar claramente onde em nossa vida estamos sendo tentados a agir como cidadãos da Babilônia em vez de cidadãos do Reino de Deus.
Irmãos, essa tentação de se conformar ao “modo babilônico” não ficou presa apenas ao primeiro século. Hoje, enfrentamos versões renovadas dessas tentações que seduziram os cristãos no tempo de João. Tim Keller, em seu livro “Como reconquistar o Ocidente para Cristo” nos alerta sobre as formas modernas da idolatria política: ele fala que hoje há igrejas que caem no erro de defender cegamente pautas políticas, comprometendo princípios do Evangelho para apoiar líderes ou partidos políticos. Por exemplo, existem igrejas à esquerda que, buscando justiça social, acabam silenciando ensinamentos bíblicos sobre sexualidade, gênero e família. Ao mesmo tempo, existem igrejas à direita que enfatizam valores morais, mas acabam minimizando ou ignorando injustiças raciais, econômicas e sociais, tornando-se assim cúmplices de ideologias. Keller chama isso de “capitulação política da fé”, e é exatamente a isso que João nos chama a resistir! Precisamos entender que nenhum sistema político, seja de direita ou de esquerda, pode tomar o lugar do Reino de Deus em nossos corações. Nenhuma ideologia pode substituir a nossa identidade em Cristo.
Outra área onde somos profundamente tentados é o consumismo. O espírito de babilônia moderno transforma nosso desejo em deus. Vivemos numa cultura que prega que felicidade é sinônimo de consumo, que a nossa identidade está no que possuímos. Somos bombardeados o tempo todo por propagandas que prometem satisfação, propósito e realização através do consumo desenfreado. Adquira este produto e seja quem você quer ser. Isso é idolatria! Precisamos lembrar que nossa identidade não está no que compramos, mas em quem nos comprou, Jesus Cristo.
Além disso, uma das tentações mais sutis e profundas dos nossos dias é a forma como entendemos e vivenciamos a sexualidade. Carl Trueman, em seu livro “A ascensão e o triunfo do self moderno”, revela como a sexualidade deixou de ser apenas comportamento para se tornar sinônimo de identidade pessoal. Esse processo ocorreu através de três etapas históricas: a psicologização (internalização do “eu” psicológico com Rousseau), a sexualização do “eu” (Freud) e a politização do “eu”. Freud elevou o sexo de mera função à essência definidora da pessoa, transformando-o em algo central para a identidade pessoal, e isso não ficou preso apenas as teses acadêmicas do início da psicanálise, isso entrou no mainstream da nossa cultura . Hoje, nossa cultura ensina que a realização pessoal está diretamente ligada à expressão livre e irrestrita da sexualidade, tornando as virtudes cristãs da castidade e da monogamia radicais e até mesmo vistas como opressivas.
Pensa nisso na prática: hoje em dia, ser solteiro e viver em castidade ou o cônjuge ser fiel num casamento monogâmico virou algo radical, quase incompreensível pra muita gente. Você provavelmente já ouviu alguém dizer: “como assim você só teve um parceiro? Como você pode se casar sem antes morar junto pra ver se dá certo?” Isso acontece porque nossa sociedade entende o sexo como essencial pra felicidade e realização pessoal. Dizer não pra isso é visto como negar a própria identidade.
Assim como os cristãos a quem João escreve, precisamos de discernimento e coragem para viver como povo separado (santo) e fiel a Cristo em um mundo que nos convida constantemente à idolatria sutil e à conformidade fácil. Que Deus nos ajude a permanecer firmes, porque, como João nos ensina, somente o Reino de Cristo perdurará. Babilônia passará, mas aqueles que fazem a vontade de Deus permanecerão para sempre. “Fujam dela, povo meu”.
Vamos voltar ao nosso texto.
Desenvolvimento II - O luto dos cúmplices - (v.9-24)
Neste trecho João amplia a visão que está relatando. Se antes ele mostrou a sedução do sistema, agora ele revela o que acontece com quem se beneficiava dele. A Babilônia cai e quem perdem com isso? Não são os cristãos perseguidos, não são os oprimidos, não são os justos. Quem chora são os reis da terra, os comerciantes e os marinheiros. E eles choram não porque amavam a verdade, mas porque perderam o que ganhavam com a sua sedução.
João separa esses grupos porque cada um tinha uma função dentro do sistema de Roma, e cada um simboliza uma forma diferente de se comprometer com a Babilônia:
Os reis da terra (v.9-10) Esses são os líderes, os poderosos, os chefes e os políticos das províncias. Eles tinham pactos com Roma, alianças políticas e militares. Recebiam favores e mantinham seus tronos em troca de fidelidade ao Império. João diz que eles “se prostituíam com ela” (v.9) ou seja, se corromperam, traíram a justiça, toleraram a idolatria e abusaram do poder para manter seus privilégios. Eles lamentam a queda de Babilônia com medo. Ficam “de longe”, com medo do julgamento. Mas em nenhum momento demonstram arrependimento. É um lamento interesseiro: perderam seus aliados, seus poder, suas zonas de conforto.
Hoje, vemos reis modernos: líderes que trocam valores por influência. Políticos que ignoram o pobre, o órfão e a viúva para manter seus cargos. Governantes que fazem vistas grossas à corrupção porque o sistema favorece seus projetos. E não pense que isso está só em Brasília. Está nos conselhos de empresa, nos departamentos que escondem fraudes, nas lideranças que trocam justiça por estabilidade. João está dizendo: o juízo vem também para os que governam com mãos sujas. E Deus não se deixa enganar com palavras bonitas ou palanques religiosos. Se a sua liderança não estiver fundamentada na justiça de Deus, ela vai cair junto com a Babilônia.
O segundo grupo são os mercadores da terra (v.11-17a) Esses eram os grandes beneficiários da economia romana. Os produtos listados em Apocalipse 18 incluem ouro, prata, pedras preciosas e pérolas, engraçado que esses elementos são, segundo o livro de Apocalipse, objetos que adornam a cidade santa, mas há um detalhe, na cidade santa eles são apenas calçamento. O que é tesouro na Babilônia vira calçamento, asfalto no Reino dos Céus. Essa inversão expõe o quanto a economia do império deturpava os valores eternos.
Esses mercadores não choram porque alguém morreu. Eles choram porque perderam seus produtos de luxo, sua renda, seus negócios. Eles dizem: “Nunca mais haverá quem compre nossas mercadorias” (v.11). O lamento deles é egoísta. Não há arrependimento, só desespero por não poder lucrar mais.
Eu gostaria de te levar novamente a lista de itens vendidos, olhe só especiarias, ouro, tecidos finos, gado… e, observe um detalhe no fim da lista, “corpos e almas humanas” (v.13). João denuncia com todas as letras que a economia da Babilônia envolvia tráfico humano, escravidão e exploração. O último item da lista em 18:13 revela a profundidade da depravação da Babilônia: seres humanos tratados como mercadorias. Mas ouro, seda e madeira não foram criados à imagem de Deus; só os seres humanos carregam essa semelhança. O tráfico de escravos é o equivalente moderno mais óbvio. Mas será que também toleramos práticas mais sutis que coisificam pessoas? Como a indústria do “entretenimento adulto" (pornografia) reduzem seres humanos a objetos sexuais. Uma indústria, que movimenta bilhões às custas da exploração sexual de mulheres, adolescentes e até crianças? Muitas dessas produções envolvem tráfico humano, exploração sexual, destruição de famílias, objetificação do corpo e normalização da violência sexual. O que está sendo vendido não é só objeto, é gente. O texto bíblico fala da venda de “corpos e almas humanas”. Isso continua acontecendo. João está dizendo: quem consome, financia. Quem lucra com o pecado, compartilha da culpa. E a queda da Babilônia será também a queda desses mercados.
O terceiro grupo são os marinheiros e navegadores (v.17b-19) Esse grupo representa os logísticos do império. Eram os que transportavam as mercadorias, faziam o sistema funcionar. Podiam não ter o poder dos reis ou a riqueza dos mercadores, mas sustentavam o sistema com seu trabalho.
Eles também choram. Jogam pó na cabeça (um sinal de luto no mundo antigo). Mas seu lamento também é por interesse: perderam o emprego, o sustento, a estabilidade. Eles não estavam no topo, mas faziam parte da engrenagem. Muitos eram trabalhadores comuns, pais de família, gente esforçada. Mas que, para manter sua renda, aceitavam participar de um sistema de transporte que beneficiava a exploração e a idolatria.
E quantos de nós estamos aqui? Gente boa, comum, que apenas “cumpre seu papel”, mas esse papel ajuda a manter uma estrutura injusta. Um funcionário que finge não ver quando a empresa engana o cliente. Um servidor público que aceita propina “porque todo mundo faz”. Um cristão que fica em silêncio diante de uma liderança abusiva, porque “não quer se meter”. João está dizendo: a neutralidade é impossível. Quem ajuda a Babilônia a funcionar, mesmo que não seja o dono dela, vai chorar quando ela cair. A omissão diante do mal é uma forma de participar dele.
Desenvolvimento III - Celebração do povo de Deus - (Cap. 19:1-5)
Ao ler o início de Apocalipse 19, talvez você tenha se sentido desconfortável ou até mesmo estranho. Aos nossos ouvidos contemporâneos, a queda de Babilônia pode soar como um grito de vingança, algo distante do Evangelho de graça e misericórdia que estamos acostumados a ouvir. Mas não é isso que o texto está expressando. Não se trata de uma celebração maliciosa da destruição alheia, mas do triunfo justo de Deus sobre um sistema profundamente corrupto e opressor. Para compreender adequadamente essa passagem, precisamos nos colocar no lugar dos primeiros leitores deste texto.
Os cristãos que originalmente receberam o Apocalipse estavam imersos em uma realidade hostil e implacável como vimos no início. O Império Romano, simbolizado aqui por Babilônia, representava uma ameaça constante, uma força poderosa que exigia adoração e lealdade exclusiva. Para os primeiros cristãos, a queda de Babilônia era motivo de esperança e libertação, não por vingança, mas por justiça divina contra uma potência que perseguia, oprimia e explorava. Em nossos dias, irmãos perseguidos ao redor do mundo sentiriam profunda alegria com a queda de sistemas opressivos semelhantes à Babilônia romana.
Porém, muitos de nós hoje enfrentam uma realidade bem diferente. Vivemos em relativa segurança, longe da perseguição direta. Por isso, talvez até desejássemos que Babilônia permanecesse de pé mais um pouquinho. Afinal, estamos inseridos em sistemas econômicos e culturais que nos beneficiam diretamente. Consumimos produtos, participamos de entretenimentos, e desfrutamos confortos que frequentemente são sustentados por injustiça econômica e social. A mensagem de Apocalipse 18 é especialmente incômoda para nós, pois denuncia uma cumplicidade que raramente reconhecemos.
João deixa claro que o julgamento sobre Babilônia é justo. Mas por quê? Não porque Deus se deleita no sofrimento humano, mas porque a própria natureza de Babilônia é uma afronta à santidade e ao amor de Deus. Ela havia se embriagado com "o sangue dos santos e das testemunhas de Jesus" e construído seu império sobre a exploração brutal de inocentes. O julgamento de Deus, portanto, não é um ato impulsivo, mas o fruto de sua justiça perfeita e absoluta. É a resposta de um Deus que vê e se importa profundamente com as vítimas da injustiça. Em Apocalipse 6, os mártires debaixo do altar clamam: "Até quando, ó Soberano, santo e verdadeiro, não julgas e vingas o nosso sangue?". O capítulo 19 é a resposta de Deus a essa oração. Seu juízo é a vindicação dessas vítimas esquecidas e marginalizadas pela história.
A nossa reação diante desse julgamento divino diz muito sobre a condição do nosso coração. Aqueles que lamentam a queda de Babilônia — os reis, os mercadores, os marinheiros — revelam um coração cativo, preso aos valores corruptos e injustos desse sistema. Eles não choram pela cidade, mas pela perda de seus lucros e privilégios. Já aqueles que se alegram genuinamente com a vitória de Deus demonstram que sua esperança está firmemente ancorada no Reino eterno, não nas ilusões temporárias do mundo. E aqui, precisamos ser honestos e nos questionar: qual é a nossa reação? Sentimos um incômodo secreto com a queda de Babilônia, talvez porque, de alguma forma, nos beneficiamos de seus sistemas? Ou nosso coração se une ao coro celestial em um "Aleluia!", celebrando o triunfo da justiça de Deus? Onde nosso coração realmente encontra seu valor e sua esperança?
Por fim, Apocalipse 19 não é um hino de vingança, mas um cântico de alegria pela verdadeira libertação. Não é apenas a libertação da opressão externa, mas, fundamentalmente, da escravidão interna às promessas vazias e ilusórias deste mundo. Isso tem implicações profundas para nós. Primeiramente, nos lembra que a justiça final pertence ao Senhor. Quando somos injustiçados, nossa tentação é buscar retaliação, mas a Bíblia nos ensina a entregar nossa causa ao justo Juiz, confiando que Ele fará justiça perfeita no tempo certo. "Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor" (Romanos 12:19). Em segundo lugar, essa visão celestial nos chama a um profundo autoexame. Se a ideia de um Deus que julga o mal nos incomoda, talvez seja porque estamos mais atrelados à Babilônia do que imaginamos. Precisamos alinhar nosso coração ao de Deus, amando o que Ele ama (a justiça, a santidade, os indefeso) e odiando o que Ele odeia: a idolatria, a corrupção e a violência. Que possamos, portanto, viver como cidadãos do céu, celebrando a justiça de Deus e em nossa adoração e em nossa vida cotidiana, cultivemos um coração que se alegra com a retidão e que anseia pela justiça divina, entregando nossas vidas e circunstâncias ao Deus que, no final, endireitará todas as coisas. Assim, vivemos hoje com esperança, paciência e santidade, confiantes na fidelidade absoluta do nosso Deus perfeitamente justo.
Conclusão:
Nesta noite, quero fazer três convites bem específicos. Primeiro, quero falar com você que está resistindo, que se mantém firme mesmo vivendo no meio da Babilônia moderna. Quero orar por você que luta diariamente para não se contaminar, que enfrenta pressão para ceder aos valores deste mundo. Lembre-se: você não está sozinho. A promessa da vitória final é certa, não porque você é forte, mas porque Cristo já venceu por você. Descanse na certeza de que Deus, que é justo, vê cada esforço e cada renúncia que você faz para se manter fiel.
O segundo convite é para aqueles que, embora se identifiquem como cristãos, perceberam hoje que seu coração tem se apegado às promessas da Babilônia. Talvez você tenha buscado segurança no sucesso financeiro, no status social, na aceitação de um grupo ou em uma ideologia política. Essa é uma noite para arrependimento sincero. Deus está chamando você para sair dessa lógica mundana que, no fim, só traz vazio e destruição. Ele oferece um perdão completo e uma libertação verdadeira, convidando-o a realinhar sua esperança e sua identidade Nele.
Finalmente, quero falar com você que talvez não se considere cristão, mas que ouviu esta mensagem e não quer receber o juízo que sobrevirá sobre a Babilônia e se pergunta: “Como posso fazer parte do povo de Deus? Será que eles são melhores do que eu? Por que a justiça de Deus não os atinge?”. A resposta é o coração do Evangelho: a justiça de Deus atinge a todos, sem exceção. A diferença está em como ela nos atinge. A Bíblia não oferece um perdão superficial, um simples “perdoar e esquecer”. Pensemos em tragédias como o massacre na escola de Columbine. Diante de um mal tão terrível, um “perdoar e esquecer” seria uma caricatura, uma injustiça para com as vítimas. Nosso senso mais profundo de moralidade clama por justiça, por uma retribuição. E Deus, por ser perfeitamente justo, concorda. O pecado exige um pagamento.
A resposta de Deus é a sua justiça retributiva, para os que não se arrependem, o seu juízo. No entanto, para os que creem no seu Filho Deus mostra a sua justiça restaurativa. É aqui que a Cruz de Cristo entra na história. A justiça de Deus não foi anulada, ela foi satisfeita. Na cruz, Jesus Cristo, o Filho de Deus, se colocou no lugar dos culpados, no meu lugar e no seu. Ele absorveu em si mesmo todo o juízo, toda a ira, todo o castigo que nossos pecados mereciam. Cada maldade, cada injustiça, cada falha foi paga por Ele. Deus não oferece um perdão barato; Ele oferece um perdão que custou o sangue de Seu próprio Filho. Ele fez isso para que a justiça fosse cumprida e, ao mesmo tempo, o amor pudesse nos alcançar.
Portanto, o convite do Evangelho não é para pessoas boas, mas para todos que reconhecem sua cumplicidade com a Babilônia deste mundo. Não importa quão longe você tenha ido, a justiça para os seus pecados já foi executada em Cristo. Agora, Deus oferece a você não a condenação, mas a retificação, uma vida nova, restaurada e perdoada. Entregue sua vida a Cristo hoje. Saia da lógica da Babilônia e entre na lógica do Reino, troque o juízo pela restauração, troque o luto pela queda da Babilônia pela alegria das Bodas do Cordeiro.
