O Rei e o Custo do Discipulado (Marcos 8.34-9.1)
O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos • Sermon • Submitted • Presented
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O Rei e o Custo do Discipulado (Marcos 8.34-9.1)
Introdução
Introdução
Em nossa jornada pelo Evangelho de Marcos, na série "O Rei que se tornou Servo", temos sido convidados a um entendimento cada vez mais profundo de quem é Jesus e como é o Seu reino. Em nossa última pregação, vimos Jesus perguntando quem as pessoas e quem os Seus discípulos diziam quem Ele era. A multidão se mostrava ainda sem compreender a pessoa de Jesus, julgando-o como João Batista, Elias ou algum dos profetas. Os discípulos, liderados pela resposta de Pedro, demonstravam compreender que Jesus era o Messias. No entanto, a compreensão deles ainda não era assertiva sobre a verdadeira missão do Messias.
Jesus, então, inicia um novo momento em relação aos Seus ensinos, agora ensinando abertamente que Sua missão redentora envolvia ser rejeitado pelos líderes religiosos, ser morto e depois de três dias ressuscitado. Ele começa a amadurecer o entendimento sobre a obra do Filho do Homem. Diante de tal afirmação, Pedro demonstra que sua resposta ("Tu és o Cristo"), embora correta, carecia de entendimento profundo, ao ponto de repreender fortemente Jesus. Jesus, porém, adverte a Pedro, revelando que Pedro ainda cogitava das coisas dos homens, e não das de Deus. O sermão nos provocou ao exame sobre quem é Jesus para nós: se nossas respostas estão corretas na boca, mas ainda equivocadas no coração; e se temos a compreensão adequada sobre Jesus, o Filho de Deus, nosso Salvador.
Hoje, o texto nos apresenta uma afirmação crucial de Jesus acerca do discipulado. Marcos nos traz novamente a esse tema, conectando a realidade da paixão do Messias com a de que aqueles que quiserem ser Seus discípulos também deverão estar dispostos a morrer para si e para o mundo - um discipulado radical. São as palavras de Jesus mais desafiadoras até aqui registradas por Marcos, em que Ele mostra o custo do discipulado. Jesus ainda apresenta um paradoxo, onde demonstra a lógica do Reino: herdarão a vida aqueles que abrem mão dela. E adverte que aqueles que se envergonham d'Ele, também Ele se envergonhará deles no dia do Seu retorno.
Hoje, Marcos 8.34-9.1 nos confronta com as perguntas mais desafiadoras sobre a nossa fé:
Estamos dispostos a seguir a Jesus em Seus termos, ou nos apegamos às nossas próprias expectativas de conforto e glória?
Qual o verdadeiro significado de negar a si mesmo e tomar a cruz em um mundo que prega a autoafirmação e o prazer?
Como podemos viver a esperança da glória futura enquanto trilhamos o caminho do sofrimento e de “perder a vida” no presente?
Exposição
Exposição
Marcos 8.34-9.1 é o coração do discipulado cristão, revelando que a verdadeira identidade de Jesus (o Cristo sofredor) exige um discipulado que abraça o sofrimento e a negação do eu.
1. As Condições Radicais do Discipulado: Negação e Cruz (Marcos 8.34)
1. As Condições Radicais do Discipulado: Negação e Cruz (Marcos 8.34)
Após repreender Pedro por sua visão humana do Messias, Jesus amplia o ensino, chamando não só os discípulos, mas também a multidão, para ouvir as condições para segui-Lo.
1.1. O Chamado Universal e Incondicional:
"Se alguém quiser vir após mim..." A frase inicial é um convite voluntário, mas com implicações absolutas. Não é para alguns poucos, mas para "qualquer um" que deseja ser Seu seguidor. O discipulado não é um hobby ou uma adição à vida, mas a essência dela. Muitos teólogos, como John Stott, Dietrich Bonhoeffer e Timothy Keller, destacam que este é o convite central de Jesus para o discipulado, um chamado para todos os que querem ser Seus seguidores genuínos. Não é uma opção para super-crentes, mas a condição para qualquer um. Note que Jesus constrói sua afirmação entre dois chamados condicionais para seguí-lo, em que as marcas principais são “negue-se a si mesmo” e “tome a sua cruz”.
1.2. Negar a Si Mesmo:
"Negue-se a si mesmo..." Esta é a primeira e fundamental condição. Negar a si mesmo não significa apenas abster-se de luxos ou ter um comportamento moral exemplar. Significa uma renúncia radical do ego, da vontade própria, dos desejos e ambições centrados em si mesmo. É destronar o "eu" do centro da vida e colocar Jesus em seu lugar. Como John Stott e Timothy Keller enfatizam, isso vai contra a cultura de autoafirmação e busca de prazer. Crer em Deus significa deixar de crer em nós mesmos [lembra de Abraão, o pai da fé? Precisou perceber que a promessa de Deus não se realizaria por causa dele ou de sua esposa, mas apesar deles]. É não ter a última palavra sobre a própria vida, mas submeter-se completamente à vontade de Deus.
1.3. Tomar a Sua Cruz:
"...e tome a sua cruz..." Essa imagem era brutalmente clara para os ouvintes do primeiro século. A cruz era um instrumento de execução, vergonha pública e sofrimento agonizante, reservado para os piores criminosos e para aqueles que se rebelavam contra Roma. Tomar a cruz não é meramente carregar provações cotidianas ou doenças. É a disposição de abraçar a vergonha, a humilhação, o sofrimento e, se necessário, a própria morte por causa da fidelidade a Cristo e ao Seu evangelho. É identificar-se com o Messias sofredor. Talvez Pedro tenha repreendido Jesus quanto a necessidade do Cristo morrer, não somente por isso não caber na sua “teologia do Messias”, mas por notar que consequentemente, os seguidores do Messias sofredor teriam essa mesma poeira em seus rostos. O mundo que matará o Messias não baterá palmas para você. John Stott ressalta que essa é uma "mesma nota de necessidade" na cruz de Cristo e na cruz do discípulo. Não é um convite para ser mártir no sentido físico, mas para estar disposto a sê-lo se isso for exigido pela obediência a Cristo.
1.4. Seguir a Jesus:
"...e siga-me." Essa é a ação contínua. Não é uma decisão pontual, mas um estilo de vida de obediência e imitação. Seguir a Jesus significa trilhar o mesmo caminho que Ele trilhou – o caminho do discipulado radical que inclui o sofrimento e a obediência à vontade de Deus, mesmo que custe tudo.
2. O Paradoxo do Reino: Perder para Ganhar (Marcos 8.35-37)
2. O Paradoxo do Reino: Perder para Ganhar (Marcos 8.35-37)
Jesus não faz exigências sem razão. Por favor, não esqueça que o cristianismo não é um convite ao sofrer por sofrer. John Piper vê isso como a porta de entrada para a alegria mais profunda. Aqui Jesus explica a lógica do discipulado sacrificial através de um paradoxo profundo, argumentando que há uma vantagem eterna em segui-Lo em Seus termos.
2.1. O Princípio da Perda para o Ganho (v. 35):
"Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, a salvará." “Salvar a vida" aqui significa apegar-se aos confortos, seguranças e prazeres desta vida, evitando o sofrimento e o sacrifício. É o contrário de tomar a sua cruz. Jesus afirma que quem age assim, paradoxalmente, "perderá" a sua vida – a vida verdadeira e eterna. Por outro lado, quem "perder a sua vida" (ou seja, entregá-la, sacrificá-la, submetê-la a Cristo) por amor a Ele e ao Evangelho, "a salvará" para a eternidade. É uma perspectiva escatológica [de vantagem]. É o caminho da verdadeira vida e da salvação eterna. Timothy Keller explora o paradoxo de que a verdadeira vida só é encontrada quando se abre mão da busca egoísta.
2.2. O Valor Inestimável da Alma (v. 36-37):
"Pois que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma? Ou que daria o homem em troca da sua alma?". Ganhar o mundo é o oposto de tomar a cruz; é a busca por segurança e plenitude em algo que não é Cristo. Jesus coloca o custo-benefício em perspectiva. Implica em estender a vista para além dessa vida e analisar se compensa. Não há nada no mundo – nem mesmo a totalidade das riquezas, poder ou prazeres – que possa compensar a perda da alma. O valor da alma humana é inestimável, eterno.
3. A Seriedade da Fidelidade: Não se Envergonhar de Cristo (Marcos 8.38)
3. A Seriedade da Fidelidade: Não se Envergonhar de Cristo (Marcos 8.38)
A decisão de seguir a Jesus tem implicações escatológicas sérias.
“Porque qualquer que, nesta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos”. “Geração adúltera e pecadora" refere-se à infidelidade e cegueira espiritual e à hostilidade ao plano de Deus. Envergonhar-se de Jesus e de Suas palavras não é apenas um sentimento de timidez, mas uma relutância ativa em se identificar com Ele por medo de humilhação, perseguição ou ostracismo social. John Stott interpreta isso como desprezar Cristo por não querer associar-se a Ele. O Pastor Rômulo relaciona diretamente essa vergonha à recusa de tomar a cruz [perder algo]. John Temos aqui um aviso sério e compassivo: a vergonha futura de Cristo na Sua glória será um contraste gritante com a covardia daqueles que O negaram nesta vida. A fidelidade a Jesus foi um compromisso público e radical - a nossa também deve ser.
4. O Reino Vindo com Poder: A Promessa da Glória (Marcos 9.1)
4. O Reino Vindo com Poder: A Promessa da Glória (Marcos 9.1)
O texto não termina na ameaça, mas com uma promessa de esperança.
"E dizia-lhes: Em verdade vos digo que, dos que aqui estão, alguns há que não provarão a morte até que vejam chegado o Reino de Deus com poder." Este versículo aponta diretamente para a Transfiguração, que ocorre logo em seguida (Marcos 9.2-8), como seu cumprimento imediato. A Transfiguração foi um "lampejo", um "minutinho" (Jonas Madureira) da glória do Reino manifesto, um vislumbre da glória que aguarda o Messias e Seus seguidores fiéis. É uma prova prévia do que está por vir. Para os discípulos, que acabavam de ouvir sobre sofrimento e morte, essa promessa de ver o Reino de Deus "com poder" serve como um profundo encorajamento: o sofrimento não é o fim, mas o caminho para a glória. Pedro observou a predição de Cristo sobre sua morte, mas perdeu a mesma predição sobre sua ressurreição. Agora Cristo deixa claro que os seus discípulos experimentarão sofrimento, mas também a glória do Reino de Deus. O discipulado radical da cruz é o único caminho para a manifestação do poder e da glória do Reino de Deus.
Aplicações
Aplicações
1. Da cruz de Jesus à nossa própria cruz.
1. Da cruz de Jesus à nossa própria cruz.
Jesus mesmo apresenta as duas necessidades: a primeira, de Sua própria Cruz. Ele deveria morrer para o perdão de nossos pecados, cumprindo o plano redentor de Deus (. Como nos ensina Isaías 53.5–6 “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos”). Sua morte na cruz é o fundamento da nossa salvação, o sacrifício vicário que nos reconcilia com Deus.
A segunda é a da nossa cruz. Devemos estar dispostos a morrer para nós mesmos por seguirmos a Jesus. Meus irmãos, a nossa cruz nos identifica com o Redentor. Essas cruzes não estão desconectadas; elas são intrinsecamente ligadas. Gálatas 2.20 afirma: "Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim." Tomar a nossa cruz é participar do sofrimento de Cristo, não para expiação (pois a d'Ele foi suficiente), mas em identificação com Sua morte e ressurreição (Romanos 6.5-8). É abraçar a verdade de que, se morremos com Ele, também viveremos com Ele. Nossa cruz é a resposta de fé e obediência à Sua cruz, um sinal visível de que pertencemos a Ele e estamos dispostos a seguir Seus passos, não importa o custo.
2. Cuidado para não banalizar o “negar-se a si mesmo” e o “tomar a minha cruz”.
2. Cuidado para não banalizar o “negar-se a si mesmo” e o “tomar a minha cruz”.
Negar-se a si mesmo está para além do dizer não para as coisas. Não é se negar a determinadas atitudes pontuais, mas uma percepção absoluta de sua insuficiência [e da soberania de Cristo em sua vida]. É ser governado por Ele. É deixar as desculpas de lado. Não é um tipo mesquinho de autoanulação, mas é encontrar-se verdadeiramente n'Ele. É dizer não para quem você é no pecado e sem Cristo, para a velha natureza que exalta o ego. É abrir mão da ilusão de "ganhar o mundo inteiro". O mundo prega autenticidade e autoafirmação baseadas no eu, mas Cristo prega: "sem mim nada podereis fazer" (João 15.5).
Tomar a sua cruz não é apenas uma provação pessoal incômoda, é ser fiel até o fim, custe o que custar. É estar disposto a morrer para as ambições, confortos e aprovação deste mundo. É estar disposto a ser visto de forma diferente no trabalho ou na sala de aula, a ser considerado uma aberração por seus colegas e familiares por causa de sua fé. É abraçar a possibilidade de ser abandonado ou perseguido por causa de Cristo. Em essência, é abrir mão da sua própria vida por causa de Cristo e do Evangelho (Filipenses 3.7-11; 2 Timóteo 3.12).
3. Ser cristianizado não é o mesmo que se tornar um discípulo de Jesus.
3. Ser cristianizado não é o mesmo que se tornar um discípulo de Jesus.
A advertência de Jesus nos confronta: você pode ter uma agenda conservadora ou uma moralidade impecável, mas se você não negar a si mesmo e tomar a sua cruz, você não é um seguidor de Jesus. Você pode ter uma fina camada de piedade sobre a sua vida, mas se você não negar a si mesmo e tomar a sua cruz, você não é um seguidor de Jesus. Você pode ouvir um evangelho sobre vitória emocional, material ou familiar, mas se você não negar a si mesmo e tomar a sua cruz, você não é um seguidor de Jesus. Você pode experimentar os dons espirituais e ver todo tipo de manifestação do poder de Deus, mas se você não negar a si mesmo e tomar a sua cruz, você não é um seguidor de Jesus.
Como Jesus mesmo disse em Mateus 7.21-23: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus... Então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade." As palavras de Jesus são um forte convite ao autoexame para verificarmos se estamos vivendo uma "cultura cristã" superficial ou se de fato morremos com Cristo na cruz, abraçando o verdadeiro discipulado.
5. Caminhar com Jesus no discipulado é uma marcha tanto para a morte quanto para a vida eterna.
5. Caminhar com Jesus no discipulado é uma marcha tanto para a morte quanto para a vida eterna.
O discipulado não é um passeio agradável ou uma jornada sem desafios. É, portanto, uma marcha tanto para a morte (do eu) quanto para a vida eterna (em Cristo). Não é um passeio, mas um sacrifício vivo, porque não pertencemos a nós mesmos; fomos comprados por alto preço (1Coríntios 6.19-20). Essa "morte" diária do eu, essa negação e o tomar da cruz, são o caminho para a verdadeira vida. Como Romanos 12.1-2 nos exorta: "Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente..." Essa marcha, embora árdua, não é sem esperança. Ela culmina na promessa de Marcos 9.1: "Em verdade vos digo que, dos que aqui estão, alguns há que não provarão a morte até que vejam chegado o Reino de Deus com poder." Essa é a nossa grande consolação e motivação! Queridos irmãos, vale a pena! É o paradoxo de vantagem que Jesus apresenta! O sofrimento presente é passageiro e produz glória eterna (2Coríntios 4.17). A cruz nos leva à coroa de glória (2Tm 4.8,18; 1Pe 5.4). A morte do eu nos leva à vida abundante e à glória de ver o Reino de Deus manifestado em poder. É a certeza da ressurreição e da vida eterna que torna o sacrifício presente não apenas suportável, mas digno e infinitamente recompensador.
SDG
